
Quase todos os dias, pego o metrô carioca, sentido Zona Norte. Quase todos os dias, sigo para o fundo do vagão munida de um caderninho e uma caneta nanquim. Gosto tanto de achar um lugar para sentar… Mas tento não ceder à preguiça. Para desenhar, é bem melhor ficar de pé, apoiando as costas na porta que dá para o outro vagão. Dessa posição posso ver bem pelo menos quatro passageiros à direita e quatro à esquerda. E quase sempre encontro o que procuro: alguém dormindo ou lendo. Não, não é uma tara… Busco um “modelo vivo” que não se importe de ser desenhado. Os adormecidos, claro, não preciso explicar. Desenhando, imagino o que estão a sonhar… Os leitores, no entanto, são os que realmente me fascinam. O que lêem? Que emoções estarão sentindo? Fé, alegria, tédio, ansiedade, esperança? Tantos sentimentos circulam invisíveis à minha frente… O que se passa entre as páginas escritas e a pessoa que as lê?
Homem à esquerda lê papéis de trabalho (assim imaginei) mas com rara expressão de bem-estar. Casal à direita dorme, com um encaixe perfeito, de quem passou a noite namorando… Desenhado na altura da Estação Carioca – a estação dos advogados, dos ternos bem cortados e das mulheres de sapatos de bico fino.
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