“A dor passa, Matisse, mas a beleza fica” disse o idoso Auguste Renoir para o angustiado amigo. O contexto é o final da primeira guerra mundial. A Europa chorava seus mortos e os críticos desprezavam as cores e os temas que Matisse pintava naqueles anos sombrios. Como ele podia encher as telas de tanta vitalidade de tons, mulheres e padronagens enquanto o mundo desabava?
Foi nessa contradição que pensei quando terminei o desenho desse post. Como posso criar uma praia de guarda-sóis alinhados e coloridos com estampas como se estivessem em um desfile de moda? Como?, se nesse mesmo dia morria assassinada a menininha Maria Eduarda, de onze anos, vítima de uma bala “perdida” em sua casa no Irajá, Rio de Janeiro. Diz o aviso no muro: “não existe tiro acidental em bairro nobre”.
Eu devia estar fazendo algo. Não posso pintar em Nice enquanto os soldados morrem de fome nas aldeias do norte. Ou posso?
Arte ou política; ou arte política? Não, não vou propor uma solução messiânica para esse debate (até porque detesto as soluções messiânicas, infelizmente tão populares nas ciências sociais hoje em dia). Vou só contar mais uma história.
A vida de Matisse tem todos os ingredientes da trajetória do herói: No final do século XIX, menino pobre começa a pintar para se distrair enquanto convalesce. Vai para Paris, mas é rejeitado pelo mundo da arte, pelos pais e conterrâneos. Sem recursos, encontra na mulher e na filha o apoio incondicional para lutar por uma busca: o encontro perfeito da cor e da forma. Seu corpo, sua vida pessoal e pública desmoronam enquanto sua obra se afirma, se desafia e se reinventa até o fim. Do pintor, cujos quadros eram alvo de saraivadas de tomates, ao artista que “reinventou a arte no século XX”, como dizem no jargão da crítica.
Em 1900, vivendo num apartamento minúsculo no quinto andar de um prédio decadente em Paris, Matisse gastou o equivalente a metade da sua renda anual para adquirir a pintura Três banhistas, de Cézanne. Décadas mais tarde, quando doou a obra à prefeitura da cidade, escreveu:
“Nos trinta e sete anos que fiquei com esse quadro, vim a conhecê-lo razoavelmente bem, ainda que sem esgotá-lo. Ele me proporcionou apoio moral em momentos críticos de minha trajetória como artista; dele extraí a minha fé e a minha perseverança.”
Nenhuma resposta vai trazer de volta a vida da Maria Eduarda. Mas todos que choram a sua morte vão precisar da arte para suportá-la.
…
Sobre o desenho: Os guarda-sóis são inspirados em fotos de praias portuguesas que venho guardando no meu computador desde 2011. Usei canetas de nanquim Pigma Micron 0.05, aquarela, lápis de cor e ainda as canetinhas coloridas mais maravilhosas do planeta: Staedler triplus fineliner. O objetivo era ilustrar o calendário do mês de janeiro de 2014 em homenagem ao aniversário da minha amiga Mariela, que ama o sol. Depois escaneei a imagem e montei uma versão sem a grade do mês no meu velhinho Photoshop 7, de 2002, que é o que eu sei usar — por si só uma obra de arte do mundo do software.
Sobre Matisse: As citações estão na biografia Matisse, de Hilary Spurling (tradução de Claudio Alves Marcondes, ed. Cosac Naify, 2012). A frase sobre Cézanne está na p. 82 e a citação de Renoir na página 313. A edição traz um caderno de imagens colorido mas muito modesto perto do que é a obra de Matisse. Uma excelente fonte de imagens pode ser encontrada na WikiPaintings. Outro ponto que me irritou neste volume foi descobrir que suprimiram (tanto no Brasil quando na reedição americana) milhares de notas com as fontes e outros detalhes da pesquisa original. Para a versão completa, só comprando no mercado de livros usados nos EUA.

Pingback: Abril/2018, Frágil | Karina Kuschnir
22/01/2015 às 07:02
Você mexeu comigo, fiquei matutando tantas coisas que ultrapassam esse espaço sideral. Obrigado por sua inteligência amável, que é uma qualidade rara.
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28/01/2015 às 20:03
Muito obrigada pelo comentário tão gentil! Seja bem-vindo!
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Pingback: Quem somos nós afinal? | Karina Kuschnir
29/12/2013 às 02:12
Karina,
Uma amigdalite me impediu de sair de casa e curtir o sol aqui na Austrália, mas me possibilitou ler todo o seu blog! Com certeza você já recebeu feedbacks mais ilustres, mas fica registrado um agradecimento: obrigada por compartilhar seu talento por aqui 🙂
Simplesmente a-do-rei os textos e desenhos!
Mal posso esperar para a gente se (re)encontrar em 2014!
Um beijo e feliz ano novo, para você e os filhotes que ainda não conheci.
Isabela
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28/12/2013 às 14:56
O que seria da humanidade sem os artistas?
Lindo, o desenho.
Belo, o texto.
Presente, a humanidade.
Presente de natal.
Ausente, Maria Eduarda.
Crianças não deviam morrer,
Quando acontece o que não devia, “alguma coisa acontece no meu coração…”
Beijo, K!
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27/12/2013 às 11:07
muito legal, mãe
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27/12/2013 às 11:08
obrigada, lindo!
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26/12/2013 às 20:50
Fiquei querendo saber mais de Matisse, de Cezanne e deste blogue que eu demorei tanto a achar, inacreditavelmente. Belíssimo post, Karina, parabéns!
Helê
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27/12/2013 às 11:27
Hele, muito obrigada pela visita! Ainda estou me ajeitando nessa nova empreitada blogueira. Queria escrever mais sobre os livros sim. Saudades das Julices!!
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26/12/2013 às 13:02
KK, assim nos sentiremos bem protegidos sob esses lindos guarda-sóis. Protegidos dos raios do magnífico Sol que derrubou Ícaro em outra exuberante tela de Matisse.
Beijos Natalinos e brilhante Ano Novo para a sua trupe.
Jean e Susy
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27/12/2013 às 11:35
Queridos, que honra receber os olhos de vocês aqui! muito obrigada pelo carinho. Saudades & votos que a gente se veja mais em 2014!!
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26/12/2013 às 12:26
Desenhos maravilhosos e textos saborosos, ou ao contrário?…
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27/12/2013 às 11:49
Obrigada, Eduardo! Nunca vou esquecer o impacto que o Diario de Viagem teve sobre mim quando o descobri na Fnac do Chiado! E que prazer te conhecer pessoalmente em 2011.
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