Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas

Carta a um jovem doutorando

105 Comentários

autoretrato2008p

Rio, 30/5/2014

Querido amigo,

ontem nos encontramos e você estava tão abatido, falando em desespero, Rivotril, caos… Não, eu não pensei que você estava fraco ou incapaz… Ao contrário: te ver me fez voltar no tempo, aos meses que antecederam a minha defesa de doutorado e ao estado em que cheguei naquela época. Quando o pior passa, é fácil a gente esquecer. Mas não esqueci. Vou te contar.

Em primeiro lugar, a culpa não é sua! É do seu orientador, claro. Tem dois tipos, os dois irritantes: aquele que não sai do seu pé, que não pára de cobrar os próximos capítulos ou mandar refazer os anteriores; e aquele que não está nem aí, que não lê nada que você entrega e ainda resolve viajar quando você mais precisa dele.

O meu era do primeiro tipo, e o meu sofrimento começou quando ele resolveu marcar a defesa da tese com seis meses de antecedência. Bem no momento em que eu não via luz no fim do túnel nem o próprio túnel! Aquele prazo (e tudo que ele significava) teve vários efeitos sobre mim.

O primeiro foi o “efeito paralisante”: toda vez que eu sentava para escrever, só conseguia pensar em assistir Friends… Esse é um dos meus sintomas típicos nos momentos de fuga. Passo a adorar coisas que normalmente odeio: comer pipoca cor-de-rosa, ver novela antiga na hora do almoço, inventar uma faxina geral nas tralhas da casa.

O segundo foi o “efeito obsessão-pelas-leituras-que-eu-não-fiz”: você passa a procurar por todos aqueles textos que tem certeza de que xerocou (ou que salvou em PDF). Você se convence de que os rumos da sua tese dependem de algum autor que você não leu, de algum artigo que estava em algum lugar mas você não se lembra.

O terceiro foi o “efeito preciso-organizar-mais-os-meus-dados”. Especialmente quem faz etnografia sofre desse mal (incurável). Primeiro você decide que não pode escrever a tese se não passar todos os diários de campo a limpo, transcrever pessoalmente todas as entrevistas gravadas, organizar todos os documentos e fotos que juntou ao longo dos anos (felizes) em que só fazia pesquisa. Depois resolve classificar tudo em variáveis, em tópicos, em sub-itens, em palavras-chaves, em diagramas e, finalmente, em sumários que vão resumir detalhadamente todo o conteúdo da tese. É isso: sem sumário não dá para começar a escrever!

O quarto foi o “efeito tudo-que-escrevo-é-horrível”. Pode parecer que não, mas a essa altura já sabemos muita coisa! Anos de mestrado e doutorado nos qualificam. Nossos parâmetros sobem; nossa capacidade de reconhecer um bom trabalho aumenta. Sonhamos com os professores mais admirados na nossa banca. Isso tudo forja um crítico interno implacável. Nada do que escrevemos chega aos pés dos nossos modelos.

Pronto: com esses quatro efeitos juntos, temos o “coquetel doutorando-derrotado”, como apelidou meu médico na época. Apesar das suas dezenas de diplomas, ele jurava que nunca ia deixar suas filhas fazerem doutorado (mas elas fizeram!), de tanto tratar de doutorandos doentes. Ele nos compreendia muito bem, porque era filho de mãe judia, daquela que só se satisfaz quando o filho ganha dois prêmios Nobel e em áreas diferentes!

Por sorte, esse médico olhava para mim e não para os meus exames. Ele se recusou a dizer que eu estava deprimida. Eu estava com sintomas-de-tese-de-doutorado-quase-atrasada: perda de peso, desânimo, palpitações, dor no corpo, torcicolo, insônia, tendinite… Receita: pegar sol, andar 20 minutos todos os dias, tomar vitaminas, comer bem e mandar o orientador adiar a defesa. E, como não sou de ferro, receitinha azul com um calmante leve para os momentos de desespero.

Claro que meus problemas não desapareceram — afinal, a tese continuava lá, por escrever — mas melhorei muito! Foi fundamental adiar o prazo e conversar com meu orientador sobre como eu estava me sentindo (orgulhosa, até então, quando encontrava com ele, insistia em dizer que estava “tudo bem”).

Te conto esses percalços não para me fazer de coitadinha, mas para te acolher e te mostrar que quase todos nós passamos por isso. Meu maravilhoso amigo Luis Rodolfo Vilhena, uma das pessoas mais brilhantes que já conheci, passou por várias dessas fases, adiou em um ano a defesa, e no final fez um trabalho primoroso. E também temos a companhia de intelectuais ilustres, como o Norbert Elias. Coloquei esse trecho da sua autobiografia ao lado do meu computador, para ler todos os dias de manhã:

“No que diz respeito à pesquisa, dispunha apenas de minha tese de doutorado para provar minha capacidade. E ela representava um trabalho duro. Tinha confiança em minhas capacidades intelectuais, e ideias não me faltavam. Mas o imenso trabalho intelectual que minha tese exigiu me parecera dificílimo. Só bem mais tarde fui pouco a pouco compreendendo que noventa por cento dos jovens encontram dificuldade ao redigir seu primeiro trabalho importante de pesquisa; e, às vezes, acontece o mesmo com o segundo, o terceiro ou o décimo, quando se consegue chegar aí. Teria agradecido se alguém me dissesse isso na época. Evidentemente pensamos: ‘Sou o único a ter tais dificuldades para escrever uma tese (ou outra coisa); para todos os outros, isso se dá mais facilmente’. Mas ninguém disse nada. É por isso que digo isso aqui. Essas dificuldades são absolutamente normais.” (Norbert Elias Por Ele Mesmo)

Bem, esta carta já está ficando muito longa… Prometo que na próxima escrevo coisas mais úteis (e práticas).

Para terminar, te lembro que só há uma fórmula mágica — irritante — para escrever tese ou qualquer outro texto: uma palavrinha de cada vez.

bjs — força aí.

K

Sobre o desenho: Auto-retrato feito em 2008, com uma técnica que se costuma chamar de “desenho cego”: você olha para o que vai desenhar (nesse caso, um espelho), mas não olha em nenhum momento para o papel onde está desenhando. Achei que era uma boa metáfora desse processo de escrever tese. A gente vê o caminho, mas não consegue ver o resultado. E tudo bem. Depois é só revisar!

Você acabou de ler “Carta a um jovem doutorando“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2014. “Carta a um jovem doutorando”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url “http://wp.me/p42zgF-7X“. Acesso em [dd/mm/aaaa].

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Autor: karinakuschnir

artista & antropóloga

105 pensamentos sobre “Carta a um jovem doutorando

  1. Avatar de VIVIANE DE SOUZA

    Oi, professora Karina, nunca vou esquecer da nossa conversa no bandejão do IFCS, em 2019, perto de terminar a licenciatura. Eu insistia que não continuaria na academia, porque não era para mim, e você insistia que eu deveria permanecer, fazer mestrado…Confesso que confiei mais em você do que em mim. Hoje permaneço na academia e agora no doutorado. Essa carta reforça o quanto os sentimentos de insegurança e incapacidade estão a nos rondar e é preciso acreditar e escrever uma palavra de cada vez. Como disse Gloria Anzaldua ” Escrevo porque tenho medo de escrever, mas tenho um medo maior, que é o de não escrever”
    Obrigada novamente por suas palavras!

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  2. Avatar de Beele

    Nossa professora, sou da area de exatas e estou passando por essas mesmas fases. Eu tenho um orientador tipo 2 (passa meses pra responder mensagem e não responde kkkkk) e um coorientador tipo 1 (com uma dose de loucura). Meu coorientador é tão louco e apressado que faz a tese por mim (antiético eu sei), e posso dizer é terrível, você perde autonomia, se sente num buraco 10x pior que o normal e se sente um lixo como pesquisadora, colocaram por diversos motivos que não a pesquisa, nem muito menos a qualidade dela, apenas 1 ano para a tese ficar pronta, sendo que o normal são 2. Eu estou quase desistindo, estou sim deprimida, não consigo fazer nem uma linha da tese, muito paralisada. Mas volto daqui a 6 meses pra dizer se deu certo, to vendo que tem tudo para dar errado kkkkk.

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    • Avatar de karinakuschnir

      Puxa querida, sinto muito! Pois é, não sei o que é pior: orientador ausente ou sufocante. Vem ganhar um abraço no nosso grupo do telegram! Chama Abraço Acadêmico et al. Só me chamar lá. Tem muita gente amiga no grupo pra te dar apoio nessa reta “quase final”. 🫂🫂🫂

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  3. Avatar de Bruna

    Muito obrigada por publicar esta carta ❤ estou surtando há mais de ano com meus resultados ruins, mas agora a defesa já está marcada e eu resolvi apresentar o que tenho, só espero não chorar no dia depois de ser massacrada kkk ler relatos como o seu ajudam a não me sentir sozinha nem tão perdida. Novamente, obrigada.

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    • Avatar de karinakuschnir

      Querida Bruna, como foi sua defesa? Espero que tenha sido uma ótima experiência! 💌

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      • Avatar de Bruna

        Olá, Karina! A defesa foi mais tranquila do que eu esperava: tocaram na ferida, mas não houve massacre haha. Ainda me sinto frustrada por não ter feito uma tese muito boa, mas me contentei com a “razoável” e com o fato de ter me livrado da loucura da pós-graduação.

        Obrigada pela mensagem! =)

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      • Avatar de karinakuschnir

        Que legal ter notícias! É isso: defesa costuma ser bem melhor do que a gente imagina. E concluir um projeto desse tamanho é bom demais!! Parabéns! Curta muito 🥳🥳

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  4. Avatar de Danusa

    Amo seus textos! Me ajudou imensamente na fase da escrita do mestrado em meio à pandemia e também agora no doutorado. Obrigada e continue, por favor! Um abraço.

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  6. Avatar de Beatriz de Sá Cavalcanate

    Lindo texto de acolhida! Obrigada.

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  7. Avatar de CLECI ELISA ALBIERO

    Passei por estas fases várias vezes!! A tese é algo inacreditável. Depois que finalizar, acho que terei muitas histórias para contar. Aos que estão iniciando seu mestrado e doutorado, desejo muita coragem e resiliência. Obrigada professora, seu texto realmente retrata a vida como ela é. Bj

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  8. Avatar de Rafael Pimentel

    Gratidão pelo texto! Meu orientador é maravilhoso, acho que o meu sofrimento de tese-de-doutorado é por ter criado um crítico julgador interno exigente e ansioso ao extremo, ele acha que por estudar em uma Universidade renomada tem que descobrir a roda :/

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  10. Avatar de Rudá

    Simples e verdadeiro. Obrigado!!!!

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  11. Avatar de Luana Vitoriano

    Incrível! Obrigada!

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  12. Avatar de chenrique27

    Orbigado pela carta K!
    Bjo grande

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  13. Avatar de Nágila Oenning

    Professora, parece que você está aqui do meu lado, conversando comigo. Estou aqui enviando o pdf para a banca e nestes últimos 6 meses tenho tido exatamente este quadro dos 4 sintomas de-tese-de-doutorado-quase-atrasada. Obrigada por acalmar uma doutoranda.

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  14. Avatar de Maria Fernanda Pereira

    Que incrível esse blog! Obrigada!

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  18. Avatar de Neusa Dendena Kleinubing

    olá… gostaria de expressar minha gratidão pelas suas palavras acalentadoras e sensíveis.. são como brisa em tempo quente!

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  19. Avatar de Larissa Rodrigues Paes

    Boa noite,

    Um texto que acalenta. Gratidão!!!

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  20. Avatar de luana

    Oi, Karina!! Encontrei seu blog hoje e já me vi representada em vários textos seus!
    Obrigada pelo empenho em publicar e especialmente pelos desenhos adoráveis. bjs!

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  22. Avatar de mari

    vez outra eu venho aqui ler seu blog, e sempre acabo voltando pra essa carta. Obrigada por isso (ps. minha orientadora é maravilhosa, o sofrimento é um tiquinho menor, ao menos rs)

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