
“O tolo pensa que é inteligente, mas o homem inteligente sabe que é tolo.” (Shakespeare*)
Há alguns anos vi num filme uma cena que me tocou: uma família reunida para jantar começa um jogo. Cada um deve falar o que aconteceu de pior e de melhor no seu dia. Adotei a brincadeira aqui em casa com as crianças; e aos poucos fomos criando nossa própria forma de jogar.
Primeiro, fazemos uma rodada com o “pior do dia” de cada um. Adotamos o princípio de nunca usar uma situação entre nós como a pior coisa. É uma auto-censura amigável que acabou preservando o momento do jogo.
Em seguida, fazemos uma nova rodada onde cada um fala sobre o que foi o “melhor do seu dia”. Logo nas primeiras semanas percebemos que não valia dizer que o “melhor do seu dia” estava sendo o momento do jogo. Já estava perdendo a graça ouvir o mesmo “melhor do dia” todos os dias! Mas isso só confirmava a delícia de ter esse momento de jogar/conversar.
Com o tempo, surgiram outras regrinhas. Resolvemos que não vale falar algo abstrato, como “fiquei triste” ou “o dia foi animado”. E também não valem os desastres do mundo lá fora. Queremos ouvir: o que aconteceu que te fez desanimar ou se alegrar? Em que situação, com quem? E cada um dá os detalhes que quiser ou puder.
Quando estamos empolgados, fazemos uma rodada extra de escolher quem teve o “pior pior do dia” e quem teve o “melhor melhor do dia”. Daí criamos compensações para o mais sofrido ou festejamos o mais feliz.
Em algum momento, resolvemos que não vale “não ter um pior” ou “não ter um melhor”. Isso gera coisas engraçadas como o “pior do dia” ser só um garfo que caiu no chão. Mas gera também um esforço para encontrar uma pontinha de alegria naquele dia em que a alma está nublada (o melhor desse dia pode ser “eu apertei o gato Charlie”. Esse é um velho truque nosso para ter sempre uma coisa boa no dia ruim. Revezamos os gatos, mas o Charlie é imbatível como a melhor fonte de conforto da casa.)
A Alice também inventou de fazer algumas rodadas com perguntas diferentes, como: “Qual foi a coisa mais engraçada do seu dia?” ou “qual foi a mais estranha?” e assim por diante. E adoramos quando temos visitas para participar. Uma vez, na nossa fase sem-casa, convidamos uma amiga da vovó para a conversa. Ela estranhou muito ser chamada a “falar”! Mas foi tão bonito, porque o pior do dia dela tinha sido fazer um “molho que deu errado” e o melhor foi o “bolo de cenoura da Jô” que trouxemos de presente! Tudo girou em torno das comidas, e pudemos conhecê-la mais de perto. (Ah, e o bolo de cenoura da Jô é sempre o melhor do dia de quem prova!)
…
Uma das supresas dessa brincadeira é ver que frequentemente o pior e o melhor do dia são parte da mesma situação. Como em: “O pior do meu dia foi brigar com a minha amiga”; e o melhor foi “fazer as pazes com a minha amiga”. Ou em: “o pior do dia foi ter que escrever um trabalho longo”; e o melhor do dia foi “ter terminado o trabalho longo!”. Ou “o pior do dia foi ficar muito tempo na internet” e “o melhor do dia foi um poema que li na internet na timeline do Carlito Azevedo”.
Se machucar/se curar; chorar/ser consolado; ter preguiça/se levantar; sofrer/melhorar; viver algo difícil/superar. Parece que esses contrastes andam mais juntos do que a gente pensa.
E o melhor de falar-confiar-ouvir é a imensa intimidade que surge entre a gente, devagarinho, sem pressão, com choro e com risada.
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E já que estamos falando de intimidade, e as crianças hoje não estão aqui comigo para jogar, aí vai o meu pior e o meu melhor do dia:
O pior — Saber que pessoas muito queridas estão sofrendo. E pra elas eu cito “E nem tente levar em seus ombros a sua sorte: não queira carregar os seus sofrimentos sozinha, deixando-me de fora. Por este céu, que agora empalideceu diante da nossa dor, me diz o que tu queres e eu vou estar ao teu lado.” (Shakespeare**)
O melhor — Como diz a Alice, foram dois “melhores”, então vou ter que roubar hoje. O primeiro foi ouvir as apresentações dos alunos sobre as suas etnografias na nossa última aula antes do recesso de final de ano! O segundo é estar aqui escrevendo esse 100º post! Mas o momento do jogo não vale, né? 😉
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Sobre as citações: A epígrafe é uma fala do personagem Touchstone (o bobo-da-corte) da peça Como gostais, de Shakespeare, na tradução de Millor Fernandes, para a edição de bolso da LP&M. A segunda citação é da personagem Celia, amiga da mocinha Rosalinda, da mesma obra. Adoro essa peça! Não citei muito porque fica difícil entender as falas sem os contextos.
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Sobre o desenho: Semana passada, relendo um texto do antropólogo Edmund Leach, percebi uma frase que nunca tinha me chamado atenção antes. Ao falar das variedades do comportamento humano, ele diz: “são como as cores do arco-íris; as aparências são enganadoras; quando se olha de perto para a imagem, as descontinuidades desaparecem”. E essa metáfora das cores-sem-fronteiras ficará gravada para sempre na minha memória! Queria ter feito uma ilustração especial para o post, mas essa já estava no caderninho pronta. Fiz os contornos com canetinha Unipin 0.05 e as cores são das variadas aquarelas que tenho na minha paleta atual. (A frase do Leach está no livro A diversidade na antropologia, das Edições 70, de Lisboa.)
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11/10/2024 às 11:18
Como te ler me faz bem, Karina! Acho que esse foi o melhor do meu dia! Obrigada sempre!! Bj no coraçã!
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11/10/2024 às 11:24
🥹🥹🥹 obrigada querida. Muitas saudades de vocês e cada leitora tem um lugarzinho especial no meu coração tb 🥰
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14/07/2017 às 18:27
Adorei, não apenas a ideia, mas o fato de vocês praticarem!
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10/12/2016 às 21:47
Adorei seu blog! Essa mistura de cotidiano, arte/poesia e (angustias da) vida academia caíram em mim como uma luva.
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12/01/2017 às 16:17
Muito obrigada Gabriela! Seja sempre bem-vinda! ☺
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21/12/2015 às 20:51
Que ideia genial! Mil beijos Yvonne
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19/12/2015 às 15:39
Sorte nossa você ter criado este blog, Kau. É realente inspirador, conforta-dor.
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18/12/2015 às 12:41
Muto, muito legal…vou tentar fazer em casa com minhas filhas!!! Um 2016 bem colorido e repleto de histórias fascinantes e confortadoras para vocêm sua família e seus alunos Karina!!!
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18/12/2015 às 11:47
Muito bom !!! Bjs
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18/12/2015 às 10:20
?Oi Karina,
Adorei a brincadeira, vou tentar inseri-la quando estiver com meus netos, mas estar com eles já é sempre o melhor do dia, rsrsrsrs.
Mas hoje o melhor foi receber e ler o seu post e o pior foi não poder provar o bolo de cenoura da Jô, fiquei só com a curiosidade.
Bjos para vc, Antonio e Alice.
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18/12/2015 às 08:54
Karina, bom demais poder ler tuas histórias pelo menos uma vez por semana e me sentir um pouquinho mais perto. Que venham mais 100! Beijo
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18/12/2015 às 08:53
Acho que direi como disse Rejan em seu comentário… O melhor do meu dia está sendo ler este post. Quero crer que outros melhores virão no meu dia, mas este ficará entre os top 5. Tenho um outro melhor: saber que este específico post é o de número 100! Muitos parabéns, Kau!
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18/12/2015 às 08:16
Karina querida, acho que com a leitura do teu texto já posso encarar como sendo o melhor do dia. Ou seria da semana? Pode, pelas regras do jogo? Afetuoso abraço e que em 2016 todas as cores e luzes permeiem teus dias e de tua família. Afetuoso abraço, Rejan e Cia.
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18/12/2015 às 07:11
Demais, Kau, adorei!!!
Lá no sítio, fazemos uma brincadeira que é contar uma história que pode ser verdadeira ou falsa. Depois todos na roda votam se aquela história é ou não uma mentira. O legal é que isso é um motivo para desencavar histórias loucas que aconteceram na sua vida ou inventar coisas incríveis. Beijão, Duda
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