Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas

Tem uma esperança ali

13 Comentários

verdespy_m

“Aqui em casa pousou uma esperança.” (Clarice Lispector)

Já fiz 35 sessões de fisioterapia no ombro esse ano, o que significa ficar conectada em maquininhas com nomes de ficção científica: microondas, laser, ultrassom, corrente galvânica. Os fisioterapeutas apertam botões, colocam fios ou, no máximo, deslizam as ferramentas sobre o local afetado. Na sala de espera cheia, todos parecem conformados e até um pouquinho felizes, já que é o plano de saúde que paga.

Há duas semanas, me puseram pela primeira vez na “GAL”, apelido de corrente galvânica. Segundo me explicaram, faz um aquecimento tão profundo que “você não sente nada”. São vinte minutos da pessoa espremida numa cadeira pequena, com o ombro cheio de fita crepe, sentindo nada. Nada. Quando vem um pequeno choque, e você pensa “que bom, vou melhorar”, logo apertam um botão e tudo volta ao zero. Eu costumava ler, mas não dá nem para segurar um livro sem acotovelar a vizinha. As pessoas com dores são muitas.

Como diz o povo, “cabeça vazia, oficina do diabo”. Olhei pro lado. Logo à minha esquerda havia uma sala, mais reservada, onde os doentes estavam recebendo massagens. Massagens de verdade, com mãos humanas, óleos, cremes! Por que eu estava condenada àqueles fios? A inveja é horrível.

Essa semana, porém, o fisioterapeuta-chefe me disse: você vai para a “Cinesio”! Opa, Cinesioterapia? Será o paraíso-das-massagens?

No dia seguinte, chego às 7:45 da manhã, pronta pro sonho. Chamam meu nome e me indicam uma maca: “pode deitar”. Mal comecei e o fisioterapeuta me corrigiu: “é de barriga para cima”. Puxa… Pelo menos estou deitada. Já é um progresso depois de 33 dias em cadeiras duras. Ele manda eu levantar o braço até onde sinto dor, nas três direções. Depois aperta, puxa, sacode um pouquinho, solta. Repete. Manda eu mexer de novo. Repete. Fim. Duas macas à minha direita, uma senhora geme de prazer com os apertos nas costas; à esquerda, mais outra.

Já sem esperanças de massagem ou cura, puxo conversa com o fisioterapeuta que ama samba. Pergunto se na faculdade ensinam a lidar com as reclamações dos pacientes:

— Como vocês mantêm o espírito tão positivo em meio a tanta dor?

— A gente sabe que o mal-estar é passageiro; que a pessoa vai ficar bem.

— Quer dizer que você acredita que todo mundo vai melhorar?

— Sim. Quase sempre, sim. Mas a pessoa tem que acreditar também.

Como disse um amiga ontem: “tem uma esperança ali”. Ela falava sobre tudo que há de bom na universidade: ensino, relações positivas com os alunos, nossos amados livros, debates, aprendizados, trocas…

Talvez nesse ambiente possamos todos aprender com o fisioterapeuta simpático: bora acreditar, cuidar e curar. ♥

Sobre a citação: A epígrafe de Clarice Lispector é do conto “Uma esperança“. Os diários da semana passada me lembraram das leituras de escola.

Infinitas coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-ou-dignas-de-esperança:
Não tenho colocado muitos links aqui no blog para não sobrecarregar vocês de informação, mas acho que esses valem a pena:

* Google Arts and Culture – Já conhecem? É uma página de arte e cultura que mostra conjuntos temáticos de imagens, textos e filmes, além de apresentar os Museus e Instituições culturais que permitem uma visita interna, tipo “Google street view” só que por dentro de um prédio de exposições. A pesquisa pode ser por palavra chave ou simplesmente por tipo de material (por exemplo, tecido), cor, suporte, técnica etc. Tudo isso sem anúncios! Essa página tem sido minha navegação preferida, ao invés das redes sociais. Há conteúdo em português também. Algumas sugestões para vocês:

* No mundo da miçanga – exposição do Museu do Índio, organizada por Els Lagrou e Marco Antônio Gonçalves.

* Panos e tapas – um fantástico conjunto dentro do Museu Afro Brasil

* Mulheres na Índia – histórias e imagens incríveis, com dezenas de links, como este.

* As aparências enganam – sobre o guarda-roupa de Frida Khalo, do Museu Frida Khalo.

* Civil Rights Photography e muitas histórias maravilhosas no tema Black History.

Sobre a imagem que abre o post: Verdes de aquarela, todos partindo de um amarelo da Schmincke que ganhei de brinde (por isso não sei exatamente qual é o nome), misturado com todos os azuis da minha paleta. Feitos no verso de um bloco de papel Canson XL Mix Media (de espiral e capa azul marinho).

Desculpem a demora pelo post da semana. Graças à Net, fiquei com uma internet intermitente (perto de zero) por vários dias essa semana…

Você acabou de ler “Tem uma esperança ali“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Tem uma esperança ali”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3E7. Acesso em [dd/mm/aaaa].

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Autor: karinakuschnir

artista & antropóloga

13 pensamentos sobre “Tem uma esperança ali

  1. Avatar de Rose

    Texto leve maravilhoso!Todos nós devemos ter uma “perspectiva de fisioterapeuta” o mal estar é passageiro, uma hora as coisas melhoram!!! Bjs

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  2. Avatar de dudaferraz

    Adorei essa história e me identifiquei totalmente! Tá muito engraçada! Aquelas maquininhas que parecem não fazer efeito nenhum. Acho uma engambelação. O que melhorou minhas dores nos ombros foi fazer pilates. Vc já fez? Vale a pena tentar… Beijos!

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    • Avatar de karinakuschnir

      hahahah pois é, Duda!! também não sei se adiantam… Agora que “evoluí” pra Cinesio não volto mais para as máquinas rs. Antes de entrar em alguma atividade de rotina, preciso curar esse ombro, pelo menos a parte mais crítica. obrigada pelo carinho ♥ saudades!!!

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  3. Avatar de Mario Rique Fernandes

    Olá querida, você já ouviu falar na técnica de Alexander? Se não, vale a muito a pena dar uma pesquisada. É uma técnica simples e revolucionária de reaprendizagem do uso do corpo que ao longo dos últimos cem anos já transformou a vida (para melhor) de milhares de pessoas em vários países. Aqui no Brasil é pouco conhecida, mas existem escolas e professores. O único porém dela é que depende da determinação/motivação da pessoa em (des)aprender e se reeducar. Mas depois que os princípios são aprendidos internalizados, seja com a ajuda de professores/profissionais, seja por conta própria (que é o meu caso que moro numa cidade do interior do Amazonas) é como aprender a voar. E bye bye dores nos ombros, salas de espera e máquinas estrombolicas.

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    • Avatar de karinakuschnir

      oi Mario, sim!!! Acredita que fiz Alexander por 5 anos? um dos meus grandes amigos é professor da técnica. Quando essa crise passar , talvez dê pra voltar… Obrigada pelo comentário tão gentil.

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  4. Avatar de Célia M. C. Gonçalves Loch

    Quanta sensibilidade! A sua, que escreve sobre o que vive. A dos que cuidam com carinho e esperança! Amei! Eu a sigo, sempre! Obrigada. Beijos. Célia Loch

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  5. Pingback: A esperança é um caminho longo. Paciência, então… – Blog da Márcia Siqueira – Geografia da Vida

  6. Avatar de Teresa Ogando

    Sempre maravilhosas estas suas partilhas! Já vi e já guardei para ver com mais atenção.
    Quanto ao seu ombro, desejo-lhe as melhoras. E acredite: vai melhorar. Por causa de um dedo (!!!!) que estava dobrado, fiz há uns anos, um mês de fisioterapia (um mês por causa de um dedo!!!) mas, nunca mais tive nada!
    Um abraço e bom fim de semana.

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