Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Artista, bicho, jardim

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“O artista é um bicho assim: a dor dá cor ao seu jardim…” (Juva Batella, em Do gato Ulisses as sete histórias, p.38)

Pela coragem de atravessar a cidade, pela paciência de encarar a fila, pelos sorrisos, pelos abraços, pelas flores, pelos carinhos, pelos compartilhamentos, pelas mensagens dos que não puderam ir, e pelos quase 150 Ulisses que vocês levaram para passear… muito obrigada!

Queria escrever sobre os livros que estou lendo, mas não terminei nenhum dos dois ainda… Também estou em crise de decidir o que quero desenhar, mas tanto os diários da Margaret Mee quanto as cartas do Van Gogh me levam em direção às plantas. Na falta de um jardim de verdade, fui para um imaginado (acima) e para um pequeno parque perto de casa (abaixo).

Sempre leio que o artista cria a partir das suas “referências de infância”. Tipo José Lins do Rego escrevendo sobre a vida no sítio do pai — história aliás lindamente transformada no livro “O menino que virou escritor” de Ana Maria Machado (ilustrada por Ciro Fernandes, ed. José Olympio).

Mas menina urbana tem lá referência?

Pensa daqui, pensa dali, chego à conclusão de que tenho umas memórias de coisa verde sim. As plantas da escola onde estudei até os 12 anos ocupavam a nossa falta-do-que-fazer nos anos 1970. Na hora do recreio, uma das minhas atividades preferidas era arrancar essa florzinha vermelha do pé, despetalar e sugar o miolo! É uma eca, eu sei… mas não tinha celular nem mp3 naquele tempo. E o ser humano gosta de fazer besteira.

hibiscos

Uma coisa divertida dessa busca pelo jardim perdido é usar o Google para descobrir o nome das plantas. Essa aí de cima é uma “Malvaviscus arboreus”, também chamada de hibisco-colibri pelos especialistas (porque não acredito em “nome popular” de planta).

* 7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:
* Uma amiga leu o post sobre os 3 Ps (paixão, paciência e prática) e me mandou de presente a linda ideia dos três Cs: Coragem, Coração e Consciência!

* Apesar da resistência, reli com a Alice “Os bichos que eu tive”, da Sylvia Orthof, e ela teve que admitir que achou muito engraçado.

* Um tio-cunhado leu o post sobre as críticas e me mandou de presente a história de quando ele entrou para a família. Depois de se hospedar na casa da minha tia-avó, ele ouviu-a ligar sorrateiramente para a futura sogra: — “Dida, tu sabes que ele tomou banho e deixou tudo impecável, como se o banheiro não tivesse sido usado!”

* A Cora Rónai fez uma foto incrível e escreveu um perfil muito simpático de um dos meus heróis no Rio de Janeiro: o Tony, que resgata, protege e doa animais abandonados, com a ajuda da Marluce, sua companheira.

* Participei a convite da Daniela Manica e da Marina Nucci de uma roda de conversa emocionante no IFCS com alunos e funcionários, sobre gênero, corpo e trabalho. Foi um momento marcante nesses quase dez anos de UFRJ, que me lembrou o amor por tudo que aprendi na escola das Amigas do Peito.

* Achei por acaso (e comprei por um preço ótimo!) o lindíssimo livro “Usos e circulação de plantas no Brasil”, organizado pela Lorelai Kury (ed. Andrea Jakobson).

* Três crianças disseram que leram de uma vez e adoraram o nosso “Do gato Ulisses as sete histórias”!

* Sobre os desenhos: Desenhos feitos no caderninho Laloran com aquarelas Winsor & Newton e lápis de cor Carand’Ache aquarelável. No primeiro, o jardim foi de imaginação, exceto pelo passarinho inspirado numa imagem do livro-fofo The Summer Book, da Susan Branch, que ganhei de presente há seculos da Dri. A frase à direita é de uma das cartas de Van Gogh para seu irmão Theo. Para o segundo desenho, colhi algumas flores de verdade caídas no chão, já bem murchas, coitadas, pois não tive coragem de arrancar do pé onde um beija-florzinho tomava seu café-da-manhã.


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Faz logo o meu autógrafo!

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Alice, ontem à noite: — Mãe,  me dá o livro. Vou ler. Não posso chegar no lançamento sem ter lido né? ?

Eu: — Ok, filha, claro, tá aqui.

Alice, na página 42: — Mãe, adorei o Gatovsky. Ele é bem legal. Estão querendo comprar ele. Mas porque o Juva usa aspas ao invés de travessão?

Eu: — Os dois são certos… Ele preferiu aspas por causa das rimas.

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Alice, aos prantos, invade meu quarto: — Mãe!!! A Babi morreu… a Babi morreu…

Eu, tentando consolá-la: — Eu sei, filha… Mas, pensa bem, agora a Babizinha que você tanto ama está para sempre no livro…

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Alice, ao terminar: — Mãe, adorei!

Eu: — Que bom, querida!! De qual parte você mais gostou?

Alice: — De quando o Ulisses conheceu a Penélope!

Eu: — Esse também é meu capítulo preferido, filha!

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Alice: — Gostei do livro, é bem legal. E é melhor do que “Os bichos que eu tive”, da Sylvia Orthof. [Implicando, porque ela sabe que eu amo esse livro.]

Eu: — Ai, filha, não fala isso! Eu adoro o livro do Ulisses, mas a Sylvia é imbatível!

Alice: — Mãe, pára de ser velha. Os desenhos dos bichos desse livro [da Sylvia] são horríveis. E faz logo o meu autógrafo!

[E mais não falei; porque os desenhos do Gê Orthof são maravilhosos… É só a minha filha sendo filha… heart]

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Sobre os desenhos: Fiz a imagem que abre o post a partir de uma foto da Alice que tirei ontem mesmo. Desenhei com canetinha 0.05 e fiz umas aguadas de aquarela sobre papel A4 comum. O gatinho é o Charlie, que toda a noite faz companhia para a Alice ler. Depois de pronto, fui no Photoshop e encaixei no desenho uma imagem escaneada da capa do livro! Todas as outras imagens são ilustrações do livro novo. Abaixo, mostro pra vocês algumas ideias que tive antes de resolver qual seria o tipo de ilustração final — e isso levou mais de um ano!

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Sobre o livro: O lançamento é quinta-feira, 11/junho, na livraria Argumento, a partir das 19h. Para quem não puder ir ou estiver fora do Rio, todas as informações estão no site da editora Vieira & Lent. Na semana passada, esqueci de publicar pelo menos um pequeno trecho da quarta capa:

“Ulisses viajou o mundo inteiro, um mundo de aventura, um mundo de cheiro. Foi bailarino, músico e marinheiro; foi artista de rua e gato em cativeiro. Também se apaixonou, e o nome dela é bonito. A fera se chama Penélope — como no mito.

Viaje com este gato, ao longo de sua estrada. Vamos repensar a vida, esta grande, grande charada.”

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O gato que virou livro

junho2015

Imaginem uma família crítica, agora multipliquem e elevem ao quadrado… É mais ou menos de onde eu vim. A tia mais fofinha era do tipo que olhava seus dentes antes de te dar bom dia. A avó pegava no colo e contava histórias, mas ai se você estivesse mais gorda. A redação da escola vinha com nota dez, ufa, parabéns; mas o filho da fulana escreveu uma com 60 linhas — quantas linhas tinha a sua mesmo?

A pessoa não sai ilesa vivendo 20 anos nessa espécie de bancada-Roda-Viva constante. Vira crítica também; ao cubo, três vezes. Isso não garante que vai ser boa em alguma coisa, mas até que favorece a profissão acadêmica… Adquire-se uma imaginação infinita para antecipar críticas.

Agora, joguem essa pessoa no mundo da arte? Ferrou. Num universo de parâmetros tão subjetivos, de mestres tão obsessivos, de imagens tão encantadoras… Como a pessoa pode se achar no direito de bater à porta? Não, de jeito nenhum. Me deixem aqui no meu cantinho rabiscando no caderno, que é melhor. Assim eu pensava.

Mas uma rede de amigos e até muitos da família (!) me empurraram porta adentro… Manoel, Nathalia, Arthur, Manya, Mário, Gilberto, Eduardo S., Clau, Bel, Mari, Ale, Robs, Joana, Malu, Sofia, Susi, Andrea, Hanny, Dady, Ronald, Elisa, Celina, Antônio, Alice, Vera, Cilene e, claro, o Juva, que escreveu, esperou, ouviu, aturou, incentivou, acolheu, elogiou, amou… Taí a coragem que vocês me ajudaram a ter! Meus agradecimentos infinitos também para os leitores desse blog, e aos amigos do Facebook, por tantas gentilezas, incentivos e apoios, principalmente em 2014, um dos anos mais difíceis da minha vida.

E um pote de sachê para o Charlie, a Lola e o Ulisses, meus gatos amados que aceitaram virar livro-de-verdade! (E não levem atum, porque a Lola é membro dos Atumhólicos Anônimos.)

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Se estiverem fora do Rio, podem pedir online na Vieira & Lent !


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Um projeto todo seu

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“…se tivermos o hábito da liberdade e a coragem de escrever exatamente o que pensamos… (…) Trabalhar assim, mesmo na pobreza e na obscuridade, vale a pena.” (Virginia Woolf, Um teto todo seu)

Para milhares de pessoas, maio não é o mês do outono, dos taurinos, da crise… é o auge da temporada da série Preciso-Escrever-Meu-Projeto-de-Doutorado-Perfeito. Na maioria das áreas de ciências humanas, está todo mundo tentando finalizar um projeto estruturado, redondo, consistente, se-deus-quiser-aprovado-com-bolsa!

Como não tenho como ajudar a todos que me procuram, resolvi contar aqui algumas experiências nesse front. São episódios que me ajudaram (e ainda ajudam) a pensar o que é realmente essencial para criar um projeto.

* Paixão — Imaginem que logo nos primeiros meses da minha vida acadêmica descobri que a escolha de um tema de pesquisa era um caso de vida ou morte. Ok, não exatamente morte-morrida, mas aquela morte social básica, em que você é banido, ie, morre para o mundo, como nos ensinaram o Elias, o Dumont, o Geertz e tantos outros. Pois lá estava eu no final do primeiro ano de mestrado, já “escolhida” pelo orientador, mas sem tema de pesquisa. (Sim, bons tempos… nem falem.)

Pensa daqui, pensa dali, resolvi que queria ser útil para a sociedade estudando os parlamentares municipais (um tema bem estranho na antropologia da época, que surgiu do meu trabalho de jornalista). Ao saber da minha escolha, o Gilberto (Velho) reagiu horrorizado. Fez uma cara de nojo e disse que não, não poderia me orientar de jeito nenhum! Senti o sangue descendo, o coração parando, o exílio chegando. Mas, para minha surpresa, consegui murmurar: “– Que pena. Vou ter que procurar outro orientador.” 

É verdade, tenho testemunha. Uma amiga estava pelos corredores do Museu e me amparou. Graças à nossa conversa, me dei conta de que estava no caminho certo: eu tinha um projeto em que acreditava, e estava até pronta para “morrer” por ele. E não é que, no dia seguinte, o Gilberto me ligou dizendo que ia me “aceitar” de volta, com parlamentares e tudo? Lamentava que eu não desse continuidade à pesquisa que ele tinha pensado… E eu precisava entender que ele tinha aversão a surpresas etc. Mas, cá entre nós, acredito que o projeto se salvou mesmo pela paixão com que me dispus a defendê-lo.

* Paciência — Um ano e meio depois, ao invés de navegar nas primeiras ondas da passagem-direta mestrado-doutorado, optei por terminar a dissertação. Defesa feita, entrei no melhor dos mundos: dava aulas, trabalhava como pesquisadora e ainda podia assistir Seinfeld sem culpa! Mas quando chegou a hora de fazer o projeto de doutorado: cadê a ideia? Sem paixão, mas convencida de que já dominava os truques do ofício, costurei um projeto juntando alguns temas que sobraram do mestrado com autores que eu lia para dar aula. Nem precisava me preocupar com o quesito “orientador”, certo?

Errado. Projeto entregue. Projeto lido: “– Karina, vem cá, que projeto é esse? De onde você tirou isso? Cadê a antropologia?” Cadê isso, cadê aquilo…? Ooops. Foi mal. Tem razão. Dessa vez, não tinha nada a ver com escolha de tema. Era projeto-preguiça mesmo.

Bora fazer tudo de novo. Porque certa vez um terapeuta me disse que eu era uma sobrevivente. Pra quê! Me apeguei a essa ideia. Se tem um naufrágio, eu nado, até sem saber nadar. E, pra quem sobrevive a afogamento, projeto-de-doutorado-ruim tá mais para quatro-pneus-furados ao mesmo tempo… É chato, é trabalhoso, mas dá para consertar.

A solução? Muita, muita paciência. Paciência com os próprios erros e paciência para recomeçar… Teve que ser paixão construída… Revi o material de pesquisa do mestrado, escutei novamente as arguições da defesa, vasculhei todos os autores que pude e lá fui enfrentar a página vazia, de domingo a domingo — naquela fórmula chata-de-tão-verdadeira: uma palavrinha de cada vez.

* Prática — Tive a sorte de praticar num “laboratório” no Museu Nacional onde encontrava exatamente a mesma cena todos os dias de manhã: meu orientador lendo. Lendo, relendo, revisando, escrevendo sobre o que lia, reescrevendo. Da mesma forma, quando frequentei a biblioteca da professora Cleonice Berardinelli, frequentemente a encontrava concentrada com um livro nas mãos. Uma vez o título era o clássico “A cidade e as serras”, de Eça de Queirós — autor sobre o qual ela é uma grande especialista. E perguntei: “Dona Cleo, a senhora precisa reler esse livro para dar aula?” E ela me respondeu com toda humildade: “Sim, querida. Releio, e sempre aprendo coisa novas.”

Aprendi com eles que a prática essencial na nossa área é assim, muito simples: ler e escrever. Ler, ler, ler, ler, ler muito, é equivalente a um aluno de violão tocar “Let it be” mil vezes. É um trabalho individual, solitário, onde se aprende a lidar com o tédio, a perceber as nuances das palavras/acordes, a criar novos pensamentos e perguntas a partir daqueles. Escrever, escrever, escrever, escrever muito. Idem, ibidem.

Sim, dá para treinar algumas etapas de pesquisa na sala de aula. Mas, como dizia o meu amado professor Wagner Teixeira: “A prática se aprende na prática; o importante [na faculdade] é aprender a pensar.” Ou seja, pesquisa de verdade só se faz fazendo. Um trabalho de fôlego exige circunstâncias demais, impossíveis de repetir em laboratório.

É para isso que servem os livros: milhões de páginas já foram escritas sobre milhões de pesquisas. Um bom levantamento bibliográfico, quando lido, te leva a centenas de práticas e reflexões sobre essas práticas. É a nossa escala musical diária, sem a qual não desenvolvemos projeto nenhum.

* Um projeto todo seu — Nos mais de vinte anos depois daquela primeira experiência, muitas vezes tive dúvidas. Será que está bom? Será que vão gostar? Será que já não escreveram isso antes? Será que serve para alguma coisa? Essas dúvidas nunca se dissolvem totalmente…

“Desde que vocês escrevam o que desejarem escrever, isso é tudo que importa; e se vai importar por séculos ou apenas horas, ninguém pode dizer.” (Virgina Woolf, Um teto todo seu)

E para não terminar sem nenhum conselho prático de verdade, aí vai: a melhor coisa que já li sobre montagem de projetos é o clássico Como fazer uma tese, de Umberto Eco — baita de um livrinho perfeito, atualíssimo em toda a sua antiguidade.

Ufa, e se chegaram até aqui: meus votos de sucesso aos novos projetos! Estou torcendo por vocês!

* 7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:
* Eu — Alice, qual o sentido da vida?
Alice — Não sei, mãe.
Eu — Se vc pudesse fazer algo, o que você faria?
Alice — Salvar o país, mãe.
* No metrô, uma senhora dá lugar a outra senhora, aparentemente mais velhinha. A senhora que senta tira um cartão do metrô da bolsa e oferece de presente para aquela que levantou. A cena me comove.
* Reli um livro infantil do Antônio só para encontrar um verso que amo: “O menino diz: — Gosto de você, aranha. Porque você não pica nem arranha.”
* Resolvi reler nas horas em que estou no transporte o “Cartas a Theo”, de Van Gogh ao irmão. É de doer de tão lindo. É meu antídoto pessoal contra a crise.
* Presente maravilhoso: ganhei o catálogo do IV Encontro Nacional de Ilustradores Científicos, organizado pelo professor, artista e ilustrador científico Paulo Ormindo.
* Por conta do Ulisses, fui à pequena loja veterinária do Jóquei Clube na semana passada. Passar pelas baias dos cavalos é mágico… e me lembra do meu sonho impossível de ter um cavalo quando era pequena.
* A melhor definição do Rio de Janeiro esta semana: “A cidade mais feia do mundo que por acaso ficava num lugar maravilhoso” (de Carolina Massote)

* Sobre o desenho: Dizem os profissionais do livro ilustrado que a boa imagem deve acrescentar algo ao texto… Então vou deixar para vocês interpretarem… Os gatinhos foram feitos com aquarela Winsor & Newton em papel Strathmore, e depois desenhados com canetinha nanquim Muji 0.38.

* Sobre o livro: Já fiz um post só sobre Um teto todo seu da Virginia Woolf, um livro que marcou a minha vida pra sempre.

* Sobre Paixão, paciência e prática: Minha inspiração para escrever sobre esses “três Ps” foi da aula online do artista indiano Prashant Miranda, na Sketchbook Skool (infelizmente é só para alunos pagantes… )


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Se hoje fosse hoje

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Alice — Mãe, tô em dúvida de coisas muito difíceis…

Eu — Sobre o quê, filha?

Alice — Do que eu vou ser quando eu crescer… Porque são coisas muito difíceis. Não é assim fácil como ser antropóloga ou desenhista…

Eu — Hããã…?

Alice — É, mãe, isso que você faz é fácil: é só ficar falando sobre o passado… Eu tô em dúvida dos meus sonhos. Se eu quero ser o tipo de pessoa que mexe em máquinas, tipo assim, criar um Iphone 7! E tem o meu sonho de ser atriz. E, se nada disso der certo, vou ser youtuber.

E, se hoje fosse hoje, se fosse mesmo o 15 de maio que deveria ser, eu não estaria escrevendo no blog. Estaria comemorando o aniversário de 70 anos do Gilberto [Velho], contando pra ele essa história engraçada da Alice sobre como é fácil ser antropóloga desenhista.

Profissão é fácil sim, filha. O difícil é ser adulta e manter o bom humor! Nisso, o Gilberto também era mestre. Para matar as saudades, remeto ao texto que escrevi em sua homenagem em 2012 (e aos de várias outras pessoas), porque hoje não estou conseguindo ser adulta direito.

Sobre o desenho: Fiz essa imagem a partir de um quadro do Gilberto que ganhei da Ana. É provavelmente um artesanato peruano, com muitas cores fluorescentes (que não saíram direito no scanner, pra variar), do qual ele gostava muito. O original é bem maior e mais elaborado. Resolvi desenhar o cavaleiro de chapéu, porque usar chapéus exóticos era uma de suas brincadeiras favoritas. Já montar a cavalo… talvez só nos de chumbo! (Linhas feitas com canetinhas 0.05 e 0.2 e cores com hidrocores diversos.)


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Flores mestras

LirioChiaraHoje o post é só para agradecer e mandar flores para os mestres que me ajudaram nessa vida (foram muitos, formais e informais). Estou com tantas saudades dos que já se foram…

Esses lírios do desenho são (de verdade) para a minha atual professora-flor, Chiara Bozzetti, mestra-dona do atelier Chiaroscuro, onde tenho feito aulas de aquarela. Sabem aquele lugar em que a gente simplesmente se sente BEM? Lá é assim. Pessoas, plantas, livros, chás, tintas, pincéis, música na rádio Mec…  Tudo se combina, numa atmosfera amigável, tranquila e acolhedora.

Taí um desejo para pedir ao gênio quando eu encontrar a lâmpada: que todas as salas de aula do Brasil sejam assim!

1 Coisa impossivelmente-legal-inusitada-interessante-engraçada-e-digna-de-nota da semana:

* Recebi uma mensagem no Facebook de um rapaz que me perguntava se era eu mesma que administrava o meu perfil ou se era algum “amigo ou parente”. “Sim, sou eu mesma!”, escrevi. E a resposta dele me fez dar muita risada:  “Desculpe a pergunta; é que julguei que você já fosse uma senhora; enfim, nada a ver mesmo.” Puxa, menino, você não imagina como fiquei feliz de ser confundida com uma sábia senhora, com ajudantes e tudo! Me senti um mito, como se eu fosse por um dia a minha extraordinária mestra Cleonice Berardinelli. Obrigada! 🙂

Sobre o desenho: Linhas feitas com canetinha Copic Multiliner SP 0.05; cores com aquarela e lápis de cor aquarelável, no caderninho Laloran. O scanner, pra variar, deixou tudo mais azulado do que no original…

 


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Gato sarado, dona arranhada, calendário de maio

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Gato Ulisses bem melhor! A sequela é que está bravíssimo comigo, que não paro de enfiar comprimidos, azeites e outros unguentos goela dele abaixo. O problema é o intestino inflamado, mas sobrou até pro olho, que está levando colírio três vezes ao dia. Ele odeia.

No início do tratamento, tudo se compensava quando eu vinha mimá-lo com o pote de ração úmida, mais cara que caviar russo, e que ele ama (e seus companheiros comem de lambuja em delírio gatífero). Hoje, para deixar claro que não somos mais amigos, ele olhou para a iguaria, começou a cobrir com a pata (tipo “isso é lixo”) e me olhou feio, como quem diz:

“Não venha me seduzir com esses ópios felinos… Sei muito bem que depois você vai enfiar aquela joça amarga na minha garganta.”

E partiu para o arranhador, onde sempre desconta suas mágoas e zangas. Ufa. Sinal de que está voltando ao normal, pois ele é assim, muito previsível.

Chave na porta? Ulisses pensa: “bora tentar fugir” ou “bora não deixar ninguém sair”. Na primeira opção, passa como um raio por entre as nossas pernas. Numa dessas, no prédio antigo, quase foi morto pelo chow-chow da vizinha, mas outra vez quase foi parar na portaria, para nosso desespero. E na casa provisória, nos deixou trancados do lado de fora, como contei nesse post aqui.

Quando está com preguiça, no entanto, Ulisses resolve que nenhum humano deve deixar seu reino: corre pra porta e se joga de barriga para cima, miando alto feito um lobo uivando pra lua, como quem diz: “Estou mal, muito mal, preciso de cuidados, e você, ó humano cruel, vai me abandonar aqui sozinho, forever alone…” É seu papel preferido — Ulisses-the-drama-king.

Nesses tempos de convalescença, seu maior consolo foi poder dormir com a Alice e saber da notoriedade aqui no blog. Vaidoso, não pode ver visita, entregador, porteiro, vizinho. Quer logo fazer amizade e ouvir: “que gato bonito”, “que gato engraçado”, “nossa, como ele é simpático”. Ele só não fica muito feliz quando reparam nos seus defeitos: “Ixe, a cabecinha dele é meio torta?”, “Ele não tem dente de um lado da boca?”, “Ele é agitado assim mesmo, feito um cão?”. E nós sempre respondendo: “É sim, sim, sofreu muito… Mas pode fazer carinho… Ele adora aventura e gente estranha.”

Assim estamos indo: ele bem melhor e eu mais pobre (de tanta despesa do tratamento) e toda arranhada (de tanto dar remédio), mas muito, muito feliz, de ver meu gatinho amado voltando a ser quem ele é.

Ulisses mal sabe, mas em breve, muito breve, ele vai ficar famoso de verdade! Cariocas, guardem a data: 11 de junho!

7 Coisas impossivelmente-legais-inusitadas-interessantes-engraçadas-difíceis-ou-dignas-de-nota da semana:

* Surpresa maravilhosa de uma aluna recém-chegada na minha vida: em plena segunda-feira, às 18:15 da noite, eu longe e preocupada com o gato, a Regina me entrega um livrão incrível e diz: “Olha, professora, lembrei de você…” Era simplesmente o “Margaret Mee – Em busca das flores da Amazônia”, um volume incrivelmente bonito e interessante, que me fez esquecer tudo de ruim do dia, da cidade, do país, do mundo. Muito obrigada, Regina!

* Alice assim, como quem não quer nada, está cada vez mais interessada nas aquarelas! Eu tinha um estojo parado na gaveta que agora está a pleno vapor. Todo dia de manhã a gente experimenta um pouco. São momentos mágicos vê-la se maravilhando com as misturas de cores, água e pincéis. Um simples conta-gotas virou um tesouro no seu estojo hoje!

* Li metade do romance que chegou via Estante Virtual na semana passada: O Senhor March, da Geraldine Brooks (Ediouro, prêmio Pulitzer), mas cansei. A melhor coisa foi o capítulo em que o personagem principal encontra Henry David Thoreau, pois descobri que o filósofo foi também inventor do lápis a grafite moderno! (E já deu vontade de comprar mil livros sobre a história do lápis, claro, mas o dólar tá caro…:-( ). O livro, no entanto, não me conquistou.

* No domingo, ganhei de presente de um amigo muito querido dois pincéis de aquarela maravilhosos  — e ainda por cima vindos diretamente de Londres, cidade para onde mais desejo me transportar num futuro próximo. (Oops, meu passaporte tá vencido.)

* Aliás, para quem ama Londres, design, arte, livros: o blog London Letters, do Claudio Rocha, é uma lindeza de ver e de ler!

* Um presente para todos que amam desenho: novo pequeno filme Tommy Kane Draws Hong Kong, Imperdível!

* E, pra terminar: esse é o 70º post do blog, justamente no mês em que chegamos a impossíveis 70.000 visitas!

Sobre o desenho: Calendário de maio inspirado nos desenhos das estações do ano de uma ilustradora romena que sigo no Instagram, perfil @aitch.ro. Como não ficava bem sair só copiando, incluí algumas referências de outonos da minha infância (as amêndoas, a flor do abricó-de-macaco, os caquis e as flores vermelhas da Escola Parque) e do Jardim Botânico (a folha de palmeira-de-leque-da-china e seus frutinhos roxos, e uma vitória régia). As nuvens azuis são ideia da @aitch.ro, e achei que eram perfeitas para o céu de maio. As linhas foram feitas com canetinha Pigma Micron 0.2, as cores com aquarela Winsor & Newton, pincéis waterbrush Kuretake e sombras com uma Pitt Brush Faber-Castell warm grey 270.


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Uma cidade, duas cidades

ipanema8

Nosso gato Ulisses ficou doente essa semana. Entra na caixa, sai da caixa, agonia, miado. A veterinária é certeira: o problema é no intestino. Segunda-feira, às 8h da manhã eu já estava na porta da clínica de ultrassom em Ipanema (“a única que serve”, diz a vet-super-exigente; e quem sou eu pra contestar…) Cheguei cedo nesse pedacinho da cidade que quase não frequento desde a morte do Gilberto (Velho)…

Que conforto achar um banco de madeira na calçada! Entre a clínica e a loja de suco, sento-me com a caixa-e-o-gato-dentro. Ao meu lado, um senhor forte, pelos oitenta anos. Aos poucos, várias pessoas param para falar com ele. Oferecem suco, conversam sobre os filhos, falam mal da política… Todos o chamam de “sensei” — e me dou conta de que ele deve ser um mestre de artes marciais de alguma academia ali perto.

Durante os vinte minutos de espera, desenho as pessoas que vão passando. Sinto saudades de Lisboa, do Eduardo Salavisa a desenhar no Parque da Estrela, dos eventos da comunidade de desenho urbano.

“To know one town, you really need two towns.”

A frase é do artista Jonathan Twingley na sua aula na Sketchbook Skool dessa semana. A “arte”, ele diz, “é sobre tudo que está vivo”. Precisamos de liberdade (e prática, muita prática) para criar.

A orla, as montanhas e as lagoas do Rio são lindas, sim; mas conhecendo a vida em outras cidades é que sentimos o quanto vivemos apertados, cansados e estressados aqui. No ponto, no ônibus, no metrô, na faculdade, nas papelarias, na cobal: a expressão de fadiga é democraticamente distribuída. Que sorte a minha ter uma caneta e um caderno nessas horas!

6 Coisas impossivelmente-legais-inusitadas-interessantes-engraçadas-difíceis-ou-dignas-de-nota da semana:

* Alice toda feliz na volta da escola: “Mãe, hoje aprendemos matéria nova em português! Porque, por que, porquê, que, quê com acento!”

* Ouvir a voz de Mário de Andrade! Descobri a gravação de 1940 graças ao link enviado pelo querido André Botelho que compartilha comigo a paixão por esse escritor-músico-poeta-artista-tudo.

* Aula de espaço negativo e modelo-vivo no IFCS: palmas para a turminha nota mil desse semestre de Antropologia e Desenho!

* Fiz um novo sketchbook sozinha, com cadernos costurados, guarda de craft e capa-envelope… tudo nos moldes do que aprendemos na Palmarium, mas com tamanho 19,5 x 17,5. Papel de aquarela encomendado na Dritter: Conqueror Connosseur Soft White 300gr 100% algodão. Custo total com 48 páginas: menos de R$ 20,00 reais!

* Sorvete no feriado com as crianças… passam vários meninos e meninas vendendo balas e pedindo sorvete também. Meus filhos conversam comigo sobre a situação, falam que trabalho infantil é proibido, pensam nas alternativas e na falta delas. “Para onde poderiam ir, mãe?” “Será que não poderiam denunciar a tia (que os coloca pra trabalhar) na delegacia?” [Suspiro.] Vou comprar um picolé para os dois que nos pediram. O pequeno é tão pequeno que não sabe que sabor quer. Eu digo que manga é bom, mas ele se diverte pedindo cada hora um diferente. Depois se conforma com o de abacaxi, igual ao da irmã/prima. Apesar da tristeza da situação, me conforta saber que meus filhos, mesmo muito jovens, não são alienados ao mundo que os rodeia.

* E porque às vezes é preciso esquecer disso tudo: dia-de-correio-feliz ontem! Chegou um romance novo-usado por R$14,90 via Estante Virtual! (Se for bom, depois indico.)

E a semana de vocês?

Sobre o desenho: Canetinha Pigma Micron 0.8 (estava com saudade das linhas mais largas!) em caderninho Canson pequeno (A6). Adicionei as cores com aquarela mais tarde em casa.


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Artes, cadernos, livros e coisas impossíveis

Imaginem um lugar onde as marcas do tempo são belas, as falhas são histórias, as fragilidades são forças… Esse é o Atelier Palmarium, um espaço cheio de delicadezas, onde se respira fabricação de livros. Cada gesto de Cristina Viana, sua dona-artista, revive e reinventa tradições de centenas de anos…

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Suas mãos são como as dos artesãos que aprederam com seus mestres, que aprenderam com seus mestres, que aprenderam com seus mestres… Papéis, linhas, agulhas, instrumentos, tecidos, colas, pincéis, máquinas de apertar, de cortar, de gravar… Tudo isso se junta de forma ritual e cheia de mágica para fazer um livro ou um caderno — e lindos!

Tive o prazer de conhecer um pouquinho desse mundo no início de abril/2015, num workshop de encadernação do tipo códice. O objetivo era nos ensinar a fazer um caderninho com papel de aquarela, ou “sketchbook”, como dizemos no mundo do desenho.

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Essas são as imagens das minhas anotações das quase 8 horas de trabalho. Depois de uma certa altura, foi difícil continuar anotando, como vocês podem ver… Foram muitos detalhtes e coisas que nunca imaginei que existissem, medidas em 0,00 milímetros e precisas como num plano de vôo para a lua.

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Abaixo, o caderno pronto (à esquerda) com os desenhos iniciais mostrando a capa-envelope — uma pequena obra de arte em si mesma, proposta pela Cristina para que pudéssemos terminar o trabalho num dia só.

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Sobre os livros:

Toda essa aventura me fez lembrar de um monte de livros sobre livros que aprendi a amar ao longo dos anos… De tudo do Umberto Eco, do Robert Darnton e do José Mindlin, passando por Dom Quixote, pelos policiais de John Dunning, pelos textos da Alessandra El-Far, pelo livro sobre handmade-books que recuperei de um empréstimo, pelos “leitores-comuns” de Virginia Woolf e Anne Fadiman (cujo amor pelos livros foi tanto que levou seu filho a comê-los!), pelos autobiográficos de Anne Lamott, Stephen King e todos os seus companheiros-escritores de estante… E até do despretensioso “As memórias do livro: romance sobre o manuscrito de Sarajevo” de Geraldine Brooks (Ediouro, 2008, trad. Marcos Malvezzi Leal), porque fala de restaurações, ilustrações e páginas de um livro-tesouro que passa de mão em mão por centenas de anos.

Essa semana soube de duas pessoas que leram livros comentados por mim aqui no blog. Fiquei tão feliz! E me lembrei de indicar para vocês o blog “Seven Impossible Things Before Breakfast“, mantido por Jules Danielson, sobre os bastidores da ilustração de livros infantis (principalmente nos EUA). O arquivo do blog é vertiginoso, a seção de entrevistas é incrível e as imagens de ilustrações-em-processo são fantásticas.

O título do blog é uma homenagem a outro ícone dos apaixonados por livros: Lewis Caroll! É uma referência a um diálogo da Rainha Branca com Alice, em “Através do espelho”. Alice diz que “não se pode acreditar em coisas impossíveis”. Mas a Rainha discorda: “Quando eu tinha a sua idade”, conseguia “acreditar em até seis coisas impossíveis antes do café-da-manhã”!

Por que parar em seis?, pensou Jules… E todas as semanas ela também publica uma pequena listinha de sete coisas (Kicks!) “impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota” que aconteceram na vida dela relacionadas ou não a livros. E ainda convida os leitores do blog a compartilhar as suas nos comentários.

Acho que vou adotar a prática aqui no blog também, pois nunca consegui explicar nem pra mim mesma a palavra “coisas” no subtítulo que inventei (“desenhos, textos, coisas”). Ficam sendo “coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota” que eu conseguir lembrar da minha semana passada, sem número fixo, que de fixa na vida já basta a conta da Light.

Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:

* Alice me deu muitos abraços na sexta-feira porque eu a fiz estudar uma matéria que, afinal, caiu na prova de matemática (apesar de ela jurar que não cairia).

* Ensinei o Antônio a escrever uma referência bibliográfica — ele foi o único da turma que apresentou a formatação “correta” segundo a professora. Eu não acredito em “formatações corretas”, mas valeram 2 pontos num trabalho! Ufa. Meus anos e anos editando livros não foram em vão…

* Descobri no forno um empadão com a palavra CLARA feita de massa que me fez chorar… (Presente-surpresa da nossa funcionária Jô para o aniversário da Clarinha.)

* Vi um documentário lindo: “Margaret Mee e a Flor da Lua” (6,00 reaiszinhos na locadora Cavideo).

* Ao invés de fazer o quase-atrasado relatório do CNPq, tenho lido textos e mais textos sobre ilustração científica, meu novo tema de pesquisa pelos próximos 3 anos!

Sobre os desenhos: Registros do workshop de encadernação feitos com canetinhas Pigma Micron e aquarelados no caderninho Laloran. Acrescentei algumas colagens de linhas, restos de papéis e tecidos. Muita gente viu os corações (na terceira imagem) e não reconheceu o local onde almoçamos… Alguém adivinha?

 


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Sem voz, de verdade

limao1

O grande problema de escrever um blog é não poder se esconder direito na vida analógica. Não fica bem manter os posts em dia enquanto na vida real você está cheia de trabalhos atrasados, faltando aulas, fugindo da ginástica ou só doida para ficar quieta, sem vontade de fazer nada ou de falar com ninguém.

Na vida pré-digital, a coisa mais fácil do mundo era dizer pro chefe (ou pro orientador): “ah, não dá para ir hoje; estou com febre, dor de garganta, quase morrendo…” E pronto. Cama ou casa das amigas por um dia? Quem ia saber a diferença?

Agora, não basta ficar em casa doente; ainda tem o sacrifício de se desligar da internet. Imagina seu chefe (ou orientador, ou cliente, ou seus alunos!) lá do outro lado da telinha lendo seus posts ou comentários no instagram, twitter, facebook… Não pega nada bem…

sucu

O pior é que a nossa personalidade eletrônica é sempre um tantinho (ou um tantão) mais bem-humorada, alegre e saudável do que a gente mesmo. Quem já não ficou de cama, mal-de-verdade, e mesmo assim conseguiu escrever um email, sms ou comentário super animado de feliz aniversário para um amigo querido?

Com o blog, é mais ou menos a mesma coisa. Como posso escrever e ainda desenhar quando digo para todo mundo que não estou bem? Ou super ocupada? Ou doente? Ou que não consegui terminar de corrigir provas, escrever pareceres, rever os trabalhos de orientação?

— “Ah, mas você postou no blog que eu vi!!”

— “Ah, blog é coisa de quem tem tempo, né? É super legal… mas eu não posso: tenho tantas obrigações-de-verdade!”

Só que nas últimas semanas fiquei malzinha sim; desmarquei reuniões e cheguei a faltar uma aula — coisa que é rara na minha vida de professora. A cabeça e os dedos estavam em forma mas, sabem como é… achei melhor deixar o blog de molho também. Vai que acham que estou inventando! (O pior é que na segunda-feira, dia 6, três horas de aula depois, fiquei sem voz de novo; de verdade.)

Sobre os desenhos: A minha semana santa foi curtinha (só 3 dias), mas deu para deixar a criançada aos cuidados da minha intrépida irmã, em Itaipava, aproveitando o restinho da dor de garganta para não poder cair em nenhuma água gelada e “só ficar desenhando”… Todas as imagens foram feitas lá no sítio, no caderninho Laloran de sempre. Os limões sicilianos foram roubados do Ronald, que acabou sem os drinques, de tanto que demorei no desenho… (Agora fiquei devendo uma versão grande para ele. Tá aqui registrada a dívida.)

Todas as linhas foram feitas com canetinhas Sakura Micron de 0.05, 0.2 e 0.4 (na imagem abaixo, fiz uma mistura: contornos com 0.4 e linhas internas com uma 0.05 quase seca). Apenas na primeira imagem, do jardim, não usei caneta. Foi uma tentativa, muito tosca, de captar as várias distâncias em diferentes camadas (céu, montanhas, árvores, moitas, grama…). Quase não postei aqui, de tanto que vi defeito; mas depois achei que tinha que publicar assim, feio mesmo. Afinal, não sou eu que vivo escrevendo que “só erra quem faz”? Pois. Quando eu crescer, vou ter a leveza da Shari Blaukopf, a graça da Marina Grechanik, o minimalismo do Prashant e a precisão da Geninne! Ou, talvez, nada disso: quando eu crescer, vou continuar sendo eu mesma, como um dia me disse a sábia Clarinha.

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