Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Saudades das saudades de Oxford

Em janeiro de 2005, fiquei três semanas longe do meu filho Antônio, na época com quase quatro anos. Era a primeira vez que nos afastávamos desde que ele tinha nascido. Lembrei desse período porque acabo de voltar do aeroporto, onde fui deixá-lo, junto com a irmã e a avó, para passarem 17 dias de férias nos Estados Unidos com o pai. Já estou com saudades… Sim, sou uma mãe grudenta…

Resolvi recuperar o diário que fiz para ele durante a viagem a Oxford (Inglaterra) em 2005 porque lembrei das saudades imensas que senti e de alguns desenhos e histórias engraçadas, que também contei para alguns amigos por e-mail.

**Aprendendo a Sair de Casa em apenas OITO Etapas**

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Etapa 1: Colocar meias, roupa de baixo, calça, blusinha 1, blusinha 2, casaco 1, botas. 

Etapa 2: Colocar o casaco grande, cachecol, colete fosforecente para andar de bicicleta (que é horrível, mas a palpiteira da loja disse que você morreria se não usasse). Não por as luvas ainda!

Etapa 3: Creme no rosto, creme nos lábios, batom, lenço de papel no bolso, 2 moedas de 1 pound no outro bolso, chaves de casa no outro bolso (a calça tem que ter bolso, pois nada disso pode ser misturado, é claro!). Colocar as luvas por cima de tudo nos bolsos do casaco.

Etapa 4: Ainda sem luvas, pegar a mochila, verificar se está com tudo dentro, verificar se está com o cartão que abre as portas do prédio.

Etapa 5: Colocar as luvas de borracha e lavar a louça correndo para Maurice (o housekeeper) continuar achando que você é uma ótima dona de casa. Descobrir que você não deveria ter posto o casacão e o cachecol ainda. Você está suando!

Etapa 6: Colocar a mochila nas costas, colocar as luvas e descer! (só tente essa etapa se você já está com vários dias de prática com luvas). Verificar se você deu o nó no cinto do casacão.

Etapa 6 1/2: Se houver, pegar o saco de lixo para jogar fora. O lixo lixo e o lixo reciclável.

Etapa 7: Tirar as chaves (sem deixar cair nada dos bolsos), abrir o cadeado da bicicleta, colocar o capacete (que vc aprendeu a deixar junto da bicicleta!), conseguir dar o clique no fecho do capacete, colocar os prendedores de barra de calça para sua calça não se prender na corrente da bicicleta (o que você descobriu ser essencial no primeiro dia), colocar o cadeado e a sua bolsa na cestinha da bicicleta.

Etapa 8 no primeiro dia: Ficar olhando para o portão e pensar: como eu abro esse troço?

Etapa 8 no 14o dia: Saber que dá para apertar um longínquo botão cinza parecendo uma descarga na parede com uma mão e abrir o portão com a outra, mesmo em cima da bicicleta!

Mas garanto que andar de bicicleta por essa cidade maravilhosa compensa todo o esforço. … só preciso poupar vocês das 8 etapas que se seguem para tirar essa tralha toda!

**Coisas típicas nas ruas de Oxford**

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– Chuva: as pessoas não parecem ligar a mínima para a chuva. No meu segundo dia aqui, ainda à pé, começou a chover. Eu era a única criatura do mundo na rua com um guarda-chuva aberto!! Eu olhava, procurava e só via todos andando tranquilamente. Tirava o guarda-chuva e me assegurava: sim, está chovendo! Felizmente, depois de muito procurar, avistei uma longíncua criatura segurando também um guarda-chuva. Com certeza, era uma turista brasileira… Agora, ando pra todo lado, em qualquer tempo, sem guarda-chuva também! A solução é simples: em 5 minutos, você entra num lugar fechado e a calefação seca tudo!

– Luvas: as pessoas perdem muitas luvas… algumas boas de dar pena. Infelizmente, é um pé só e sempre de modelos muito diferentes. São tantas que você passa a temer o dia que perderá a sua!

– Carros fantasmas: todos os dias olho um carro e levo aquele susto: “gente, um carro andando sem motorista; uma crianca dirigindo!” — mas é só a loucura dos ingleses de ter a mão do lado direito.

– Tagarelas: no ponto do ônibus, uma ex-professora contou a vida em 5 minutos e de como gostava quando hospedava estudantes. Na biblioteca, achei uma ex-parteira revoltada com o sistema… No meu prédio, o housekeeper é um francês muito distinto — Maurice — que acho que gostou de mim porque a minha casa é arrumadinha (a vizinha da frente tem que chutar os sapatos e as tralhas do caminho para entrar em casa!). Ele bate aqui quase todos os dias de manhã agora…

– Amantes dos cachorros (e das pulgas!): Nesse meio tempo, arranjei pulgas! Vocês podem imaginar? Havia uma dessas velhinhas que não se separa por nada do seu little dog (“good boy, good boy”, they say all the time) sentada atrás de mim numa palestra. Resultado: passei 4 dias sendo mordida pelas pulguinhas do “little” Chad (esse era o nome do cachorro)! Gracas ao Maurice, fui salva com lençóis limpos, colchão novo, e spray anti-pulgas por todo o apartamento. É muito bom ser amiga do Maurice!

**Os nativos e suas coisas simpáticas**

– Informalidade: as pessoas que encontrei são muito mais informais do que eu pensava. Vocês não imaginam quantas caixas de loja ou atendentes de biblioteca já pararam para bater papo sobre suas vidas pessoais comigo, assim como quem não quer nada… Uma senhora me ensinou tudo sobre segurança em bicicletas e só faltou me levar pra casa dela para eu não ser atropelada.

– Dorminhocos: em cada palestra que vou, há sempre algumas pessoas dormindo e até roncando na platéia!

– A maioria das mulheres tem as mãos vermelhas como pimentão — será do frio ou da água quente? Muitas torneiras não têm misturador: ou jorram água fervente ou congelante!

– Cabelos: numa sala fechada, dá medo ver os cabelos de perto…

– Adolescentes: pra que casacos?: quanto menos roupa melhor! Mesmo num frio de zero grau, as meninas saem de perna de fora, sandália, sem luvas e até barriga de fora. Devem estar assistindo às novelas brasileiras…

**Coisas que me lembram muito o Rio de Janeiro**

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– A feirante me mostrou cerejas lindas e colocou as podres dentro do um saquinho marrom, pelo qual eu paguei a “pequena” quantia de 5 pounds!

– Avisos contra assaltantes: Por toda parte, há avisos sobre como proteger sua bicicleta de roubo ou como cuidar das suas coisas nas bibliotecas. Infelizmente, não são só avisos. Um dos pesquisadores do Centro de Estudos Brasileiros teve seus 2 laptops roubados.

– As pessoas têm medo dos ônibus e dos carros;

**Coisas que me lembram que eu NÃO estou no Rio de Janeiro**

– Eficiência contra os roubos: A universidade pagou pelos 2 laptops roubados em poucos dias, pois a casa assaltada pertencia ao campus.

– 220 Volts: uma das minhas primeiras aventuras aqui foi queimar o meu secador de cabelos brasileiro (recém-comprado especialmente para a viagem) por causa da voltagem 220 — esqueci de virar a chave, claro!

– Preços: outra furada de principiante: logo ao chegar, comprei um passe de ônibus por 12 pounds (a bagatela de 65 reais!!) e descobri que só valia para uma meia dúzia de linhas por meros 5 dias!! 😦

– Fogões elétricos 1: você coloca a panela numa boca do fogão e acende a outra — depois de 15 minutos, a sua água não ferve e você ainda respira aliviada de não ter queimado a casa toda.

– Fogões elétricos 2: Você tira a comida e deixa a panela vazia em cima da boca do fogão ligada — depois de 15 minutos, a casa inteira exala um cheiro estranho e a panela queima! Maurice não gostará de ver isso…

– Dinheiro perdido TEM dono: outro dia, a máquina de café da universidade estava com um troco sobrando de 0,20p. Eu olhei pras velhinhas atrás de mim, como quem pergunta “e agora?”. Elas disseram: “vamos deixar aqui ao lado. Com certeza, o dono virá buscar!”

– Sol e Frio: você olha o dia lindo pela janela e pensa: “oba, sol!” Quando chega na rua, está -2 graus! Quanto mais céu azul, mais frio. É o que dizem os “locals”…

**Coisas que te lembram que você é uma turista**

– Sotaque: ao menor “hello!” todo mundo te pergunta: “where are you from?”

– Tio Sam: você pede “water” com sotaque americano e as garçonetes ficam olhando para a sua cara como se você estivesse pedindo um mamute assado. Pronuncia-se “uá-tah”. As garçonetes são estrangeiras, mas as principais defensoras do mais verdadeiro e legítimo sotaque britânico.

– Nos pagamentos com cartão de crédito, você ouve: “what a weird card you’ve got!” Eles acham estranhíssimo o nosso cartão. A máquina pergunta para eles “credito ou debito?”, assim mesmo, em português. Depois, a máquina pede a senha e ainda manda assinar! Só faltava aquele clássico brasileiro: “e põe o telefone!”

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E essa é a capa do caderninho onde fiz o diário dessa viagem. Se vocês gostarem, posto outros trechos depois.

Agora é aguentar 17 dias de saudades não só do Antônio, mas também da minha linda-potência-máxima Alice (que veio na barriga de Oxford… 😉 !


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Uma semana com defeito

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Quando me apaixono por um artista, me divirto procurando seus defeitos. Não, não é um prazer perverso para me afastar da paixão. Ao contrário, me delicio e me apaixono ainda mais porque as supostas falhas e defeitos (geralmente apontadas por eles próprios sobre este ou aquele trabalho) trazem à tona um caminho criativo, feito de fragilidades, deslizes e perdas.

Acho graça, por exemplo, num trecho da quase autobiografia de Saul Steinberg quando ele conta sobre o período em que passou no Instituto Smithsonian, em Washington, nos anos 1960. Ele lembra que, influenciado pela presença maciça de funcionários chineses, resolveu fazer um diário desenhado num rolo de papel com dez metros de comprimento. O problema é que foi se tornando “escravo do rolo”, e acabou estragando o trabalho “de tanto querer embelezá-lo”.

(Viram? Agora podemos fingir que Saul Steinberg conseguia estragar algum desenho…)

Em outro trecho auto-crítico, da mesma obra, o artista afirma que sempre considerou mais difícil e arriscado observar do que imaginar, outro feito que soa impossível:

“[Nos meus desenhos de observação] vejo alguns dos meus defeitos constantes: terminar sem terminar, cansar e renunciar a insistir num ponto que seria essencial; por timidez ou por preguiça, deixo de insistir, e as coisas não terminam como deveriam, a promessa é mais abundante do que o resultado.”

Nem parece o mesmo Saul Steinberg retratado nos livros dedicados à sua obra. Minha história preferida de um deles é a contada por seu amigo Ian Frazier, da revista The New Yorker. Enquanto outros artistas ficavam melancólicos e desanimados quando algum editor rejeitava seus desenhos, Saul simplesmente os colocava em um novo envelope e os mandava de volta! Fazia isso quantas vezes fossem necessárias até que os editores entendessem o recado. E entendiam.

Tudo isso porque aqui em casa a semana foi cheia de defeitos. Tive uma virose e descobri que tenho uma pedra no rim. O desenho ficou incompleto e o blog teve o post atrasado em dois dias. (Para quem está chegando agora, minha promessa é publicar toda quarta-feira. Se eu trabalhasse num jornal, estava demitida?) Experiência vivida, lição aprendida: preciso preparar esses posts com mais antecedência e ainda ter alguns na manga para semanas-com-defeito.

Sobre o desenho: Meu gato Charlie tem medo de gente desconhecida e tantas falhas no pelo que ontem a Alice comentou, entre divertida e temerosa: — “se vier muita visita aqui em casa, mamãe, o Charlie vai ficar careca.” Mas ele é o meu gato-enfermeiro, aquele que sempre sabe se estou doente, por fora ou por dentro. As linhas foram feitas em canetinha Faber-Castell Pitt S (mais ou menos equivalente a uma 0.4) e a bolsa foi colorida com aquarela. Ficou faltando cor num pedaço, mas assim foi minha semana também. A aquarela está vívida (sem Photoshop!) porque o papel desse caderno é o máximo! Ganhei de presente de Natal do meu cunhado, que achou a relíquia intacta na estante: está ligeiramente amarelado nas primeiras folhas e desgastado por fora. Perfeito para mim que tento não gostar de coisas perfeitas. 🙂

Sobre os livros de Saul Steinberg: As citações são das páginas 78 e 131 do livro Reflexos e sombras, de S. Steinberg com colaboração de Aldo Buzzi (IMS, 2011, trad. Samuel Titan Jr.). É uma pequena joia de livro, embora o depoimento deixe grandes vazios no coração de uma leitora apaixonada. A anedota de Frazier está em Steinberg at The New Yorker (Joel Smith, ed. Harry N. Abrams, 2005). Outras maravilhas do autor podem ser encontradas em Saul Steinberg Illuminations (Yale Univ. Press) e Saul Steinberg: as aventuras da linha (IMS, org. Renata Saraiva). Na internet, vale visitar links produzidos pelo IMS aqui e aqui, além da Fundação Saul Steinberg. Se alguma alma souber onde consigo o documentário La ligne de Steinberg, dirigido por sua sobrinha Daniela Roman, agradeço. Não sei por que esses diretores de documentários tornam tão difícil o acesso aos seus filmes…


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O amor numa banca de jornal

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Dona Teresa mantém uma banca de jornal há mais de vinte anos na esquina da rua Visconde de Caravelas com Capitão Salomão, no Humaitá. Ela diz que é uma “banca das crianças” e acrescento que é também uma banca para pessoas que gostam de receitas e sorvetes. Me senti no lugar certo, como minhas alunas em campo no semestre passado, conseguindo o privilégio de desenhar sentada numa mesinha de plástico do “Bar dos Amigos”, bem em frente. Estava calor, mas a água era gelada e os poucos sons vinham da conversa de alguns bebedores de chope e de um casal tentando ensinar o filho a andar com o patinete ganho no Natal. Ao me entregar à tarefa do desenho, o mundo vai ao mesmo tempo se dissolvendo e tomando forma. Muitos passam para cumprimentar Dona Teresa, dizem que os políticos estão cada vez piores, desejam feliz ano novo, e que teremos sorte se o governo roubar menos; os pais insistem centenas de vezes: se você colocar o pé direito e jogar o peso do corpo pra frente, conseguirá se equilibrar, só que se o calor continuar assim, vamos ter que subir.

Estava ali, desenhando, sem nenhum outro motivo. Não, eu não estava só passando; não estava fazendo hora, à espera de alguém; não, não moro ali perto. Saí de casa com o propósito de desenhar a banca de jornais daquela esquina para talvez colocar aqui neste post. Ainda não sabia que era a banca da Dona Teresa, mas lembrava do seu esplendor, da sua esfuziante mistura.

Como é possível viver para a arte, fazendo algo que não interessa a ninguém? “É um projeto artístico, ou um projeto terapêutico?” pergunta-se um bem humorado Cristóvão Tezza (em O filho eterno), refletindo sobre sua vida até então fracassada de escritor. Escrevo “umas coisinhas”, diz seu personagem, “o álibi de quem se desculpa, de quem quer entrar no salão mas não recebeu convite”. Dizer “eu escrevo” é como revelar sua intimidade, sentir o “peso do ridículo” de ser “alguém que publica livros aos quais não há resposta, livros que ninguém lê”.

Tezza nos conta (em O espírito da prosa) que foi preciso “desembarcar” das suas “próprias nuvens”:  parar de respirar as mensagens políticas e literárias dos outros. Ao reler trabalho anteriores, ele afirma:

“percebo o óvio: eu não estava ali. Um escritor ausente de sua frase é a derrota do texto. Eu continuava obedecendo a uma pauta em grande parte alheia, tateando formas e ideias no escuro.”

Foi preciso aceitar seus desejos mais secretos — o prazer pelas cartas, pelo humor, pelas narrativas  — para se tornar o escritor que queria ser.  Não que tenha passado seu sentimento de inadequação. Afinal, “é simples e cristalino: ninguém pede para você escrever.” Não há anúncios do tipo “procuram-se escritores”, “contratam-se romancistas”, “Poetas, com referências, paga-se bem”.

Gostei de começar 2014 voltando a me reunir com as obras de Cristóvão Tezza que conheci e por quem me apaixonei em 2013. Ele reafirma para mim a ideia de que criar é um “gesto ético de abandono e generosidade”, de tentar se transformar em outra pessoa, de obrigatoriamente tentar “ver o mundo do lado de fora de si mesmo”.

Acho que é um bom começo, talvez até mesmo uma definição perfeita do amor: escutar-se, encontrar-se consigo, mas entregar-se à conexão com os outros, sempre e intensamente.

É o que posso desejar de melhor para tod@s que me acompanharam até aqui. Obrigada, de verdade.

Sobre o desenho: No velho caderninho de sempre, usei canetinha nanquim Pigma Micron 0.05 para o desenho feito no local. Adicionei as cores em casa com aquarela e lápis de cor, com a ajuda preciosa vinda do olhar do meu filho Antônio, e de uma foto tirada com o celular, que não tenho olho nem imaginação biônica…

Sobre os livros de Cristóvão Tezza: O espírito da prosa: uma autobiografia literária (ed. Record, 2012) e O filho eterno (ed. Record, 2010, 9a.ed, lida no Ipad na app Kindle). Não vou indicar todas as páginas, pois foram muitos os trechos que citei. Mas recomendo que leiam, leiam integralmente os dois livros, que são como duas faces da mesma incrível e apaixonante história. Ambos, um prazer do início ao fim.


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Um Matisse para Maria Eduarda

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“A dor passa, Matisse, mas a beleza fica” disse o idoso Auguste Renoir para o angustiado amigo. O contexto é o final da primeira guerra mundial. A Europa chorava seus mortos e os críticos desprezavam as cores e os temas que Matisse pintava naqueles anos sombrios. Como ele podia encher as telas de tanta vitalidade de tons, mulheres e padronagens enquanto o mundo desabava?

Foi nessa contradição que pensei quando terminei o desenho desse post. Como posso criar uma praia de guarda-sóis alinhados e coloridos com estampas como se estivessem em um desfile de moda? Como?, se nesse mesmo dia morria assassinada a menininha Maria Eduarda, de onze anos, vítima de uma bala “perdida” em sua casa no Irajá, Rio de Janeiro. Diz o aviso no muro: “não existe tiro acidental em bairro nobre”.

Eu devia estar fazendo algo. Não posso pintar em Nice enquanto os soldados morrem de fome nas aldeias do norte. Ou posso?

Arte ou política; ou arte política? Não, não vou propor uma solução messiânica para esse debate (até porque detesto as soluções messiânicas, infelizmente tão populares nas ciências sociais hoje em dia). Vou só contar mais uma história.

A vida de Matisse tem todos os ingredientes da trajetória do herói: No final do século XIX, menino pobre começa a pintar para se distrair enquanto convalesce. Vai para Paris, mas é rejeitado pelo mundo da arte, pelos pais e conterrâneos. Sem recursos, encontra na mulher e na filha o apoio incondicional para lutar por uma busca: o encontro perfeito da cor e da forma. Seu corpo, sua vida pessoal e pública desmoronam enquanto sua obra se afirma, se desafia e se reinventa até o fim. Do pintor, cujos quadros eram alvo de saraivadas de tomates, ao artista que “reinventou a arte no século XX”, como dizem no jargão da crítica.

Em 1900, vivendo num apartamento minúsculo no quinto andar de um prédio decadente em Paris, Matisse gastou o equivalente a metade da sua renda anual para adquirir a pintura Três banhistas, de Cézanne. Décadas mais tarde, quando doou a obra à prefeitura da cidade, escreveu:

“Nos trinta e sete anos que fiquei com esse quadro, vim a conhecê-lo razoavelmente bem, ainda que sem esgotá-lo. Ele me proporcionou apoio moral em momentos críticos de minha trajetória como artista; dele extraí a minha fé e a minha perseverança.”

Nenhuma resposta vai trazer de volta a vida da Maria Eduarda. Mas todos que choram a sua morte vão precisar da arte para suportá-la.

Sobre o desenho: Os guarda-sóis são inspirados em fotos de praias portuguesas que venho guardando no meu computador desde 2011. Usei canetas de nanquim Pigma Micron 0.05, aquarela, lápis de cor e ainda as canetinhas coloridas mais maravilhosas do planeta: Staedler triplus fineliner. O objetivo era ilustrar o calendário do mês de janeiro de 2014 em homenagem ao aniversário da minha amiga Mariela, que ama o sol. Depois escaneei a imagem e montei uma versão sem a grade do mês no meu velhinho Photoshop 7, de 2002, que é o que eu sei usar — por si só uma obra de arte do mundo do software.

Sobre Matisse: As citações estão na biografia Matisse, de Hilary Spurling (tradução de Claudio Alves Marcondes, ed. Cosac Naify, 2012). A frase sobre Cézanne está na p. 82 e a citação de Renoir na página 313. A edição traz um caderno de imagens colorido mas muito modesto perto do que é a obra de Matisse. Uma excelente fonte de imagens pode ser encontrada na WikiPaintings. Outro ponto que me irritou neste volume foi descobrir que suprimiram (tanto no Brasil quando na reedição americana) milhares de notas com as fontes e outros detalhes da pesquisa original. Para a versão completa, só comprando no mercado de livros usados nos EUA.


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Vendo Kombi 96

kombipQuando saí do metrô e me deparei com essa kombi amarela na esquina da rua dos Andradas com Senhor dos Passos, meu coração bateu um pouco mais forte. Eram 7:45h da manhã, mas consegui tirar o caderninho da bolsa e começar a desenhar.

Um carro é um objeto complexo, tão cheio de detalhes, vãos, peças e terceiras dimensões que existe até uma brincadeira no mundo dos desenhadores sobre a fobia de desenhá-los. É como se sua habilidade se dividisse entre antes e depois de conseguir traçar um automóvel no papel.

Nunca tive essa fobia… Sempre preferi nem tentar desenhar um carro inteiro, claro! E ainda sentia um certo desdém sobre alguém se interessar por desenhar um carro… coisa mais chata.

Nesse dia, porém, não pensei em nada disso. A cor amarela envelhecida, a carroceria fechada, o anúncio “Vendo 96″… tudo isso capturou meu coração e me transportou para um mundo onde posso vender o passado, empacotar minhas coisas e pegar uma estrada nova. Tudo bem, vou ficar com marcas de uso, um pouco de ferrugem, partes amassadas e até uns pedaços de arame tentando manter o parachoque traseiro e a placa dianteira no lugar. Mas terei sinaleiras noturnas, trancas fortes e espaço para dar carona.

Nunca fui de sonhar com viagens. Ao contrário de todos os meus alunos. (Se você perguntar para um jovem universitário as três coisas que ele faria se ganhasse na loteria, pode ter certeza de que uma delas será “viajar”. Desde 1992 faço essa pesquisa, nas várias universidades em que trabalhei, e o sonho da viagem está sempre lá.)

Comigo não. Nem hoje nem no tempo que eu tinha vinte e poucos anos eu colocaria viajar na minha lista de desejos. Viajei demais quando era pequena. Tenho a sensação de que vai cair uma bomba no caminho e nunca mais vou poder voltar para casa. Tenho pesadelos frequentes em que estou num carro desgovernado, ou sem faróis, ou onde não enxergo o caminho.

Felizmente, no dia em que vi a kombi amarela, soube escutar uma vontade nova. E lembrei de rir com Sancho: “Quem erra e se emenda a Deus se encomenda!”

Sobre o desenho: Linhas feitas no local em um caderninho com canetas de nanquim Uni-pin 0.4, 0.1 e 0.05mm. (Tirei um foto com celular para lembrar das cores depois.) Pintei em casa com aquarela e caneta-pincel waterbrush da Pentel. A versão original está mais simpática do que essa scaneada… Não consegui dar o tom certo no computador… mas tudo bem. Como diria vovó Trude, o “bom é inimigo do ótimo”.

Sobre a frase de Sancho: está na p. 428 da minha edição de Dom Quixote de La Mancha, de Cervantes (Ed. Abril Cultural, 1978, trad. dos Viscondes de Castilho e Azevedo). Essa semana tive o privilégio de assistir a palestra da professora Maria Augusta Vieira (USP) sobre a história da recepção desta obra no Brasil, na Casa de Rui Barbosa. Foi o máximo! Mas no final fiquei triste porque ela disse que a minha edição era bem ruinzinha e que eu devia reler tudo no original! Ai ai, como às vezes é melhor a ignorância… (Prometo mais D.Q. em breve!)


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Irmãos e irmãs de Shakespeare

metro passageiros turp“A maior de todas as libertações é a liberdade de pensar nas coisas em si”, disse Virginia Woolf, em 1928, numa conferência para mulheres. Vamos imaginar, ela diz, o que aconteceria “se Shakespeare tivesse tido uma irmã maravilhosamente dotada, digamos, Judith”. O irmão aprende os clássicos, latim, álgebra, torna-se um grande autor, encena para a rainha da Inglaterra. Judith não vai à escola, mal chegam-lhe os livros, aprende a cozinhar e a remendar meias; seu pai almeja um marido rico. Ela se recusa, foge de casa; quer escrever, criar, atuar! Todos riem. Desprezam a ideia de que a irmã de Shakespeare possa ter sonhos e talentos. Judith por fim descobre-se grávida de um oportunista e se mata numa noite de inverno.

Mulheres não podiam ter a genialidade dos homens naquela época, como nem hoje podem trabalhadores, humildes ou operários — perguntem ao bispo!, ironiza Virginia. Mas ela não quer esse destino.

O talento é andrógino, escreve Virginia. O artista precisa da mente livre. E a liberdade, acreditem, é uma renda modesta e um quarto com chave na porta. É o poder de contemplar e de pensar por si mesma.

É por isso que me comovem e é por isso que desenho os passageiros andróginos do metrô. Penso que são todos parecidos com Judith. Irmãos e irmãs de Shakespeare, aprisionados em seus destinos de transporte e sobrevivência. Virgínia pergunta à sua platéia se está sendo injusta. “Podemos tagarelar sobre a democracia, mas, na verdade, uma criança pobre na Inglaterra tem pouco mais esperança do que tinha o filho de um escravo ateniense de emancipar-se até a liberdade intelectual de que nascem os grandes textos. (…) A liberdade intelectual depende das coisas materiais. E as mulheres sempre foram pobres, não apenas nos últimos duzentos anos, mas desde o começo dos tempos.”

Amo em Virgina seu gosto pelos aprisionados, pelas mulheres, pelo anonimato, pelo medo de escrever, pela inteireza. Ela lembra que os bilhões de seres humanos um dia foram gerados, alimentados e criados por suas mães. Ela chama de poetas todas as Judiths que não podem estar na sua platéia porque “estão em casa lavando a louça e pondo os filhos para dormir”. E nos convida a lutar, mesmo na pobreza e na obscuridade, para que um dia a irmã de Shakespeare nasça, viva e escreva sua poesia.

Foi pensando nesse texto de Virginia Woolf, que tanto impactou a minha vida de leitora, que trouxe esse desenho com os passageiros do metrô, os tranquilos e os cansados, os idosos e os leitores, os pais e as mães com seus filhos no colo. São mulheres que acordaram sem vontade de acordar, são funcionárias aflitas, professoras desanimadas, homens de olhar perdido, jovens entusiasmados ouvindo música. Eles me fazem companhia todos os dias; e me lembram de ser humilde, de que sou apenas mais uma nesse vagão.

Sobre o desenho: Fiz os passageiros a partir da observação direta, nos vagões do metrô entre as estações Botafogo e Uruguaiana, ao longo de seis páginas (uns dez dias) em um caderninho cinza, com caneta nanquim 0.1 mm ou 0.4 mm. Hoje escaneei as imagens e alinhei os diferentes tamanhos com a ajuda de um cut&paste no Photoshop (onde também joguei uma tinta meio cinza azulada em tudo). Tinha pensado em redesenhar cada uma das figurinhas para deixá-las uniformes e icônicas, mas depois resolvi que era mais congruente com o texto manter as imperfeições.

Sobre o texto citado: livro de Virginia Woolf, Um teto todo seu (ed. Nova Fronteira, 1985, tradução de Vera Ribeiro.) A publicação original é de 1929 e tem um título lindo: A room of one’s own. Li pela primeira vez esse livro em Belém (PA) numa versão xerox tirada na biblioteca da Uerj no início dos anos 1990. Em 2004, felizmente a Nova Fronteira lançou uma nova edição que comprei para dar de presente para todas as minhas amigas que ainda não tinham!


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Chocolate de vidas passadas

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Quando um relacionamento ruim acaba, você chega à conclusão de que não sobrou nada. Nem saudades, nem falta, nem arrependimento pelo adeus, nem lágrimas. Você não consegue nem ao menos se lembrar do sentimento que um dia te levou a namorar aquela pessoa. É como se fosse uma vida passada, e você não acredita em vidas passadas.

Um dia, seus filhos já não tão pequenos, curiosos, ficam fazendo perguntas sobre a sua vida amorosa. Crianças são boas de fuçar a vida alheia. Não se intimidam com palavras, pois percebem que suas caretas e olhares desviados contradizem o distraído “Não me lembro”.

Eles dizem: “Lembra sim! Vai, diz o nome, conta aí, como foi, como era, por que terminou??”

Ok, respondo: “Dessa pessoa, só sobrou desprezo e… quer dizer, pensando bem, sobrou uma receita de bolo de chocolate; a receita do bolo de chocolate que vocês adoram.”

E afinal, festejo com eles essa pequena alegria: um relacionamento com a pessoa errada até que deixou uma herança tão boa!

A receita da ex-futura-nunca-sogra virou um “clássico” da minha família e até hoje se espalha pelas casas dos amigos que um dia a provaram: um bolo de chocolate que nunca dá errado e que pode ser feito no liquidificador! O bolo virou a nossa tradição inventada particular… rs

Para uma mãe como eu, em semana de aniversário de filha e em final de semestre no trabalho, uma receita é o máximo que posso oferecer aqui neste blog, na tripla categoria de coisa gostosa, útil e prática:

Bolo de Chocolate (de Vidas Passadas)
Ingredientes:
150 gramas de manteiga sem sal ou margarina (Esse bolo é do tempo em que não existia denúncia de gordura trans. Costumo esquentar um pouquinho a manteiga no microondas para ficar mais mole — só uns 10 segundos!)
2 xícaras açúcar
3 ovos
2 xícaras de farinha de trigo (sem fermento)
1 xícara de leite
1 xícara de chocolate em pó (infelizmente tenho que recomendar aqui aquele da caixa vermelha com a foto do padre, da Nestlé-arg)
1 colher de sopa de fermento em pó (ou uma tampinha cheia, se for usar o fermento Royal, pois 1 tampa = 1 colher de sopa. Prático, né?)

Como fazer:
Forma & forno: Antes de tudo: prepare uma forma média forrando-a com manteiga e depois polvilhando-a com farinha; e acenda o forno para aquecer em temperatura média-baixa. (Se for seu primeiro bolo, ou se você não confia no seu forno, prefira formas baixas e largas, que tornam a tarefa de assar menos arriscada. Bolos altos exigem fornos de boa qualidade e temperatura estável, coisa que os fornos caseiros geralmente não são.)

Massa: Bata numa batedeira (ou no liquidificador) os ingredientes, começando pela manteiga e o açúcar e depois acrescentando os líquidos e secos alternadamente (fermento por último). Deixe bater até fazer bolhas de ar na massa.

Assar: Derrame a massa na forma untada (e dê umas batidinhas com a forma na bancada, para a massa assentar). Leve ao forno para assar. Demora uns 45 minutos mais ou menos. Paciência… Espere sentir bastante cheiro de bolo assando antes de dar uma olhadinha. Para ver se já está na hora de tirar do forno, teste no meio com um palito. Se o palito sair seco, está pronto!

Calda:
A receita da calda maravilhosa é da minha irmã e não vou dar aqui porque é muito difícil — só ela saberia explicar para ficar boa mesmo. Na atual conjuntura, eu uso cobertura de bolo pronta da marca Leite Moça. Sei que minha irmã não aprovaria… mas quem manda inventar uma calda que dá mais trabalho do que o bolo!

Sobre o desenho:
Fiz dois bolos hoje, e deram certo :-). Para o desenho, usei um pedaço de caixa de papelão que arranjei no supermercado Mundial. Para garantir que tudo caberia no espaço (uns 25 cm), tracei um esboço a lápis, depois passei canetinha preta Uni-pin 0.4mm, caneta Posca branca e lápis de cor. Para o título, usei caneta marcadora de CD preta. Foi divertido armar uma “natureza morta” como faziam os pintores flamengos, e descobrir como é difícil desenhar uma caixa de ovos transparente! Me enrolei toda. A ideia é totalmente inspirada (copiada, vá lá…) no que vi no site They Cook and Draw, em especial, no trabalho da ilustradora Koosje Koene, que também tem um blog muito simpático, que conheci através do Danny Gregory.


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A colecionadora de selos

colecionadora de selos desenhos

Na semana passada, minha filha Alice chegou em casa irritadíssima, aos gritos: “Mãe eu quero brincar! Eles não me deixam brincar!!!! E eu quero brincar!!!!! Eu quero brincar!!!!”

Fiquei maravilhada, admirando a potência da menina-criatura que bradava como um Titã: “quero diversão! balé! arte!”

E pensei no meu avô e sua máquina perfotrônica que media o espaçamento do denteado dos selos de sua coleção (daquelas figurinhas que usávamos para postar cartas no correio). Um dia ele me ensinou: é imprescindível na vida de um filatelista ter um sensor eletrônico desses ou seu equivalente manual, um odontômetro.

Contar picotes, explorar impressões e filigranas, avaliar cores e estampas, identificar carimbos e gomas, localizar datas de emissão — todos esses eram pequenos prazeres na vida do meu avô. Pinças, lentes, charneiras, envelopes finíssimos e transparentes, álbuns com gravações em relevo, cantoneiras, catálogos e mais catálogos.

A mágica não estava no lucro, mas na atividade cotidiana, no cuidadoso processo de molhar as cartas para retirar suas preciosas estampas e coloca-las para secar a salvo das crianças. Nas consultas incessantes aos livros em busca da identificação precisa. Na compra de novas quadras, blocos, sanfonas, cadernetas ou folhas. Nas pequenas e grandes decisões de organização. Nas memórias de cada peça, no cultivo dos tesouros, no lamento das perdas, na admiração das lindezas e raridades, na excitação de uma nova conquista.

Meu avô era um homem que amava os selos. Tinha um pequeno escritório que era sua Bat-caverna, um lugar para entrar e sair na ponta dos pés, mas também para sentar no colo, prender a respiração e admirar. As lentes, as luzes especiais, as pinças e os delicados papéis por todo lado.

Mais tarde surgiram meu tio e suas miniaturas de metal. Lá vinha outra versão da vida sob lentes grossas, luzes fortes e mesas cheias de materiais e instrumentos mágicos. Encantamentos, segredos e belezas, dessa vez não apenas em coisinhas compradas e colecionadas, mas fabricadas pelas suas mãos de ourives.

Os objetos da vida cotidiana surgiam em réplicas que pareciam ter comido os biscoitos de encolher da Alice (não a minha, a do País das Maravilhas): regadores, chaves, flores, estrelas, corações, colheres, moscas, raios, lagartos, bonecas e até os próprios biscoitos, reduzidos aos menores tamanhos que podemos imaginar.

Por que nos deliciamos tanto com essa vida de mentirinha, esse faz-de-conta auto evidente?

Simples, diria a Alice (a minha Alice): “Queremos brincar!”

Ao começar a pintar ontem, de repente, olhei para minha mesa com outros olhos. Lá estavam dezenas de canetas, com suas espessuras, origens, tintas impermeáveis ou não, resistentes, frágeis, que deslizam ou resistem, caras e baratas, de diferentes países e origens… E vejo os pincéis e seus pelos que aprendi a identificar, com suas idiossincrasias e comportamentos, conforme a qualidade das tintas, nanquins e aquarelas em que mergulham… E ainda massas, pós, bastões, fluidos, químicas, papéis e cadernos…  E finalmente a peça sem a qual nada disso seria tão mágico: uma luz especial só minha, que vem dentro de uma caixa, e me lembra as luzes de ver selos e de fazer jóias, mas também as dos palcos e dos camarins, as luzes de brincar.

Sobre esse desenho em preto e branco: de início, achei que seria mais uma silhueta feita rapidamente na minha viagem diária do metrô, como as que fiz para o Prosa. O primeiro traço foi feito diretamente no papel (no mesmo caderninho comum que está morando na minha bolsa) com uma caneta de nanquim permanente Uni-pin, espessura 0,1 milímetro (caneta de origem japonesa, mas facilmente encontrável em qualquer boa papelaria no Rio de Janeiro). No mesmo dia à noite, resolvi cobrir parte do desenho com nanquim preto (não, nem todos os nanquins são pretos!). O rosto da moça tinha detalhes tão pequenos que eu deveria ter uma lente especial para isso (um dos instrumentos mágicos que me faltam!). Mesmo assim, não desisti. Usei três pincéis de espessuras 12, 7 e 4, sendo o mais delicado deles um Winsor & Newton Series 7, comprado pela minha mãe em Nova York (são caros, uns 40 dólares), e cujo valor aprendi a reconhecer quando fiz um curso de introdução à aquarela na ilustração botânica. Não persisti nesse tipo de técnica, mas toda as vezes que desenho algo assim detalhado e preciso, especialmente um rosto — onde um erro de um milímetro vale por um quilômetro (disse um grande artista) — sinto-me novamente brincando no colo do meu avô, olhando o mundo como se fosse eu a colecionadora de selos.


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Lagartas azuis

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Hoje peguei um pacote perdido de biscoito creme-craquer-com-gergelim no armário. Na dúvida, dei uma olhada no prazo de validade, pra meados de 2014 (ainda estou conseguindo ler esse tipo de informação, ainda que por cima, ou por baixo, dos óculos, oh idade). Abri o pacote e, bem naquele instantinho antes da primeira mordida, lá estavam elas: lagartinhas se movimentando pra todo lado. Não fiquem com nojo, ainda.

Nojo foi quando comi várias, que fizeram o favor de vir acompanhando umas ameixas caríssimas que comprei no Zona Sul quando estava grávida da Alice. Eu toda me achando, comprando ameixa importada. E toca a ligar para médico, clínico geral, gastro, obstetra, até pediatra… — “doutor, tô grávida, comi umas lagartas nojentas!! e agora?” E todos muito blasés, uns mais íntimos até rindo e parecendo o meu padrasto nos seus dias de humor negro: “Que nada, é proteína!! Vai até fazer bem pro bebê.”

Mas fiquei tão enfurecida que fui pra delegacia dar queixa… O pobre do gerente já tava até demitido quando chegou o dia da audiência de pequenas causas e a coisa não deu nada em nada. Ou melhor, deu que as lagartas do Zona Sul continuam felizes comendo suas ameixas e biscoitos, e a gente que deixe de frescura.
E por que escrevo sobre isso?? É que as lagartas no biscoito me lembraram dos meus dias de fúria e de tristeza… e de como essa coisa de desenhar e escrever e outros talentos que a pessoa tenha são nossas tábuas de salvação…
É por isso gosto tanto dos textos do Arthur, dos dias de chuva, dos contos que meu amigo Mauro deveria estar escrevendo, e do Mário e do Ruy Castro e de todos os doidos que eles biografam, enfim, dessa gente que cheira, chora, bebe, se mata e no meio disso tudo cria coisas. (Mas tão aí a Lygia Bojunga e a Sylvia Orthof provando que podem ser maneiras de um jeito um pouco menos auto-destrutivo.)
Então já vou desescrevendo o post da semana passada. Nada de blog bem-humorado p* nenhuma. Senso de humor, ok. Mas bom humor o tempo todo não dá. Hoje estou mais para Familia Addams… A cena da Wandinha acabando com o acampamento wasp vale mil filmes da Disney.
Vejam que esse blog não tem coerência alguma. Começou todo amarelo e animado. Depois ficou vermelho. E agora chegou na cor num azul bem fundo… que é de piscina e felicidade, mas também é dos olhos e da alma cheia d’água… que é como a gente fica quando pensa nos desencontros, nos malditos que morreram cedo demais, nos malucos que resolveram pirar em vez de deprimir um pouco menos, na pobreza no Maranhão e na Etiópia (que ainda por cima agora eu conheço pelos desenhos do Manoel João Ramos, outro que sofreu perdas demais para uma vida só, e fez alguns dos livros mais lindos da antropologia atual.)
Afinal, esse blog é sobre o que? Sobre mim é que não é. Que não sou novaiorquina nem nada para querer um blog “about me, by me, myself” (título, aliás, de um livro maravilhoso do Dr. Seuss que não vou linkar aqui porque pretendo escrever sobre ele em breve).

Fico devendo a resposta num próximo post. Vou tentar trazer alguma coisa útil. Utilidade é fundamental.

Pensando bem, aqui vai a primeira coisa útil que publico: “não comam nada comprado no supermercado Zona Sul antes de dar uma boa olhada para ver se as lagartinhas chegaram primeiro!”

E para não dizer que sou caótica: os posts principais saem em algum horário às quartas-feiras. (Porque a quarta é o melhor dia da semana: nem tão segunda para dar cansaço, nem tão sexta para nos trazer aquela obrigação de se divertir.)
(E se alguém tiver ideia de dia melhor, me avise. E se alguém tiver saudade de ler alguma bobagem, fique de olho no histórico, pois vou postar coisas antigas em datas antigas e ir acrescentando algumas páginas fixas, como a “Do blog e de mim“.)
Sobre o desenho azul:  No meio da piscina, minha filha e seus dois amiguinhos em momento de felicidade extrema. Fiz o desenho no sábado (16/11/2013) em um caderninho simples, com uma caneta preta Pilot bem comum. Depois pintei em casa com aquarela cor Ultramarin e, quando a tinta secou, desenhei por cima com caneta Posca branca. Para a versão digital, tive que acrescentar um pouco de saturação com o Picasa, pois o scanner sempre estraga os azuis. (Fiquei mais conformada com isso depois que li em vários blogs de artistas-de-verdade que eles enfrentam o mesmo problema. E tive aquela sensação que, afinal, todos precisamos ter quando estamos nos sentido azuis por dentro: “Ufa, não sou só eu.”)


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Arrependimento terrível (um meta post)

rua vermelhaA pessoa que tem certos amigos deveria colocar um aviso no espelho do banheiro: “Não mande mensagens noticiando criação de blogs para pessoas brilhantes. Depois, não diga que não avisei.”

Como continuar escrevendo despreocupadamente?

“Bugou geral”, diria o Antônio. Bugou o meu cérebro. Pensei em mil posts e não consegui publicar nenhum. Quem mandou misturar crise de meia idade com delírios criativos? Então aí vai o disclaimer:

“Amigos escritores e ilustradores incríveis: por favor, parem de ler aqui. Desde já agradeço a atenção e as mensagens gentis. Podem ir fazer coisas mais importantes, please.”

Ok, agora já posso escrever e desenhar para o vácuo, que era exatamente o propósito inicial desse empreendimento. Para os que insistirem em ficar (sim, meus filhos e minha mãe ficaram!) , e para ter o que dizer na página que o WordPress me obriga a criar “Sobre este Blog”, aí vai:

“Este é um blog que só deveria ter textos informativos e bem-humorados. A autora promete não (d)escrever seus pensamentos erráticos, com os quais ela própria já tem bastante dificuldade de conviver. Os desenhos ela não sabe explicar, mas promete que virão sempre com um making of. A ‘santa padroeira’, como definiu um leitor, é a Lygia Bojunga. E tudo segue uma espécie de dogma-95-do-desenho ou, como diria a vovó Trude-Orthof, o dogma do ‘só erra quem faz’.”

O desenho acima foi feito num caderninho comum. A página da direita foi pintada de vermelho com tinta Ecoline (aquarela líquida pronta) e, depois de seca, desenhada com uma caneta preta tipo marcador permanente (aquelas de escrever em CDs). A paisagem é inspirada no centro antigo que vejo da minha janela no IFCS. Deixei a página da esquerda em branco para mostrar de propósito as partes mal acabadas, as manchas (desenho do meu gato na página anterior) e o caderno como suporte. Foi uma forma de me lembrar do que disse a minha amiga Roberta outro dia: para ensinar e aprender, precisamos ver o mundo com o que sabemos, mas deixando espaço para o que não sabemos.