Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas

JB

Juva Batella (1970-2022)

Links para os meus textos e os de todos que amavam o Juva.

Luto — “Uma única pessoa está ausente, mas o mundo inteiro parece vazio.” (Phillipe Ariès) No dia 9/4/2022, às 11:50h da manhã, faleceu meu companheiro de amor e de vida, Juva Batella. Ao contrário da Joan, que passou seus primeiros meses de luto tentando entender se havia algo que ela pudesse ter feito para evitar a morte do marido, sinto-me serena quanto à inevitabilidade do que ocorreu. Não havia nada que alguém, máquina ou medicamento pudesse ter feito. Ele precisava da cirurgia, ele marcou a data, e fomos avisados dos imensos riscos. […continua aqui]

Carta de despedida (13/6/2022) — Eu e Juva nos conhecemos na PUC-Rio, em 1990. Nos tornamos amigos, o que foi grande privilégio para mim e todos que o conheceram, como vocês sabem bem. Nossa amizade e nosso amor passavam pela palavra: líamos juntos, trocávamos cartas, fundamos um clube de literatura por e-mail, digitamos SMS no início do namoro, milhares de zaps e dezenas de bilhetinhos que escondíamos um nas coisas do outro. Remexendo em nossos papeis, encontrei uma troca de cartas de 1993, sobre amizade. Eu reclamava de amigas se afastando e lhe escrevi: “…com você é diferente. Acho que fizemos um laço bem largo, que dá para esticar no espaço e no tempo, sem medo de arrebentar.” […continua aqui]

Feliz aniversário, amor ♥ (13/6/2023) — “Hoje é teu dia”. Era uma vez um menino que nasceu no dia de Santo Antônio e no dia de Fernando Pessoa. Parou de chorar aos 7 anos, bateu no Fofinha aos 12, conheceu Kau e Te aos 18, escreveu 11 livros, amamentou 2 filhas, adotou outros dois, deu de fumar à Pinga, tocou bateria-bongô-e-carron, foi Pai Noel 17 vezes, teve 587 melhores amigos, 39 irmãos e irmãs. Foi o mais feliz, amoroso, gentil, e engraçado pai e companheiro pra Alice B, Clara, Tê, Antonio, Alice K. e pra mim. Dormiu um bom terço da vida. Gostou tanto de dormir que resolveu dormir mais um bocadinho. Virou o beija-flor que aparece na janela, o vento que traz frescor, a ideia que surge de madrugada, a magia dentro de um livro, o quentinho doce que invade quem pensa em ti. […continua aqui]

Outros links

Sobre o blog do Juva — link aqui
Sobre nosso livro juntos — link aqui e aqui
Posts com a hashtag #juvabatella — link aqui
Blog http://www.juvabatella.com/

Homenagens de familiares e amigos – 2022

Meu pai, por Alice Batella

Pai, por Clara Batella

A estrela de Juva, por suas filhas e família Trigo de Negreiros

Para Juva, por Karl Eric Schollhammer

Um retrato de Juva Batella à luz de suas paixões, por Sofia Sousa Silva

Ao amigo Juva, por Eduardo Diniz

O mel e a flor, por Joaquim Miguel Trigo de Negreiros

Juva querido…, por Mário Trigo de Negreiros

Queria estar aí contigo…, por Eva Gaspar

Falar do Juva é fácil…, por Bruno Gaspar

Hoje se foi…, por Alexandre Pereira

Certa vez você esqueceu…, por Cilene Vieira

O meu querido…, por Eurídice Gomes

Vem das sátiras de Juvenal…, por Gustavo Poli

Foi amor à primeira vista, por Vinícius Antunes (Cacofonias)

A tua delicadeza, por Carolina Massote

A vida é curta a vida, por Fernando Luna

Um por do sol pra você, por Mariela Castro Santos

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Textos das homenagens de 2022

Meu pai, por Alice Batella

Sinto-me estranha a fazer esta publicação, mas sinto que é uma boa maneira de homenagear a melhor pessoa que já conheci.

Não sei bem o que escrever, a dor não me deixa pensar, no entanto vou fazer o que o meu pai sempre dizia: sentar e escrever.

O meu pai era o meu melhor amigo, e o melhor amigo de toda a gente. A minha maior luz, a minha maior força e alegria.

Felizmente vejo-o em muitas pessoas à minha volta, pois ele conseguiu amar, influenciar e conquistar qualquer pessoa com que se cruzou.

Vejo-o na minha mãe e na Clara, vejo-o pelo Rio de Janeiro e por Lisboa, e em cada livro que leio.

Vou tentar cada vez mais ser como tu, pai, gentil, amável, corajosa e a melhor pessoa possível.

Quando o meu pai era criança, perguntaram para ele a razão de estarmos na terra. Uns responderam “para evoluir”. O meu pai disse que era “para amar”.

Ainda não acredito, pai, foi tão de repente. Mas com a tua força sei que vou conseguir.
Estás sempre comigo.
Olha por nós, pai-lindo-flix-TRANCS.
Serei sempre a tua Pipoflex ❤️

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Pai, por Clara Batella

Pai,

Sempre foste um homem que vivia de palavras e quando eu era pequenina inventamos 4: nhurst, skenetfuts, tubsterrunda, flic flic.

A nenhuma delas atribuímos um significado, mas não foi preciso. Nós os dois sabíamos exatamente o que significavam: amor, força, confiança e felicidade.

Eu amo-te muito e sempre te amarei. Tava com medo de ao longo do tempo me ir esquecendo de ti, mas é impossível. Eu vou sempre te ver no Trigo d’Aldeia, em qualquer filme que eu veja, em cada esquina que eu passe, a cada coruja que eu vir e a cada vez que eu me vir ao espelho.

Tu foste o melhor pai que eu alguma vez podia ter pedido, e, apesar de terem sido apenas 15 anos, foram 15 anos cheios de risos, palavrões, festas, filmes e amor, muito mas muito amor.

Aprendi mais contigo do que com com qualquer outra pessoa, e tudo o que me ensinaste vou continuar a seguir na minha vida.

Obrigada pai por todo o carinho que me deste a mim, à minha irmã e a todas estas pessoas que estão aqui hoje, e aqueles que estão longe mas que estão contigo. Foste um homem muito amado e para sempre serás. Tu eras a única pessoa que me poderia ajudar nesta situação, mas eu sei que estarás sempre aqui a olhar por mim e a lembrar-me de ir escovar os dentes.

Tu es único, a maneira como as pessoas se apaixonam por ti depois de uma conversa de 3 minutos, a maneira como tu adoravas ser o centro das atenções, e a maneira como tu distribuías todo este amor e carinho para o mundo inteiro. É o meu maior orgulho ser a filha deste homem maravilhoso que foste.

Eu amo-te muito e contigo deixo-te as nossas palavras, nhurst, skenetfuts, tubsterrunda e flic-flic, para te dar todo o amor, carinho, força e felicidade que tu me deste ao longo destes anos.

Agora despeço me de ti, não completamente porque isso nunca vai acontecer, com o nosso cumprimento.

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A estrela de Juva, por suas filhas e família Trigo de Negreiros

O Juva diria repetidas vezes que tinha uma “boa estrela”. Apesar das incontáveis mazelas físicas com que se deparou desde o nascimento – motivo de preocupação constante para nós e de dores as mais variadas para ele-, nunca deixou de acreditar nesta sua “boa estrela”

Diante de qualquer adversidade, encontrava sempre um ângulo positivo e remetia para essa ideia, constitutiva da sua forma de estar no mundo, a ideia de que tudo iria ficar bem, com ele e com aqueles de cuja felicidade dependia a sua própria felicidade, porque, afinal, ele tinha esta tal “boa estrela”.

E, de fato, a tua, Juva, é a melhor, a mais brilhante das estrelas: tens a estrela do amor. É fácil amar-te. És a pessoa mais fácil de amar que já conhecemos. E o que te faz assim é a tua capacidade não só de dar mas também de receber amor.

Não deveria por isso nos surpreender a imensa onda de amor, generosidade, acolhimento, gentileza e amizade verdadeiramente extraordinária que nos tem a todos arrebatado nesses últimos 30 dias.

Em torno de ti, o amor irradia por todos os lados. Estavas certo, Juva, é mesmo uma boa estrela esta que te acompanha!

Hoje, sentimos esta tua “boa estrela” a brilhar com ainda mais força. Comovemo-nos diante da nossa própria capacidade de amar e de receber amor, procuramos, a cada dia, ser mais como tu; mais amáveis, generosos, acolhedores, gentis e amigos. É a maneira de estarmos contigo.

Tornaste-te na nossa “boa estrela”, e em cada um de nós hás de continuar a brilhar eternamente.

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Para Juva, por Karl Eric Schollhammer

(Lido no dia 10/5/2022 muito afetuosamente por Domingos Guimaraensb♥)

Estamos aqui hoje lembrando de Juva, atravessando a tristeza inevitável. Nunca vi Juva triste. Ele era uma pessoa de um bom humor permanente e contagioso que encantava a todos. Sempre fazendo piadas e animado querendo compartilhar uma leitura ou puxar uma boa conversa pelo puro prazer de conversar.

Nos conhecemos em 1998, quando ele entrou no Mestrado na PUC. Na mesma turma encontrou o Mauro Gaspar, que se tornou seu amigo, parceiro e uma espécie de irmão também. No primeiro dia na PUC, os descobriram que tinham chegado ali com o mesmo plano de estudar a obra de Campos de Carvalho. Qual à probabilidade de algo assim ocorrer? Acho que era menor do que cair o raio no mesmo lugar. Campos de Carvalho ainda estava muito esquecido naquele momento. E essa foi apenas uma de tantas outras coincidências curiosas em torno do autor mineiro, coincidências que Juva interpretava como convites cifrados do autor falecido em 1992, depois de deixar quatro romances de uma liberdade criativa selvagem e irrefutável na literatura brasileira. Minha querida colega, Pina Coco, orientou Juva durante o mestrado e minha lembrança inicial dele é de um estudante que vivia a literatura com grande entusiasmo, de forma vital. Mal sabia eu então que ele já era escritor e romancista. Em 1994 Juva lançou o romance O Verso da Língua com o subtítulo intrigante Um romance Gramatical, uma das muitas brincadeiras sérias de Juva com a língua como principal personagem. Rapidamente passou de estudante querido a amigo.

Quando ingressou no doutorado com a firme intenção de escrever sobre a obra do tio, o autor João Ubaldo Ribeiro, Juva me procurou e combinamos a parceria. O parentesco com o objeto de estudo não facilitou em nada a pesquisa. A relação entre sobrinho e tio não era fácil, Ubaldo já era um autor canônico na literatura contemporânea e sua personalidade arisca e ciumenta dificultava a aproximação crítica. A admiração do sobrinho não encontrou condições de trabalho simples de manejar, e Juva se desdobrava para chegar à altura do ambicioso projeto que queria desenvolver.

Pesquisador dedicado e minucioso que era, ele decidiu passar uma temporada em Itaparica com a intenção de começar a pesquisar nas origens da obra do escritor baiano. Solicitou acesso ao arquivo de Ubaldo na Biblioteca Municipal de Itaparica, que resultou ser uma caixa enorme de papelão cheia de recortes de jornal bagunçados. A combinação foi que Juva para ter acesso ao material, organizaria e faria xerox de todo o arquivo antes de devolver aos cuidados da biblioteca para os futuros leitores e pesquisadores.

Lembro que inicialmente, a ideia de Juva era lançar mão das teorias da narratologia francesa numa abordagem bem estruturalista, sempre motivado pelo foco narrativo que ele viu concretizado no romance Viva o Povo Brasileiro como a “Almazinha Brasileira”. Pretendia seguir essa voz através da obra toda, naquele momento de 9 romances, como um fio fino que pudesse detectar a unidade da literatura do João Ubaldo. Nas palavras de Juva: “A almazinha surge nas primeiras páginas do romance e atravessa quatro séculos e algumas gerações, sempre a encarnar em pobres-diabos, índios tupinambás, negrinhas escravas maltratadas ou ainda soldados brasileiros mortos na flor da idade, como foi o caso do pescador e alferes José Francisco Brandão Galvão.”

Depois de um exame de qualificação de muita polémica, Juva jogou a primeira versão da tese no lixo e começou todo de novo. O resultado foi surpreendente. Talvez seja a tese mais original que passou por minhas mãos até hoje. Além de escrita em forma de diálogo socrático, o trabalho continha uma parte biográfica sobre João Ubaldo, narrada em forma inversa, como a novela de Alejo Carpentier “Viaje a la semilla”, começando no presente e indo até concepção. A ambição de Juva era tremenda, abarcava os nove romances de João Ubaldo, na perspectiva do que chamava do “narrador sem cabeça”, e acabou deixando o estudo até hoje mais completo da obra. Eram dois volumes, 533 páginas, e – como foi observado pela banca, formada pela Eneida Maria de Souza, Júlio Diniz, Marília Rothier e Zila Bernd, – impressionados pela empreitada do Juva – 1001 notas de pé de página e nenhuma correção gramatical ou ortográfica a fazer. Juva só almejava a perfeição! Em 2016, a tese foi editada como o livro Ubaldo, o mais completo e original estudo da obra.

No livro que Juva lançou a partir da dissertação com o título: Quem tem medo de Campo de Carvalho ele conclui que os quatro livros “se orquestravam no sentido de que se estabelecesse entre eles uma coerência: uma literatura de desabafo, crítica e inquieta, tendo por porta-voz um narrador que permanece teimosamente o mesmo, sob diversos disfarces.” Mas foi o próprio Juva que extraiu e de certa maneira formou essa unidade. Nos dois estudos a intenção era organizar sua compreensão das obras ao colocar no centro de interesse e da análise a própria língua portuguesa como prisma de interpretação. Não a língua castiça em “estado de dicionário”, mas a língua viva em constante mutação e aventura na boca dos desbocados. É o que Juva fez também no seu último romance – A Língua de Fora – lançado em Portugal em 2017, que traz como personagem principal a língua portuguesa, filha do rei latim vulgar, um rei conquistador que seduzia muitas línguas. Mas o rei latim sofreu um golpe de estado pelo verbo que é um tirano! E a língua portuguesa acaba presa e é criada pelo purismo e pelo preciosismo, duas figuras insuportáveis, isolada numa torre distante. O tom coloquial, que é o herói da história, descobre onde ela está e junto com a turma da língua de fora, que dá nome ao romance se une aos proscritos da língua – o barbarismo, o cacófato, o mal-entendido, o pleonasmo, o palavrão e as gírias- liberam a língua portuguesa que foge para cair na boca do mundo.

Para concluir gostaria de recontar aqui uma lenda que Juva narrou em várias ocasiões e que também serviu no seu trabalho para explicar o longo silêncio de Campo de Carvalho. É a lenda de uma sociedade africana, chamada os Dogon. Os Dogon acreditam no seguinte e pautam toda a sua existência a partir dessa crença: a de que a pessoa nasce com um punhado de palavras dentro da barriga e, ao longo da vida, vai falando e vai gastando as palavras que tem lá dentro de sua barriga. Quando todas as palavras acabam, a pessoa então morre. E é por isso, dizem os Dogon, que os mortos não falam. É por isso que os Dogon se reúnem à volta dos velhinhos que estão para morrer, na esperança, às vezes correspondida, às vezes não, de que os velhinhos tenham deixado para o final as suas mais importantes palavras, aquelas que, por serem as esclarecedoras do mistério ou dos mistérios da existência, ficaram por último. Às vezes nem a própria pessoa as conhece. Às vezes não é nada mais que um suspiro, ou um muxoxo, ou um espirro. Juva nos deixou antes da hora, porém suas palavras não se gastaram, deixou muitas que se preservam em livros e textos e que podemos e devemos ler e reler quando sentimos saudade de ouvir sua voz.

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Um retrato de Juva Batella à luz de suas paixões, por Sofia Sousa Silva

Há um poema de Herberto Helder que diz: “Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios, quando alguém morria perguntavam apenas: tinha paixão?”

Acho que em relação ao Juva esta pergunta é fácil de responder: antes de mais nada, o Juva tinha paixão pelas filhas, Alice e Clara, pelos enteados que se tornaram filhos, Antonio e Alice, pelas duas mulheres com quem se uniu ao longo da vida, em relações longas e profundas, Teresa e Karina, tinha paixão pelos amigos, e foi um cultor devotado da amizade, tinha um enorme amor pela música e pela literatura. Enquanto morou no Rio, a partir de certa altura, comemorava todos os seus aniversários na Livraria Argumento, onde havia uma estante separada com os livros que ele queria ganhar, variando desde bem baratinhos até livros caros, atendendo a todos os bolsos.

Tinha paixão pela “Toada de Portalegre”, de José Régio, na gravação do ator português João Villaret, poema que ele amou tanto que conseguiu decorar inteiro, com seus 246 versos, divididos por 18 estrofes, com refrões que vão variando. Sempre que uma oportunidade se insinuava, lá vinha ele: “Em Portalegre, cidade do Alto Alentejo, cercada de serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros, morei numa casa velha”. Etc. etc. (Por causa disso, eu mesma, logo que pude, fui conhecer a casa de José Régio em Portalegre, cidade do Alto Alentejo.)

Tinha paixão pela natação e vivia querendo que os amigos o acompanhassem no Flamengo e depois no Clube Militar. Poucos meses depois de o conhecer, e nos considerando desde o primeiro momento amigos de infância, aceitei o desafio e fui nadar no mesmo horário que ele, sacramentando assim a nossa amizade de infância, à qual não podia faltar a piscina, como ele dizia.

Tinha paixão por fazer surpresinhas e gentilezas para todo o mundo. Desde o bilhete para a camareira do hotel onde se hospedou elogiando o trabalho dela, ao presentinho para a caixa do supermercado, quando comprava para ela a bala que ela lhe tivesse recomendado como sendo a melhor dali. Era o amigo que nunca faltava a um lançamento de livro para que fosse convidado, que ia aos aniversários e fazia verdadeiras reportagens fotográficas, retratando todos os convidados, mesmo os que não conhecesse, para no dia seguinte mandar um email agradecendo a festa e enviando as fotos de todos, para registro.

Tinha paixão pela boa conversa, pelas tertúlias e saraus, e também pela boa mesa, da qual sempre saía dizendo que se sentia como “um senador romano decadente e dissoluto”, como lembrou o Mário, um dos amigos a quem estava unido por um amor fraterno.

Tinha paixão por desautomatizar as conversas rápidas de todo dia. Se era de manhã dava boa noite, no Natal desejava boa Páscoa e no Carnaval desejava feliz Natal.

Tinha paixão por ver todo o mundo sempre em harmonia e tinha horror ao conflito. Acho que acreditava que tratar bem as pessoas produzia melhores resultados do que ter embates, e que tudo se ajeitaria.

Tinha paixão por desenhar e escrever dedicatórias em livros. Considerava um ato incivilizado dar um livro de presente sem uma dedicatória.

Tinha paixão pela escrita e escreveu e publicou uma quantidade impressionante de livros, mais de uma dezena, desde romances, contos, livros para crianças até ensaios sobre literatura.

Tinha paixão por café, que só tomava de dia, e por vinho tinto, que só tomava à noite.

Tinha paixão por tornar o mundo mais bonito, mais poético. Qualquer bicho que aparecesse na casa que teve em Araras era logo batizado. Lembro que os quatro lagartos mais frequentes por ali eram o Euclides, o Euvaldo e os dois Robertos. As rachaduras nos vidros da porta de quadradinhos eram cobertas por tinta guache verde e se transformavam num caule, ao qual ele acrescentava uma flor.

Tinha paixão pelo povo Dogon e sobretudo pela ideia de que eles guardavam as palavras na barriga, e assim encarava o mistério da vida e da morte.

Foi sempre precoce nas suas paixões: cedo começou a escrever, cedo publicou e teve sucesso, cedo encontrou o amor. Não precisava ter partido tão cedo.

O seu múltiplo desejo e a sua paixão, uso agora uma expressão de Sophia de Mello Breyner Andresen, enriqueceram este mundo e a vida de cada pessoa que se cruzou com o Juva. Foi uma aventura maravilhosa e uma dádiva viver no mesmo planeta, na mesma língua e no mesmo tempo que esse imenso ser humano.

Para saudar então essa graça, e para terminar, recorro mais uma vez às palavras de Sophia de Mello Breyner Andresen, poeta de Portugal, país pelo qual o Juva também tinha paixão:

Era o tempo
Era o tempo das amizades visionárias
Entregues à sombra à luz à penumbra
E ao rumor mais secreto das ramagens
Era o tempo extático das luas
Quando a noite se azulava fabulosa e lenta
Era o tempo do múltiplo desejo e da paixão
Os dias como harpas ressoavam
Era o tempo de ouro das praias luzidias
Quando a fome de tudo se acendia

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Ao amigo Juva, por Eduardo Diniz

Nosso amado e inigualável Juva Batella tinha entre tantas qualidades a generosidade do perdão.

Ele dizia que culpa não serve de nada, mas sinto-me aqui nesta celebração impelido a pedir perdão ao Juva. Pelos meus silêncios quando ele me convidava à palavra, que  tanto amava, perdão pelo não-dito, pelo não-lido, por ter reagido mal quando a verdade que ele sempre docemente irradiava se impunha. Perdão, amigo, irmão.

Sua  passagem por nossas vidas, sua alma sempre repleta de suavidade, verdade e sabedoria, e tudo que vi em torno deste ser maravilhoso nos ensina que o amor, mesmo diante dos desafios mais duros e intensos, não deve ser adiado, mas constantemente exercido.

É um santo remédio. Dá sentido à vida e acalma a dor de nós que aqui  celebramos a sua eternidade.

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O Mel e a Flor, por Joaquim MIguel Trigo de Negreiros

Quando já não estiveres
Por cá
O sol, a chuva, o mar
Serão de ti
Arautos
Serão o teu sinal

Derrama sobre nós
O mel e a Flor
Vem, acalma a minha dor

Quando não te vir
Por aí
O vento há-de soprar
Trazer de ti
Notícia
Será o teu sinal

Derrama sobre nós
O mel e a Flor
Vem, acalma a minha

Dor
Que agora é o teu sinal
Derrama sobre nós
O mel e a Flor
Vem, acalma a nossa dor

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Juva querido, por Mário Trigo de Negreiros

Juva querido,

Amo-te e quero fazer a declaração pública do meu amor por ti.

Estou treinado em amar à distância e vou continuar a amar-te a esta que é a maior das distâncias.

É fácil amar-te. És a pessoa mais fácil de amar que já conheci. E julgo que o que te faz assim é a tua capacidade de receber amor (coisa que, por mais fácil que te possa parecer, não é assim para toda a gente).

Estar disponível para receber amor é a maior inspiração que me dás, e hei de recorrer, por toda a minha vida, à tua inspiração – é uma maneira de estar contigo.

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Queria estar aí contigo…, por Eva Gaspar

Queria estar aí contigo. agora. Mas sinto-te aqui. Comigo. Inteirinho. Meiguinho. A entrar Oh da casa!, com um abraço quentinho, massagem no pescoço, Eva-flor… a espreitar na panela para adivinhar o jantar, a bebericar um vinho num copinho de café, a planear um regresso às noites longas na carrapateira…O criador estava inspirado quando te criou e tu criaste uma rede de eterna inspiração em nós. Tanto amor, tanto carinho, tanta generosidade, tanta superação, tanto vamos fazer o melhor com o que há, rir e concluir ser até charmoso andar de chinelo de dedo no inverno de Portugal. Que privilégio, meu querido irmão. Que honra. Que bênção! Obrigada por te teres cruzado no meu caminho. No caminho dos meus filhos. És pedra firme da minha calçada até ao fim dos tempos. A cada minha passada o teu coração também bate.

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Falar do Juva…, por Bruno Gaspar

Falar do Juva é fácil, tao fácil como era estar com ele. Quando o encontrávamos podíamos ter a certeza que íamos para um ambiente em que tudo era leve e incrivelmente carinhoso: Tinha uma alcunha personificada para toda a gente e aproximava nos sempre com um “querido” ou “querida”; podíamos tar à espera de receber sempre um cumprimento característico dele, desde um grande abraço nos quais os braços já estavam abertos muito antes de ele chegar, ou uma vénia ou até uma das suas poses de combate pouco ortodoxas. Bastava pouco para sabermos o quão especial era. Éramos facilmente desarmados com a sua bondade e a vontade de fazer com que os outros se sentirem em casa.
Foi uma sorte ter conhecido o nosso Juva e vou transportar para sempre a capacidade única que tinha de unir as pessoas, com a sua energia positiva e brincalhona que ele fazia questão de partilhar com o máximo de pessoas possível. Quando se estava com ele queria se fazer parte da forma de viver dele. Juva era contagiante e vou fazer o melhor possível para continuar a contagiar da forma como só ele conseguia fazer. Vou ter muitas saudades do nosso querido Juvex.

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Hoje se foi…, por Alexandre Pereira

Hoje se foi uma das pessoas mais adoráveis que um ser humano pode ter a sorte de conhecer na vida. Conhecer já é sorte. Ficar amigo é um privilégio. E se essa amizade vira uma relação de quase irmãos… Ah, meu caro, aí é pra você se gabar. Juva nasceu diferente, com uma condição que limitou muito as ações de seu corpo. Mas essa limitação ele compensou, lindamente, expandindo os horizontes de sua cabeça e, principalmente, de seu coração. Ninguém, como ele, sabia cativar as pessoas por onde andava. E a prova disso é a corrente de amor que se formou nessa última semana, em que seu corpo passou por grandes provações. Eu posso dizer, com convicção, que nunca vivenciei tanta gente diferente ligada espontaneamente num sentimento em comum. E tudo em torno dele. Não vou me cansar de repetir: foi um privilégio! Vai, Juvinha, cativar um pessoal em outra dimensão. Aqui você vai estar sempre vivo, não só em Alice e Clara, mas em tudo que aprendemos e continuaremos a aprender com você.

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Certa vez você esqueceu…, por Cilene Vieira

Certa vez você esqueceu o chapéu na editora e, durante meses, aquele companheiro diário me dizia “bom dia, querida”.

Nosso último zap foi em dezembro, no meu aniversário, falamos da saudade, mas vc seguia pra Lisboa e o café ficou pra volta…

Sabe, pensei, pensei (com medo de ser piegas, coisa que vc reprovaria rsrs), mas tenho que dizer porque é verdade: não conheço pessoa mais doce do que você. Mas também é verdade que não conheço pessoa mais segura, firme e determinada na defesa de seus escritos, fera na defesa dos detalhes.

Três livros juntos, alegrias que fizeram minha trajetória pessoal e profissional mais rica e bonita. Obrigada, querido.

Obrigada, Juva, pela amizade, pelos papos, pelos livros, pela doçura, pela lição de firmeza, pela generosidade e determinação.

Ter minha história marcada pela sua amizade e ter sido editora de 3 livros seus é uma honra me faz mais feliz.

Seguiremos mais bonitos e fortes porque cá estiveste. Abraço apertado e com amor pra Karina e Telma neste domingo triste.

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O meu querido…, por Eurídice Gomes

O meu querido doce amado eterno amigo. O Juva-juvex-apex, o meu abraço do tamanho do Atlântico agora feito de lágrimas que não terei nunca como saber se lhe chegou. O meu amigo de tantos anos, livros, festas, visitas. O meu querido Juvex, dos encontros felizes. O meu querido Juva, feito de luz e prosa. Meu querido Juva. A dor de te ver partir não será maior que a de te ter tido comigo. Diz-me só como.

(13/6): Há 2 meses, a vida mais generosa e surpreendente foi interrompida. Num dia o Juva estava vivo, enviava whatsapps, publicava no instagram. No outro, eu vasculhava os confins da internet, com o coração na boca, um desmentido categórico daquela notícia que só podia ser uma brincadeira do próprio. Ou verdade. Com um oceano pelo meio, nunca contemplei a possibilidade de não voltar a vê-lo. Quantas vezes foi e veio, nunca deixando de regressar a nenhum lado onde o esperávamos?, não havia razão nenhuma para que o mundo deixasse de girar como sempre fizera. O Juva nasceu a 13 de Junho, falámos sobre isso na nossa primeira conversa, a mesma em que decidimos que íamos ser amigos pa/r): a sempre.

Juva, se estás a ler isto, sê amigo e diz com franqueza: como é a caipirinha aí? Se for com aquele açúcar líquido, anda-te embora e procuramos outro sítio.

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Vem das sátiras de Juvenal…, Gustavo Poli

Vem das sátiras de Juvenal, o poeta romano que em latim se chamava Decimus Iunnus Iuvenallis, algumas das máximas que até hoje ouvimos: o povo quer pão e circo; mente sã, corpo são… entre muitas outras.

Juvenal Batella nasceu dois mil anos depois que Décimo Júnio – mas de certa forma ilustrou as máximas do homônimo. Desde pequeno sempre conviveu com uma condição física diferente – que depois entendi ser uma espécie de artrite. Ele era muito magro e tinha uma ossatura peculiar, saltada. Caminhava lentamente e de forma só sua. Mas a mente… sua mente sempre foi sã e divertida e afiada. Era um cara carismático e único. E sobretudo bondoso – sempre capaz de oferecer certo pão e certo circo.

Juva foi ímpar, doce, peculiar. Tinha nome de poeta, escrevia prosa e tocava bateria. Era um amigo próximo-distante que o tempo e os caminhos se encarregaram de afastar – mas que continuava presente como imagem ou possibilidade. Na semana passada, de repente, soube que ele iria operar o coração – órgão que nele sempre foi amplo e acomodador, mas que vinha sendo castigado pelos avanços da artrite.

Parecia sério – mas com esperança. E, de repente, não. A esperança se foi e levou Juva – assim… num sibilo. E essa palavra me caiu como uma bigorna – porque me lembrei dele numa situação prosaica e divertida da adolescência.

No segundo grau do Santo Agostinho, na turma do segundo ano de Ciências Humanas, Juva desenvolveu uma implicância exclusiva. Ele conseguia assobiar sem abrir a boca – um sibilo altíssimo – emitido através da garaganta e ecoado por uma brecha entre os dentes. Ele costumava sentar na primeira carteira – de frente pro professor. Mas por algum motivo misterioso ou acústico… não dava pra saber que o silvo vinha dele. O som parecia sair de outro lugar. Então ele assobiava e os professores não sabiam de onde vinha aquele som. Era do ventilador? De fora da sala? Da tubulação?

Era engraçado demais. Lembro da agonia de alguns educadores – em especial do Silvio, de português, pra saber de onde vinha aquele ruído altíssimo e sem origem. E Juva com expressão estoica olhando pra frente, às vezes pro lado, como se procurasse a origem do som. E a turma ria.

Esse foi Juvenal Batella, irônico mesmo com seu super-poder clandestino.
Lembrei também dele, um dia, anos depois, na PUC onde fizemos Comunicação. falando comigo com seu jeito expressamente enfático: “Precisamos ler os russos! Dosta e Tosta!”. São lembranças esparsas de alguém marcante.

Cruzei com ele algumas vezes num elevador do trabalho – onde trocamos como-vais – e o vi pela última vez em dezembro. Como adivinhar que seria uma última vez? Não há pistas na realidade. Ele fazia aniversário no dia 13 de junho, mesma data em que nasceu Fernando Pessoa. Deve ser coincidência. Mas faz tempo que deixei de acreditar nelas.

Foi Pessoa que escreveu: “morre jovem o que os deuses amam, é um preceito da sabedoria antiga”. Parece falar do Juvenal antigo – mas também de certa forma do nosso. Juva se foi pouco depois dos cinquenta. Ele sempre soou jovem e antigo ao mesmo tempo. Foi tocar bateria com Bernardo Bittencourt, seu antigo parceiro, que também partiu cedo. E assobiar.

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Foi amor à primeira vista, por Vinícius Antunes / Cacofonias

Foi amor à primeira vista. Lembro do Juva – recém chegado de Portugal e recém contratado da Rede Globo e desesperado por esse emprego – numa mesa comprida repleta de funcionários da Globo, inclusive diretores, e ele se põe a dizer: “eu não sei quem é esse gajo do Luciano Huck”. Eu lembro de gargalhar ao ver as caras de espanto. Claro que Juva e eu viramos grandes amigos. Há semanas encontrei com Juva e ele falou: ” Olha, esse nosso encontro é uma despedida. Eu vou fazer uma cirurgia muito séria e acho que não volto”. Juva me deu presentes e abraço. Ontem, Juva morreu. Imediatamente pensei duas coisas: 1) como deve ter sido bom viver tanto tempo sem saber o que é Luciano Huck; 2) Que bom que no nosso recente encontro não lhe retribuí o presente, teria gastado dinheiro com algo que ele não teria tido tempo de usar. Toda vez que sentir saudade vou abrir um dos muitos livros que ele escreveu. Livros vivem mais do que gente. Livros de um dos amigos que mais amei.

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A tua delicadeza, por Carolina Massote

A tua delicadeza. O teu acolhimento. A tua amizade. A tua lealdade. O imenso amor que eu tenho por você.

A tua tentativa de me preparar para o pior. O meu medo de perder você brigando com a minha negação insistente.

Os teus áudios, amigo. As nossas fotos. Seus e-mails encorajadores lendo as coisas que eu escrevia e que não eram dignas de serem recebidas por um intelectual da sua estirpe. Passei os dias olhando.

Está tudo aqui. Mas cadê você?

Minha insistência em checar você de vez em quando e você sempre me acalmando com a sua doçura, Juva.

Poucas pessoas passaram pela minha vida e tiveram a importância que você teve. E agora, quando faço coisas simples, quando varro a casa, quando lavo a louça, fico pensando nas vezes em que eu ia até a tua sala só pra conversar. Ou quando você vinha à nossa. Gostou dessa preposição?

E começo a chorar.

Penso nos muitos almoços que eu tive sozinha contigo porque tinha dias que só nós dois entendíamos um ao outro. Penso nos cafezinhos que a gente escapava pra ter.

Meu amigo, o que é que eu vou fazer sem você? Como é que eu poderia saber que aquela vez em que você foi até Copacabana me visitar seria a última vez em que você reclamaria de ter que pagar um táxi pra vir até mim?

Como eu ia saber que aquela vez que você me fez andar a Zona Sul toda de ônibus atrás de você e do Vinicius era a última de nós três juntos?

Como, Juva? Como você é tirado assim da gente? Nunca mais eu vou te ouvir mal humorado reclamando que “esta cidade fede”. Nunca mais vou passar vergonha em todos os restaurantes a que a gente ia com você dizendo pro garçom “o senhor cozinha muito bem”. Nunca mais suas manias, nunca mais seu brilhantismo. Nunca mais seus olhinhos se enchendo de lágrimas quando eu te contava minhas dificuldades mais sérias. Nunca mais, Juva.

Pense de novo na menina arrogante e imatura que eu era quando te via todo dia. Essa menina exige que você me diga o que fazer agora.

O mundo perdeu uma delicadeza de que precisava tanto nesses tempos inaceitáveis. Eu vou sentir sua falta toda vez que abrir um livro. Eu vou sentir sua falta toda vez que ler um poema na nossa língua mãe. Eu vou sentir sua falta, Juva. Devíamos ter passado bem mais tempo juntos.

Eu sei que eu vou pensar em você todos os dias e que uma hora vai doer menos. Mas tá doendo muito, cara. Tá doendo demais.

Se o cu tivesse um cu, seria a sensação que eu tenho agora. Mais uma indignação ensinada por ti.

Fica em paz, meu amigo. Aqui vamos aprendendo a seguir em frente como você sempre fez. Ubaldo deve estar feliz porque vai ter alguém à sua altura pra conversar, seu amado sobrinho tão maravilhoso que alguém aí em cima achou que você tinha que ir logo pra mais perto.

Um abraço muito apertado da tua Carol-flor.

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A vida é curta a vida, por Fernando Luna

Se na literatura existe o “romance de formação”, digo que o Juva foi meu “amigo de formação” – e pouca coisa é mais importante que isso.

Do mesmo jeito que “O Encontro Marcado” e “O Apanhador no Campo de Centeio” mostram a transformação dos moleques Eduardo e Holden em adultos (ou quase isso), Juva e eu viramos adultos (ou quase isso) com a ajuda um do outro.

Ficamos amigos na faculdade. Conversas nos pilotis e na praia, falando com entusiasmo de Marcuse e de mulher, sem entender direito nem uma coisa nem outra. Ficamos muito amigos no bar do Planetário e no Baixo Gávea, no Circo Voador e no CEP 20.000, na Timbre e no Estação Botafogo. Ficamos melhores amigos nas viagens com seu Belinão meio surrado, rumo a Festa do Doze ou a Paraty.

Qualquer lugar servia. Importante era esgotar aquela mistura de liberdade demais com responsabilidade de menos, uma combinação fervilhante que não tinha como durar muito tempo: logo me formei e vim pra São Paulo, uns anos depois, ele foi morar em Lisboa.

Com a Dutra no meio, nossos encontros ficaram mais esporádicos. Rarearam de vez com um oceano entre nós. Cumplicidade à distância, pois. Ele lia meus textos nas revistas, eu admirava sua prosa nos livros – foram 12, como “A Língua de Fora”, de onde peguei o verso de hoje que, na verdade, é a epígrafe.

Quando a gente se encontrava, éramos melhores amigos novamente. Em dezembro nos vimos, ele doce, genial e gaiato como sempre. Por isso, tomei um susto na noite de terça-feira, ao ser adicionado num grupo de Whatapp chamado “Cirurgia do Juva”.

Não mencionei antes este detalhe, porque ele mesmo não dava muita confiança pra doença que, desde a infância, limitava lenta e progressivamente os movimentos de seus dedos, mãos, braços, pernas e pescoço, enquanto enrijecia suas artérias.

Mandei uma mensagem. Pedi pra que ele não cometesse nenhuma loucura pela manhã, quando o cirurgião abriria seu coração pra trocar duas válvulas. Mas o sacana não me deu ouvidos e cometeu o desatino de partir, assim, de supetão. Saudade demais, Juva.

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Um pôr-do-sol pra você, por Mariela Castro Santos

Juva, o belíssimo, que assinava seus e-mails com um J que formava um sorriso. Foi assim – por email – que primeiro o conheci, pelas mãos da minha amiga de toda a vida Karina, que também me trouxe a Mada (@madagrenier) pelo mesmo caminho virtual. Naquele ano de 2009, e nos 2-3 anos seguintes, nós quatro ficamos numa saborosa troca de e-mails e histórias engraçadas e/ou emocionantes do cotidiano: esquilos na neve, viagens, casa, crianças, xixi no banheiro errado, paisagens, afetos. Separados por oceanos (literalmente), mas com um laço inexplicável.

O abraço de “muito prazer” virou “ah, que bom te encontrar” quando nos conhecemos pessoalmente, bem depois. Encantamento imediato – sabe aquele cara inteligente, interessante, espirituoso, gentil e nada blasé? Era o Juva.

O sol se pôs pra você, querido @juvabatella, mas sua luz continua conosco sempre e sempre. 😢❤️
Fique em paz, minha amada @karinakuschnir 🌷

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Voltar para o post Juva Batella – Texto KK e Homenagens

Sobre o desenho: Nome do Juva desenhado por mim numa carta em papel com canetinhas nanquim e lápis de cor. A tipografia do nome é inspirada nas artes com palavras do Saul Steinberg. Abaixo, um desenho de nós quatro (Antônio, Juva, eu e Alice, no sentido horário) sentados no café da livraria Argumento. Estava num papel solto sem data, mas deve ser de 2013 ou 2014.

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