Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Lagartas azuis

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Hoje peguei um pacote perdido de biscoito creme-craquer-com-gergelim no armário. Na dúvida, dei uma olhada no prazo de validade, pra meados de 2014 (ainda estou conseguindo ler esse tipo de informação, ainda que por cima, ou por baixo, dos óculos, oh idade). Abri o pacote e, bem naquele instantinho antes da primeira mordida, lá estavam elas: lagartinhas se movimentando pra todo lado. Não fiquem com nojo, ainda.

Nojo foi quando comi várias, que fizeram o favor de vir acompanhando umas ameixas caríssimas que comprei no Zona Sul quando estava grávida da Alice. Eu toda me achando, comprando ameixa importada. E toca a ligar para médico, clínico geral, gastro, obstetra, até pediatra… — “doutor, tô grávida, comi umas lagartas nojentas!! e agora?” E todos muito blasés, uns mais íntimos até rindo e parecendo o meu padrasto nos seus dias de humor negro: “Que nada, é proteína!! Vai até fazer bem pro bebê.”

Mas fiquei tão enfurecida que fui pra delegacia dar queixa… O pobre do gerente já tava até demitido quando chegou o dia da audiência de pequenas causas e a coisa não deu nada em nada. Ou melhor, deu que as lagartas do Zona Sul continuam felizes comendo suas ameixas e biscoitos, e a gente que deixe de frescura.
E por que escrevo sobre isso?? É que as lagartas no biscoito me lembraram dos meus dias de fúria e de tristeza… e de como essa coisa de desenhar e escrever e outros talentos que a pessoa tenha são nossas tábuas de salvação…
É por isso gosto tanto dos textos do Arthur, dos dias de chuva, dos contos que meu amigo Mauro deveria estar escrevendo, e do Mário e do Ruy Castro e de todos os doidos que eles biografam, enfim, dessa gente que cheira, chora, bebe, se mata e no meio disso tudo cria coisas. (Mas tão aí a Lygia Bojunga e a Sylvia Orthof provando que podem ser maneiras de um jeito um pouco menos auto-destrutivo.)
Então já vou desescrevendo o post da semana passada. Nada de blog bem-humorado p* nenhuma. Senso de humor, ok. Mas bom humor o tempo todo não dá. Hoje estou mais para Familia Addams… A cena da Wandinha acabando com o acampamento wasp vale mil filmes da Disney.
Vejam que esse blog não tem coerência alguma. Começou todo amarelo e animado. Depois ficou vermelho. E agora chegou na cor num azul bem fundo… que é de piscina e felicidade, mas também é dos olhos e da alma cheia d’água… que é como a gente fica quando pensa nos desencontros, nos malditos que morreram cedo demais, nos malucos que resolveram pirar em vez de deprimir um pouco menos, na pobreza no Maranhão e na Etiópia (que ainda por cima agora eu conheço pelos desenhos do Manoel João Ramos, outro que sofreu perdas demais para uma vida só, e fez alguns dos livros mais lindos da antropologia atual.)
Afinal, esse blog é sobre o que? Sobre mim é que não é. Que não sou novaiorquina nem nada para querer um blog “about me, by me, myself” (título, aliás, de um livro maravilhoso do Dr. Seuss que não vou linkar aqui porque pretendo escrever sobre ele em breve).

Fico devendo a resposta num próximo post. Vou tentar trazer alguma coisa útil. Utilidade é fundamental.

Pensando bem, aqui vai a primeira coisa útil que publico: “não comam nada comprado no supermercado Zona Sul antes de dar uma boa olhada para ver se as lagartinhas chegaram primeiro!”

E para não dizer que sou caótica: os posts principais saem em algum horário às quartas-feiras. (Porque a quarta é o melhor dia da semana: nem tão segunda para dar cansaço, nem tão sexta para nos trazer aquela obrigação de se divertir.)
(E se alguém tiver ideia de dia melhor, me avise. E se alguém tiver saudade de ler alguma bobagem, fique de olho no histórico, pois vou postar coisas antigas em datas antigas e ir acrescentando algumas páginas fixas, como a “Do blog e de mim“.)
Sobre o desenho azul:  No meio da piscina, minha filha e seus dois amiguinhos em momento de felicidade extrema. Fiz o desenho no sábado (16/11/2013) em um caderninho simples, com uma caneta preta Pilot bem comum. Depois pintei em casa com aquarela cor Ultramarin e, quando a tinta secou, desenhei por cima com caneta Posca branca. Para a versão digital, tive que acrescentar um pouco de saturação com o Picasa, pois o scanner sempre estraga os azuis. (Fiquei mais conformada com isso depois que li em vários blogs de artistas-de-verdade que eles enfrentam o mesmo problema. E tive aquela sensação que, afinal, todos precisamos ter quando estamos nos sentido azuis por dentro: “Ufa, não sou só eu.”)


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Arrependimento terrível (um meta post)

rua vermelhaA pessoa que tem certos amigos deveria colocar um aviso no espelho do banheiro: “Não mande mensagens noticiando criação de blogs para pessoas brilhantes. Depois, não diga que não avisei.”

Como continuar escrevendo despreocupadamente?

“Bugou geral”, diria o Antônio. Bugou o meu cérebro. Pensei em mil posts e não consegui publicar nenhum. Quem mandou misturar crise de meia idade com delírios criativos? Então aí vai o disclaimer:

“Amigos escritores e ilustradores incríveis: por favor, parem de ler aqui. Desde já agradeço a atenção e as mensagens gentis. Podem ir fazer coisas mais importantes, please.”

Ok, agora já posso escrever e desenhar para o vácuo, que era exatamente o propósito inicial desse empreendimento. Para os que insistirem em ficar (sim, meus filhos e minha mãe ficaram!) , e para ter o que dizer na página que o WordPress me obriga a criar “Sobre este Blog”, aí vai:

“Este é um blog que só deveria ter textos informativos e bem-humorados. A autora promete não (d)escrever seus pensamentos erráticos, com os quais ela própria já tem bastante dificuldade de conviver. Os desenhos ela não sabe explicar, mas promete que virão sempre com um making of. A ‘santa padroeira’, como definiu um leitor, é a Lygia Bojunga. E tudo segue uma espécie de dogma-95-do-desenho ou, como diria a vovó Trude-Orthof, o dogma do ‘só erra quem faz’.”

O desenho acima foi feito num caderninho comum. A página da direita foi pintada de vermelho com tinta Ecoline (aquarela líquida pronta) e, depois de seca, desenhada com uma caneta preta tipo marcador permanente (aquelas de escrever em CDs). A paisagem é inspirada no centro antigo que vejo da minha janela no IFCS. Deixei a página da esquerda em branco para mostrar de propósito as partes mal acabadas, as manchas (desenho do meu gato na página anterior) e o caderno como suporte. Foi uma forma de me lembrar do que disse a minha amiga Roberta outro dia: para ensinar e aprender, precisamos ver o mundo com o que sabemos, mas deixando espaço para o que não sabemos.


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A Bolsa Amarela

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“Minha semana de castigo foi ótima: escrevi à vontade – tudo que passava na minha cabeça, e tudo que acontecia na bolsa amarela.”

(Raquel, aos dez anos, heroína de “A Bolsa Amarela”, livro de Lygia Bojunga Nunes, publicado pela editora Agir em 1976, com ilustrações de Marie Louise Nery. Hoje o livro é editado pela Casa Lygia Bojunga.)

Quando eu era pequena, queria me chamar Karina Herrmann Kuschnir. Herrmann é o nome de família da minha mãe; a mesma mãe que quis me registrar só Karina Kuschnir porque “tinha trauma de nome grande”. Não acredito muito… acho que era coisa de querer agradar o meu pai.

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Lembrei dessa história porque só outro dia (2/11/2013) tive coragem de reler A Bolsa Amarela. E lá estava na guarda do livro: Karina H. Kuschnir, escrito com minha letra provavelmente aos nove ou dez anos. Era preciso “coragem” porque eu não queria perder a magia de pensar na Bolsa Amarela como o livro-que-marcou-a-minha-vida de criança.

Reli cada palavra e a sensação foi de pleno reencontro, com o livro e comigo mesma. Tudo estava no lugar. A Raquel e eu tendo as mesmas vontades, sofrendo com o peso do mundo, escrevendo cartas para amigos imaginários, inventando histórias, desejando ter nascido diferente. A história começa assim:

“Eu tenho que achar um lugar pra esconder as minhas vontades. Não digo vontade magra, pequenininha, que nem tomar sorvete a toda hora, dar sumiço da aula de matemática, comprar um sapato novo que não aguento mais ver o meu.  Vontade assim todo o mundo pode ver, não tô ligando a mínima. Mas as outras – as três que de repente vão crescendo e engordando toda a vida – ah, essas eu não quero mais mostrar. De jeito nenhum. Não sei qual das três me enrola mais. Às vezes acho que é a vontade de crescer de uma vez e deixar de ser criança. Outra hora acho que é a vontade de ter nascido garoto em vez de menina. Mas hoje tô achando que é a vontade de escrever.”

Vontade de crescer, de ser menino, de escrever. Na minha bolsa amarela, ainda tinha a vontade de desenhar, que não pesava muito, porque todo mundo acha normal criança ter esse tipo de vontade – só passou a ficar esquisita quando fui crescendo.gatinho

“O mundo dão voltas”, diz o meu namorado, fazendo graça ou citando a avó do Ed Motta, não sei bem. Trinta e seis anos depois, resolvi dar uma voltinha com A Bolsa Amarela, pensando no óbvio: “a vida é curta”. Tá na hora de ser mais inteira, mais em paz comigo mesma, de ter uma bolsa mais leve. Alguma coisa me dizia que a Raquel podia me ajudar. Ela conta que vontade não realizada fica gorda, pesada e dá uma vergonha danada na pessoa.

A mágica da Lygia Bojunga é nunca ter medo de levar essas perguntas a sério. As personagens dela – crianças, bichos, coisas e até adultos, às vezes – estão o tempo todo pensando, pensando, pensando pra valer. Sozinhas ou com os amigos, nascem com sede de se interrogar sobre o mundo, sobre si, sobre os outros, sempre. (Num contexto de ditadura militar, como o do Brasil da época, lutar por liberdade de pensamento não era fácil. Hoje, mesmo com inimigos menos óbvios, nem por isso a causa está ganha, vide tudo-o-que-está-acontecendo.) raquelgalo

Como muitas heroínas, a Raquel já nasce com um poder especial: ela sabe das suas vontades.  Isso não é pouco. A maioria de nós tem uma lista imensa de vontades na bolsa, e tem uma dificuldade enorme de escolher as que realmente importam. É difícil separar aquelas que tem a ver com os problemas graves do mundo – ai, um pouco menos de desigualdade por favor – e as que tem a ver com os problemas do nosso cotidiano – ai, um pouco mais de dinheiro no meu salário – daquelas que dizem respeito à nossa existência humana: “Quem eu sou? Por que viver? Para onde vou?”  

Crescer, ser menino, escrever: como a Raquel se entende com essas vontades? A paz com as duas primeiras chega aos poucos, conforme ela vai vendo que criança pode ser levada a sério, que menina pode gostar de jogar bola sem precisar deixar-de-ser-menina, que casa de família não precisa ter chefe mandando criança ficar quieta, que ser bonitinha não é objetivo de vida, que desamarrar pensamento é difícil, mas possível.

Ao vê-la soltar as vontades de crescer e de ser menino na praia, feito papel de pipa, bem fino e levinho, seu amigo Galo pergunta: “– E a tua vontade de escrever?” Ela diz: “–  Ah, essa eu não vou soltar. Mas sabe? Ela não pesa mais nada: agora eu escrevo tudo que eu quero, ela não tem tempo de engordar”.

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Sobre as ilustrações deste post: o livro foi desenhado por mim num caderno comum, com caneta de nanquim permanente 0.2, e depois colorido com lápis de cor. As demais ilustrações são cópias feitas à mão dos desenhos de Marie Louise Nery, com ajuda da app Adobe Ideas, no Ipad, com uma caneta eletrônica Bamboo.


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Making of

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Esses desenhos e textos foram publicados no caderno Prosa & Verso do jornal Globo em 21/01/2012, graças ao convite da editora Mànya Millen, que foi a primeira pessoa a me propor juntar mundos que na época me pareciam totalmente  distantes: a prática do desenho e as reflexões na área de antropologia urbana. Não tenho palavras para agradecê-la!

Na página, intitulada Leituras Urbanas, fui generosamente apresentada assim:

Traços delicados, cores ora suaves, ora vibrantes, linhas quase soltas lançadas sobre papel especial ou sobre uma singela folha de agenda vão revelando personagens urbanos unidos por uma ação em comum: o mergulho profundo na leitura. Do metrô carioca ao Jardim de Luxemburgo, em Paris, passando por São Francisco, nos Estados Unidos, homens e mulheres anônimos se transformam em objeto de estudo de Karina Kuschnir, que há tempos vem juntando sua formação de antropóloga e jornalista com o pendor artístico. A visão aguçada para observar a sociedade sob vários pontos de vista — transformada em livros como “Antropologia da política” (Zahar, 2007); “Eleições e representação no Rio de Janeiro” (Relume-Dumará/NuAP, 2000) e “Pesquisas urbanas: desafios do trabalho antropológico” (org. com Gilberto Velho, Zahar, 2003), entre outros — foi estendida ao desenho quase intuitivamente. Em julho de 2011, Karina participou, como aluna, do II International Urban Sketching Symposium, em Lisboa, que apresentou palestras e oficinas de mais de 30 professores de todos os continentes. Além de ensinar e incentivar a produção de desenhos, o evento provocou um grande debate sobre o papel dessa arte na vida urbana. A experiência estimulou Karina — professora adjunta do Departamento de Antropologia Cultural e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA) do IFCS/UFRJ, onde coordena o Laboratório de Antropologia Urbana (LAU) — a planejar uma nova pesquisa nas áreas de antropologia da arte e antropologia da cidade. Em dezembro de 2011, foi lançado em Portugal o livro “Urban sketchers em Lisboa — Desenhando a cidade” (editora Quimera, edição bilíngue), reunindo mais de 300 desenhos de participantes do simpósio, entre eles Karina, que congelou no tempo o burburinho humano em frente à estação Cais do Sodré.  Na página especial publicada neste sábado no Prosa & Verso, a antropóloga comenta alguns de seus flagrantes urbanos.”

Mais sobre os desdobramentos dessa pesquisa, aqui.

Nesses desenhos (Posts 1, 2, 3 e 4), utilizei canetinhas de nanquim com pontas bem finas (0,05 e 0,1) das marcas Uni Pin e Pigma Micron. Ambas são maravilhosas para desenhar, pois permitem fazer traços longos e sem manchas. Essa qualidade é essencial quando se quer desenhar em linha contínua, sem tirar a ponta da caneta do papel, como fiz em quase todas as ilustrações dessa página.  Os desenhos coloridos foram pintados com aquarela Winsor & Newton sobre caderno Moleskine para aquarela em formato paisagem. Os preto e branco foram feitos em um caderno Cicero (14 x 21), com papel polem, exceto o casal dormindo, rabiscado às pressas numa página da minha agenda de 2010, único papel disponível na bolsa no momento… Todos os modelos estavam vivos, vivendo suas vidas, enquanto eram desenhados por alguns segundos (o leitor de jornal e o casal de namorados) ou no máximo alguns minutos (a leitora a cores ou os leitores do metrô e de Paris).
Mais desenhos de leitores no metrô saíram no blog do Prosa, aqui.


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Embarque para São Francisco

Karina Kuschnir Leitores 1

“Quando um desenho fica bom, o crédito é todo seu. Quando não fica, a culpa é do desenho.” A frase, do ilustrador e autor inglês Quentin Blake, foi escrita no contexto do “dia anual do desenho” na Inglaterra em 2005. A campanha convocava: desenhem, é divertido e não faz mal se não sair perfeito. É com esse espírito de desenhar que observo a relação das pessoas com a leitura. Nesses traços, tento captar a mágica que acontece quando nos conectamos com as palavras impressas, seja em jornais, laptops, livros ou cadernos.  Foi assim que comecei a procurar leitores para desenhar… Ao lado, o perfil de um rapaz lendo jornal no aeroporto de Los Angeles. O assunto, não consegui perceber. Mas inventei cores alegres nas páginas porque ambos estávamos no setor de embarque esperando um vôo para São Francisco, uma das cidades mais lindas e interessantes do mundo. Se eu pudesse, voltaria lá várias vezes por ano, só para reencontrar autores tão diferentes, mas igualmente brilhantes, criativos, bem-humorados e ainda no clima “power to the people”, como Howard S. Becker e Anne Lamott.


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Anjos no Metrô

Karina Kuschnir Leitores 5Em 10/09/2010, Arthur Dapieve publicou no Segundo Caderno do jornal O Globo, uma crônica em que lembrava do seu encantamento com uma cena do filme “Asas do Desejo” de Wim Wenders: “De todas as cenas, […]  a que acho mais bela é aquela em que [o anjo] Ganz (e a câmera) passeia pelas expressões faciais e pelos pensamentos dos passageiros de um vagão do metrô. Alguém menciona doença, dois se preocupam com falta de dinheiro, outro não vê sentido na vida. Nunca existiu melhor representação cinematográfica do processo de empatia.” Esta também é minha cena preferida do filme cujo nome no original seria “O céu sobre Berlim”, como nos esclarece o brilhante autor da crônica e de tantos livros.  Ao desenhar os passageiros do metrô, gosto de imaginar que sou um pouco como Ganz… Não acredito em anjos nem em seres sobrenaturais, mas acredito muitíssimo nos poderes da empatia, da gentileza e dos sorrisos sinceros. A mulher no desenho foi uma das mais encantadoras que já desenhei.  Fiz dois registros dela nesse dia, concentrada que estava, viajando por várias estações sem se desviar da leitura.  Anotei a cor da blusa e adicionei a aquarela já em casa.


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Leitores no parque

Karina Kuschnir Leitores 3b
Se eu soubesse desenhar mesmo, como Jean-Jacques Sempé, faria dezenas de personagens e não apenas essas solitárias figuras…

Entre outras coisas, esse artista fez turmas inteiras de pestinhas mirins por páginas e páginas da maravilhosa série d’O Pequeno Nicolau (com texto de René Goscinny), no Brasil editada pela Martins Fontes.

Os desenhos desses leitores sentados em cadeiras de ferro foram feitos por mim numa tarde de outono no Jardim de Luxemburgo, em Paris. Eram muitos leitores e livros espalhados por todos os lados, acomodados como eu em duras e frias cadeiras verde escuro. Seria um paraíso se a aprendiz de desenhista carioca não percebesse logo que desenhar ao ar livre, em clima europ

Karina Kuschnir Leitores 3a

eu, não é tarefa para amadores. As mãos doem, os dedos enrijessem, o nariz congela. E nessas horas lembramos que para alguma coisa servem as máquinas fotográficas…


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Metrô, Sentido Zona Norte

Karina Kuschnir Leitores 2a

Quase todos os dias, pego o metrô carioca, sentido Zona Norte. Quase todos os dias, sigo para o fundo do vagão munida de um caderninho e uma caneta nanquim. Gosto tanto de achar um lugar para sentar… Mas tento não ceder à preguiça. Para desenhar, é bem melhor ficar de pé, apoiando as costas na porta que dá para o outro vagão.  Dessa posição posso ver bem pelo menos quatro passageiros à direita e quatro à esquerda. E quase sempre encontro o que procuro: alguém dormindo ou lendo. Não, não é uma tara… Busco um “modelo vivo” que não se importe de ser desenhado. Os adormecidos, claro, não preciso explicar. Desenhando, imagino o que estão a sonhar… Os leitores, no entanto, são os que realmente me fascinam. O que lêem? Que emoções estarão sentindo? Fé, alegria, tédio, ansiedade, esperança? Tantos sentimentos circulam invisíveis à minha frente… O que se passa entre as páginas escritas e a pessoa que as lê?Karina Kuschnir Leitores 2c - opcao 1

Homem à esquerda lê papéis de trabalho (assim imaginei) mas com rara expressão de bem-estar. Casal à direita dorme, com um encaixe perfeito, de quem passou a noite namorando… Desenhado na altura da Estação Carioca – a estação dos advogados, dos ternos bem cortados e das mulheres de sapatos de bico fino.