Karina Kuschnir

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Junho/2025 e a felicidade no plural

“Então aquilo era felicidade, viver na primeira pessoa do plural.” (Chimamanda Adichie)

Hoje, a aula de antropologia foi sobre o texto “A expressão obrigatória dos sentimentos” (1921), de Marcel Mauss. Há uns anos, inventei de começar essa aula fazendo uma dinâmica inspirada em exercícios teatrais. Chamo um grupo de estudantes para a frente da sala e peço para eles sortearem um papel. Neste, está descrita uma situação que eles devem representar para a turma. As situações evocam emoções fortes do tipo “medo de uma barata”, “feliz por receber uma mensagem de amor”, “prendendo o riso”, “com dor de queimadura”, “com raiva de alguém” etc. Na dinâmica, o grupo que sorteia a situação fica de costas e, ao ouvir “1, 2, 3, já”, se vira para a turma com a expressão facial correspondente. A turma precisa adivinhar o que estava escrito no papel.

Eles acertam logo. Às vezes, é preciso relaxar, voltar a ficar de costas e repetir o gesto ou expressão facial. Mas é fascinante como, em qualquer turma, esse exercício sempre dá certo. Dele concluímos um dos principais conceitos do texto: o de que existem modos de expressão dos sentimentos padronizados, reconhecível tanto para quem emite quanto para quem recebe o gesto, quando ambos participam dos mesmos códigos culturais.

Mauss chama isso de expressão “obrigatória”, provocando propositalmente uma sensação de desconforto em pessoas que se acreditam únicas e singulares, ainda mais naquilo que consideram íntimo. Pois é aí que está a beleza: o “mais que humano em nós” está nos coletivos, onde vivemos e naqueles que vivem em nós, nossa língua, nossa memória, nossos afetos, nossas músicas queridas.

Nessa virada de maio para junho, agradeço por tantas sensações de viver plenamente “na primeira pessoa do plural”, como diz Chimamanda. Na aula de hoje, vendo os psicólogos do futuro encenando suas emoções; no teatro Poeira, assistindo “Deserto”, inspirada em Roberto Bolaño; no show de Gilberto Gil, cantando “Se eu quiser falar com Deus”, junto com a multidão; no almoço festivo de domingo, comemorando e compartilhando pratos, comidinhas e afetos feitos de gatos e gente.

Viva Marcel Mauss, viva a antropologia e a sociologia. Podemos até não ter as soluções, mas sem suas reflexões não poderíamos sequer vislumbrá-las.

Bom junho para nós, pessoas queridas!

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Sobre as citações: A frase que abre o post está na p. 112 do livro “A contagem dos sonhos”, de Chimamanda Adichie (Companhia das Letras, 2025). A expressão “o mais que humano em nós” é da canção “Tá combinado”, de Caetano Veloso. O texto “A expressão obrigatória dos sentimentos” (1921), de Marcel Mauss tem várias edições, mas a referência que utilizo é: Leitura: MAUSS, Marcel. 2003. “A expressão obrigatória dos sentimentos”. In: Sociologia e Antropologia. São Paulo: Cosac & Naify.

Sobre as felicidades coletivas acessíveis: Vejam no RJ a peça “Deserto”, inspirada em Roberto Bolaño, no teatro Poeira, ou acompanhem possíveis viagens pelo país no instagram deles. O show Tempo Rei de Gilberto Gil vai seguir acontecendo até o final do ano. Não percam!

Sobre o calendário: Para imprimir, não esqueçam de configurar para “ajustar à área de impressão”.

Sobre os desenhos: Para o calendário, aproveitei os anteriores e acrescentei camadas transparentes de lilás no aplicativo Procreate (Ipad). Ajustei as datas para o mês de junho e fiz o PDF. (Estou em busca de um Ipad usado, pois o meu tem 7 anos e está pifando. Se alguém tiver interesse em vender, me manda uma mensagem por favorzinho.)

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2025. “Junho/2025 e a felicidade no plural”, Publicado em karinakuschnir.com, url: https://wp.me/p42zgF-48z. Acesso em [dd/mm/aaaa].