Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Arrumar gavetas, escrever textos – 2 truques para driblar a procrastinação criativa

Vocês já tiveram vontade de arrumar uma gaveta mas desistiram porque, antes mesmo de começar, perceberam que não iam conseguir arrumar o armário inteiro? Acontece demais comigo! E não só com arrumação: desisto de ler uma parte porque o certo era ler o livro todo, deixo de fazer 20 minutos de academia porque a série dura 45 minutos, desisto de comprar só uma coisinha no mercado porque não verifiquei a lista de tudo que está faltando… E até de fazer mini post nesse blog porque o correto seria encarar a lista de posts sérios a serem escritos — mas isso exigiria a coragem e a energia que ainda não estou tendo.

Hoje mais cedo cheguei a começar a trabalhar em dois posts já iniciados mas percebi que não teria forças para terminá-los.

Fiquei pensando… qual é a dificuldade? Não é falta de concentração nem de vontade teórica. Meu corpo e minha mente estão muito acostumados a se concentrar e a trabalhar no computador depois de 34 anos de experiência. Também não é falta de ideias ou temas. Entendi que estou sem grandes estoques da energia específica que a escrita criativa necessita.

E que tipo de energia é essa? É aquela vontade de acolher as próprias ideias e a pulsão prazerosa de compartilhá-las com os leitores. É um equilíbrio tênue entre alegria da descoberta solitária (o momento da escrita em si) e o compartilhamento corajoso do olha-que-legal-eu-descobri (o momento de entregar sua escrita ao mundo).

Talvez muitos sofrimentos e procrastinações com os TCCs, dissertações, teses e escritas acadêmicas em geral venham desse entre-lugar, né? Estar aqui-e-aí-com-vocês ao mesmo tempo. Né fácil não, pessoas! Talvez fique um pouquinho menos difícil se a gente entender o que está acontecendo. Dois truques para ultrapassar esse obstáculo que (às vezes) funcionam para mim:

• Para o drama “eu e minhas ideias”: primeiro escrevo, depois questiono. Geralmente, depois de escrever, o questionamento diminui bastante! E você sai do outro lado já-tendo-escrito!

• Para o drama “minhas ideias e os leitores críticos”: penso só nos leitores que me apoiam, meus filhos, minha mãe e amigos. E sigo em frente, aproveitando as críticas construtivas para discordar, ajustar o que for possível ou aproveitar para um próximo texto.

Claro que isso tudo é bem mais fácil de escrever do que fazer. Mas… vejam só: se vocês estão lendo esse post é porque os truques funcionaram, hahaha. Esse micro-macro problema não se resolve com um post só. Mas o blog inteiro tá aqui para isso. Lembram da gavetinha bagunçada do armário? É isso. Arrumar uma só gaveta faz diferença sim. Não pensem no armário inteiro.

Finalmente, para citar um lema de vida, que o Antônio me ensinou para aqueles momentos em que sua roupa está furadinha, seu texto não tem muita fluência e sua aula foi um pouco capenga: “ninguém liga!”

Boas escritas e bom final de semana! #tamojunto ♥

5 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:

♥ Participar da festa de desenhos do mês de outubro com as queridas Rachel Paterman, Melina Vaz e Patricia Matos está sendo a melhor coisa do mês. Acompanhem lá pelo meu Instagram e pela #academinktober.

♥ A experiência mais linda de desenho foi rascunhar para a palavra “reciprocidade” já exausta e, na versão final, a nanquim, ver que a imagem pareceu demais comigo e com o Juva — não foi planejado!

♥ Vi que vocês gostaram da indicação de série da semana passada, então hoje indico Only murders in the building, da Disney/Star+. Eu e Alice amamos. São 4 temporadas curtas e recomendamos ver aos poucos. O elenco é incrível, assim como a direção de arte, a música, a montagem e o roteiro. (Mesmo que eu quisesse, Alice não gosta de maratonar, nem ver dois episódios de uma vez, por mais empolgante que seja o final. Não sei onde ela aprendeu isso! Eu sou daquelas que vira a noite quando empolga.)

♥ De ficção, recomendo Oliver Kitteridge, de Elizabeth Strout. Em breve virá o terceiro volume para o Brasil e vocês vão me agradecer ter começado. Mas só recomendo para maiores de 50 anos, em idade biológica ou emocional. 😉

♥ Descobri que vão lançar um novo emoji com olheiras em 2025! Quem se identifica? É fofinho demais. Trouxe a imagem para compartilhar com vocês.

Sobre o desenho: Desenho de observação de uma estojo de lápis de cor antigo feito no caderninho Laloran. Linhas com canetinha Pigma Micron 0.05 ; cores feitas com aquarelas, lápis de cor, um pouco de guache e canetinha de gel branca Sakura Gelly Roll. Eu ia aproveitar esse desenho para um post sobre lápis-de-cor na seção de materiais do blog, mas percebi que a imagem não mostra direito os lápis e nem foi feita com eles! Então veio para cá de ilustração aleatória mesmo. Pensando melhor, agora percebo que esse estojo, com uma parte de plástico transparente, é uma boa metáfora para os processos descritos no post. Afinal, quando a gente começa a escrever, só tem uma vaga ideia do que vai sair, como quem espia esses lápis-de-cor pelo visor da embalagem. Só escrevendo — ou só experimentando os lápis do estojo — que vamos descobrir o que somos capazes de dizer, fazer, desenhar.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2024. “Arrumar gavetas, escrever textos – 2 truques para driblar a procrastinação criativa“, Publicado em karinakuschnir.com, url: https://wp.me/p42zgF-446. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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A dádiva daquele instante – Torto Arado

“Diante dos meus olhos, vi minha mãe erguer sua mão direita e segurar com força o braço que avançava rompendo o ar para lhe atingir. Bastou esse gesto para que cessassem os urros e a cólera da mulher, e um fluxo de serenidade se instaurasse entre os presentes.” (Itamar Vieira Jr., Torto arado, p.59)

Li Torto arado em fevereiro de 2021. Ah, como sonhei em ser segurada pelos braços dessa mãe… Era em mim que ela derramava seu “milagre de energia”, serenando o mundo, por dentro e por fora.

Foi na época em que vivíamos a segunda tsunami pandêmica, falta de vacinas e o sufocamento em Manaus. Não preciso explicar, vocês sabem. Na versão particular desse pesadelo, tive um descolamento de retina e espiralei para aquele tipo de doença que todos os médicos diagnosticam como “stress” e te dizem para “relaxar”. Ah, tá.

Itamar Vieira Jr. chegou fazendo a mágica dos grandes escritores: trouxe paz e esperança, força e suavidade, susto e sossego. Fez surgir pessoas inteiras, complexas, encantadas. Lembrou-me de certezas que eu já julgava impossíveis — de que existem o bem-querer, o barro, o estudo, o rio e os milagres.

“O desalento que se abateu sobre todos com a prolongada estiagem contrastava com o sopro de vida que tudo aquilo poderia ser para nós.” (p. 79)

Essa frase traduz, pra mim, a vida seca e fértil de 2021. Foi ano de doença e morte, de ciência e vacina. Pudemos chorar de ódio, medo e dor, mas também de emoção, conforto e alegria.

Quem não derramou lágrimas na primeira dose? Eu e a moça do posto choramos. Até então, prevalecia o desespero, “como se o arado velho e retorcido percorresse as minhas entranhas, lacerando a minha carne” (p.127).

Torto arado trouxe uma energia que estava ali e não se via. Nas palavras de Zeca Chapéu Grande:

“Se o ar não se movimenta, não tem vento. Se a gente não se movimenta, não tem vida (…).” (p. 99)

Pensei na necessidade de me mexer. A terapeuta falou disso. A energia está dentro da gente. Ok, falta um mapa, mas é melhor do que o “relaxa” dos médicos. O único movimento em que eu conseguia pensar nessa época era fugir. Só que não dava, né? Pra onde? Como dizem sobre o lixo, não existe o fora no planeta terra.

Lembrei dos meus antepassados que escaparam da falta de perspectiva e das perseguições religiosas. Pensei no meu avô que ainda por cima fugiu sozinho. “O sangue do passado corre feito um rio”, escreve Itamar, sobre veias abertas há mais de 500 anos. Só que a fuga aqui não é medo: é coragem. As personagens do livro têm aquela força heroica que nos falta:

“Vocês podem até me arrancar dela como uma erva ruim, mas nunca irão arrancar a terra de mim.” (p. 230)

É tão bom que Torto arado seja novo e traga verdades tão antigas, como a história que conta: “triste mas bonita”. É tão reconfortante que possamos ler e imaginar possibilidades; movimentar não apenas o corpo mas os pensamentos na direção de algo bom:

“Juntas fecharam os olhos e compartilharam a dádiva daquele instante.” (p.258)

Os livros tiveram esse efeito sobre mim em 2021: seguraram minhas mãos e me enlaçaram em seus braços, como Bibiana faz com Belonísia na cena citada acima. Foram 68 volumes; 68 dádivas a me trazer para o instante.

Coisas:

♥ Livro citado: Torto arado, de Itamar Vieira Junior. Editora Todavia, 2019. (Desenho da capa da talentosa artista Linoca Souza).

♥ Lista simpática do The Guardian de 100 coisas para melhorar a vida um pouquinho em 2022.

♥ A dica acima foi do Instagram da Helô Righetto. Além de stories sobre Londres, caminhadas e plantas, a Helo faz ótimas recomendações de livros (reunidas na #HeloReads). Em 2021 ela até gravou (com a Rapha Perlin) um simpático podcast de 8 episódios sobre Jane Austen.

Sobre o desenho: Desenho feito com canetinhas Pigma Micron 0.05 e 0.1 no verso de uma folha do bloco A4 XL Aquarelle Canson (capa turquesa). Cores feitas com aquarela e lápis de marcas diversas. Quis imaginar as irmãs saindo de dentro do livro, talvez para mostrar o quão vivas elas me pareceram em suas páginas. Escaneei na impressora Epson L396 (que não recomendo pois vive dando problema) e depois editei um pouquinho no Photoshop. Não consegui acertar as cores do original na tela, mas segue assim mesmo. Até porque esse blog é um espaço de amor; e amor não combina com vaidade, concordam? ☼

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2022. “A dádiva daquele instante – Torto Arado”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3To. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Medo do medo do medo (e um pouco de coragem)

Uma das vantagens de criar filhos é que você descobre a resposta de quase todos os problemas da vida nos livros infantis. Lá estão muitas das emoções do mundo, não importa quão estranhas.

Uma das mais frequentes é o medo. Medo de escorpião, de monstro, de mar, de bicho, de gente, de crescer… Aqui em casa, temos uma coleção de livros sobre o tema. Um dos meus favoritos é “Chapeuzinho Amarelo”, escrito em prosa rimada:

“Não tomava sopa pra não ensopar.
Não tomava banho pra não descolar.
Não falava nada pra não engasgar.
Não ficava em pé com medo de cair.
Então vivia parada,
deitada, mas sem dormir,
com medo de pesadelo.”

E de tantos medos, Chapeuzinho Amarelo tinha um maior que todos: medo de lobo:

“Mesmo assim a Chapeuzinho
tinha cada vez mais medo
do medo do medo do medo
de um dia encontrar um LOBO.
Um LOBO que não existia”

Um dia, a menina encontrou um lobo de verdade — desses assustadores, com boca e dentes gigantes — e o efeito foi surpreendente:

“Mas o engraçado é que,
assim que encontrou o LOBO,
a Chapeuzinho Amarelo
foi perdendo aquele medo,
o medo do medo do medo,
de um dia encontrar um LOBO.
Foi passando aquele medo
do medo que tinha do LOBO.
Foi ficando só com um pouco
de medo daquele lobo.
Depois acabou o medo
e ela ficou só com o lobo.”
(…)
“O lobo ficou chateado.”

O lobo se irritou. Que audácia! Insistia em assustar a menina, gritando que era um LOBO! E, de tanto ouvir aquela palavra — lo-bo-lo-bo-lo-bo-lo…–, Chapeuzinho pensou…

“E o lobo parado assim
do jeito que o lobo estava
já não era mais um LO-BO.
Era um BO-LO.
Um bolo de lobo fofo,
tremendo que nem pudim,
com medo da Chapeuzim.
Com medo de ser comido
com vela e tudo, inteirim.

E assim seguiu a menina, descobrindo que prefere bolo de chocolate (e não de lobo), sem medo de carrapato, de chuva, de brincar ou de se machucar.

Lembrei desse livro porque, depois de tanta auto-exposição online (aqui e aqui), acabei recebendo muitas mensagens sobre medos da vida acadêmica: medo de escrever, medo de falar, medo de não conhecer teorias suficientes, medo de metodologia, medo de mudar de orientador, medo de trancar o mestrado, medo de continuar, medo de terminar, medo de banca, medo de não conseguir um trabalho, medo de ensinar, medo de nunca publicar…

Mas o medo mais frequente é o de “descobrirem que sou uma fraude”. Não é tanto o medo de “ser uma fraude” (porque infelizmente muita gente já se acha uma fraude, já acha que a vida acadêmica não é pra si etc.). O medo é de algo que confirme isso, desde não conseguir terminar um TCC até não passar num concurso, ou ter seu artigo recusado.

Numa aula de metodologia em que participei recentemente, como convidada, várias alunas mencionaram que a parte mais impactante do livro Truques da Escrita foi o capítulo “Riscos”, escrito pela Pamela Richards, ex-aluna do Becker. É um depoimento sobre o medo de ser considerada uma fraude, o medo de se expor às críticas, de não ser boa o suficiente, de não ser considerada inteligente, de não ter legitimidade para ser considerada uma profissional da área etc. Porém, o mais interessante é que a Pamela aponta as consequências de se sentir assim: quem tem muito medo não se arrisca, não se expõe, “não fala nada pra não engasgar”, como Chapeuzinho Amarelo, antes de encontrar o lobo. Nas palavras da autora:

“Esse problema da confiança é crítico porrque desgasta o tipo de liberdade emocional e intelectual de que todos nós precisamos para conseguir criar.” (Pamela Richards)

Ao mesmo tempo em que coloca o dedo na ferida, Pamela aponta caminhos para se fortalecer: olhar para trás (vendo o que te levou a conquistar o lugar onde você se encontra); olhar para frente (conversando com amigos sobre o que você pretente com sua pesquisa). É preciso encarar o lobo da escrita:

“…quanto mais você escreve, mais fácil fica, porque com a prática você aprende que não é tao arriscado quanto temia. (…)
…estou aprendendo, ao passar mais tempo escrevendo, que vale a pena correr esses riscos.” (Pamela Richards)

É isso, pessoal. Talvez todos esses medos sejam como aquelas pequenas faunas caseiras, tão apreciadas pelas crianças, como diz um menino, em outro livro:

“Gosto de você, aranha, porque você não pica nem arranha.”

Ah, antes de me despedir: por que essa imagem ilustrando o post? Porque achei maravilhosa a liberdade dessa mulher, vestida do seu jeito, barriga de fora, sutiã aparecendo, carteira dourada debaixo do braço, sandália confortável nos pés, como se dissesse pro mundo: “meu corpo, minhas regras”. Assim arrisquei desenhá-la também, aceitando as distorções da rapidez, colorindo com as limitações que o meu papel permitia, mas sentindo uma profunda gratidão por ela existir e por eu mesma me permitir arriscar. Às vezes é só disso que precisamos: ter menos medo e sair pra brincar.

Sobre as citações: Chapeuzinho Amarelo, de Chico Buarque, ilustrado por Ziraldo (Ed. José Olympio). Truques da escrita, de Howard S. Becker (Ed. Zahar, trad. Denise Bottmann). Os trechos citados são todos do capítulo 6, escrito quase inteiramente por Pamela Richards, ex-aluna do Becker. A história da aranha, diversos autores (ed. Ática, série Lelé da Cuca, trad. Luciano V. Machado).

Sobre a imagem: Esse desenho é o número 15 do Projeto 50 Pessoas que comecei no final do ano passado e interrompi na metade devido à pandemia. Linhas feitas com canetinha de nanquim permanente Pigma Micron (0,05) por observação rápida de foto tirada por mim pela janela do ônibus em um caderninho Hahnemühle. Aquarelas acrescentadas em casa com essa paleta. Para mais detalhes, ver a página sobre os materiais que utilizo.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2020. “Medo do medo do medo (e um pouco de coragem)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Rk. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Fevereiro/2019 – Enfrentando medos

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Pessoas queridas, aí vai o calendário de fevereiro, com o PDF para imprimir (em maior resolução).

Sei que estou publicando pouco aqui no blog, mas não foi dificuldade de escrever, desenhar ou de ter assunto… Foi medo.

Para muitas pessoas, sentir medo se traduz em raiva e autoritarismo — aposto que vocês conhecem gente assim… Pra mim não. Tenho pesadelos e vontade de ficar quietinha, remoendo as maldades do mundo. E são tantas!

Quero superar essa fase. Foi pra isso que criei esse blog. Foi pra criar coragem! É pra seguir em frente que venho desenhando e escrevendo há quatro anos, um clique de cada vez. Vambora?

Não se preocupem.

Quando escrevo sobre um sentimento, ele mais ou menos já está passando. A verdade é que, em janeiro, superei muitos medos! Vendi meu carrinho antigo sozinha, encarei uma descupinização dos armários da casa, fiquei firme numa fotocoagulação a laser na retina, fiz todos os exames anuais meus e das crianças, acompanhei as primeiras aulas de surf da Alice, aprendi a comprar ingresso pra São Januário, enfrentamos juntos os 50 graus na renovação (e no resgate) das novas carteiras de identidade, fiz minhas primeiras aulas de Photoshop profissional, terminei a revisão técnica da tradução de um livro, marquei uma biópsia, aprendi umas 269 siglas do sistema administrativo da UFRJ,  apertei forte a mão do meu filho no dia do resultado do Sisu e consegui deixar minha filha andar pela primeira vez de ônibus e metrô sozinha nessa cidade que mata Marielles, Douglas e Maria Eduardas…

Alguns foram medos grandes, outros bem pequenos, mas fomos nos encarando. De vez em quando, me pego pensando que são aflições tão idiotas perto das que passam as pessoas. Mas hoje não vou reforçar essa ladainha.

Queria dizer pra vocês (e pra mim): nossos medos são legítimos. Podem parecer bobos, porém não surgiram do nada. Tem uma parte imensa da sociedade que nos quer com medo, para que a gente tenha vontade de ficar em silêncio, num canto.

Tem dias de se esconder, sim, e tem dias de encarar. Que a gente possa se apoiar para que, cada um, na sua medida, no seu tamanho, no seu tempo, enfrente seus medos e tome as decisões que achar melhor. Que o respeito e a humildade prevaleçam.

Muita força para todos que estão nesse momento dando seus passinhos de formiga ou grandes pulos de canguru para enfrentar o que temem.

E meu abraço muito muito apertado para dois amigos queridos nesse mês que começa. Um deles acaba de perder a mãe para um câncer, e ainda lembra de ser doce e cuidadoso com todos; o outro acabou de contar aos pais (religiosos) que é gay — um imenso passo de aprender a se amar, amar e ser amado.

Obrigada a vocês dois por, mesmo sem saber, me ajudar tanto a lidar com os meus próprios medos.

eucalipto

Sobre o desenho: O calendário de fevereiro/2019 foi feito a partir de algumas aquarelas que, depois de escaneadas, viraram um “padrão” (pattern, no Photoshop). Os desenhos e o rapport (nome do conjunto básico de uma estampa) foram produzidos num Workshop que fiz em janeiro no Atelier Chiaroscuro (Chiara Bozzetti), em parceria com a Estampaholic (Patrícia Capella). Seriam páginas e páginas para explicar como faz — fica para um outro post. Estou aprendendo bastante (com aulas extras da Patrícia) e espero ir compartilhando com vocês em breve! Minha pintura preferida foi essa do galhinho de eucalipto, feita a partir da observação, no verso de um papel Canson Aquarelle, com rascunho a lápis, depois colorido com as tintas da minha paleta.

Você acabou de ler “Fevereiro/2019 – Enfrentando medos“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2019. “Fevereiro/2019 – Enfrentando medos”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Jv. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Coragem de escolher

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Nesse final de 2015, tenho uma comemoração muito especial para celebrar: meu filho Antônio, de 14 anos, está se formando no ensino fundamental do Colégio Andrews, um espaço de ensino, reflexão e crescimento coletivo. Depois do trabalho sobre direitos civis e preconceito racial nos EUA, ele escreveu essa redação (abaixo) sobre um romance que leu para a escola. Mais do que a nota dez, me emocionou vê-lo dizer de forma tão simples e clara aquilo que às vezes levamos uma vida inteira para aprender. Não tem festa nem diploma, mas tem esse post de formatura e o desejo de feliz férias, filho amado.

Eis a questão — texto de Antônio Kuschnir Castro

“Durante seu tempo de vida, toda pessoa precisa fazer escolhas, assim como o jovem Pedro, personagem do livro O fazedor de velhos, de Rodrigo Lacerda. Seja essas na vida profissional, amorosa ou emocional, são as escolhas que guiam nossas vidas e futuros. O ‘destino’ não está pré-determinado — são as escolhas que o determinam.

“Conforme a história, no livro, vai se desenvolvendo, Pedro se vê com dúvidas em relação a continuar ou não na faculdade de História. Após diversos caminhos tomados e escolhas feitas, como ter gastado meses realizando trabalhos, literalmente, sem fim, como entender a ‘natureza humana’ ou achar frases que sintetizavam livros inteiros, Pedro finalmente descobriu-se escritor. Assim como Pedro, precisamos tomar escolhas no campo profissional que reflitam nossos reais desejos.

“Outra área em que as escolhas são cruciais é a área amorosa e emocional da vida. No livro, Pedro se vê com um dilema, quando sua amada tem uma proposta de trabalho no exterior. os dois, juntos, acabam escolhendo que ela vá. Na vida real, também é preciso tomar decisões no campo amoroso. Nem sempre as coisas são fáceis, muitas vezes é preciso escolher abrir mão de alguma coisa em troca de outra.

“A vida, constantemente, traz desafios a um indivíduo, traz decisões a serem tomadas. São essas escolhas e decisões que formam nosso futuro e nos formam, como pessoas. Se, com a peça Hamlet, Shakespeare escreveu a famosa frase ‘Ser ou não ser? Eis a questão.’, seria igualmente significativa a substituição do ‘ser’ pelo ‘escolher’. Somos as escolhas que fazemos: ‘Escolher ou não escolher? Eis a questão’.”

É também sobre a coragem de escolher um dos melhores livros que li recentemente: O sol é para todos, de Harper Lee, que tem como protagonista a menina Scout, entre seus seis e oito anos de vida. Através de seus olhos, observamos as preconceituosas e violentas relações sociais de uma cidadezinha do Alabama, nos EUA; e sonhamos em ter a coragem e a sabedoria do seu pai, o advogado Atticus Finch.

Scout é sabida e esquentadinha. Na escola, seu pai é constantemente ofendido por seus colegas por defender os negros nos tribunais. Ela quer revidar, mas Atticus lhe diz: “tente lutar com a cabeça”, querida, “só porque fomos derrotados uma vez não é motivo para não tentarmos novamente”. (p.105) Ela faz promessas para si mesma, mas mantem a “nobreza” por apenas três semanas: acaba dando uns sopapos no primo preconceituoso. Seu tio lhe ofende: você não quer ser “uma dama” quando crescer? Não, ela diz, não faz questão: prefere continuar a vestir macacão e brincar.

Sem entender porque todos odeiam seu pai, Scout pergunta, “Atticus, você deve estar errado. (…) quase todo mundo acha que eles é que estão certos e que você está errado.”

Atticus sendo Atticus: “Bem, eles têm o direito de pensar isso e suas opiniões devem ser respeitadas. Mas antes de poder viver com os outros, eu tenho de viver comigo mesmo. A consciência de um indivíduo não deve subordinar-se à lei da maioria.” (p. 139)

Adiante, Scout volta ao tema: “Você não é realmente um amante de negro, é?”

Atticus: “Sou, sim. Eu faço o possível por amar a todos… Às vezes é bem difícil.. Filha, não se sinta ofendida quando alguém disser uma expressão feia. Isso não deve atingi-la, apenas revela a pobreza de quem falou… (…)” (p.144)

Scout se revolta por ter que ler para uma das senhoras mais racistas da cidade. Após o falecimento desta mulher, Atticus revela que ela lutava contra uma doença terrível, que afetava seu julgamento, e explica porque exigira aquele esfoço da filha:

“Eu queria que você visse o que é realmente coragem, em vez de pensar que coragem é um homem com uma arma na mão. Coragem é quando você sabe que está derrotado antes mesmo de começar, mas começa assim mesmo, e vai até o fim, apesar de tudo. Raramente a gente vence, mas isso pode até acontecer.” (p. 148)

Uma das poesias da narrativa é que Scout continua sendo criança. Mesmo ouvindo seu pai, ela joga tudo que a senhora lhe deu no fogo da lareira. Outra hora, saudosa do melhor amigo, comenta: “Senti-me muito infeliz por dois dias”! (p.152)

É nesse misto de ingenuidade e determinação que ela protagoniza uma das cenas mais dramáticas da história, quando consegue impedir a ação de um grupo que pretendia linchar Tom, o acusado. Atticus desabafa com Jem, seu outro filho:

“E foi preciso que uma criança de oito anos os trouxesse à razão. Isso prova uma coisa: uma malta de selvagens pode ser detida porque seus membros ainda são humanos. Hum, talvez precisemos de uma força policial formada por crianças…” (p.203)

Diante da decisão do tribunal, que considera Tom culpado, mesmo com todas as provas de sua inocência, Scout e Jem não se conformam. Atticus também sofre: “Já fizeram isso antes, fizeram esta noite e farão outra vez, e quando isso acontece… parece que apenas as crianças choram.” (p.274)

Ele acreditava que a geração de seus filhos faria um mundo diferente, onde houvesse justiça independente da cor da pele, onde a palavra do branco, ou sua riqueza ou de sua família, não vencesse sempre a de um negro, ou a de uma mulher ou a de um judeu. (p.285 e 317)

Se lutaram do jeito certo ou errado para os anos 1950, não sei dizer. Mas a causa continua mais do que urgente em 2015: os Finch queriam viver num mundo onde só existisse um tipo de gente: gente. (p.293)

Sobre o livroO sol é para todos, de Harper Lee, editado pela José Olympio, com tradução de Maria Apparecida Nóbrega de Moraes Rego, em 2006. A obra foi originalmente intitulada To kill a mockingbird e publicada em 1960.

Sobre o desenho: Flor feita em aquarela com base numa ilustração de um livro (esqueci de anotar a referência, desculpem). Os materiais foram: papel Canson Moulin du Roi e aquarela Winsor & Newton. Algumas pinceladas mágicas da professora Chiara Bozzetti também contribuíram bastante para o resultado. O original será o presente de aniversário (muito atrasado) para minha mãe, leitora e minha incentivadora número um aqui no blog.


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Como não escrever uma carta para a seleção de mestrado

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Aos membros da Comissão de Seleção do Programa de Pós-Graduação Ainda-Não-Sei-Qual

Prezados professores e professoras,

Minha graduação está acabando e não sei o que fazer. Eu trabalhava numa loja, ganhava bem, mas não dava para passar a vida lá. Amo teatro, já fiz o figurino de duas peças, mas acho que não nasci para isso… Quando era mais nova, adorava fotografia – cheguei a ter um laboratório em casa e ganhei um dinheirinho. Mas passou. E tocar violão (mal) não conta, eu sei.

A faculdade, que teve um começo glorioso, com monitorias e médias ótimas, lá pelo sexto período, tinha chegado à lanterna da minha agenda. A vida era sexo-drogas-e-rockn’roll. O coração sempre aos pulos, o corpo em processo de descobertas, os destinos se cruzando para lá e para cá. Como alguém consegue focar na carreira, se apaixonar várias vezes e ainda casar no Circo Voador? Era assim. Entre um final-de-semana e outro, os professores me diziam para tentar um estágio. Estudante de jornalismo, meu sonho era o curso de verão da editora Abril ou o programa da Folha de São Paulo. Não passei em nenhum dos dois… Ganhei prêmios de consolação: uma vaga na antiga rádio Jornal do Brasil ou um estágio no departamento de fotografia do Globo? Escolhi o JB. (E se escrever matérias jornalísticas contasse como publicação para o currículo, essa experiência teria me valido dezenas de produções, juro.)

Minha sorte foi que no último ano da faculdade tive mestres encantadores. Uma professora de antropologia, um professor de história e uma professora de filosofia – todos na época alunos de pós-graduação – me trouxeram de volta o fascínio pelas ideias e pelos livros. Ninguém na minha família tinha mestrado, exceto por uns primos distantes por parte de pai (mas esses não contam, porque desde pequena eu ouvia que eles eram gênios e eu não).

Pela professora de antropologia, fiquei sabendo que a tal “bolsa de mestrado” não era só para não pagar o curso: era uma remuneração para o aluno se dedicar. Fiquei tão animada! Eu não tinha ideia de que isso existia. Meus irmãos e minha mãe não acreditaram.*

Não vou mentir. Tive apenas três meses para me preparar para essa seleção. E ainda precisei correr atrás de professores importantes para me dar duas cartas de “recomendação”. Eu não conhecia ninguém da área. O mais perto que eu tinha chegado de um antropólogo-doutor tinha sido durante um programa na rádio JB. Não dava para pedir uma carta para o cara! A única opção era a coordenadora do meu curso de graduação, uma professora-doutora muito séria e cética. Ela fez a carta, mas me entregou com um olhar de pena… daquele que diz: não se iluda, você não vai passar. Ok, mas vou fazer mesmo assim, obrigada: “Coragem é quando você sabe que está derrotado antes mesmo de começar, mas começa assim mesmo, e vai até o fim, apesar de tudo.”**

Tive essa coragem porque me convenci de que, se eu não passar, tudo bem, que mal vai fazer? Mas ainda faltava a outra carta… Essa foi a melhor, leiam com carinho. Mesmo sabendo que havia o risco de não valer muito, pedi a recomendação para aquela professora que era mestranda em antropologia. E ela não só escreveu, como se ofereceu para me ajudar com os textos da bibliografia da prova de seleção, porque não entendi um monte. Sei que eu não deveria escrever isso aqui… Mas não posso levar o crédito sozinha. A verdade é que, sem as nossas conversas e a inteligência dela (de gênia), vocês nem estariam lendo essa carta (porque eu não teria a menor chance de passar na prova escrita).

Queria acrescentar que sou uma pessoa muito focada, mesmo sem ter nascido desejando fazer essa pós-graduação. É, não vou mentir: nasci querendo mamar na minha mãe. Depois quis andar e falar – fui até bem precoce, segundo me contam (mas aprendi a ficar quietinha nas aulas, podem deixar). Fui para a escola muito nova e nunca fiquei de recuperação. Isso conta, não é? Ah, outra coisa boa: depois que aprendi a ler, não larguei mais os livros. Tudo bem se for livro de romance, poesia, teatro, correspondência, biografia, viagem? Porque só aprendi a gostar dos acadêmicos mais tarde… E mesmo assim, com alguns ainda durmo no meio – quer dizer, só nos chatos, como os de história da época do colégio.

Confesso que ainda não sou tão disciplinada para ler os textos de antropologia como gostaria. Mas estou melhorando! No início dos estudos para essa prova, eu precisava beber três coca-colas diet para ficar acordada (resquício da era das drogas…). Agora já consigo ler um texto inteiro sem beber nada. Quer dizer, se for um texto em português, mas já é um progresso. As línguas estrangeiras estão meio aos trancos e barrancos… Achei melhor deixar para estudar depois pois não são eliminatórias. Sou uma pessoa prática, isso é bom? Prometo que vou me esforçar ao máximo, porque a bibliografia em francês e inglês não está fácil não. Só não consigo estudar na hora de Pantanal, mas isso vocês perdoem, porque até o meu não-namorado (ele não é meu namorado mas eu queria que fosse) concorda: a novela é muito boa!

Apesar de todos esses defeitos, acredito que sou uma boa candidata para esse curso de mestrado sim. Posso não ser muito expert nos assuntos técnicos de ciências sociais, mas sou determinada. Também não tenho tanta concentração quando gostaria – ainda! E lembram do jornalismo e da fotografia? Pois é, eu só gostava de entrevistar e fotografar pessoas. Não acham que isso pode ser um indício de que darei uma boa antropóloga?

Agora, sério. O principal é que amo ler, escrever e aprender. Isso conta.

Torcendo por mim,

Karina Kuschnir

* Explicação para o leitor de 2015: não existia internet na época.

** A frase sobre a coragem é do livro O sol é para todos (To kill a mockingbird), de Haper Lee (ed. J.Olympio), p.148.

Esse post é dedicado ao Vinícius e ao Pedro, dois queridos que estão deixando o LAU/IFCS para voar por aí…

Também queria comemorar que atingimos 100 mil visitas aqui no blog! Esse número é muito pequeno no mundo da internet, mas é gigantesco pra mim, que comecei escrevendo só para mim mesma e para alguns amigos. Ando lendo blogs antigos na internet e ontem mesmo conversava com o autor de um deles, elogiando a sua coragem de escrever coisas pessoais. Ele me disse: por que não? Nossa conversa acabou me fazendo tirar essa carta dos rascunhos. Como diz o Caetano, tá combinado: “é tudo só brincadeira e verdade”!

E para quem se interessa pelo mundo acadêmico, o blog tem outros textos sobre minhas experiências… nos truques da escrita, na elaboração de projetos, nas defesas de tese, nas dores de não passar, na falta de tempo, no ensino de antropologia e desenho, no aprender a desescrever, nas agruras de ser doutoranda, na vida dos alunos, no sorriso do professor, nas lições da vida acadêmica, na importância de não ser perfeito e nas muitas saudades de Oxford 1, 2, 3 e 4!

Sobre o desenho: Carta inspirada em envelopes verdadeiros que guardei dos anos 1990. Fiz o contorno a lápis primeiro, depois fiz o carimbo-selo com canetinha Pigma Micron vermelha e azul 0.1, com alguns detalhes em lápis de cor (também utilizado para o carimbo DH, que não sei o que significa). O restante foi todo feito com aquarela.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2015. “Como não escrever uma carta para a seleção de mestrado”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-ie. Acesso em [dd/mm/aaaa].