Sobre o desenho: Redesenhei hoje algumas poses de uma sessão de modelo-vivo que fiz em janeiro/2104, aproveitando a vinda (infelizmente rápida) do maravilhoso artista e professor Manoel Fernandes para a Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Os materiais foram aquarela e lápis de cor em um bloco Canson escolar que definitivamente não suporta água! Depois de pronto, passei o verso a ferro para desenrugar. Pena que ainda ficaram algumas ondas bem chatas… A modelo era uma bailarina simpática porém tensa quando entrava numa pose. São cinco corpos misturados. Está dando para desvendar? Adoro aulas de modelo-vivo, apesar de nem sempre os modelos estarem vivos mesmo. Como qualquer pessoa, aliás… Quantas vezes andamos por aí no piloto-automático mental ou corporal, cumprindo nossas tarefas roboticamente? (Infelizmente, foi só um sessãozinha nesse dia; meu sonho era voltar a fazer esse tipo de aula, mas no momento os recursos estão em baixa… Tenho que me contentar com as poses de alguns segundos ou minutos que os passageiros do metrô fazem de graça todos os dias para mim! O problema é que a atmosfera do metrô está me parecendo cada dia mais triste; cada dia com passageiros mais cansados e quietos, mesmo na Linha 1, supostamente ocupada pelos cariocas privilegiados. Ou talvez ninguém possa ter uma aparência realmente viva andando no transporte nessa cidade.) A história da arte está cheia de histórias interessantes sobre relação entre artistas e modelos; da prostituta que virou esposa de Van Gogh aos trabalhadores marroquinos de Matisse… Mas o que mais me surpreendeu nos últimos tempos foram os diálogos incríveis que meus alunos de desenho e antropologia tiveram com as pessoas que desenharam durante uma pesquisa de campo no ano passado. Travestis, barbeiros, donas-de-casa, atendentes de lojas, vizinhos, idosos, motoristas de caminhão — um monte de gente interessante falando da vida e levando numa boa o papel de personagem-que-se-deixa-desenhar. Este talvez seja o melhor caminho para desenhar mais e melhor em 2014: encontrar modelos vivos vivendo por aí.
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Um Matisse para Maria Eduarda
“A dor passa, Matisse, mas a beleza fica” disse o idoso Auguste Renoir para o angustiado amigo. O contexto é o final da primeira guerra mundial. A Europa chorava seus mortos e os críticos desprezavam as cores e os temas que Matisse pintava naqueles anos sombrios. Como ele podia encher as telas de tanta vitalidade de tons, mulheres e padronagens enquanto o mundo desabava?
Foi nessa contradição que pensei quando terminei o desenho desse post. Como posso criar uma praia de guarda-sóis alinhados e coloridos com estampas como se estivessem em um desfile de moda? Como?, se nesse mesmo dia morria assassinada a menininha Maria Eduarda, de onze anos, vítima de uma bala “perdida” em sua casa no Irajá, Rio de Janeiro. Diz o aviso no muro: “não existe tiro acidental em bairro nobre”.
Eu devia estar fazendo algo. Não posso pintar em Nice enquanto os soldados morrem de fome nas aldeias do norte. Ou posso?
Arte ou política; ou arte política? Não, não vou propor uma solução messiânica para esse debate (até porque detesto as soluções messiânicas, infelizmente tão populares nas ciências sociais hoje em dia). Vou só contar mais uma história.
A vida de Matisse tem todos os ingredientes da trajetória do herói: No final do século XIX, menino pobre começa a pintar para se distrair enquanto convalesce. Vai para Paris, mas é rejeitado pelo mundo da arte, pelos pais e conterrâneos. Sem recursos, encontra na mulher e na filha o apoio incondicional para lutar por uma busca: o encontro perfeito da cor e da forma. Seu corpo, sua vida pessoal e pública desmoronam enquanto sua obra se afirma, se desafia e se reinventa até o fim. Do pintor, cujos quadros eram alvo de saraivadas de tomates, ao artista que “reinventou a arte no século XX”, como dizem no jargão da crítica.
Em 1900, vivendo num apartamento minúsculo no quinto andar de um prédio decadente em Paris, Matisse gastou o equivalente a metade da sua renda anual para adquirir a pintura Três banhistas, de Cézanne. Décadas mais tarde, quando doou a obra à prefeitura da cidade, escreveu:
“Nos trinta e sete anos que fiquei com esse quadro, vim a conhecê-lo razoavelmente bem, ainda que sem esgotá-lo. Ele me proporcionou apoio moral em momentos críticos de minha trajetória como artista; dele extraí a minha fé e a minha perseverança.”
Nenhuma resposta vai trazer de volta a vida da Maria Eduarda. Mas todos que choram a sua morte vão precisar da arte para suportá-la.
…
Sobre o desenho: Os guarda-sóis são inspirados em fotos de praias portuguesas que venho guardando no meu computador desde 2011. Usei canetas de nanquim Pigma Micron 0.05, aquarela, lápis de cor e ainda as canetinhas coloridas mais maravilhosas do planeta: Staedler triplus fineliner. O objetivo era ilustrar o calendário do mês de janeiro de 2014 em homenagem ao aniversário da minha amiga Mariela, que ama o sol. Depois escaneei a imagem e montei uma versão sem a grade do mês no meu velhinho Photoshop 7, de 2002, que é o que eu sei usar — por si só uma obra de arte do mundo do software.
Sobre Matisse: As citações estão na biografia Matisse, de Hilary Spurling (tradução de Claudio Alves Marcondes, ed. Cosac Naify, 2012). A frase sobre Cézanne está na p. 82 e a citação de Renoir na página 313. A edição traz um caderno de imagens colorido mas muito modesto perto do que é a obra de Matisse. Uma excelente fonte de imagens pode ser encontrada na WikiPaintings. Outro ponto que me irritou neste volume foi descobrir que suprimiram (tanto no Brasil quando na reedição americana) milhares de notas com as fontes e outros detalhes da pesquisa original. Para a versão completa, só comprando no mercado de livros usados nos EUA.
Chocolate de vidas passadas
Quando um relacionamento ruim acaba, você chega à conclusão de que não sobrou nada. Nem saudades, nem falta, nem arrependimento pelo adeus, nem lágrimas. Você não consegue nem ao menos se lembrar do sentimento que um dia te levou a namorar aquela pessoa. É como se fosse uma vida passada, e você não acredita em vidas passadas.
Um dia, seus filhos já não tão pequenos, curiosos, ficam fazendo perguntas sobre a sua vida amorosa. Crianças são boas de fuçar a vida alheia. Não se intimidam com palavras, pois percebem que suas caretas e olhares desviados contradizem o distraído “Não me lembro”.
Eles dizem: “Lembra sim! Vai, diz o nome, conta aí, como foi, como era, por que terminou??”
Ok, respondo: “Dessa pessoa, só sobrou desprezo e… quer dizer, pensando bem, sobrou uma receita de bolo de chocolate; a receita do bolo de chocolate que vocês adoram.”
E afinal, festejo com eles essa pequena alegria: um relacionamento com a pessoa errada até que deixou uma herança tão boa!
A receita da ex-futura-nunca-sogra virou um “clássico” da minha família e até hoje se espalha pelas casas dos amigos que um dia a provaram: um bolo de chocolate que nunca dá errado e que pode ser feito no liquidificador! O bolo virou a nossa tradição inventada particular… rs
Para uma mãe como eu, em semana de aniversário de filha e em final de semestre no trabalho, uma receita é o máximo que posso oferecer aqui neste blog, na tripla categoria de coisa gostosa, útil e prática:
Bolo de Chocolate (de Vidas Passadas)
Ingredientes:
150 gramas de manteiga sem sal ou margarina (Esse bolo é do tempo em que não existia denúncia de gordura trans. Costumo esquentar um pouquinho a manteiga no microondas para ficar mais mole — só uns 10 segundos!)
2 xícaras açúcar
3 ovos
2 xícaras de farinha de trigo (sem fermento)
1 xícara de leite
1 xícara de chocolate em pó (infelizmente tenho que recomendar aqui aquele da caixa vermelha com a foto do padre, da Nestlé-arg)
1 colher de sopa de fermento em pó (ou uma tampinha cheia, se for usar o fermento Royal, pois 1 tampa = 1 colher de sopa. Prático, né?)
Como fazer:
Forma & forno: Antes de tudo: prepare uma forma média forrando-a com manteiga e depois polvilhando-a com farinha; e acenda o forno para aquecer em temperatura média-baixa. (Se for seu primeiro bolo, ou se você não confia no seu forno, prefira formas baixas e largas, que tornam a tarefa de assar menos arriscada. Bolos altos exigem fornos de boa qualidade e temperatura estável, coisa que os fornos caseiros geralmente não são.)
Massa: Bata numa batedeira (ou no liquidificador) os ingredientes, começando pela manteiga e o açúcar e depois acrescentando os líquidos e secos alternadamente (fermento por último). Deixe bater até fazer bolhas de ar na massa.
Assar: Derrame a massa na forma untada (e dê umas batidinhas com a forma na bancada, para a massa assentar). Leve ao forno para assar. Demora uns 45 minutos mais ou menos. Paciência… Espere sentir bastante cheiro de bolo assando antes de dar uma olhadinha. Para ver se já está na hora de tirar do forno, teste no meio com um palito. Se o palito sair seco, está pronto!
Calda:
A receita da calda maravilhosa é da minha irmã e não vou dar aqui porque é muito difícil — só ela saberia explicar para ficar boa mesmo. Na atual conjuntura, eu uso cobertura de bolo pronta da marca Leite Moça. Sei que minha irmã não aprovaria… mas quem manda inventar uma calda que dá mais trabalho do que o bolo!
…
Sobre o desenho:
Fiz dois bolos hoje, e deram certo :-). Para o desenho, usei um pedaço de caixa de papelão que arranjei no supermercado Mundial. Para garantir que tudo caberia no espaço (uns 25 cm), tracei um esboço a lápis, depois passei canetinha preta Uni-pin 0.4mm, caneta Posca branca e lápis de cor. Para o título, usei caneta marcadora de CD preta. Foi divertido armar uma “natureza morta” como faziam os pintores flamengos, e descobrir como é difícil desenhar uma caixa de ovos transparente! Me enrolei toda. A ideia é totalmente inspirada (copiada, vá lá…) no que vi no site They Cook and Draw, em especial, no trabalho da ilustradora Koosje Koene, que também tem um blog muito simpático, que conheci através do Danny Gregory.
A Bolsa Amarela

“Minha semana de castigo foi ótima: escrevi à vontade – tudo que passava na minha cabeça, e tudo que acontecia na bolsa amarela.”
(Raquel, aos dez anos, heroína de “A Bolsa Amarela”, livro de Lygia Bojunga Nunes, publicado pela editora Agir em 1976, com ilustrações de Marie Louise Nery. Hoje o livro é editado pela Casa Lygia Bojunga.)
Quando eu era pequena, queria me chamar Karina Herrmann Kuschnir. Herrmann é o nome de família da minha mãe; a mesma mãe que quis me registrar só Karina Kuschnir porque “tinha trauma de nome grande”. Não acredito muito… acho que era coisa de querer agradar o meu pai.

Lembrei dessa história porque só outro dia (2/11/2013) tive coragem de reler A Bolsa Amarela. E lá estava na guarda do livro: Karina H. Kuschnir, escrito com minha letra provavelmente aos nove ou dez anos. Era preciso “coragem” porque eu não queria perder a magia de pensar na Bolsa Amarela como o livro-que-marcou-a-minha-vida de criança.
Reli cada palavra e a sensação foi de pleno reencontro, com o livro e comigo mesma. Tudo estava no lugar. A Raquel e eu tendo as mesmas vontades, sofrendo com o peso do mundo, escrevendo cartas para amigos imaginários, inventando histórias, desejando ter nascido diferente. A história começa assim:
“Eu tenho que achar um lugar pra esconder as minhas vontades. Não digo vontade magra, pequenininha, que nem tomar sorvete a toda hora, dar sumiço da aula de matemática, comprar um sapato novo que não aguento mais ver o meu. Vontade assim todo o mundo pode ver, não tô ligando a mínima. Mas as outras – as três que de repente vão crescendo e engordando toda a vida – ah, essas eu não quero mais mostrar. De jeito nenhum. Não sei qual das três me enrola mais. Às vezes acho que é a vontade de crescer de uma vez e deixar de ser criança. Outra hora acho que é a vontade de ter nascido garoto em vez de menina. Mas hoje tô achando que é a vontade de escrever.”
Vontade de crescer, de ser menino, de escrever. Na minha bolsa amarela, ainda tinha a vontade de desenhar, que não pesava muito, porque todo mundo acha normal criança ter esse tipo de vontade – só passou a ficar esquisita quando fui crescendo.
“O mundo dão voltas”, diz o meu namorado, fazendo graça ou citando a avó do Ed Motta, não sei bem. Trinta e seis anos depois, resolvi dar uma voltinha com A Bolsa Amarela, pensando no óbvio: “a vida é curta”. Tá na hora de ser mais inteira, mais em paz comigo mesma, de ter uma bolsa mais leve. Alguma coisa me dizia que a Raquel podia me ajudar. Ela conta que vontade não realizada fica gorda, pesada e dá uma vergonha danada na pessoa.
A mágica da Lygia Bojunga é nunca ter medo de levar essas perguntas a sério. As personagens dela – crianças, bichos, coisas e até adultos, às vezes – estão o tempo todo pensando, pensando, pensando pra valer. Sozinhas ou com os amigos, nascem com sede de se interrogar sobre o mundo, sobre si, sobre os outros, sempre. (Num contexto de ditadura militar, como o do Brasil da época, lutar por liberdade de pensamento não era fácil. Hoje, mesmo com inimigos menos óbvios, nem por isso a causa está ganha, vide tudo-o-que-está-acontecendo.) 
Como muitas heroínas, a Raquel já nasce com um poder especial: ela sabe das suas vontades. Isso não é pouco. A maioria de nós tem uma lista imensa de vontades na bolsa, e tem uma dificuldade enorme de escolher as que realmente importam. É difícil separar aquelas que tem a ver com os problemas graves do mundo – ai, um pouco menos de desigualdade por favor – e as que tem a ver com os problemas do nosso cotidiano – ai, um pouco mais de dinheiro no meu salário – daquelas que dizem respeito à nossa existência humana: “Quem eu sou? Por que viver? Para onde vou?”
Crescer, ser menino, escrever: como a Raquel se entende com essas vontades? A paz com as duas primeiras chega aos poucos, conforme ela vai vendo que criança pode ser levada a sério, que menina pode gostar de jogar bola sem precisar deixar-de-ser-menina, que casa de família não precisa ter chefe mandando criança ficar quieta, que ser bonitinha não é objetivo de vida, que desamarrar pensamento é difícil, mas possível.
Ao vê-la soltar as vontades de crescer e de ser menino na praia, feito papel de pipa, bem fino e levinho, seu amigo Galo pergunta: “– E a tua vontade de escrever?” Ela diz: “– Ah, essa eu não vou soltar. Mas sabe? Ela não pesa mais nada: agora eu escrevo tudo que eu quero, ela não tem tempo de engordar”.
…
Sobre as ilustrações deste post: o livro foi desenhado por mim num caderno comum, com caneta de nanquim permanente 0.2, e depois colorido com lápis de cor. As demais ilustrações são cópias feitas à mão dos desenhos de Marie Louise Nery, com ajuda da app Adobe Ideas, no Ipad, com uma caneta eletrônica Bamboo.



