Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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O gato que virou livro

junho2015

Imaginem uma família crítica, agora multipliquem e elevem ao quadrado… É mais ou menos de onde eu vim. A tia mais fofinha era do tipo que olhava seus dentes antes de te dar bom dia. A avó pegava no colo e contava histórias, mas ai se você estivesse mais gorda. A redação da escola vinha com nota dez, ufa, parabéns; mas o filho da fulana escreveu uma com 60 linhas — quantas linhas tinha a sua mesmo?

A pessoa não sai ilesa vivendo 20 anos nessa espécie de bancada-Roda-Viva constante. Vira crítica também; ao cubo, três vezes. Isso não garante que vai ser boa em alguma coisa, mas até que favorece a profissão acadêmica… Adquire-se uma imaginação infinita para antecipar críticas.

Agora, joguem essa pessoa no mundo da arte? Ferrou. Num universo de parâmetros tão subjetivos, de mestres tão obsessivos, de imagens tão encantadoras… Como a pessoa pode se achar no direito de bater à porta? Não, de jeito nenhum. Me deixem aqui no meu cantinho rabiscando no caderno, que é melhor. Assim eu pensava.

Mas uma rede de amigos e até muitos da família (!) me empurraram porta adentro… Manoel, Nathalia, Arthur, Manya, Mário, Gilberto, Eduardo S., Clau, Bel, Mari, Ale, Robs, Joana, Malu, Sofia, Susi, Andrea, Hanny, Dady, Ronald, Elisa, Celina, Antônio, Alice, Vera, Cilene e, claro, o Juva, que escreveu, esperou, ouviu, aturou, incentivou, acolheu, elogiou, amou… Taí a coragem que vocês me ajudaram a ter! Meus agradecimentos infinitos também para os leitores desse blog, e aos amigos do Facebook, por tantas gentilezas, incentivos e apoios, principalmente em 2014, um dos anos mais difíceis da minha vida.

E um pote de sachê para o Charlie, a Lola e o Ulisses, meus gatos amados que aceitaram virar livro-de-verdade! (E não levem atum, porque a Lola é membro dos Atumhólicos Anônimos.)

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Se estiverem fora do Rio, podem pedir online na Vieira & Lent !


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Um caderno não é só um caderno

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A primeira vez que participei de um evento dos Urban Sketchers, em Lisboa, em 2011, fiquei maravilhada com a quantidade de desenhos que passavam de mão em mão. Todo mundo se cumprimentava assim: “Posso ver o seu caderno? Quer ver o meu?”

Já conhecia várias daquelas pessoas por blogs, flickrs e pelo livro Diário de Viagem de Eduardo Salavisa, mas nada se comparava a folhear os caderninhos pessoalmente. Um dos primeiros que vi ao vivo foi o de Richard Câmara, começando com uma sequência de imagens feitas através das janelas do avião (a pousar em Lisboa), seguida por dezenas de páginas com animais do zoológico. “Em quanto tempo você desenhou tudo isso?”, perguntei. “Ontem e hoje”, ele respondeu, sem nenhuma afetação; e ainda fazendo questão de me explicar que a ideia das janelas tinha sido inspirada no desenho de fulano-de-tal (infelizmente não lembro o nome).

“Como assim???”, pensava eu com minhas canetinhas… Desde 2004, eu tinha voltado a desenhar, mas nenhum dos meus cadernos se comparava àquelas páginas intensas e coloridas. Era como saber tocar “Gente Humilde” com três cifras no violão e encontrar pela frente a galera que toca “Brasileirinho” com os olhos vendados.

Felizmente, a essa altura da vida, eu já tinha aprendido que adoro aprender. Gosto de ser aluna, de enfrentar desafios, de descobrir uma montanha de coisas que ainda não sei. Amo legos e quebra-cabeças (os de verdade e os metafóricos).

É claro que morro de preguiça muitas vezes, e também já desisti de aprender a tocar Brasileirinho (o de verdade e os metafóricos) em várias oportunidades. Larguei pelo caminho um monte de coisas; e não sou nenhuma miss-certinha. (Os mais de quinze dias de atraso nesse blog são uma boa prova do meu sistema “bom mas nem tanto”, “bem feito, mas com defeito” ou o melhor, da vovó Trude: “só erra quem faz”. )

Então, bora comemorar! Muitas e muitas páginas e canetas depois daquele evento de 2011, até a imersão na Drawing Land do ano passado, agora já tenho coragem de perguntar: “Posso ver o seu caderno? Quer ver o meu?”

Sobre os desenhos: Quase todos os desenhos foram feitos com canetinhas de nanquim descartáveis (as minhas preferidas são as Pigma Micron da Sakura) e coloridos com aquarela, lápis de cor e vários tipos de canetas hidrocor (no momento estou apaixonada pelas Tombow e em vias de me apaixonar pelas Koi watercolor brush, da Sakura, que acabaram de chegar graças a uma amiga que foi aos EUA.) Estou sem tempo de escrever sobre cada imagem, mas se tiverem alguma dúvida ou curiosidade me escrevam nos comentários que eu respondo!

O caderninho é um Laloran com lombada de tecido Tais timorense feito pelas mãos talentosas de Ketta Linhares. Essa minha versão é com papel mais fino do que o ideal (de 220gr que usei no #UskParaty2014). Ainda por cima, o bichinho tomou um banho d’água logo no segundo dia de uso (daí as ondulações sombreadas em várias das páginas abaixo).

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Cores de março

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Não sei se já comentei aqui, mas um dos desafios da minha vida foi assumir que adoro ser útil e fazer trabalhos manuais.

Comecei a ter noção de que tinha vergonha disso na faculdade de jornalismo. Amava as aulas de teoria, filosofia, história, cinema etc… Mas secretamente continuava querendo ajudar o meu avô a lavar selos.

Um dos professores que eu mais admirava era o Wagner Teixeira (agora já falecido). Ele escrevia divinamente, contava histórias incríveis sobre reportagens heróicas, publicava livros, um sábio. Ficamos amigos porque eu falei para ele: — Professor, me desculpe, mas vou ter que trancar a sua disciplina para fazer um curso de cinema no Estação Botafogo com o Luiz Vieira (da UFF). Ele ficou impressionado de eu dizer isso no meio do semestre ao invés de tentar enrolar para ver se colava. (E não conto isso para posar de certinha: é claro que enrolei vários dos meus professores, mas não ele.)

Não sei bem como foi, mas a partir daí começamos a marcar conversas e ficamos amigos. Ele era da velha guarda, adorava beber, fumar, e tinha uma barriga imensa… e era uma figura adorável e humana. Ia direto ao ponto, sem papo furado. Me indicava livros, me ajudou a sobreviver ao tédio do meu primeiro estágio e me fez ter confiança para tentar o mestrado.

Um dia marcamos um encontro no Centro, na Rua da Quitanda. Ele estaria no escritório de uma associação de aficcionados por dicionários (ele próprio era um). Aficcionados é pouco: eram estantes e mais estantes só de dicionários e obras de referências de todos os tipos. Um lugar incrível! (Pena eu não me lembrar do nome.)

Pois bem. Quando eu chego lá, vejo o seguinte: o professor Wagner Teixeira com tesoura e cola na mão, cortando e colando etiquetas de remetente nos envelopes de correspondência da associação. E ainda escrevendo cada endereço dos destinatários à mão, com caneta e letra caprichada.

Ele me viu chegar e foi logo dizendo: — Quer me ajudar? Adoro fazer esse tipo de trabalho manual. Me acalma. E você?

Eu — Sim! Também adoro!

E ficamos lá, um tempão, naquele silêncio delicioso de quando nos sentimos bem acompanhados, preenchendo papéis que muito provavelmente iam parar no lixo.

Esse momento ficou na minha memória. Sei que é banal… Mas foi mágico saber que uma pessoa que eu admirava tanto intelectualmente também gostava de tesoura e cola; e de fazer coisas práticas e úteis. (Nessa época eu tinha sublimado o desejo de desenhar.)

Queria também dizer obrigada pelos comentários tão gentis aqui e no Facebook sobre o post da semana passada. Foram quase 10 mil visualizações — não que eu esteja contando… imagina! 😉 Mas esse tipo de repercussão ajuda a achar que um blog também pode ser útil!

Sobre o desenho: Amo listras! O calendário de março foi inspirado nas cores de um potinho de porcelana portuguesa (moderna) que tenho aqui em casa; e também na lateral de um livro sobre teoria da cor que vi no atelier da Chiara Bozzetti, com quem estou começando um curso de aquarela. Fiz as linhas com canetinha Pigma Micron 0.2 e as cores com lápis de cor. Comecei usando os aquareláveis, mas depois troquei para o Prismacolor Premier que se mostrou realmente muito superior para cores chapadas e fortes como essas. Acrescentei um pouquinho de Abril porque nunca é demais lembrar que tem feriado no final do mês!

 

 


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Estilo copiativo

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O Leonardo, um leitor do blog que não conheço pessoalmente, me escreveu perguntando “se meu estilo tem nome” e como ele faz para desenhar do jeito que eu desenho… Estou há umas três semanas fingindo que não vi o comentário. Vai que ele errou de blog? Deve ter clicado em algum dos links que coloquei na lista de inspirações e comentou aqui por engano… Mas hoje fui rever a mensagem e estava lá o que eu temia: o meu nome logo no início da pergunta. Foi pra mim mesmo.

O problema é que eu não me vejo tendo estilo de desenho algum. Desde pequena eu adorava era fazer cópias. Um dos primeiros desenhos de que me lembro ter feito foi uma tentativa de cópia da capa do LP dos Saltimbancos, uma imagem da galinha com os pintinhos em volta. A minha mãe até mandou emoldurar, apesar dos meus protestos dizendo que só tinha copiado… Depois me atraquei com uns livrinhos de arte da minha avó, do Toulouse-Lautrec, do Degas e do Ingres. Gostava mais de desenhar gente do que coisas.

Na época em que eu tinha uns dez, doze anos, havia uma febre entre as adolescentes de colecionar adesivos e papéis de carta decorados. O problema é que no Brasil não se vendia aqueles que a gente mais gostava, do Snoopy e da Hello Kitty, por exemplo. Quando eu conseguia uma folhinha nova, ao invés de colar por aí, eu fazia o seguinte: copiava os desenhos tim-tim por tim-tim, com canetinhas e lápis de cor, até ficarem “idênticos” aos originais. Depois recortava (deixando uma margem branca, como nos meus modelos) e colava um contact transparente por cima para virarem adesivos. Tenho até hoje uma agenda escolar cheia dessas cópias e, claro, uma caixa bem velhinha com algumas folhas com os adesivos originais ainda intactos! (Outras eu usei com os meus filhos para provar que tinha deixado de ser boba).

A glória dessa fase foi quando minha irmã arranjou um namorado que gostava de desenhar (e copiar) tanto quanto eu. Fazíamos guerras de Garfields! (Outro dia me lembrei dessa fase, aqui.) Ele era muito melhor: sabia tão bem todas as proporções do Garfield e do Spooky que desenhava sem olhar os modelos. Estávamos nos anos 1980 e tudo era muito cafona: passamos a fazer adesivos enormes para colar nos carros dos pais e dos amigos! Pois é.

Depois desse auge copiativo, a única coisa de que me lembro foram os fracassos em duas provas de vestibular de desenho. Fui reprovada na primeira, que fiz ainda no segundo ano do ensino médio. No terceiro ano, resolvi fazer umas aulas para me preparar. Meu sonho era passar para a Esdi.

Arranjei um professor tipinho “gênio”, especialista em física, química e matemática, mas que também se garantia em desenho. Não me lembro das aulas. Só que ele me emprestou Os Miseráveis e me achei o máximo devorando o livro. (Depois, descobri, revoltada, que aquela era uma versão reduzida!) Eita professorzinho charlatão. O resultado: fui reprovada de novo! Uma das questões daquela segunda prova até hoje me dá pesadelos: desenhe objetos análogos ao conceito que aproxima uma escova de dentes de uma escova de cabelo. Desenhe! Até hoje eu não sei a resposta…

Será que é por isso que eu tenho trauma de fazer desenho por encomenda?

E pensar que nesse mesmo vestibular eu tinha passado na minha segunda opção. Entrei para a Escola de Comunicação da UFRJ e não fui fazer matrícula! Se eu fosse a minha mãe, teria me matado!! Mas minha mãe era tipo anos 1970 e não pressionava… O prêmio de consolação foi passar na prova de desenho da PUC; mas aí o caldo já estava entornado. Não conseguia gostar… Logo no primeiro semestre de projeto, fui reprovada pela Ana Branco, merecidamente. Toda a minha auto-estima, de aluna quase exemplar nos anos de colégio, estava indo ladeira abaixo…

Para encurtar a história: subi umas escadas lá na PUC mesmo e resolvi fazer aulas na Comunicação. Acabei me encantando com os professores do curso, tantos os jornalistas como os que vinham de áreas como antropologia, sociologia, história, letras, cinema… Virei jornalista, depois antropóloga e passei uns dez anos praticamente sem desenhar.

Acho melhor contar a outra parte num próximo post, tá Leonardo? Sei que não respondi nada de objetivo para a sua pergunta, mas já está muito grande essa história que nem tem graça nenhuma.

Sobre os desenhos: O pretexto para responder ao Leonardo surgiu desses desenhos, que comecei a fazer para remendar uma página de observação que deu errado. Me dei conta de que essa mania de copiar me deixa paralisada quando não tenho nada para observar! Como detesto manias (principalmente as minhas), bora lutar contra. Aí vão dois desenhos imaginados… Ambos feitos com canetinhas Unipin 0.05 (abaixo) e 0.2 (acima) e coloridos com aquarela num caderno moleskine velho que tinha umas folhas sobrando. Ah, mas para não dizer que não copiei nada de ninguém, a inspiração das cores é do Prashant Miranda, por quem ando completamente apaixonada; e acho que as construções foram bastante influenciadas casinhas que andei fazendo, aqui e aqui, e por estas lá do início do blog.

 

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Viva o tio João

JUR

Como contei no post sobre as dez lições da vida acadêmica, meu primeiro trabalho no mestrado foi sobre João Ubaldo Ribeiro. Era centrado no livro Viva o povo brasileiro, cujas quase 700 páginas li apaixonadamente em 1990.

Com a morte do João, deu tanta saudade dos seus romances… Li todos (até então publicados) de uma vez só!

Foi assim. Um belo dia, entrei numa sala de aula da PUC (era meu último semestre no curso de jornalismo) e conheci um aluno três anos mais jovem que se dizia “sobrinho do João Ubaldo Ribeiro”. Um cara incrível, engraçado, poético, falante e bonito. Ficamos amigos. Éramos ambos apaixonados por literatura, por cartas e por escrever. Ele provou que era sobrinho do João mesmo! Toda semana me dava um romance do tio. E ao invés dos textos do curso (de Psicologia da Comunicação), conversávamos horas e horas sobre os livros, as cartas, os artigos, o humor e as ideias do Ubaldo!

O ápice da minha febre-ubaldina foi quando terminei meu sofrido trabalho (já  no mestrado) e mandei para o “tio João”. Depois, fui finalmente conhecê-lo em pessoa. Tivemos uma conversinha… Ele ali, naquela simplicidade, na casa da sogra, de chinelos, sem ares de fama. Dei boas risadas. A gente não se deve levar muito a sério, ele disse.

O sobrinho dele também passou a escrever livros, tem vários romances lindos. Fez até uma tese de doutorado sobre o tio (que vai virar livro) e guardou com carinho o presente histórico: a máquina de escrever Remington — exatamente a máquina onde foram datilografadas as páginas mágicas de Viva o povo brasileiro e que vai desenhada aí em cima.

E como consegui desenhar essa máquina para o blog? Porque tenho fotos — ela está na casa portuguesa deste que muitos anos e perdas de cabelo depois se tornou meu namorado…

Deixo com vocês a homenagem que ele escreveu para o jornal O Público (Portugal) na semana da morte de João Ubaldo.

Cartas ao jovem sobrinho

Juva Batella

Quando publiquei o meu primeiro livro entreguei um exemplar ao velho tio e, ansioso como um jovem autor não deveria ser, não esperei passarem-se 24 horas e já o procurei, batendo-lhe à porta, para saber o que havia afinal achado do meu primeiro romance, e ele me puxou para dentro com veemência, como se fugíssemos de repórteres, e me aconselhou aos cochichos a jamais perguntar a opinião de alguém acerca de um livro que se tenha escrito. “Deixe que o leitor se manifeste, querido sobrinho. Jamais pergunte uma coisa dessas!” E me disse meses depois, numa carta, que eu arranjasse, por amor a todos os santos da Bahia, uma ocupação decente, “que não se aproximasse tão perigosamente do ofício de seu tio”. E as inúmeras cartas que recebi dele começavam sempre assim: “Irrepreensível e inadmoestável sobrinho”. E me aconselhou a ler Shakespeare. “Basta isso, sobrinho! E que Deus tenha pena de sua alma jovem! Basta ler Shakespeare, ainda há tempo!, e todo o resto virá naturalmente. E se você me disser que não lê em inglês aí eu deixo de me dar com você, vá ler inglês urgentemente, conselhos do velho tio: há que ler os clássicos! Os clássicos não são clássicos à toa. O que se deve evitar é ler o que escreveram sobre os clássicos, a não ser que o autor do clássico sobre o clássico seja também um clássico, coisa rara, mas encontradiça.” Também me aconselhou a ler Homero, “principalmente A Ilíada, é claro”, e me sugeriu que evitasse as traduções em versos, porque os pés gregos são inimitáveis. E numa das cartas, a maior e a mais divertida de todas, simulou uma entrevista que eu daria, anos mais velho, à revista Fortune, onde, acendendo o meu charuto com uma nota mil dólares, relataria ao curioso e assustado repórter as origens do meu sucesso capitaneando um império editorial sem tamanho. “Mas vê-se que o senhor não é um fumante de charutos…”, assim disse eu, como personagem de João Ubaldo, ao estupefato repórter que me entrevistava para a Fortune. “Qualquer fumante de charutos sabe que o charuto aceso com uma nota de mil dólares tem um sabor inigualável.” E em todo os momentos da minha vida o velho tio praticamente me obrigou a prosseguir em minha “trilha triunfal e adotar como lema Audaces fortuna juvat, que calha muito com o seu nome: a sorte sorri aos audazes! Em frente! Eia Sus!”, escreveu ele, que sempre assinava assim: “Misteriosamente, João Ubaldo Ribeiro”.

Hora de reler o velho tio, linha a linha, e refazer esse traçado que já faz parte de mim.

Ah!, e de vez em quando ele assinava assim: “Do seu velho tio, Ubaldão, o Cruel”.

Alice News:

Eu — Alice, como você está? Ainda com “zero problema”?

Alice — Não… essa semana estou com problemas.

Eu — Ah, é? Quais?

Alice — Estou… pro-fun-da-men-te precisando de uma coisa.

Eu — O quê?

Alice — Eu me obsessei pelo Felipe Lahm.

Eu — Como assim, filha?

Alice — Eu preciso conseguir um card dele, e dos brilhantes!

Sobre o desenho: Fiz o desenho sobre a foto da máquina original com uma canetinha para Ipad (genérica, que o Antônio comprou no Japão por 5$) na app Procreate. Depois imprimi, colori com lápis de cor para que a fita da máquina ficasse verde e amarela, e scaneei de novo. Levei quase duas horas para desenhar a máquina e todos os seus detalhes. A melhor parte foi observar com calma cada pedacinho, cada desgaste, e ainda os símbolos antigos de cruzeiro, de libra, de parágrafo… É bem clichê dizer isso, mas… saber que uma peça tão simples produziu uma obra tão gigante me faz lembrar de consumir menos & produzir mais.

Imperdível: No Centro Cultural dos Correios, no Rio de Janeiro, exposição com obras (e até inéditos) de J.Carlos! Curadoria Julieta Sobral; iluminação impecável do Ronald Cavaliere.

 


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Aos treze

Celina

Essa semana o meu desafio foi voltar no tempo. Não em busca de uma memória específica, um episódio ou um acontecimento. Não… Passei os dias tentando me lembrar de como eu vivia e sentia aos treze anos.

Ter formação em antropologia ajuda? Um pouco. Afinal, a gente vem se debatendo há décadas com a busca por conhecer o mundo pelo ponto de vista dos outros. E “eu, aos treze” era definitivamente uma outra…

O problema é que fazer isso só é fácil na teoria. “Basta não ser etnocêntrico”, diz o livro. Qualquer aluno de ciências sociais acha que tira de letra. Porém, é só pedir um exercício prático que a compreensão vai pelo ralo. Vejam um frase de um estudante do primeiro período (de muitos anos atrás) sobre o universo que tentava analisar:

“Eram pessoas muito diferentes de mim. Eu me senti um estranho, mas depois até que fui me acostumando e achando que eles eram legais.”

Pois é… Não acrescentou nada!

Mas hoje vejo essa frase de forma menos crítica. No fundo, ele escreveu o que todo mundo sente. Compreender o outro não é passar a achá-lo menos estranho e menos chato?

Eu até costumava mostrar essa frase como exemplo do que não escrever num diário de campo. Em seguida, mostrava um trecho de “boa prática” na escrita acadêmica, de uma aluna estudando jogadores de games:

“Esse grupo tem toda uma linguagem particular que aos poucos fui aprendendo. Por exemplo: ‘– Como foi na prova da Petrobras?’ ‘– Ah, foi só para ganhar XP.’ (XP é uma pontuação do jogo. Ele quis dizer que foi mal, mas serviu para ganhar XP=experiência.)”

Pronto. Pelo menos aprendemos alguma coisa.

Voltando à minha volta no tempo. De repente, consegui me lembrar. Quando eu tinha treze anos estava com a paixão à deriva! Sentia a existência dessa coisa maravilhosa, doida, dolorida… Tinha uma força pulsando no peito (e em outras partes do corpo!) e não sabia o que fazer com ela. Ansiava por viver aquilo que (achava que) já sabia na teoria… Escrevia cartas para namorados imaginários… Ia pulando de sonho, de canção, de ídolo, de amor imaginado, numa espécie de eterno viver-em-tese…

E por que essa viagem? Porque meu filho tem treze anos e meio. E eu o amo profundamente… e anseio por me sentir mais conectada com as descobertas e angústias que ele está vivendo. (Sem deixar de ser a mãe.)

Agora já me sinto um pouquinho menos ignorante. E também posso dizer: é difícil, mas vai passar. Daqui a pouco chegam os quatorze, os quinze e finalmente os mágicos dezesseis!

Sobre o desenho: Hoje passei duas horas no trânsito (não, não é modo de dizer). Mas no meio do caminho avistei minha sobrinha Celina Kuschnir, assim mesmo, de calça (ou meia-calça) azul e capa-de-chuva vermelha (ou seria um vestido?). Uma coisa linda de se ver, toda Amelie Poulain, no meio da Rua São Clemente! Gritei por ela, que se virou e me deu um oi-tchau e um sorriso de longe. Assim que cheguei em casa, tentei desenhar a cena, que vai aí em cima em canetinha Uninpin 0,1 e aquarela. Sei que está bem tosca, mas acho que é uma boa ilustração de alguém vivendo a idade-na-idade-que-tem. E um bom lembrete para mim: viver no presente, pois até no meio de um trânsito horrível pode surgir um desenho cor de rosa!

Sobre o título desse post: “Aos treze” é também o título de um filme (2003, direção Catherine Hardwicke) que vi por sugestão de minhas alunas (na época, da PUC-Rio), que fizeram um ótimo trabalho sobre o tema da adolescência no cinema.


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Continua, Nora!

Norab

Noralóide querida,

bons ventos trouxeram teu livro às minhas mãos na semana passada. E já vou dizendo que adorei, amei, casei! Todos os livros autobiográficos deveriam ser assim: com história, humor, emoção, aventura e um bem-vindo bom-senso. Concordo com tudo, Nora. Você me devolveu a esperança de que o humanismo faz sim muito sentido.

Meu avô também achava a maior bobagem esse papo de ser melhor do que os outros porque nasceu na Europa. Como você bem escreveu: por que se orgulhar de algo que “não passa de um acidente biológico-geográfico”? Ele adorava mesmo era ser brasileiro.

Quando eu era pequena, mas já grande o suficiente para saber do Holocausto, não entendia porque as famílias judias (ou apontadas como judias) não tinham simplesmente ido embora. Levou um tempo para o meu avô me contar que teve que fugir deixando para trás seus pais, seu irmão e muitas pessoas queridas. No caso dele, foi a única fuga possível. Não havia rota, transporte nem vistos, como você contou tão bem. Fugiram apenas os que tiveram sorte e, mais raramente, algum dinheiro.

Foi com muita emoção que li sobre a sua chegada solitária em Lisboa. Que linda imagem a das calçadas de pedras portuguesas iluminadas pelos candeeiros em contraste com o mundo escuro e bombardeado que ficou pra trás. E foi com mais emoção ainda que imaginei o navio te trazendo para a Baía de Guanabara, onde meu avô aportava dois anos antes. Quando vocês chegaram, em 1941, veja só, ele já tinha arranjado uma namorada brasileira e casado! Pode ser que, no caminho para a pensão, vocês tenham cruzado com minha vó passeando grávida da minha mãe.

Adorei cada pedacinho do seu texto — dos primeiros tempos às terras cariocas. Vi um toque gostoso de Mário de Andrade, um não-sei-o-quê que escreve rindo, sem medo das próprias fraquezas e forças. A cena da estufa explodindo é quase uma versão feliz de “O Peru de Natal”:

“Mamãe trouxe a sopa, serviu e, de repente, pum! A estufa caprichou mesmo. Lá estávamos nós que nem fantasmas após a erupção do Vesúvio de Pompéia, todos cobertos de cinzas. As sopas e o resto da mesa também, tudo em volta era um cinzume só. // Pela primeira vez, mamãe desandou a rir toda contente porque finalmente papai havia tido uma demonstração prática do que vinha acontecendo há tempos.”

E seguimos com vocês, do riso ao choro… Mesmo no meio da tragédia, nos encantamos com suas dúvidas sobre estar ou não “autorizada a se considerar adulta”. E veja a coincidência: enquanto você escrevia para a Rainha da Inglaterra pedindo ajuda, minha avó escrevia para o Getúlio Vargas para salvar a família do seu marido que não conseguia sair de Berlim. Ela até subiu de joelhos a escadaria do Palácio do Catete para pedir uma audiência! Minha bisavó alemã era como você: obstinada. Rapidinho aprendeu português, a ponto de escrever cartas lindas que hoje são um tesouro na nossa família. Infelizmente eles não conseguiram dinheiro suficiente para os vistos e “tudo-o-mais”, como você explicou tão bem.

Termino esta carta te dizendo, Nora: foi pouco! Vamos lá, você mesma admitiu no final. Tem muito mais história para escrever. Em nome de todos os seus leitores, te imploro que continue! A Zélia Gattai começou assim, lembra? Do divertido “Anarquistas Graças a Deus” para uma prateleira cheia.

Um abraço muito abraçado,

Karina

Sobre o livro: Lindo volume, numa edição caprichada, com muitas fotos e delicados desenhos da autora, além de posfácios escritos por suas filhas Laura e Cora. E tudo isso impresso em papéis criativos e fonte legível! Corram pra ler: Memórias de um lugar chamado onde, de Nora Rónai, ed. Casa da Palavra, 2014. A citação do caso da estufa está na página 85. A abertura e o final desta carta foram copiadas do Mário, claro, de Andrade, por causa de um volume que me caiu nas mãos há poucos dias: Cartas a Murilo Miranda (1934-1945), ed. Nova Fronteira, 1981. Como disse-me um amigo, ser fã de Mário exige cuidado. É um vício e não há estante que chegue… “O Peru de Natal” é um conto de Mário incluído no livro Contos Novos, de 1946. Eu ia escrever que o livro é maravilhoso e tal. Mas fica desde já definido nesse blog que Mário-de-Andrade e maravilhoso são sinônimos.

Sobre o desenho: Ilustração feita a partir de fotos do livro, com canetinha Bamboo na App Procreate no Ipad. Depois organizei no Photoshop. Quando já estava quase pronto, senti falta de algo branco. Daí surgiu a ideia do barco se sobrepondo na imagem. Achei que encaixava na travessia oceânica narrada no livro e no intenso amor da Nora pela água… (As cores foram inspiradas numa imagem que achei há tempos no Pinterest, mas, infelizmente, perdi a referência à fonte original.)


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Leite de vó

jun2014fb

Imersa na casa da minha vó, bem que eu podia aproveitar para me afogar em lágrimas e saudades… Ninguém teria o direito de reclamar. Afinal, na semana que vem, vai fazer um ano  que ela se foi, aos 98. Até pensaram que ela ia morrendo de véspera… Mas não. Toda vez que chegávamos ao hospital, ela bem magra e fraca, os médicos balançavam a cabeça… Só que ela abria os olhinhos verdes e perguntava: “Como vai o Rodriguinho, seu filho? E a Dona Amélia, continua trabalhando no seu consultório?” O doutor não acreditava: “Mas, dona Lydia, a senhora lembra do nome do meu filho e da minha secretária?” E ela: “Ah, e a sua coluna, melhorou? Tem feito fisioterapia?” Era impossível não sorrir. E ninguém tinha coragem de colocá-la para dormir, nem de dar só um remedinho… Bora curar. E ela curava, desafiava a idade e voltava a nos surpreender.

Quando nasci, descobri que não era fácil ser neta dela. Sempre tive uma quedinha pelo direito de sofrer. Mas vinha a minha avó, me botava na cadeira de balanço e começava: “Era uma vez uma fazenda muito bonita onde vivia uma menina feliz…” Era a história dela, ligeiramente editada, digamos. A menina tinha sido feliz até os sete anos, ok. Mas então perdeu a mãe! Depois, mais um pouquinho, lá se foi o pai, ela com doze. Depois, passou até os dezesseis cuidando da irmã com uma tuberculose-que-só-milagre. E isso lá podia ser “infância feliz”? Pois era, assim ela repetiu a vida toda.

Depois que o vovô morreu, achei que seria um baque. Mas ela mudou da casa em que viveu 50 anos como quem passa no vestibular. Bora decorar, fazer obra, botar armários! (Meu avô nunca entendeu a necessidade de mais armários.) Não, não era falta de saudades ou de amor no casal. Era a vontade de viver dela que sempre prevalecia mesmo.

Um dia, ela já viúva, cismei que tínhamos de voltar nessa fazenda fantástica das suas histórias. (Quem sabe eu achava o graal por lá? O que ela teria bebido antes dos sete anos?) Meio a contragosto, ela concordou com minhas sanhas de passado. Fomos, olhamos, tiramos fotos, tomamos chá com umas amiguinhas de infância e ela decretou: “Ah, deixa isso pra lá! Só tem velho!” É. É que ela não envelhecia nessa época, pelos 70.

E eu tentando chorar o meu pobre apartamentinho vendido, onde meus filhos nasceram e cresceram… Aqui nessa casa não rola. A Socorro, que trabalhou com minha avó por muitos anos, veio outro dia conversar comigo. Eu perguntei: “Sobre o que ela falava com você nos últimos tempos?” E a Socorro respondeu: “Ah, sobre as festas de aniversário que ela ia fazer! Para os 99, cismou que seria um jantar com macarrão da Otília. E eu dizia: — Dona Lydia, macarrão para muita gente não dá. Esfria, fica mole. Mas ela era teimosa. E para os 100, ela disse que só chamando a Fafá de Belém para cantar Ave Maria!”

Assim não dá para competir… Eu querendo sofrer um pouco com meus probleminhas, com os males do Brasil e do mundo… E a energia da minha avó, presente nessa casa e nas suas coisas, não deixa. Aqui bem na minha frente está o computador dela! Até uns 97 ela mandava e-mail e quase teve tempo de aprender a usar seu perfil no Facebook.

Não, tragédias não faltaram. Eu contei só as da infância. A mulher tinha uma força para seguir em frente que só vendo! Aproveito para pegar uma casquinha nessa temporada e passar um pouco para vocês. Porque força de viver é que nem leite de mãe: quanto mais a gente dá, mais tem!

Sobre o desenho: Coisas da cozinha da vovó que desenhei para o calendário de junho de 2014, em homenagem ao primeiro aniversário da nossa despedida. Fiz as linhas com canetinha Unipin 0.1, as cores primeiro com aquarela e depois alguns retoques com lápis de cor. Não sei se já contei aqui da felicidade que foi comprar meus primeiros Prismacolor, aproveitando a ida de um sobrinho aos EUA. São incríveis, são tudo que todos dizem de bom!

Livro da semana: Ah, e por falar em avós, essa semana comprei o livro da incrível Nora Rónai, “Memórias de um lugar chamado Onde”, editora Casa da Palavra. Leitura maravilhosa garantida para as férias forçadas da Copa!


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Carta a um jovem doutorando

autoretrato2008p

Rio, 30/5/2014

Querido amigo,

ontem nos encontramos e você estava tão abatido, falando em desespero, Rivotril, caos… Não, eu não pensei que você estava fraco ou incapaz… Ao contrário: te ver me fez voltar no tempo, aos meses que antecederam a minha defesa de doutorado e ao estado em que cheguei naquela época. Quando o pior passa, é fácil a gente esquecer. Mas não esqueci. Vou te contar.

Em primeiro lugar, a culpa não é sua! É do seu orientador, claro. Tem dois tipos, os dois irritantes: aquele que não sai do seu pé, que não pára de cobrar os próximos capítulos ou mandar refazer os anteriores; e aquele que não está nem aí, que não lê nada que você entrega e ainda resolve viajar quando você mais precisa dele.

O meu era do primeiro tipo, e o meu sofrimento começou quando ele resolveu marcar a defesa da tese com seis meses de antecedência. Bem no momento em que eu não via luz no fim do túnel nem o próprio túnel! Aquele prazo (e tudo que ele significava) teve vários efeitos sobre mim.

O primeiro foi o “efeito paralisante”: toda vez que eu sentava para escrever, só conseguia pensar em assistir Friends… Esse é um dos meus sintomas típicos nos momentos de fuga. Passo a adorar coisas que normalmente odeio: comer pipoca cor-de-rosa, ver novela antiga na hora do almoço, inventar uma faxina geral nas tralhas da casa.

O segundo foi o “efeito obsessão-pelas-leituras-que-eu-não-fiz”: você passa a procurar por todos aqueles textos que tem certeza de que xerocou (ou que salvou em PDF). Você se convence de que os rumos da sua tese dependem de algum autor que você não leu, de algum artigo que estava em algum lugar mas você não se lembra.

O terceiro foi o “efeito preciso-organizar-mais-os-meus-dados”. Especialmente quem faz etnografia sofre desse mal (incurável). Primeiro você decide que não pode escrever a tese se não passar todos os diários de campo a limpo, transcrever pessoalmente todas as entrevistas gravadas, organizar todos os documentos e fotos que juntou ao longo dos anos (felizes) em que só fazia pesquisa. Depois resolve classificar tudo em variáveis, em tópicos, em sub-itens, em palavras-chaves, em diagramas e, finalmente, em sumários que vão resumir detalhadamente todo o conteúdo da tese. É isso: sem sumário não dá para começar a escrever!

O quarto foi o “efeito tudo-que-escrevo-é-horrível”. Pode parecer que não, mas a essa altura já sabemos muita coisa! Anos de mestrado e doutorado nos qualificam. Nossos parâmetros sobem; nossa capacidade de reconhecer um bom trabalho aumenta. Sonhamos com os professores mais admirados na nossa banca. Isso tudo forja um crítico interno implacável. Nada do que escrevemos chega aos pés dos nossos modelos.

Pronto: com esses quatro efeitos juntos, temos o “coquetel doutorando-derrotado”, como apelidou meu médico na época. Apesar das suas dezenas de diplomas, ele jurava que nunca ia deixar suas filhas fazerem doutorado (mas elas fizeram!), de tanto tratar de doutorandos doentes. Ele nos compreendia muito bem, porque era filho de mãe judia, daquela que só se satisfaz quando o filho ganha dois prêmios Nobel e em áreas diferentes!

Por sorte, esse médico olhava para mim e não para os meus exames. Ele se recusou a dizer que eu estava deprimida. Eu estava com sintomas-de-tese-de-doutorado-quase-atrasada: perda de peso, desânimo, palpitações, dor no corpo, torcicolo, insônia, tendinite… Receita: pegar sol, andar 20 minutos todos os dias, tomar vitaminas, comer bem e mandar o orientador adiar a defesa. E, como não sou de ferro, receitinha azul com um calmante leve para os momentos de desespero.

Claro que meus problemas não desapareceram — afinal, a tese continuava lá, por escrever — mas melhorei muito! Foi fundamental adiar o prazo e conversar com meu orientador sobre como eu estava me sentindo (orgulhosa, até então, quando encontrava com ele, insistia em dizer que estava “tudo bem”).

Te conto esses percalços não para me fazer de coitadinha, mas para te acolher e te mostrar que quase todos nós passamos por isso. Meu maravilhoso amigo Luis Rodolfo Vilhena, uma das pessoas mais brilhantes que já conheci, passou por várias dessas fases, adiou em um ano a defesa, e no final fez um trabalho primoroso. E também temos a companhia de intelectuais ilustres, como o Norbert Elias. Coloquei esse trecho da sua autobiografia ao lado do meu computador, para ler todos os dias de manhã:

“No que diz respeito à pesquisa, dispunha apenas de minha tese de doutorado para provar minha capacidade. E ela representava um trabalho duro. Tinha confiança em minhas capacidades intelectuais, e ideias não me faltavam. Mas o imenso trabalho intelectual que minha tese exigiu me parecera dificílimo. Só bem mais tarde fui pouco a pouco compreendendo que noventa por cento dos jovens encontram dificuldade ao redigir seu primeiro trabalho importante de pesquisa; e, às vezes, acontece o mesmo com o segundo, o terceiro ou o décimo, quando se consegue chegar aí. Teria agradecido se alguém me dissesse isso na época. Evidentemente pensamos: ‘Sou o único a ter tais dificuldades para escrever uma tese (ou outra coisa); para todos os outros, isso se dá mais facilmente’. Mas ninguém disse nada. É por isso que digo isso aqui. Essas dificuldades são absolutamente normais.” (Norbert Elias Por Ele Mesmo)

Bem, esta carta já está ficando muito longa… Prometo que na próxima escrevo coisas mais úteis (e práticas).

Para terminar, te lembro que só há uma fórmula mágica — irritante — para escrever tese ou qualquer outro texto: uma palavrinha de cada vez.

bjs — força aí.

K

Sobre o desenho: Auto-retrato feito em 2008, com uma técnica que se costuma chamar de “desenho cego”: você olha para o que vai desenhar (nesse caso, um espelho), mas não olha em nenhum momento para o papel onde está desenhando. Achei que era uma boa metáfora desse processo de escrever tese. A gente vê o caminho, mas não consegue ver o resultado. E tudo bem. Depois é só revisar!

Você acabou de ler “Carta a um jovem doutorando“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2014. “Carta a um jovem doutorando”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url “http://wp.me/p42zgF-7X“. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Mãe, não esquece, tá?


cenacasa

Alice, aos seis anos, estava com tosse há dias… Tentei dar antialérgicos (vários, mas numa sequência científica, claro, porque fui médica na outra encarnação). Mas tem uma hora que olho de mãe… Vi que ela estava caidinha e febril… Achei melhor ir logo para a emergência pediátrica. Peguei-a no colo, menos por necessidade, e mais por vontade de tê-la bem perto de mim. Descendo no elevador, ela se animou um pouco:

Alice — Vamos de carro ou de táxi, mãe?
K — De táxi, filha, porque não quero me preocupar em estacionar…
Alice — Ah, foi por isso que você pegou minha mesada?
K — É, filha, eu peguei, mas amanhã eu devolvo. Porque táxi tem que ter trocado.
Alice — Ah, mãe, não esquece, tá?

[Na portaria]
Alice — Mãe, olha lá a vovó. Ela vai ficar preocupada de me ver saindo no seu colo!
K — Depois eu explico, filha.
Alice — Não esquece, tá?
K — Não se preocupe: acabei de lembrar que eu disse para a sua vó que você estava febril hoje de manhã.
Alice — Ah, tá bem. E depois eu conto pra ela.

[No táxi]
K — [Pro motorista] Boa tarde, vamos para o Copa D’Or por favor.
Alice — Mãe, que lugar é esse? Você não falou que era hospital?
K — É sim, filha. É um hospital chamado “Copa” de Copacabana, que é o bairro; e “D’Or” que significa “de ouro”, em francês. E eles têm outros chamados: Barra D’Or, São Cristóvão D’Or… ops, não, não é São Cristóvão D’Or, filha, é Quinta D’Or, que eles acham mais chique, mas fica em São Cristóvão.
Alice — Ah… Entendi. É que nem shopping.

[No consultório da médica, já depois que a radiografia indicou que era pneumonia]
Dra — Ela teve febre?
K — Ah, teve sim, uns 37 graus e 6, mas só hoje de manhã.
Alice — Não, mãe: foi só 37 graus e 3. Tem que esperar apitar três vezes [o termômetro].
K — Não, Alice, foi 37 graus e 6!
Alice — Mãe… [muito desconfiada]
Dra. — [Já achando graça:] E quanto ela pesa?
K — Ai… não sei bem… Uns 21, 22 quilos?
Alice — hãã? Mãe??? Eu peso entre 19 e 20! [a balança deu 20.900]
Dra. — Tem que dar o antibiótico 3 vezes ao dia, nos horários certos, está bem?
K — Claro, posso fazer às 7h, às 15h e às 11 da noite?
Alice — Uhuu… vou poder dormir bem tarde!!!
K — Nada disso, filhinha. Você dorme cedo e eu te dou o remédio com você dormindo.
Alice — Ah, então vou poder acordar a hora que eu quiser!
Dra — Você acorda cedo, Alice?
Alice — Eu acordo, mas a minha mãe só gosta de acordar às dez horas da manhã!
K — Filha? Mas eu acordo às 6 para ajudar o seu irmão a ir para a escola?
Alice — Ah, sim, você acorda, mas depois volta pra dormir!
K — Não é nada isso, Dra. É que hoje eu voltei para tentar fazê-la dormir mais um pouco… [maior mentira]

[E seguiu-se uma não tão breve discussão sobre o horário em que ela queria tomar os remédios e sobre os meus maus hábitos…]

Alice — Ah, e quantos dias eu posso faltar a escola?
Dra. — Alice, quero que você fique pelo menos uma semana em casa.
Alice — Uhhu! Mas e o futebol? Eu posso jogar futebol?
Dra. — Não, Alice, acho melhor você ficar bem calminha e descansar.
K — E usar meias, não é, doutora?
Dra. — Isso: usar meias o tempo todo. Nada de pés descalços. [Ufa, uma vitória da mãe]
Alice — Mas isso pega? Eu posso ficar perto da minha vó e do meu irmão?
Dra. — Não, não pega não.

[E à noite antes de dormir]
Alice — Mãe, tem que lembrar de colocar o despertador para não esquecer a hora do meu remédio, tá?
K — Tá bem, Alice, não vou esquecer.
Alice — Mãe, amanhã tem que avisar a escola. Ah, e pedir para eles mandarem meus deveres-de-casa pelo Antônio. Não esquece, tá?
K — Tá, filha, claro.
Alice — Ah, e liga também para a Rose, para avisar que eu não vou no transporte, tá?
K — Pode deixar, filhinha. Descansa…
Alice — Quantos remédios eu vou tomar?
K — Dois.
Alice — Só dois?? Mas e aquelas horas todas que a médica falou?
K — Sim, desculpe, filha: são dois tipos de remédios, mas tem que tomar várias vezes por dez dias. dá um monte.
Alice — Mãe… só mais uma coisa… Eu já vou tá boa pro aniversário da Vilani? [a ex-babá dela, super querida]
K — Vai sim, filha, muito boa!
Alice — Não esquece, tá?

Sobre o texto: O texto (e o desenho) são de maio de 2012. Só penso em coisas boas quando vejo essa imagem. Além da paz de vê-los lendo e felizes, lembro que o desenho foi colorido por nós três juntos. Eita época boa em que as crianças gostavam de desenhar comigo! Foi nessa fase também que a Alice começou a se divertir com as revistinhas em quadrinhos do irmão. Ah, e não se preocupem: ela enjoou de me controlar em tudo — quer dizer, desde que eu não esqueça de buscá-la na capoeira e de ligar para a mãe do seu melhor amigo para combinar um programa!

Sobre o desenho: A qualidade da imagem está ruim (o fundo parece azul!) porque o desenho foi feito em papel A3. (Que coragem eu tinha!! O A3 é o dobro do A4, tamanho comum que usamos para as impressoras). Por isso, não consegui escanear, só fotografar e depois ajeitar (mal) com Photoshop. O material utilizado foi um bloco de desenho comum (daqueles de criança), canetinhas nanquim (provavelmente 0.3) e lápis de cor. Tudo feito a partir da observação da mesa da sala e de parte da cozinha da nossa casa, com participação da gatinha Lola e da sapa Trancs.