
Meu Instagram entrou para a era da inteligência artificial! Não, ele não está me mostrando os melhores posts, nem aprimorando minha vida, muito menos me trazendo a sensação de que aproveitei o tempo. O algoritmo resolveu me soterrar com anúncios sobre ferramentas de I.A.
Minha primeira reação foi de “fomo” (fear of missing out; ou medo de estar perdendo a moda do momento). Quantos apps, quantas soluções, quantos resultados! Depois de salvar uns 20 posts e anúncios — que nunca mais vou ver, claro, pois a gente salva para ter a sensação de que “guardou” a informação — me deu um estalo. Essa tsunami de I.A.s é só uma repaginação para a) propagandas de antigamente: fume Malboro e conquiste o mundo; b) anúncios do final do século 20: compre esse carro e seja livre; c) mensagens multimídias pulverizadas de hoje: faça como eu e seja feliz.
Socorro, é tudo pegadinha do capitalismo! Minha experiência na Comunicação grita nessas horas. Li o clássico Para ler o Pato Donald desde a graduação e reli umas mil vezes para dar aula. Essa obra prima de Ariel Dorfman (argentino-chileno) e Armand Mattelart (belga) é uma lente que nos ensina a perceber como a indústria cultural estadunidense nos seduz e diverte ao mesmo tempo que propaga subrepticiamente a ideologia capitalista.
O que isso tem a ver com a tsunami de aplicativos de I.A. na vida acadêmica (meu “nicho”)? Os anúncios e posts tentam nos convencer de que é possível ler um livro de 500 páginas em 15 minutos, escrever uma revisão bibliográfica em 1 semana, formular um “excelente” artigo em 30 dias e produzir uma tese acadêmica defensável em 6 meses.
Sinto ser a mensageira do “não”… Nenhum desses anúncios cumprirá o que promete. Se você leva a vida acadêmica a sério, sabe que não há “fast-conhecimento”.
Um resumo, por mais bem feito que seja (e muitos não são), não substitui a leitura de um livro. Uma compilação de artigos não é uma revisão de um tema de pesquisa e um coach de escrita competente não produz reflexão original numa área.
Esses recursos podem te ajudar na vida acadêmica? Poder, podem. Mas a que preço? Quantas horas você vai gastar vendo dicas e propagandas até entender qual I.A. é melhor e para qual finalidade? Quanta energia negativa virá de um aplicativo que te disser que existem 1763 artigos na sua temática que você precisa mapear, classificar e decidir se são úteis? Quantas horas de sono e ansiedade você vai passar pensando se o que você está fazendo é plágio, está correto ou é válido de fato para sua produção intelectual?
O que compõe a receita básica do fazer acadêmico: boa noite de sono; alimentação saúdável; bolsas com valores decentes; bons professores e orientadores; colegas e grupos de pesquisa acolhedores; equipamento básico para escrita e/ou pesquisa. Imagina ter isso tudo garantido? Seria 85% do caminho, concordam? Deixamos então uns 15% para inovação, quem sabe um software novo (I.A.s incluídas), um amor, uma descoberta do destino…
Ah, Karina, você não está entendendo: as I.A.s são *revolucionárias*. Serão, pessoal. Acredito que serão. Mas ainda não são. Por enquanto, são ferramentas úteis e até divertidas. Inclusive, tenho testado bastante. Mas isso é assunto para um próximo post, prometo! Abaixo adianto os prompts que utilizei enquanto estava escrevendo esse post e as I.A.s que tenho testado.
Prompts que utilizei para apoiar a escrita deste post no Chat-GPT (versão gratuita)
. Título: “Você poderia me ajudar pensando em ideias de título para esse post, levando em conta um tom bem-humorado? (E junto colei o post já escrito.) → Não gostei de nenhuma das sugestões dele. Pedi mais algumas e continuei não gostando. As I.A.s tendem a trabalhar no registro “vendas” e “cliques-a-qualquer-preço”. Avaliação: ruim.
. Revisão 1: “Teria alguma frase para revisar no texto do post?” → Ele apontou 3 frases e deu 4 sugestões de trocas de palavras. Aceitei apenas 1: “nova roupagem” por “repaginação”. Não costumo pedir revisão geral porque gosto de saber exatamente o que e como ele optaria por revisar. Avaliação: ruim.
. Revisão 2: “Algum erro de digitação ou concordância?” → Ele apontou 4 correções: instagram em minúscula; cortar um “todos” desnecessário; trocar um “perder” por “gastar” [tempo] e compõe no plural. Avaliação: Ótimo em todas.
. Elogio-Destaque: “Qual a frase que você mais gostou ou considerou a mais bem escrita do texto?” → Inventei hoje esse prompt e ele destacou e comentou os aspectos positivos da frase que acabei colocando em negrito no post. Gostei de ter um feedback antes mesmo de publicar e acho que vou adotar esse prompt sempre. Avaliação: Ótimo, surpreendeu.
. Lista: “Você poderia listar aqui apenas os prompts que utilizei nesta conversa sobre o post de hoje?” → Ele listou os prompts acima, mas sem os subtítulos e juntou um agradecimento que não era um prompt. Avaliação: Regular.
Resumindo: o GPT foi útil, mas notem que nenhum dos resultados acima foi “revolucionário”. Continuarei testando e trazendo resultados para vocês. Atualmente estou avaliando: Chat-GPT, NotebookLM, ChatPDF, Scite_, Mapify.co, Connected Papers, Scispace, Docanalyzer.ai, além do Natural Reader e do Transkriptor que já uso desde 2023, como explico nesse post. Lá no “Abraço Acadêmico” temos conversado sobre o tema (Telegram, só clicar aqui.)
Sigamos, com moderação! Me contem o que tem dado certo para vocês. Bom final de semana! ♥
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4 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana
♥ No momento não estou vendo nenhuma série, mas indico Hacks, sobre uma comediante e sua redatora. Excelentes atrizes e diálogos. Foram três temporadas. Pena que acabou.
♥ Uma leitura muito boa foi o artigo da antropóloga e cartunista Rachel Paterman (também conhecida como @desorientanda). Uma delícia de capítulo sobre sua trajetória cada vez mais indissociada de desenhista e pesquisadora (hoje na Fiocruz).
♥ Falando em desenho, continuo firme no #academinktober, com um desenho por dia sobre a vida acadêmica. O mais curtido da semana foi o da palavra “tóxico”. Tá no Instagram.

♥ Os 5 desenhos que abrem esse post foram feitos para colocar nas tampas dos potes onde guardo as sementes, aveia e passas. Os potes são de um doce de leite diet maravilhoso da marca Flormel que descobri nas Casas Pedro (RJ).
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Sobre os desenhos: desenho de observação das comidinhas feito com canetinha Pigma Micron 0.05 ; cores feitas com lápis de cor Caran D’Ache e canetinhas Pigma Micron coloridas. Foram feitos no verso de uma folha do bloco A4 XL Aquarelle Canson (capa turquesa).
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Como citar: Kuschnir, Karina. 2024. “Devagar com as I.A.s – dicas de como utilizei Chat-GPT para escrever esse post“, Publicado em karinakuschnir.com, url: https://wp.me/p42zgF-44z. Acesso em [dd/mm/aaaa].