Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Março/2025 e os desafios da escrita

“A vida ainda era vivível. Bastava esquecer, tomar essa decisão com determinação, brutalmente. A escolha era simples: a escrita ou a vida. Teria eu a coragem (…)?” (Jorge Semprún, A escrita ou a vida)

Pessoas queridas, calendário atrasadíssimo mas feito! Perdi meus óculos e fiquei sem condições de trabalhar no computador. Mas foi por uma ótima causa: fiz uma pequena viagem à serra, imersa no verde, em banhos de rio e até chuva! Foi mágico! E vocês? Blocaram, descansaram ou ficaram presos na escrita da tese?

Recebam meu abraço apertado e votos de força e paciência aos que estão com os prazos de 31 de março nos calcanhares. Tá acabando, vai passar. E abraço também aos que têm outros prazos pela frente.

Escrever durante um período como o Carnaval é renunciar à viver, sejam as delícias da gandaia ou do ócio. Não é fácil. Precisamos nos entregar ao texto, enquanto o mundo continua a girar lá fora. E haja paciência para lidar com o tempo da criação, com seus ritmos, pausas e acelerações fora do nosso controle. E haja disciplina para aplacar a ansiedade pelas cobranças internas e externas, junto à sensação de que não somos suficientes.

Passei por tudo isso nos primeiros 15 dias de fevereiro. Tive um artigo para entregar e foi desafiador demais. Tentei seguir planos, rotinas, pomodoros, mas passei pelos clássicos: evitação, lentidão, empacamento, inspiração, descrédito, para-que-serve-isso-tudo, e aquele final de horas seguidas sobrecarregadas de cafeína para finalizar.

Ufa. Por que precisa ser assim?

Sobre a dúvida de Semprún, sigo acreditando: coragem é optar pela escrita e pela vida, no pêndulo de difícil equilíbrio, mas de permanente tentativa. No dia 15 de fevereiro, o artigo foi enviado, o prazo foi cumprido. E a sensação no dia seguinte é indescritível. O alívio, a leveza, o desejo de sol e ar, vem tudo junto, como uma mini-primavera pessoal florescendo.

Aprendi sofrendo (muito) no mestrado: terminem primeiro, pensem depois.

Porque “depois” os pensamentos irão embora e sobrará só uma doçura de ter feito.

Pelo menos até que cheguem os pareceres! Hahaha Depois conto como foi.

Sobre o calendário: aqui vai o PDF em alta resolução para imprimir. Não esqueçam de configurar para “ajustar à área de impressão”. Apesar da corzinha desmaiada na tela, na minha impressora (Epson L386) a cor ficou simpática. Espero que gostem!

Sobre a citação: SEMPRÚN, Jorge. A escrita ou a vida. Tradução de Rosa Freire d’Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. A citação está na página 193 da versão eletrônica.

Sobre os desenhos: Para o calendário, aproveitei o de fevereiro e acrescentei camadas transparentes de verde no aplicativo Procreate (Ipad). Dessa vez, refiz os números dos dias em cor preta pois achei o branco difícil de ler no dia a dia. Para os demais desenhos: canetinha Pigma Micron 0.3 e lápis de cor, em caderno Tilibra A5, linha Happy. Datas com carimbo Colop, mini-dater s120.

Um ótimo março para nós.

Você acabou de ler “Março/2025 e os desafios da escrita”, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2025. “Março/2025 e os desafios da escrita”, Publicado em karinakuschnir.com, url: https://wp.me/p42zgF-47O. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Arrumar gavetas, escrever textos – 2 truques para driblar a procrastinação criativa

Vocês já tiveram vontade de arrumar uma gaveta mas desistiram porque, antes mesmo de começar, perceberam que não iam conseguir arrumar o armário inteiro? Acontece demais comigo! E não só com arrumação: desisto de ler uma parte porque o certo era ler o livro todo, deixo de fazer 20 minutos de academia porque a série dura 45 minutos, desisto de comprar só uma coisinha no mercado porque não verifiquei a lista de tudo que está faltando… E até de fazer mini post nesse blog porque o correto seria encarar a lista de posts sérios a serem escritos — mas isso exigiria a coragem e a energia que ainda não estou tendo.

Hoje mais cedo cheguei a começar a trabalhar em dois posts já iniciados mas percebi que não teria forças para terminá-los.

Fiquei pensando… qual é a dificuldade? Não é falta de concentração nem de vontade teórica. Meu corpo e minha mente estão muito acostumados a se concentrar e a trabalhar no computador depois de 34 anos de experiência. Também não é falta de ideias ou temas. Entendi que estou sem grandes estoques da energia específica que a escrita criativa necessita.

E que tipo de energia é essa? É aquela vontade de acolher as próprias ideias e a pulsão prazerosa de compartilhá-las com os leitores. É um equilíbrio tênue entre alegria da descoberta solitária (o momento da escrita em si) e o compartilhamento corajoso do olha-que-legal-eu-descobri (o momento de entregar sua escrita ao mundo).

Talvez muitos sofrimentos e procrastinações com os TCCs, dissertações, teses e escritas acadêmicas em geral venham desse entre-lugar, né? Estar aqui-e-aí-com-vocês ao mesmo tempo. Né fácil não, pessoas! Talvez fique um pouquinho menos difícil se a gente entender o que está acontecendo. Dois truques para ultrapassar esse obstáculo que (às vezes) funcionam para mim:

• Para o drama “eu e minhas ideias”: primeiro escrevo, depois questiono. Geralmente, depois de escrever, o questionamento diminui bastante! E você sai do outro lado já-tendo-escrito!

• Para o drama “minhas ideias e os leitores críticos”: penso só nos leitores que me apoiam, meus filhos, minha mãe e amigos. E sigo em frente, aproveitando as críticas construtivas para discordar, ajustar o que for possível ou aproveitar para um próximo texto.

Claro que isso tudo é bem mais fácil de escrever do que fazer. Mas… vejam só: se vocês estão lendo esse post é porque os truques funcionaram, hahaha. Esse micro-macro problema não se resolve com um post só. Mas o blog inteiro tá aqui para isso. Lembram da gavetinha bagunçada do armário? É isso. Arrumar uma só gaveta faz diferença sim. Não pensem no armário inteiro.

Finalmente, para citar um lema de vida, que o Antônio me ensinou para aqueles momentos em que sua roupa está furadinha, seu texto não tem muita fluência e sua aula foi um pouco capenga: “ninguém liga!”

Boas escritas e bom final de semana! #tamojunto ♥

5 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:

♥ Participar da festa de desenhos do mês de outubro com as queridas Rachel Paterman, Melina Vaz e Patricia Matos está sendo a melhor coisa do mês. Acompanhem lá pelo meu Instagram e pela #academinktober.

♥ A experiência mais linda de desenho foi rascunhar para a palavra “reciprocidade” já exausta e, na versão final, a nanquim, ver que a imagem pareceu demais comigo e com o Juva — não foi planejado!

♥ Vi que vocês gostaram da indicação de série da semana passada, então hoje indico Only murders in the building, da Disney/Star+. Eu e Alice amamos. São 4 temporadas curtas e recomendamos ver aos poucos. O elenco é incrível, assim como a direção de arte, a música, a montagem e o roteiro. (Mesmo que eu quisesse, Alice não gosta de maratonar, nem ver dois episódios de uma vez, por mais empolgante que seja o final. Não sei onde ela aprendeu isso! Eu sou daquelas que vira a noite quando empolga.)

♥ De ficção, recomendo Oliver Kitteridge, de Elizabeth Strout. Em breve virá o terceiro volume para o Brasil e vocês vão me agradecer ter começado. Mas só recomendo para maiores de 50 anos, em idade biológica ou emocional. 😉

♥ Descobri que vão lançar um novo emoji com olheiras em 2025! Quem se identifica? É fofinho demais. Trouxe a imagem para compartilhar com vocês.

Sobre o desenho: Desenho de observação de uma estojo de lápis de cor antigo feito no caderninho Laloran. Linhas com canetinha Pigma Micron 0.05 ; cores feitas com aquarelas, lápis de cor, um pouco de guache e canetinha de gel branca Sakura Gelly Roll. Eu ia aproveitar esse desenho para um post sobre lápis-de-cor na seção de materiais do blog, mas percebi que a imagem não mostra direito os lápis e nem foi feita com eles! Então veio para cá de ilustração aleatória mesmo. Pensando melhor, agora percebo que esse estojo, com uma parte de plástico transparente, é uma boa metáfora para os processos descritos no post. Afinal, quando a gente começa a escrever, só tem uma vaga ideia do que vai sair, como quem espia esses lápis-de-cor pelo visor da embalagem. Só escrevendo — ou só experimentando os lápis do estojo — que vamos descobrir o que somos capazes de dizer, fazer, desenhar.

Você acabou de ler “Arrumar gavetas, escrever textos – 2 truques para driblar a procrastinação criativa“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 

Como citar: Kuschnir, Karina. 2024. “Arrumar gavetas, escrever textos – 2 truques para driblar a procrastinação criativa“, Publicado em karinakuschnir.com, url: https://wp.me/p42zgF-446. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Escrita e sofrimento acadêmico – minha primeira aula online

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Pessoas queridas, nem sei o que dizer de tantas saudades que eu estava de vocês e desse espaço. Precisei fazer uma quarentena não apenas física, mas também virtual. Agora, por conta do convite da Rosana Pinheiro-Machado (@_pinheira), estou tomando coragem pra voltar e “desquarentenar” o blog.

Hoje (7/08/2020), às 15 horas, será minha participação com o tema “Sofrimento na Vida Acadêmica” no Curso de Escrita Acadêmica que ela está organizando com professores voluntários, participação da Débora Diniz e apoio do Instituto Anis Bioética. Uma lindeza de projeto, totalmente aberto e com uma programação incrível (segue completa abaixo).

Foi a primeira vez que gravei uma aula em vídeo. Ficou maior do que o tamanho pedido (de até 25 min.). Não sei se vai ao ar inteira ou cortada, mas depois posso colocar a versão completa e, quem sabe, se não acharem horrível, gravo outras. Tem alguns acertos, mas vejo tantos defeitos que pensei em escrever um post chamado “dez erros que cometi na minha primeira aula gravada” (hahaha). Mas seria contraditório. Como eu própria digo na aula: melhor ter humildade e aceitar que fiz o possível, dados os prazos, as condições logísticas, físicas, emocionais e, principalmente, de total inexperiência!

Peço um desconto nas críticas sobre o que faltou falar. Não foi possível dar ênfase a todos os tipos de sofrimento. O foco era na escrita em si. Já tinha estourado o tempo de gravação e, por isso, não aprofundei as dimensões de machismo, assédio, racismo e outros temas super importantes como depressão, dores físicas e psicológicas.

Desculpem-me os que sentiram falta dos posts e me mandaram mensagens. Obrigada pelo carinho. Também senti falta de mim mesma — sabem como é essa sensação? Acho que muita gente tá se sentindo assim. Está puxadíssimo levar a casa nas costas, o medo do vírus, o auto-isolamento, o trabalho remoto — tudo isso somado à tristeza gigante por ver o estado do nosso país, as mortes chegando a 100 mil e tantas pessoas (uma em especial que vocês sabem quem é) dizendo “e daí?”.

Como diz a música linda que conheci pela Alice:

“Quem vai chorar, quem vai sorrir?
Quem vai ficar, quem vai partir?”
(O trem das sete, Raul Seixas)

Nos vemos em breve, amores! Mandem perguntas, ideias, dúvidas, sugestões. Estou mais ativa no Twitter @karinakuschnir. Acho o Instragam um pouco sufocante e com aqueles milhões de anúncios. Já o Facebook, amo pelos amigos, mas cansa… Contradizendo tudo isso: continuo nos três. ☺ Para mais artigos e posts sobre vida acadêmica: estão todos organizados na seção Vida Acadêmica e Aulas.

Minhas boas vindas a quem estiver chegando aqui pela primeira vez.
Até semana que vem! ♥

Programa completo do curso de Escrita Acadêmica:

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Você acabou de ler “Escrita e sofrimento acadêmico – minha primeira aula online“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2020. “Escrita e sofrimento acadêmico – minha primeira aula online”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3QK. Acesso em [dd/mm/aaaa].