Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Montanha russa emocional

“Representou o nada com um símbolo. Trouxe à existência o inexistente.” (Yoko Ogawa)

Tenho pensado muito em vocês e em tudo que estamos passando. É difícil exprimir o invisível que nos separa e ao mesmo tempo nos une — seja pela calamidade, seja pela necessidade de esperanças que tragam ar.

A frase que abre o post evoca a beleza ambígua do zero — esse número mágico que nomeia o vazio mas à direita dos demais multiplica-os ao infinito!

Desenhei essa imagem das idas e vindas no mar num dia que experimentei essas duas intensidades: a sensação boa de compartilhar conhecimento, logo em seguida sufocada pelas notícias da falta de oxigênio em Manaus. Lembrei-me do quanto o oceano é bonito, irrespirável, pacífico, assustador; de como às vezes nos atrai para o fundo; dos dias em que respiramos por um fio ou daqueles em que nadamos fortes como peixes ou alegres como uma criança.

Nos piores momentos dessa experiência pandêmica, sinto-me em busca de uma linguagem para expressar o horror do vazio (dos hospitais sem estrutura à ausência de um plano nacional de saúde). Como nomear a sensação de fundo sem fundo diante do empenho governamenal a favor do vírus?*

Nos melhores momentos, me agarro à emoção das pessoas vacinadas, à poesia de Amanda Gorman, à echarpe da Mônica de Bolle em homenagem à sua avó comunista (que me faz chorar de saudades da minha), às dores de Darwin que, mesmo dilacerado por uma doença desconhecida, lutou pela ciência que hoje produz nossas vacinas, aos Afetos da Gabi e da Karina, ao Mundaréu da Dani e da Soraya, aos textos da Ana Paula Lisboa, ao Gil, ao Caetano, ao Rio das Lembranças do Zé Manoel, ao IGTV do The Dodo, aos áudios do Chris, aos livros e desenhos, aos bom-dias do Ju, às meditações com cores, aos esplendores da pintura do Antônio, às músicas ao violão e às gargalhadas da Alice.

Passei janeiro trabalhando por três. Sobrevivi com bastante auto-cuidado, aprendendo — na marra e na terapia — a conviver com o cansaço acumulado de 11 meses de pandemia: dor no ombro, rinite, enjôo, dores de cabeça, cólicas, cansaço, insônia, vontade de dormir o dia inteiro. De todos os males intermitentes, só não estou sofrendo de gula e alcoolismo, porque nos momentos de angústia meu estômago se fecha.

Boa parte desse trabalho foi de contato com os alunos e gestores da universidade. Tem um lado positivo porque gosto de me sentir útil. Precisei de forças para responder às mensagens de estudantes que perderam seus familiares mais próximos, ou daqueles que não estavam aguentando o ensino remoto… E me emocionei a cada contrato de estágio assinado, a cada declaração de colação de grau confirmada, a cada problema pedagógico-burocrático resolvido — foram as minhas pequenas alegrias no clique-clique do computador.

E vocês, quais foram os altos e baixos desse janeiro?

Que fevereiro nos traga vacinas, auto-acolhimento e cuidado.

Voltando ao mar, esqueci de dizer: esse mês aprendi que as dores da alma vêm em ondas. Às vezes precisamos aceitar o tempo da onda passar. Não acabou ainda, mas vai acabar. ♥

Sobre as coisas mencionadas acima:

♥ O livro de Yoko Ogawa citado na epígrafe é A fórmula preferida do professor (ed. Estação Liberdade). Gostei da leitura. Traz uma simultânea compaixão pelo envelhecimento e pela beleza das crianças. Li por conta desse vídeo da Leena Norms que me recomendaram. Depois fiquei curiosa e li algumas das histórias sobre o número zero aqui.

* Sobre como o atual governo vem atuando constantemente a favor do vírus ver o relatório completo, ou uma reportagem com resumo no El País e também tem uma boa conversa com Deisy Ventura.

♥ Da esperança das vacinas, a linda ilustração de Anne Pires da enfermeira Monica Calazans.

♥ Amanda Gorman recitando sua poesia, com legendas aqui.

♥ A homenagem da Mônica de Bolle para a avó com écharpe está aqui.

♥ O dia que me senti feliz por compartilhar foi nessa live que participei no canal da Thais Godinho, do Vida Organizada. Que gentileza e delicadeza de pessoa é a Thais!

♥ Sobre o Darwin, acabei de ler um biografia gigante (acho que será um post, mas desde já não recomendo essa edição porque a tradução é ruim.). O livro estava pegando poeira na estante há anos, mas deu vontade de ler quando ouvi o podcast Vinte Mil Léguas, indicado pela querida Marília.

♥ Os podcasts que sempre valem a pena ouvir: Afetos e Mundaréu. Que ilhas de esperança.

♥ Adoro tudo que a Ana Paula Lisboa escreve. Tá n’ O Globo (para assinantes), mas acho que um outline resolve. Volta e meia coloco nos meus stories quando sai.

♥ As lives do Gil e do Caetano no Youtube, o IGTV do The Dodo… E vai também a dica que a Letícia mandou e me deu tanta esperança: “No Rio das Lembranças” do Zé Manoel no Spotify.

Desculpem a quantidade de links! Normalmente prefiro ser mais comedida, só que as ondas estão altas e achei que seria bom espalhar botes para nos manter na superfície. Me mandem os pedacinhos de esperança de vocês. Não precisa ser em forma de url — vale risada de filho, avó sendo vacinada!, gato no colo, pão saindo do forno…

Sobre o desenho: Linhas feitas no caderno-terapia, com canetinha Uniball Signo Dx 0.38. Fundo do mar e céu amarelo (em homenagem ao AmarElo, do Emicida) feitos com aquarela num pedaço de papel Harmony da Hahnemühle. Escaneei e sobrepus os dois, editando no app Procreate do Ipad. Fiquei umas boas horas apagando o papel do desenho original para que a imagem vazasse no fundo aquarelado. Descobri que não gosto muito de criar no Ipad, mas editar e ajustar até que é divertido. Não vejo a hora de parar de pagar as taxas abusivas para ter o Photoshop.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2021. “Montanha russa emocional”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3SG.  Acesso em [dd/mm/aaaa].


A antropologia como uma forma de olhar o mundo – minha entrevista a Diana Mello para a revista Kula

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Antropologia, inovação, trajetória acadêmica, desenho, saúde mental — esses foram alguns dos temas que falei em uma entrevista a Diana Mello para a revista Kula: Antropología y Ciencias Sociales. A Diana é uma ex-aluna querida (criativa, talentosa e sensível!), que esteve na primeira turma do curso de Antropologia e Desenho no IFCS, em 2013. De lá pra cá, criei esse blog e ela já está no doutorado na Argentina, sua terra natal.

Seguem alguns trechos da conversa para vocês (créditos e link para a publicação completa no final).

Sobre como podemos continuar gostando de antropologia, apesar de…:

KK — “…quando nos debruçamos sobre a vontade de conhecer as pessoas, [descobrimos] que muitas vezes elas são mais parecidas conosco do que a gente imaginava e, portanto, não são bem “outros”, são “interlocutores”. (…) Com todas as ressalvas, acho que sobrevive na antropologia um projeto de produção de conhecimento entre pessoas, e esse projeto continua sendo válido para mim. É isso que me faz continuar acreditando, sem negar que em toda área científica existem relações de poder que precisam ser reveladas e compreendidas.”

Sobre ser jornalista e virar antropóloga na primeira pesquisa de campo na Câmara Municipal do RJ:

KK — “…uma casa legislativa é um espaço extremamente restrito e o meu crachá [de jornalista] abriu portas. O difícil era dizer para as pessoas: ‘Olha, quero conversar com você, mas isso não vai sair em nenhum jornal’. Aí os vereadores respondiam que não tinham tempo para conversar comigo. Isso foi muito revelador. Hoje, entendo melhor que quem somos provoca uma série de situações no campo que são indissociáveis do conhecimento que produzimos.”

Comentei com a Diana como fui acolhida pelo professor Gilberto Velho no Museu Nacional, apesar da precariedade da minha formação. Além dele, devo demais a professores como Moacir Palmeira, Luiz Fernando Dias Duarte e Lygia Sigaud. Eu diria que todos, assim como a Maria Claudia Coelho (minha professora na graduação), me ensinaram que a antropologia é uma área conectada com a história, a sociologia, a política, a literatura, a arte etc. Essa perspectiva foi fundamental para que eu pudesse fazer a virada para o desenho:

KK — “Em 2011, fui a Portugal a trabalho e lá participei de um evento de desenho urbano, o segundo encontro internacional do grupo Urban Sketchers. Assisti a uma série de palestras, de pessoas que não eram cientistas sociais, mas que me abriram para a ideia de que o desenho poderia ser uma porta para conhecer o mundo, que podia ser uma ferramenta de renovação da antropologia pelo grafismo. Voltei dessa viagem e, apesar de já ter um projeto de pesquisa pronto sobre arquivos políticos, resolvi escrever um projeto novo sobre “antropologia e desenho”. O projeto foi aprovado e elogiado pelo CNPq. Conforme fui amadurecendo, tive a ideia de criar uma disciplina na graduação voltada para o tema. Comecei em 2013 e continuo até hoje.”

Depois de falarmos mais do mundo acadêmico, Diana me perguntou por que criei esse blog:

KK — “O blog surgiu da minha vontade de juntar o desenho com o texto. (…) Foi um espaço que comecei com zero expectativas, simplesmente para me obrigar a escrever um texto e produzir um desenho toda semana, tentando me inserir também no mundo do desenho onde naquela época era obrigatório você ter um blog.

O primeiro post de sucesso aconteceu em dezembro de 2013. Fui dar uma palestra e me colocaram no último horário do último dia do evento, a plateia praticamente vazia. Eu tinha tido um grande trabalho pensando no roteiro e desenhando à mão todos os slides. Como quase ninguém assistiu ao vivo, resolvi colocar no blog o post Dez Lições da Vida Acadêmica. Foi o primeiro que viralizou, e hoje tem mais de 20 mil views. A partir disso, percebi como havia uma brecha no mundo acadêmico para falar com mais leveza e humor sobre a vida acadêmica.”

Contei para a Diana que a coragem de ser mais irreverente veio também do meu contato com o Howard Becker. Uma coisa que acabei não contando na entrevista foi que o Howie (como ele gosta de ser chamado) uma vez me provocou, questionando por que no Brasil os intelectuais passam a vida toda trabalhando com um tema só. Comecei a respondê-lo de um jeito meio formal, dizendo que era dificuldade de verba de pesquisa etc., e que isso me aborrecia também. Ele se virou para mim e perguntou: “– Por que você não faz de outro jeito?”

Essa conversa ocorreu durante a entrevista que fiz com ele em 2008, por ocasião de seus 80 anos. Naquele dia, ele plantou uma ideia na minha cabeça — algo que foi frutificando nas mudanças que se seguiram em direção ao desenho e à pintura. Como lembro na entrevista à Kula, o próprio Howie é extremamente inovador em sua prática, estudando temas tabu, circulando artigos por e-mail e no seu blog.

Diana perguntou ainda sobre como surgiu o assunto da saúde mental aqui no blog:

KK — Tudo começou por causa de um post escrito a partir do encontro com um ex-aluno da graduação que estava fazendo seu Doutorado. Encontrei com ele no IFCS e ele estava visivelmente mal. Resolvi publicar no blog uma Carta a um jovem doutorando. Nesse post, que também viralizou, eu falo de todos os problemas de saúde e emocionais que eu mesma passei no Doutorado.

(…) Está complicado para os alunos fazerem um curso de Ciências Sociais no Brasil hoje. É desafiador você segurar a saúde mental num contexto em que a pesquisa em Sociologia é considerada uma ‘ferramenta do mal’ pelos setores que ocupam os espaços de poder na sociedade.

Para terminar, respondi à Diana qual conselho eu daria para quem está lutando para permanecer na antropologia e na universidade:

KK — “Um bom conselho é você buscar aquilo que te afeta, aquilo que te mobiliza afetivamente, para que a vida acadêmica tenha o seu lado de prazer, de construção, de emoção, porque sem isso você não segura o lado do sofrimento. (…) Além de muita determinação, paciência, foco e calma, é importante se cercar de pessoas que compartilham essa paixão com você, porque precisamos de grupo, de redes de apoio. (…) Primeiro você precisa viver, estar bem, se alimentar, dormir, estar inteira e não esquecer disso.”

Encerramos conversando sobre a importância de poder desacelerar para se aprofundar na pesquisa. Contei que valorizo muito a autonomia de pensamento, e que alunos têm sim direito de se tornar autores. Às vezes é bem difícil aceitar isso, mas repito: “não importa se já escreveram antes”. Os encontros autorais, bibliográficos e pessoais são únicos e merecem ser analisados e descritos. Não devemos nos censurar por querer produzir: “você pode prestar contas para a academia sem se anular, sem apagar a sua singularidade”.

Para ler a entrevista completa: A antropologia como uma forma de olhar o mundo: uma conversa com Karina Kuschnir. Entrevista concedida a Diana B. Mello. Kula. Antropología y Ciencias Sociales, nº 20/21: Especial aniversario. Diciembre, 2019, p. 22-29.

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A revista Kula é feita por alunos de pós-graduação de diversas instituições universitárias na Argentina, mas aceita artigos em português. A chamada para o próximo número está aberta!

E-mail para contato: revistakula@gmail.com

A Diana Mello está no Rio fazendo trabalho de campo até final de fevereiro. E-mail para contatos: didibmello@gmail.com

6 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-e-dignas-de-nota da semana:

♥ Holly Exlley, uma das minhas aquarelistas preferidas do You Tube, lançou um vídeo novo com time-lapse de pintura.

♥ Terminamos a 6ª temporada de Brooklyn 99 e começamos a 3ª de Mrs. Maisel. Que produção, que diálogos! É um show.

♥ A Public Domain Review fez uma foto-montagem divertida e listou vários autores, artistas e músicos que entram em domínio público em 2020 (em inglês).

♥ A Valéria Campos do blog 1 Pedra no Caminho publicou (em co-autoria com Fernanda G. Matuda) um artigo bacana intitulado Uso de podcasts como potencializador do desenvolvimento de gêneros orais em aulas de língua portuguesa no ensino médio. Ela fez um resumo com destaques do texto aqui. Achei uma reflexão super bem-vinda também para aulas de graduação.

PS: A professora Julia O’Donnell (IFCS/UFRJ) fez um projeto com podcasts numa turma de Antropologia Urbana em 2019-2. Quem sabe ela escreve um relato para o blog? O que vocês acham?

♥ Por falar em podcasts, Daniela Manica (Labjor/Unicamp) e Soraya Fleischer (UnB) coordenam o novíssimo Mundaréu, podcast de divulgação científica sobre Antropologia. Super inovador, entrevistando antropólogas e seus interlocutores nessa primeira temporada. Uma alegria de ouvir!

♥ Em 2020 retomei minhas práticas de GTD (sigla de Getting Things Done). Já ouviram falar? A Thais Godinho explica super bem no blog Vida Organizada ou no You Tube (versão curta / versão longa). Eu não sigo tudo certinho, mas gosto da filosofia de buscar tranquilidade e foco para fazer aquilo a que você se propõe. Nada a ver com produtivismo. Como diz a Thais no primeiro vídeo:

“Às vezes, a coisa mais importante que você tem para fazer é não fazer nada; é descansar.” (Thais Godinho)

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Hoje não tem “sobre o desenho”, porque a ilustração foi a capa da revista Kula. Adorei as linhas sobrepostas da logomarca que, assim como a capa, foram criadas pela designer Valeria Mattiangeli.

Tenho desenhado o projeto “50 Pessoas” e compartilhado no Stories do Instagram. Já já trago as imagens juntas pra cá. Boa semana, pessoal. ☼

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2020. “A antropologia como uma forma de olhar o mundo – minha entrevista a Diana Mello para a revista Kula”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3P6. Acesso em [dd/mm/aaaa].