Juro para vocês que não foi planejado. Aconteceu exatamente assim.
O tema das chaves para o calendário de agosto já estava na minha cabeça há alguns dias. Nem precisa chamar o Sherlock Holmes para adivinhar por que… Com esse monte de mudanças, fui juntando uma tonelada de chaves. Até que ontem, finalmente, ia sentando para desenhar, já mais-do-que-atrasada-e-culpada, quando se deu a seguinte cena:
Antônio: — Tchau, mãe, estou indo!
Vou até a porta dar um beijinho nele: — Tchau, filho, vai bem.
De repente, o gato Ulisses corre por entre as nossas pernas porta afora e escada acima em alta velocidade!
Sem pensar, saio correndo de meias atrás dele pelos andares, mas ainda lembro de gritar:
— Filho, cuidado… com… não…!!! …a porta!!
No meio da frase ouço um grande “blam!”
Antônio, achando que eu estava preocupada com a fuga dos outros gatos, puxou com toda vontade a porta, que ficou lá, fechadinha-da-silva.
— A porta… a porta… não… não…
Me desesperei… Tudo bem não ter casa direito há quase quatro meses, mas ficar totalmente sem teto (e sem sapatos; e numa roupa-pijama!) foi demais.
Praguejei tanto que a vizinha saiu para ver se alguém tinha morrido!
Quando contamos a história da porta, com o gato pendurado no colo querendo fugir de novo, ela quase deu risada. Só não deu porque sentiu que eu voaria no pescoço dela, coitadinha. Uma boa alma!
— Calma, pode deixar que eu chamo um chaveiro para vocês. Vai dar tudo certo.
E nem precisou. Depois de uns minutos de suspense, chegou o porteiro João, que olhou pra tudo aquilo mais calmo ainda. Pegou sua maletinha, chaveou daqui, chaveou dali, voltou com um alicatezinho e “plec”! Coisa-mais-fácil-do-mundo.
— Ai, você salvou a minha vida…
E pronto. Antônio foi para a vó. E eu tratei de dar um bom dinheiro para o João e um pacote de chocolates para a vizinha. E para me acalmar voltei a desenhar… O que eu ia desenhar mesmo? Ah, sim: chaves!
…
Alice-filósofa:
Alice — Mãe, agora que me toquei. Quando eu jogo futebol eu não penso. Por que? Porque fico muito concentrada e não ligo pra mais nada.
Eu — É, Alice, que bom!
Alice — Quando fico concentrada, fazendo coisas de agilidade, correndo, meu corpo toma o controle de tudo. Não ligo pra mais nada.
Eu — É, filha, bonito o que você disse.
Alice — Quando você não está fazendo nada, você pensa o tempo todo. E até pensa que está pensando! Você não consegue não pensar. E não pensar é muito bom!
…
Sobre o desenho: Depois de tudo o que aconteceu, qualquer desenho tá perdoado… Saiu tosco… As chaves ficaram grandes demais… Mas é melhor um desenho-mais-ou-menos do que nenhum-desenho, certo? E foi bom ter feito o calendário, porque desenhar para mim é como jogar futebol para a Alice: uma forma muito boa de não pensar! // As linhas foram feitas com canetinha Staedler de nanquim permanente 0.05 e a cor com ecoline diluída e colocada na caneta de aquarela (waterbrush). Tentei usar um pouco de hachurado, mas faltou coragem para fazer as partes escuras de verdade. O original estava em sépia; e ficou tristíssimo! Consegui esse azul depois de scanear, com a ajuda do Photoshop. Prometo algo mais alegre em setembro!

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09/08/2014 às 07:35
Adoro os calendários! mas não achei o pdf do calendário de agosto com as chaves.
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10/08/2014 às 15:21
oi Edith, desculpe! já está no blog o arquivo pdf! obrigada pela visita
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08/08/2014 às 12:55
Karina,,
Morri de rir com a história!
beijos,
Ines
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07/08/2014 às 23:48
Ah Alice, você é gênia! Eu também adoro não pensar e só consigo quando estou nadando… Sobre chaves, na minha casa do Leblon, onde morei quando jovem, não tinha chave na porta. Ficava aberta dia e noite. Era bom demais! Beijos
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07/08/2014 às 22:15
Ulisses, claro!
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07/08/2014 às 21:17
KK, todas essas chaves poderiam ser substituídas por uma única: a chave-mestra. Abre tudo, resolve tudo e fecha tudo. Mas assim, com todas elas à vista fica mais feérico.
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07/08/2014 às 20:48
Oi Karina já esperava ansiosamente o calendário rs. E amei as chaves, pois nesse mês algumas portas necessárias estão sendo abertas na minha vida. Ah, gostei demais da filosofia da Alice!
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07/08/2014 às 19:35
Aqui em casa tenho um monte de chaves desconhecidas ( vi que seu desenho tem umazinha só ) que não joguei fora .
Toda vez que assisto um filme e as personagens batem a porta , assim como aconteceu na sua história, eu penso – ainda bem que comigo isto nunca vai acontecer pois minha porta não trava só na tranca, precisa de chave.
Em outros tempos morei em uma casa assim e a gente tinha um cordãozinho que passava por um buraquinho na porta, para puxar a tranca pelo outro lado. bons tempos…
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07/08/2014 às 19:43
Pois é, Murilo!! eu também odeio esse tipo de porta — nunca vou ter na minha casa… o problema é que não estou na minha casa ainda… Quando eu era pequena, vivia ficando trancada do lado de fora. E quanto às chaves, eu devo ter aqui muito mais — umas quatro vezes a quantidade que desenhei…Foi o cansaço mesmo que me impediu de desenhar todas. Deviam ter ficado menores… Obrigada pelos comentários sempre tão legais!
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07/08/2014 às 18:39
Tudo culpa do Ulisses!! Amei a história e o calendário de chaves, então… Caiu bem representar o mês de agosto com chaves.
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07/08/2014 às 19:44
Valeu, Fátima!! obrigada pela força — é muito bom saber que tem gente aí do outro lado da tela!
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