Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas

Devagar com as I.A.s – dicas de como utilizei Chat-GPT para escrever esse post

15 Comentários

Meu Instagram entrou para a era da inteligência artificial! Não, ele não está me mostrando os melhores posts, nem aprimorando minha vida, muito menos me trazendo a sensação de que aproveitei o tempo. O algoritmo resolveu me soterrar com anúncios sobre ferramentas de I.A.

Minha primeira reação foi de “fomo” (fear of missing out; ou medo de estar perdendo a moda do momento). Quantos apps, quantas soluções, quantos resultados! Depois de salvar uns 20 posts e anúncios — que nunca mais vou ver, claro, pois a gente salva para ter a sensação de que “guardou” a informação — me deu um estalo. Essa tsunami de I.A.s é só uma repaginação para a) propagandas de antigamente: fume Malboro e conquiste o mundo; b) anúncios do final do século 20: compre esse carro e seja livre; c) mensagens multimídias pulverizadas de hoje: faça como eu e seja feliz.

Socorro, é tudo pegadinha do capitalismo! Minha experiência na Comunicação grita nessas horas. Li o clássico Para ler o Pato Donald desde a graduação e reli umas mil vezes para dar aula. Essa obra prima de Ariel Dorfman (argentino-chileno) e Armand Mattelart (belga) é uma lente que nos ensina a perceber como a indústria cultural estadunidense nos seduz e diverte ao mesmo tempo que propaga subrepticiamente a ideologia capitalista.

O que isso tem a ver com a tsunami de aplicativos de I.A. na vida acadêmica (meu “nicho”)? Os anúncios e posts tentam nos convencer de que é possível ler um livro de 500 páginas em 15 minutos, escrever uma revisão bibliográfica em 1 semana, formular um “excelente” artigo em 30 dias e produzir uma tese acadêmica defensável em 6 meses.

Sinto ser a mensageira do “não”… Nenhum desses anúncios cumprirá o que promete. Se você leva a vida acadêmica a sério, sabe que não há “fast-conhecimento”.

Um resumo, por mais bem feito que seja (e muitos não são), não substitui a leitura de um livro. Uma compilação de artigos não é uma revisão de um tema de pesquisa e um coach de escrita competente não produz reflexão original numa área.

Esses recursos podem te ajudar na vida acadêmica? Poder, podem. Mas a que preço? Quantas horas você vai gastar vendo dicas e propagandas até entender qual I.A. é melhor e para qual finalidade? Quanta energia negativa virá de um aplicativo que te disser que existem 1763 artigos na sua temática que você precisa mapear, classificar e decidir se são úteis? Quantas horas de sono e ansiedade você vai passar pensando se o que você está fazendo é plágio, está correto ou é válido de fato para sua produção intelectual?

O que compõe a receita básica do fazer acadêmico: boa noite de sono; alimentação saúdável; bolsas com valores decentes; bons professores e orientadores; colegas e grupos de pesquisa acolhedores; equipamento básico para escrita e/ou pesquisa. Imagina ter isso tudo garantido? Seria 85% do caminho, concordam? Deixamos então uns 15% para inovação, quem sabe um software novo (I.A.s incluídas), um amor, uma descoberta do destino…

Ah, Karina, você não está entendendo: as I.A.s são *revolucionárias*. Serão, pessoal. Acredito que serão. Mas ainda não são. Por enquanto, são ferramentas úteis e até divertidas. Inclusive, tenho testado bastante. Mas isso é assunto para um próximo post, prometo! Abaixo adianto os prompts que utilizei enquanto estava escrevendo esse post e as I.A.s que tenho testado.

Prompts que utilizei para apoiar a escrita deste post no Chat-GPT (versão gratuita)

. Título: “Você poderia me ajudar pensando em ideias de título para esse post, levando em conta um tom bem-humorado? (E junto colei o post já escrito.) → Não gostei de nenhuma das sugestões dele. Pedi mais algumas e continuei não gostando. As I.A.s tendem a trabalhar no registro “vendas” e “cliques-a-qualquer-preço”. Avaliação: ruim.

. Revisão 1: “Teria alguma frase para revisar no texto do post?” → Ele apontou 3 frases e deu 4 sugestões de trocas de palavras. Aceitei apenas 1: “nova roupagem” por “repaginação”. Não costumo pedir revisão geral porque gosto de saber exatamente o que e como ele optaria por revisar. Avaliação: ruim.

. Revisão 2: “Algum erro de digitação ou concordância?” → Ele apontou 4 correções: instagram em minúscula; cortar um “todos” desnecessário; trocar um “perder” por “gastar” [tempo] e compõe no plural. Avaliação: Ótimo em todas.

. Elogio-Destaque: “Qual a frase que você mais gostou ou considerou a mais bem escrita do texto?” → Inventei hoje esse prompt e ele destacou e comentou os aspectos positivos da frase que acabei colocando em negrito no post. Gostei de ter um feedback antes mesmo de publicar e acho que vou adotar esse prompt sempre. Avaliação: Ótimo, surpreendeu.

. Lista: “Você poderia listar aqui apenas os prompts que utilizei nesta conversa sobre o post de hoje?” → Ele listou os prompts acima, mas sem os subtítulos e juntou um agradecimento que não era um prompt. Avaliação: Regular.

Resumindo: o GPT foi útil, mas notem que nenhum dos resultados acima foi “revolucionário”. Continuarei testando e trazendo resultados para vocês. Atualmente estou avaliando: Chat-GPT, NotebookLM, ChatPDF, Scite_, Mapify.co, Connected Papers, Scispace, Docanalyzer.ai, além do Natural Reader e do Transkriptor que já uso desde 2023, como explico nesse post. Lá no “Abraço Acadêmico” temos conversado sobre o tema (Telegram, só clicar aqui.)

Sigamos, com moderação! Me contem o que tem dado certo para vocês. Bom final de semana! ♥

4 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana

♥ No momento não estou vendo nenhuma série, mas indico Hacks, sobre uma comediante e sua redatora. Excelentes atrizes e diálogos. Foram três temporadas. Pena que acabou.

♥ Uma leitura muito boa foi o artigo da antropóloga e cartunista Rachel Paterman (também conhecida como @desorientanda). Uma delícia de capítulo sobre sua trajetória cada vez mais indissociada de desenhista e pesquisadora (hoje na Fiocruz).

♥ Falando em desenho, continuo firme no #academinktober, com um desenho por dia sobre a vida acadêmica. O mais curtido da semana foi o da palavra “tóxico”. Tá no Instagram.

♥ Os 5 desenhos que abrem esse post foram feitos para colocar nas tampas dos potes onde guardo as sementes, aveia e passas. Os potes são de um doce de leite diet maravilhoso da marca Flormel que descobri nas Casas Pedro (RJ).

Sobre os desenhos: desenho de observação das comidinhas feito com canetinha Pigma Micron 0.05 ; cores feitas com lápis de cor Caran D’Ache e canetinhas Pigma Micron coloridas. Foram feitos no verso de uma folha do bloco A4 XL Aquarelle Canson (capa turquesa).

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2024. “Devagar com as I.A.s – dicas de como utilizei Chat-GPT para escrever esse post“, Publicado em karinakuschnir.com, url: https://wp.me/p42zgF-44z. Acesso em [dd/mm/aaaa].

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Autor: karinakuschnir

artista & antropóloga

15 pensamentos sobre “Devagar com as I.A.s – dicas de como utilizei Chat-GPT para escrever esse post

  1. Avatar de Nayara Portilho Lima

    Karina, que alegria que você retomou sua escrita no Blog! Muito obrigada por tanto diálogo e reflexão que você nos provoca, só agradecer mesmo!

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  2. Avatar de Sarah FT

    Oi, Karina! Que legal conhecer seu ponto de vista sobre isso e como você está testando as ferramentas!

    Confesso que estou um pouco por fora desse assunto, conheço as plataformas mais famosas, mas nunca mexi muito com elas. Tenho um pé atrás com tudo isso, parece tão artificial! Mas talvez essa percepção seja porque essas ferramentas, na verdade, têm sido usadas como “soluções”. Não sei muito o que pensar por enquanto.

    Adorei o desenho das comidinhas para os potes! ❤

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    • Avatar de karinakuschnir

      Pois é, querida, eu também tenho mil pés atrás kkkk mas por isso mesmo resolvi testar algumas e dar meus palpites. Como quase tudo em avanço tecnológico, a maioria dos testes é com áreas exatas . E o povo fica reproduzindo para as humanas apressadamente. Pode deixar que voltarei pra contar mais ❤️❤️❤️

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  3. Avatar de Andrea

    Oii!! Uma coisa em que eu tenho pensado bastante ultimamente é que todo mundo quer “escrever”, mas ninguém quer ler, vide a popularidade do uso de IAs para resumos. Já tínhamos esse fenômeno com “todo mundo quer falar e ninguém quer ouvir”, mas estamos trazendo a mesma situação para a escrita. Como li em algum texto, logo logo vai ser IA “conversando” com IA em nome de pessoas.

    Isso sem falar no gasto energético que esses modelos de linguagem têm e quase ninguém parece comentar ou pensar a respeito. A crise climática está entre nós e as pessoas parecem não se importar.

    Eu sou da TI e gosto cada dia menos da área. 😬 Quero fazer que nem minha avó sonhava: ir pro mato afastada de tudo, hahaha.

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    • Avatar de karinakuschnir

      Muito obrigada pelo ótimo comentário, Andréa! Bem isso mesmo. Para que as pessoas querem ser acadêmicas se elas não gostam de ler??? Socorro né 😅 Que bom que você tá nesse meio mas é Uma fada sensata 💌💌💌

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  4. Avatar de Yuna Lélis Beleza Lopes

    Você acalenta meu coração. Quando leio o que escreve, sinto que está na minha frente, dizendo.

    Gratidão.

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  5. Avatar de Fernanda Campos

    Teste também o Claude.ai, eu tenho usado ele e ChatGPT somente para tarefas que me ajudam a ganhar tempo. IA ainda não tem a criatividade (e malandragem?) do brasileiro… rs

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  6. Avatar de clevertonlima

    Uma excelente abordagem desta temática candente. Acredito que estamos nos infantilizando com essa “infocracia” – nas palavras do filósofo Byung-Chul Han – em que somos direcionados as técnicas neoliberais do capitalismo.

    Difícil lidar com esse cenário delirante de tantos aplicativos e fórmulas rápidas.

    Adorei sua lista fundamental para a vida acadêmica.

    Sempre oportuno suas reflexões e análises.

    Curtido por 1 pessoa

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