Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Sentido no caos em Junho/2016!

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Quando eu era pequena, adorava um programa de tevê chamado Vila Sésamo. Lembro vivamente do meu quadro favorito: Ênio e Beto pegavam um pote cheio de meias e brincavam de achar os pares. Eu ficava hipnotizada e feliz de ver os dois juntando as formas e cores que combinavam.

Buscar sentido no caos me traz conforto, desde sempre. Acho que vem daí o meu senso de organização e, bem depois, o fascínio pela antropologia — que não por acaso começou nas aulas da Maria Claudia (Coelho) ensinando análise estrutural dos mitos. Que lindeza aquilo: servia para os gregos, para os índios e para os filmes de James Bond!

Esse amor pela lógica me faz insistir no otimismo, sempre. Há crianças no mundo, há idosos, há milhões de pessoas vulneráveis. Temos muitos pares de meias para formar. Há muito que fazer, pra ontem, por muitos caminhos possíveis. Tenho uma amiga querida que vai todo sábado trabalhar com jovens na periferia, anônima. Não é para divulgação, é o estar dela no mundo: trocar, agir, viver.

Bem-vindas as meias e bem-vindo o mês de junho!

4 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota das últimas semanas:

♥ Alice, que já usava óculos para astigmatismo, começou a reclamar que não estava enxergando o quadro na escola. Ainda tentei argumentar que ela tinha feito exame há poucos meses. — Mãe, estou dizendo que piorou! Dito e feito: diagnóstico de 0.5 graus de miopia em cada olho. Sorte nossa que ela gosta de usar óculos (e que temos uma oftalmologista ótima do plano!).

♥ Tem coisa mais deliciosa do que receber um presente de verdade pelo correio, com direito a dedicatória e florzinha? Obrigada, querido tímido amigo, pelo exemplar que será lido em breve de De Olinda a Holanda: o gabinete de curiosidades de Nassau, de Mariana de Campos Françozo (Ed. Unicamp).

♥ O desastre com o Césio 137, em Goiânia, foi proposto como tema de trabalho aos alunos do ensino médio na escola do Antônio. A peça de teatro que ele montou com um grupo de amigos tocou tanto as pessoas que foi apresentada em várias turmas. E a atividade valeu nota para disciplinas de áreas diversas como química, português, história, sociologia. Como o mundo seria melhor com um ensino assim para todos, universidades inclusive…

♥ Meu novo bebê queridinho é o Francisco, um pequeno humano que teve a sorte de nascer irmão do gato-escritor Borges. Fui visitar o carequinha da família, apertei e beijei, mas o dono da casa nem veio falar comigo! Agora ele desatou a escrever, tentando processar a novidade de dividir a vida com mais um ser estranho. Sorte nossa, que lemos o blog dele!

Sobre o desenho: Meias desenhadas com canetinha Pigma Micron Sakura 0.2 e coloridas com canetinhas diversas: Tombow brush, Koi coloring brush pen (Sakura) e Staedtler triplus color. Tentei formar uma paleta “outono”, usando só umas poucas cores para todos os desenhos. Agora podem brincar de achar os pares!


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No que acredito

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“A vida virtuosa é aquela inspirada pelo amor e guiada pelo conhecimento.”

“Duas pessoas entre as quais haja amor perseveram ou fracassam juntas, mas quando dois indivíduos se odeiam, o êxito de um constitui o fracasso do outro.”

“Não há atalho para uma vida virtuosa, seja ela individual ou social. Para construir uma vida virtuosa, precisamos erigir a inteligência, o autocontrole e a solidariedade.”

“Mas nada se poderá conseguir procurando garantir a segurança de uma parte da humanidade à custa de outra (…). Somente a justiça pode conferir segurança; e por ‘justiça’ me refiro ao reconhecimento da igualdade de direitos entre todos os seres humanos.”

Bertrand Russell, No que acredito, 1925

Essas frases saíram de um livrinho que caiu no meu colo essa semana. Ia dar só uma olhada, mas acabei lendo o pequeno volume inteiro! Que sabedoria a desse filósofo que escreve sobre temas complexos de uma forma tão clara e fácil.

3 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:

* Começou o primeiro semestre da UFRJ, e tenho duas turmas. Senti as mesmas apreensões de sempre: não vou dar conta, estou muito cansada, não tenho mais nada para dizer… Mas o encontro com os alunos e alunas reais foi ótimo. Propus exercícios novos em sala de aula (tanto para a Antropologia II quanto para a turma de Antropologia e Desenho) e acho que deu para nos divertirmos bastante! Depois conto mais aqui, se vocês quiserem — será que alguém tem esse interesse?

* Alice foi eleita representante de turma, junto com uma amiga. Fiquei feliz por ela. Por experiência (Antônio também já foi representante), sei que vai ser um caminho de muito aprendizado. Não é fácil.

* Antônio se apresentou com a peça Vida Severina, do grupo de teatro da escola. Foi lindo, emocionante, surpreendente! E claro que sou totalmente isenta para elogiar. No palco ele nem parecia meu filho!

Sobre o livro: Bertrand Russell, No que acredito, LP&M Pocket (tradução de André Godoy Vieira). Depois fiz uma rápida pesquisa no blog Brain Pickings e achei vários posts legais sobre o autor.

Sobre o desenho: Aquarela feita a partir de uma foto que tirei numa rua perto de casa. A árvore estava linda, toda colorida nesses tons. Estou tentando ser mais consistente no uso do meu diário gráfico, fazendo pelo menos um desenho por dia. Para não ficar de cerimônia, comecei essa nova série no final de um caderno Laloran antigo, detonado, pois tinha sido encharcado de água pelas patinhas do Ulisses… Assim não tem como ter pena de errar ou gastar.  A data no canto direito foi feita com um carimbo muito legal: “mini dater”. Não lembro de onde é o meu, mas consegui comprar com facilidade o refil da almofada de tinta. Para as flores, pintei direto com caneta pincel waterbrush e tintas Winsor & Newton. Estou tentando ser mais solta do que nos meus últimos desenhos com contorno. Aproveitei o momento de uma conversa telefônica matinal para pintar, e acho que a leveza refletiu as palavras sábias da minha amiga parteira: “penso, logo existo; penso demais, logo desisto”!

 


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Prazeres secretos e Março/2016

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Alice está com uma nova rotina em 2016. Agora as aulas começam às 7:20 da manhã. Voltando para casa da escola, ela me disse: “Mãe, só agora entendi porque as pessoas ficam felizes quando chega a sexta-feira. A gente comemora porque pode acordar tarde no dia seguinte!”

Semana passada ela também estreou o uso do armário na escola — um locker de metal, desses que a gente vê em filme de adolescente americano. E pela primeira vez na vida, ela me pediu: “Mãe, cadê aquela sua coleção de adesivos?” Fiquei tão feliz de sentarmos juntas para ela escolher os que quisesse colar no armário novo.

Tenho uma caixinha onde guardo adesivos desde os doze anos. Com desenhos do Snoopy (Peanuts), a caixa está se desfazendo, mas é um dos meus objetos preferidos de memória da adolescência. Meus primeiros desenhos eram imitações desses adesivos, das coleções de amigas ou de personagens de revistinhas que eu mais gostava. Depois de desenhar, era só colar um contact transparente por cima e criar um adesivo novo. Assim, eu fazia de graça os “colantes”, como chamávamos, pois os originais eram caros e importados.

Durante a infância do Antônio e da Alice, começaram a aparecer no Brasil livros inteiros com dezenas, até centenas de adesivos. Imagina a minha felicidade! Antônio chegou a brincar muito com eles, mas a Alice nunca curtiu. Então fui esquecendo desse mundo.

Nesse mês de fevereiro, com volta à escola, e mais horário novo das aulas, entrei numa onda de reorganizar nossa vida e a da casa. Limpamos armários e estantes, doamos muitas roupas, brinquedos e livros, e providenciamos consertos que estavam pendentes desde o final de 2014. Tudo no espírito zen: manter apenas o que realmente usamos ou amamos.

No meio das arrumações, achei um livro de 1000 adesivos praticamente nunca usado! A Alice foi logo dizendo, meio marota: “Pode ficar pra você, mãe!”

Então cá estou, curtindo e compartilhando esse pequeno prazer secreto com vocês no calendário de março, cheio de adesivos do livrinho que a Alice me doou. É o único mês com desenhos que não são meus. Também estou usando os bichinhos para alegrar as minhas listas de tarefas do dia. Pela primeira vez na vida, estou “gastando” adesivos sem economizar! Vai entender, é um amor.

Uma das coisas mais legais de ser criança é que a gente pode gostar do que gosta sem dar explicações. Quando viramos adultos, tudo tem que ter justificativa. E se não tiver? E se pudermos aceitar?

* 7 Números impossivelmente-legais-interessantes-inúteis-ou-dignos-do-Lattes de fevereiro:

. Meu filho Antônio fez 15 anos!

. Atingi a marca de 32 mil e-mails enviados pelo Gmail, desde 2005.

. Levei três dias para agendar, mas apenas 12 minutos para fazer a vistoria do carro velhinho no Detran-RJ.

. Dois defeitos da casa que nos incomodavam por um ano custaram apenas R$25,00 cada para serem resolvidos (acendedor do fogão e fechadura da porta).

. 3 alunas novas fofas começaram a trabalhar como bolsistas no LAU.

. O blog chegou a 134 mil visitas e 80 mil visitantes.

. Hoje cortei 30 unhas humanas e 54 unhas felinas!

* Sobre o desenho: Como pode o mês mais curto do ano não acabar nunca? Meu fevereiro está assim! E o de vocês? Para ajudar, aí vai o calendário de março em .jpg  e em .pdf. As imagens desse mês não são minhas! São adesivos retirados do livro “1000 Bichos Adesivos”, da editora Usborne. O site da editora tem uma versão em português que traz um catálogo em PDF de todos os seus livros de adesivos disponíveis no Brasil.

Sobre o blog: Estou com algumas ideias e metas para o blog em 2016. Uma delas é voltar à pontualidade dos posts de quarta-feira (ou no máximo quinta de manhã, que não sou de prometer ser perfeita). Outra é melhorar a organização, criando um sumário de assuntos, livros e nomes citados. Também queria atualizar com mais frequência as respostas aos comentários e até responder perguntas de vocês em novos posts. O que acham? Têm alguma pergunta para me mandar? Podem enviar por e-mail se não quiserem ser identificados: karinakuschnir [at] gmail.

 


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As cores de cada dia

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“O tolo pensa que é inteligente, mas o homem inteligente sabe que é tolo.” (Shakespeare*)

Há alguns anos vi num filme uma cena que me tocou: uma família reunida para jantar começa um jogo. Cada um deve falar o que aconteceu de pior e de melhor no seu dia. Adotei a brincadeira aqui em casa com as crianças; e aos poucos fomos criando nossa própria forma de jogar.

Primeiro, fazemos uma rodada com o “pior do dia” de cada um. Adotamos o princípio de nunca usar uma situação entre nós como a pior coisa. É uma auto-censura amigável que acabou preservando o momento do jogo.

Em seguida, fazemos uma nova rodada onde cada um fala sobre o que foi o “melhor do seu dia”. Logo nas primeiras semanas percebemos que não valia dizer que o “melhor do seu dia” estava sendo o momento do jogo. Já estava perdendo a graça ouvir o mesmo “melhor do dia” todos os dias! Mas isso só confirmava a delícia de ter esse momento de jogar/conversar.

Com o tempo, surgiram outras regrinhas. Resolvemos que não vale falar algo abstrato, como “fiquei triste” ou “o dia foi animado”. E também não valem os desastres do mundo lá fora. Queremos ouvir: o que aconteceu que te fez desanimar ou se alegrar? Em que situação, com quem? E cada um dá os detalhes que quiser ou puder.

Quando estamos empolgados, fazemos uma rodada extra de escolher quem teve o “pior pior do dia” e quem teve o “melhor melhor do dia”. Daí criamos compensações para o mais sofrido ou festejamos o mais feliz.

Em algum momento, resolvemos que não vale “não ter um pior” ou “não ter um melhor”. Isso gera coisas engraçadas como o “pior do dia” ser só um garfo que caiu no chão. Mas gera também um esforço para encontrar uma pontinha de alegria naquele dia em que a alma está nublada (o melhor desse dia pode ser “eu apertei o gato Charlie”. Esse é um velho truque nosso para ter sempre uma coisa boa no dia ruim. Revezamos os gatos, mas o Charlie é imbatível como a melhor fonte de conforto da casa.)

A Alice também inventou de fazer algumas rodadas com perguntas diferentes, como: “Qual foi a coisa mais engraçada do seu dia?” ou “qual foi a mais estranha?” e assim por diante. E adoramos quando temos visitas para participar. Uma vez, na nossa fase sem-casa, convidamos uma amiga da vovó para a conversa. Ela estranhou muito ser chamada a “falar”! Mas foi tão bonito, porque o pior do dia dela tinha sido fazer um “molho que deu errado” e o melhor foi o “bolo de cenoura da Jô” que trouxemos de presente! Tudo girou em torno das comidas, e pudemos conhecê-la mais de perto. (Ah, e o bolo de cenoura da Jô é sempre o melhor do dia de quem prova!)

Uma das supresas dessa brincadeira é ver que frequentemente o pior e o melhor do dia são parte da mesma situação. Como em: “O pior do meu dia foi brigar com a minha amiga”; e o melhor foi “fazer as pazes com a minha amiga”. Ou em: “o pior do dia foi ter que escrever um trabalho longo”; e o melhor do dia foi “ter terminado o trabalho longo!”. Ou “o pior do dia foi ficar muito tempo na internet” e “o melhor do dia foi um poema que li na internet na timeline do Carlito Azevedo”.

Se machucar/se curar; chorar/ser consolado; ter preguiça/se levantar; sofrer/melhorar; viver algo difícil/superar. Parece que esses contrastes andam mais juntos do que a gente pensa.

E o melhor de falar-confiar-ouvir é a imensa intimidade que surge entre a gente, devagarinho, sem pressão, com choro e com risada.

E já que estamos falando de intimidade, e as crianças hoje não estão aqui comigo para jogar, aí vai o meu pior e o meu melhor do dia:

O pior — Saber que pessoas muito queridas estão sofrendo. E pra elas eu cito “E nem tente levar em seus ombros a sua sorte: não queira carregar os seus sofrimentos sozinha, deixando-me de fora. Por este céu, que agora empalideceu diante da nossa dor, me diz o que tu queres e eu vou estar ao teu lado.” (Shakespeare**)

O melhor — Como diz a Alice, foram dois “melhores”, então vou ter que roubar hoje. O primeiro foi ouvir as apresentações dos alunos sobre as suas etnografias na nossa última aula antes do recesso de final de ano! O segundo é estar aqui escrevendo esse 100º post! Mas o momento do jogo não vale, né? 😉

Sobre as citações: A epígrafe é uma fala do personagem Touchstone (o bobo-da-corte) da peça Como gostais, de Shakespeare, na tradução de Millor Fernandes, para a edição de bolso da LP&M. A segunda citação é da personagem Celia, amiga da mocinha Rosalinda, da mesma obra. Adoro essa peça! Não citei muito porque fica difícil entender as falas sem os contextos.

Sobre o desenho: Semana passada, relendo um texto do antropólogo Edmund Leach, percebi uma frase que nunca tinha me chamado atenção antes. Ao falar das variedades do comportamento humano, ele diz: “são como as cores do arco-íris; as aparências são enganadoras; quando se olha de perto para a imagem, as descontinuidades desaparecem”. E essa metáfora das cores-sem-fronteiras ficará gravada para sempre na minha memória! Queria ter feito uma ilustração especial para o post, mas essa já estava no caderninho pronta. Fiz os contornos com canetinha Unipin 0.05 e as cores são das variadas aquarelas que tenho na minha paleta atual. (A frase do Leach está no livro A diversidade na antropologia, das Edições 70, de Lisboa.)

 

 


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Coragem de escolher

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Nesse final de 2015, tenho uma comemoração muito especial para celebrar: meu filho Antônio, de 14 anos, está se formando no ensino fundamental do Colégio Andrews, um espaço de ensino, reflexão e crescimento coletivo. Depois do trabalho sobre direitos civis e preconceito racial nos EUA, ele escreveu essa redação (abaixo) sobre um romance que leu para a escola. Mais do que a nota dez, me emocionou vê-lo dizer de forma tão simples e clara aquilo que às vezes levamos uma vida inteira para aprender. Não tem festa nem diploma, mas tem esse post de formatura e o desejo de feliz férias, filho amado.

Eis a questão — texto de Antônio Kuschnir Castro

“Durante seu tempo de vida, toda pessoa precisa fazer escolhas, assim como o jovem Pedro, personagem do livro O fazedor de velhos, de Rodrigo Lacerda. Seja essas na vida profissional, amorosa ou emocional, são as escolhas que guiam nossas vidas e futuros. O ‘destino’ não está pré-determinado — são as escolhas que o determinam.

“Conforme a história, no livro, vai se desenvolvendo, Pedro se vê com dúvidas em relação a continuar ou não na faculdade de História. Após diversos caminhos tomados e escolhas feitas, como ter gastado meses realizando trabalhos, literalmente, sem fim, como entender a ‘natureza humana’ ou achar frases que sintetizavam livros inteiros, Pedro finalmente descobriu-se escritor. Assim como Pedro, precisamos tomar escolhas no campo profissional que reflitam nossos reais desejos.

“Outra área em que as escolhas são cruciais é a área amorosa e emocional da vida. No livro, Pedro se vê com um dilema, quando sua amada tem uma proposta de trabalho no exterior. os dois, juntos, acabam escolhendo que ela vá. Na vida real, também é preciso tomar decisões no campo amoroso. Nem sempre as coisas são fáceis, muitas vezes é preciso escolher abrir mão de alguma coisa em troca de outra.

“A vida, constantemente, traz desafios a um indivíduo, traz decisões a serem tomadas. São essas escolhas e decisões que formam nosso futuro e nos formam, como pessoas. Se, com a peça Hamlet, Shakespeare escreveu a famosa frase ‘Ser ou não ser? Eis a questão.’, seria igualmente significativa a substituição do ‘ser’ pelo ‘escolher’. Somos as escolhas que fazemos: ‘Escolher ou não escolher? Eis a questão’.”

É também sobre a coragem de escolher um dos melhores livros que li recentemente: O sol é para todos, de Harper Lee, que tem como protagonista a menina Scout, entre seus seis e oito anos de vida. Através de seus olhos, observamos as preconceituosas e violentas relações sociais de uma cidadezinha do Alabama, nos EUA; e sonhamos em ter a coragem e a sabedoria do seu pai, o advogado Atticus Finch.

Scout é sabida e esquentadinha. Na escola, seu pai é constantemente ofendido por seus colegas por defender os negros nos tribunais. Ela quer revidar, mas Atticus lhe diz: “tente lutar com a cabeça”, querida, “só porque fomos derrotados uma vez não é motivo para não tentarmos novamente”. (p.105) Ela faz promessas para si mesma, mas mantem a “nobreza” por apenas três semanas: acaba dando uns sopapos no primo preconceituoso. Seu tio lhe ofende: você não quer ser “uma dama” quando crescer? Não, ela diz, não faz questão: prefere continuar a vestir macacão e brincar.

Sem entender porque todos odeiam seu pai, Scout pergunta, “Atticus, você deve estar errado. (…) quase todo mundo acha que eles é que estão certos e que você está errado.”

Atticus sendo Atticus: “Bem, eles têm o direito de pensar isso e suas opiniões devem ser respeitadas. Mas antes de poder viver com os outros, eu tenho de viver comigo mesmo. A consciência de um indivíduo não deve subordinar-se à lei da maioria.” (p. 139)

Adiante, Scout volta ao tema: “Você não é realmente um amante de negro, é?”

Atticus: “Sou, sim. Eu faço o possível por amar a todos… Às vezes é bem difícil.. Filha, não se sinta ofendida quando alguém disser uma expressão feia. Isso não deve atingi-la, apenas revela a pobreza de quem falou… (…)” (p.144)

Scout se revolta por ter que ler para uma das senhoras mais racistas da cidade. Após o falecimento desta mulher, Atticus revela que ela lutava contra uma doença terrível, que afetava seu julgamento, e explica porque exigira aquele esfoço da filha:

“Eu queria que você visse o que é realmente coragem, em vez de pensar que coragem é um homem com uma arma na mão. Coragem é quando você sabe que está derrotado antes mesmo de começar, mas começa assim mesmo, e vai até o fim, apesar de tudo. Raramente a gente vence, mas isso pode até acontecer.” (p. 148)

Uma das poesias da narrativa é que Scout continua sendo criança. Mesmo ouvindo seu pai, ela joga tudo que a senhora lhe deu no fogo da lareira. Outra hora, saudosa do melhor amigo, comenta: “Senti-me muito infeliz por dois dias”! (p.152)

É nesse misto de ingenuidade e determinação que ela protagoniza uma das cenas mais dramáticas da história, quando consegue impedir a ação de um grupo que pretendia linchar Tom, o acusado. Atticus desabafa com Jem, seu outro filho:

“E foi preciso que uma criança de oito anos os trouxesse à razão. Isso prova uma coisa: uma malta de selvagens pode ser detida porque seus membros ainda são humanos. Hum, talvez precisemos de uma força policial formada por crianças…” (p.203)

Diante da decisão do tribunal, que considera Tom culpado, mesmo com todas as provas de sua inocência, Scout e Jem não se conformam. Atticus também sofre: “Já fizeram isso antes, fizeram esta noite e farão outra vez, e quando isso acontece… parece que apenas as crianças choram.” (p.274)

Ele acreditava que a geração de seus filhos faria um mundo diferente, onde houvesse justiça independente da cor da pele, onde a palavra do branco, ou sua riqueza ou de sua família, não vencesse sempre a de um negro, ou a de uma mulher ou a de um judeu. (p.285 e 317)

Se lutaram do jeito certo ou errado para os anos 1950, não sei dizer. Mas a causa continua mais do que urgente em 2015: os Finch queriam viver num mundo onde só existisse um tipo de gente: gente. (p.293)

Sobre o livroO sol é para todos, de Harper Lee, editado pela José Olympio, com tradução de Maria Apparecida Nóbrega de Moraes Rego, em 2006. A obra foi originalmente intitulada To kill a mockingbird e publicada em 1960.

Sobre o desenho: Flor feita em aquarela com base numa ilustração de um livro (esqueci de anotar a referência, desculpem). Os materiais foram: papel Canson Moulin du Roi e aquarela Winsor & Newton. Algumas pinceladas mágicas da professora Chiara Bozzetti também contribuíram bastante para o resultado. O original será o presente de aniversário (muito atrasado) para minha mãe, leitora e minha incentivadora número um aqui no blog.


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Novembro/2015

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Aproveitem a coisa rara: eu entregando uma tarefa com antecedência! Até gosto de cumprir prazos, mas terminar antes é meio contra a minha religião… Acho que foi uma tentativa de fazer novembro — e o meu salário — chegarem mais rápido! (Para imprimir, cliquem na imagem acima ou nesse pdf.)

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Fiz também um pequeno desenho para os aniversariantes do mês colarem no seu dia. Para imprimir no tamanho certo, clique nesse pdf que já está no tamanho de uma folha A4.

A inspiração para o desenho veio de uma noite imersa em livros e obras do artista Paul Klee. No dia seguinte, deixei todas as imagens de lado e tentei explorar as cores que tinham ficado gravadas na minha memória. É pena que o resultado escaneado não tenha sido muito fiel às diferenças mais sutis, principalmente nos tons amarelos.

5 Coisas impossivelmente-animadoras-bonitas-interessantes-ou-dignas-de-nota de outubro:

* Achei na arqueologia dos e-mails uma historinha de quando o Antônio tinha seis anos:
A — Mãe, o que você prefere: a Estátua da Liberdade ou o Cristo Redentor?
K — Ah, filho, não sei… E você? (Achando que eles estava falando das estátuas…)
A — Eu prefiro a Estátua da Liberdade. Sabe por que? Por que o Cristo a gente não sabe se existe, mas a Liberdade existe sim.

* Esse mesmo filho chega da escola, agora aos 14 anos, muito animado para fazer um trabalho sobre a luta por direitos civis nos EUA nos anos 1960. E durante duas noites me ensina sobre Nina Simone, Rosa Parks, Malcom X., Panteras Negras e Martin Luther King. Fiquei feliz demais por ele e por sua professora de história. (E perdoem a notinha de mãe orgulhosa: o trabalho foi escolhido para virar painel na mostra anual da escola.)

* Alice segue aprendendo violão, indo de Cold Play, Cazuza e R5. É a minha trilha sonora particular.

* As capivaras na Lagoa estão cada vez mais numerosas e gordinhas. Espero que isso seja sinal de saúde — está sendo um privilégio poder dar bom dia a essas criaturas tão pacíficas. (E esse foi um jeito discreto de dizer que meu projeto verão está em curso!)

* A campanha de venda das camisetas “Câncer infantil tem cura!” vai indo muito bem! Expliquei o trabalho nesse post. Para comprar, é só clicar aqui. Qualquer dúvida, me encomendem diretamente por email ou mensagem de facebook! Faremos uma caminhada no dia 8/novembro, às 9 horas, na orla da praia do Leblon. Toda a renda obtida será revertida para as crianças e jovens com a doença. Abaixo, uma amostrinha de como ficou o desenho que fiz. Nesse próximo domingo (1/nov) a campanha estará no programa Esquenta!, da tv Globo.

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Sobre o desenho: O desenho do calendário desse mês é muito simples… Fiz os quadradinhos com caneta Pigma Micron 0.05 e colori com lápis de cor Prismacolor e Caran D’Ache.


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Empurrão de Flor

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Muitas vezes na vida precisei de um empurrão. Não que me falte energia ou interesse pelas coisas. Adoro aprender, me envolver e fazer, mas… a coragem de mostrar pro mundo… essa é escassa na minha receita interna. Por isso gosto e dependo tanto das pessoas que me dão um tranco, e dos bem fortes, tipo me-jogar-na-piscina-com-roupa-e-tudo.

Um dia eu estava quieta no meu canto, feliz de desenhar em caderninhos para o resto da vida, quando ela me ligou. “Quero que você escreva um artigo para o Prosa sobre desenho e antropologia. Vamos publicar uma página com seus textos e desenhos?” Fiquei super lijongeada com o convite — era elogio, né? — mas totalmente descrente da minha possibilidade de atendê-lo. Eu só consegui responder: “Não, imagina, você está confundindo. Desenho é uma coisa, antropologia é outra.” E ela, que é muito mais inteligente e esperta do que eu: “Não é não, frô. Mistura que dá certo! Bora, faz aí.” [E ela não escreveu assim, curtinho, não. Gastou um tempão me dando coragem, pessoalmente e por escrito.]

E foi esse empurrão da querida Mànya Millen, então editora do caderno literário Prosa, do jornal O Globo, que mudou a minha vida de 2011 pra cá. Fiquei quase um ano enrolando para entregar o material. Mas foi ao longo desse ano que tomei o rumo apontado por ela, juntando meu mundo acadêmico e criativo num só. Em janeiro de 2012, a página com textos e desenhos foi finalmente publicada e, não por acaso, foi também esse material que, algum tempo depois, gerou a ideia de criar este blog (como vocês podem ler aqui).

Na semana passada, a Mànya e o Prosa saíram do Globo. Fiquei de luto como leitora do caderno literário. Aqui em casa temos pilhas de Prosas históricos, porque a Mànya nunca fez jornal de embrulhar peixe. Ela fez arte, opinião, reportagem, imagem. Fez todo esse universo mágico dos livros circular para um mundo com horizontes mais amplos e reflexões mais profundas — justamente o tipo de conteúdo de que mais precisamos nesse brasil tão depenado…

Para a Mànya, o meu desejo é que tudo isso seja um grande empurrão, igual ao que um dia ela me deu. Que seja um tranco, daqueles que nos levam para um lugar mais interessante, mais feliz, mais perto de nós mesmos e das pessoas que amamos.

Nos últimos dias, tanta gente escreveu coisas lindas sobre ela… Queria compartilhar especialmente as lindas palavras de sua filha, Julia Millen:

“Desde que me entendo por gente sabia que minha mãe era jornalista. Desde novinha eu sabia o que era pauta, lead, diagramação, subir matéria, fechamento de caderno, plantão -conhecido também como: “quinta feira mamãe chega de madrugada”, ou também: “mamãe trabalha esse fim de semana”. Desde muito pequena eu sabia que ela trabalhava no Globo. Desde sempre eu sabia que ela fazia parte do Prosa & Verso. Desde pequena eu sempre senti um orgulho inexplicável, mesmo quando ainda nem sabia ao certo o que ela fazia, mas só por saber que minha mãe era jornalista cultural e que trabalhava no Prosa. Desde pequena eu aprendi que esse orgulho surgia por saber o quanto ela amava aquilo. Desde pequena eu aprendi que o jornalismo é só para quem o ama loucamente. E desde muito pequena ela me ensinou a amar as palavras e os livros como ninguém. Desde não tão pequena, porém, ela me ensinou o quanto esse mesmo jornalismo era difícil, o quanto sobreviver de jornalismo era complicado, e o quão saturado e instável era o mercado do impresso, o jornalismo de discussões infinitas que rodavam pelo tema: “será que com a internet o jornal irá acabar? ”. Por muito tempo me forcei a acreditar que não. Hoje eu tenho certeza que sim. Hoje, após 20 anos, o Prosa vai deixar de existir. Hoje, o jornal perde o seu caderno mais bonito. Hoje, o Globo só perde. Os tempos estão difíceis para as palavras, mas o orgulho e a gratidão por compartilhar tanta informação, permanecem. Muito obrigada, mãe, Manya Millen. Dias mais bonitos virão.”

Muito obrigada, Mànya! Que muitas flores estejam no teu caminho, frô.

* 3 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-hilárias-difíceis-interessantes-ou-dignas-de-nota da semana:

* Na sexta passada, eu e o Juva demos duas palestras para os alunos do 9o. ano do Colégio Andrews sobre “Processo criativo” (ou como fizemos o livro “Do gato Ulisses as sete histórias”). Fui com medo de decepcionar meu filhote, que estaria numa das turmas… Mas ele adorou e nos contou depois que seus amigos amaram, ufa!

* Até a véspera da palestra, passei dias trabalhando num artigo em co-autoria com o Vinícius Moraes de Azevedo, meu bolsista de iniciação científica no IFCS. E não foi nada chato, porque o material etnográfico da pesquisa dele é muito engraçado. As crianças vieram até ver porque eu estava rindo tanto. E agora preciso convencer a Alice de que ela não pode falar em “xarpi”!

* Mas a escrita acabou me afastando dos pincéis… Mesmo por poucos dias, fui ficando inquieta e desanimada. Felizmente, ontem consegui sentar e recomeçar. E registro aqui, para não esquecer: basta recomeçar. (Seja o que for que esteja nos fazendo bem: andar, escrever, pintar, desenhar, cantar, tocar, até o temido “terminar a tese”!)

Sobre os desenhos: Flores de uma árvore jasmim-manga que fica na Praça Nelson Mandela, na saída do metrô de Botafogo (zona sul do Rio). Fotografei com o celular e depois desenhei em casa. Na imagem à esquerda, fiz primeiro com lapiseira, depois pintei com aquarela, buscando dar volume (com várias camadas finas, sempre esperando secar entre elas). À direita, fiz direto o contorno com canetinha de nanquim, pintando depois só com algumas pinceladas. Ambas no caderninho Laloran de sempre. Os materiais são os mesmos registrados aqui.


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Domingo no parque

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Quando o Antônio era pequeno, eu vivia fazendo planos de programas ao ar livre.

Eu dizia: “Filho, o que você prefere: praia ou parque? Vamos sair, está um dia lindo!”

E ele, sempre: “Livraria!”

Quando a Alice nasceu, renovei minhas disposições e até ficamos sócios de um clube. Logo estávamos numa loja comprando raquetes e bolas de tênis. Vamos nos mexer, vamos jogar! Compadecido de mim, o agora filho-mais-velho, aos seis anos, vaticinou:

— Mãe, nós nunca vamos ser um família esportiva.

E eu toda animada, dizendo deixa disso, filho, o importante é se reinventar.

Mas onde estão mesmo aquelas raquetes? Ai, mofaram junto com os pés-de-pato… Quem mandou ser aquela que sobrava na escolha dos times de volei do colégio, da perna fina, se escondendo quando a bola vinha e ouvindo a professora de educação física dizer mentalmente “porque-você-não-é-igual-à-sua-super-atlética-irmã”?

Como a verdade dita na hora certa, a frase do Antônio virou um bordão cômico no nosso repertório familiar:

— Mãe, nós nunca vamos ser uma família esportiva.

A Alice chegou para energizar bastante, é verdade. Mas a preguiça matinal dela não é, digamos, muito compatível com um futuro atlético. A ver. Antônio agora faz pilates e eu, que até aprendi a correr em 2011, tenho tentando caminhar várias vezes na semana (e não vou dizer quantas porque não me iludo — Vovó Trude já dizia: “só se desilude quem se ilude”, o que vale para muita coisa!).

Essa introdução toda foi para vocês entenderem o sacrifício de estar domingo às 9:30h num parque! Só mesmo a combinação jardim, livro, aula e material de pintura! Nada esportivo…

A boa causa era comemorar os cinco anos do Atelier Chiaroscuro (onde faço curso de aquarela) e, de brinde, assistir a uma aula de história da paisagem, com a professora Chiara Bozzetti — além de comer, desenhar e pintar. Foi uma conversa ótima sobre percepção visual, história e arte.

Desafio mesmo era a segunda parte. A professora dizendo: agora vamos olhar à nossa volta e pintar uma paisagem!

Oops, essa parte eu posso pular? Já me deu uma preguiça dos tempos da aula de volei… E fugi para perto dos patos, gansos ou sei lá que aves barulhentas eram aquelas.

Eu sempre posso dizer que sou míope, né? E não tem lente que corrija direito cinco graus de miopia… Quem diz o contrário está querendo te vender óculos mais caros!

Enfim, os patos foram a minha não-paisagem. (Eu me daria 4,0 por incompetência e por fugir do tema.)

Nova página com o materiais! – Já está no blog a nova página em que vou juntar os materiais que utilizo. Segue a contribuição dessa semana!

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Pincél de água (waterbrush) Kuretake – Comecei a namorar esses pincéis de aquarela por causa dos livros e vídeos do Danny Gregory. Já tive vários, mas os da marca Kuretake são os meus preferidos. Além das pontas em vários tamanhos (firmes e macias na medida certa), eles têm uma válvula que faz com que a água escorra devargazinho para o pincel. Infelizmente, as cerdas se desgastam (principalmente a pequena, minha preferida). Por isso, estou sempre precisando de um novo… [Para este desenho, insisti em usar o papel Arches cold press. Foi uma tragédia de difícil, porque é um papel rugoso, que gruda no pincel. Além disso, fica cinza quando escaneado… Definitivamente não é papel para mim.]

* 5 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-ou-dignas-de-nota da semana:

* Ganhamos uma letra B gigante feita de papel-machê pela super-plus-fox-english-teatcher Roberta Ferro. Está no meio da sala fazendo a festa dos gatos.

* A exposição Álbum de Família, no Centro Municipal de Arte Helio Oiticica tem muitas coisas legais, mas os quadros da Leonora Weissmann me impactaram: lindos, técnicos, inteligentes, bem-humorados. Depois fui ao site dela e fiquei mais maravilhada ainda.

* Um trabalho que fiz nas férias está começando a aparecer, devagarinho… Não vejo a hora de compartilhar com vocês o projeto inteiro! Que felicidade ser parceira da Genifer Gerhardt. Foi transformador para mim.

* Inauguração da exposição No caminho da miçanga, no Museu do Indio, sob curadoria da antropóloga Els Lagrou, minha colega de departamento no IFCS/UFRJ. Que lindeza sem tamanho ver todas as peças juntas, cada uma mais delicada do que a outra. Vou voltar para ler direito as explicações, assistir aos vídeos e estudar as formas e cores.

* Alice começou a fazer aula de violão! Difícil é não esmagá-la de tanta fofura quando ela treina as escalas…

Sobre os desenhos – Do topo do post, desenhos feitos no caderninho Laloran. Na página dos patos, desenhei direto com pincel e aquarela Winsor & Newton, tentando captar os bichos em movimento mesmo. Depois, em casa, acrescentei algumas linhas com caneta nanquim descartável (Unipin 0.2) e repintei algumas áreas do fundo e de sombras. Na página seguinte, minhas anotações da aula no parque feitas com a mesma caneta e coloridas no local com aquarela. As sombras e o estojo do Durval foram feitos já em casa… é muito detalhe para fazer no desconforto do parque!


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Matérias vivas

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Metáfora, por Gilberto Gil

Uma lata existe para conter algo | Mas quando o poeta diz: “Lata” | Pode estar querendo dizer o incontível

Uma meta existe para ser um alvo | Mas quando o poeta diz: “Meta” | Pode estar querendo dizer o inatingível 

Por isso, não se meta a exigir do poeta | Que determine o conteúdo em sua lata | Na lata do poeta tudonada cabe | Pois ao poeta cabe fazer | Com que na lata venha caber | O incabível

Deixe a meta do poeta, não discuta | Deixe a sua meta fora da disputa | Meta dentro e fora, lata absoluta | Deixe-a simplesmente metáfora 

[para ouvir o Gil cantando, clique aqui]

Sobre os desenhos – Quando juntei esses desenhos, percebi como sou apaixonada por cada um desses pedacinhos de lata e de outros materiais mágicos, capazes de dizer o indizível, como na lindeza de canção do Gil. Por isso, resolvi criar uma seção aqui no blog só para mostrar e falar desses materiais de arte; para que cada um apareça com sua imagem e história. (Link em breve!)

Quanto mais me dedico a desenhar e pintar, mais me dou conta de que gosto tanto do resultado limpo e claro, como de mostrar o processo de criação, trazendo para a imagem o seu making of visual. Assim, decidi deixar os testes das cores como parte do trabalho final. Essa série foi toda feita no verso de sobras de papel de pintura barato que eu já tinha (Canson Aquarelle A4 e Canson Pintura escolar A3). Em todos os desenhos, fiz um traço com lapiseira primeiro, contornando o objeto desenhado de forma bem leve (apagando e corrigindo quando necessário). Depois passei o nanquim preto (canetinha descartável Unipin 0.05) e pintei com aquarela (com os pincéis e tintas mostrados nas imagens; e com outros materiais também, que irei desenhando aos poucos).

Espero que gostem! (E se animem a desenhar também!)

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Borracha Staedtler – Ganhei essa borracha do meu avô Rudolf quando eu ainda era adolescente. Ele viajava muito e trazia materiais incríveis para a minha tia que fazia arquitetura. Eu vivia de olho comprido nas coisas dela, como vocês podem imaginar… Em 2008, quando voltei a desenhar diariamente, aboli o uso da borracha da minha vida. Virou quase um dogma! Mas, em 2015, com a benção das aquarelas, não é que fizemos as pazes?

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Lapiseira Pentel cor-de-rosa 0.7 – A paixão por lapiseiras é antiga. Não consigo viver sem. Não sei ler um texto sem uma lapiseira na mão! O problema é que as crianças herdaram essa mania e viviam roubando as minhas. Quando vi essa cor-de-rosa, pensei: taí a cor certa! Nem a Alice nem o Antônio vão querer roubar! Os dois detestam rosa. Não é que deu certo? Já estou com ela há alguns anos. (Mas só passei a usá-la para desenhar quando fiz as pazes com a borracha.)

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Spray de água – Potinho plástico comprado numa loja de materiais de perfume na Saara (no Centro do Rio) para pulverizar e umedecer as pastilhas de aquarela antes de começar a pintar. Custa só R$ 1,50! Já comprei vários para dar para os amigos. Serve também de pote de água para molhar ou lavar o pincel quando vou usar a aquarela fora de casa.

 

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Pincéis Winsor & Newton University Series 233 – Pincéis com pelo sintético tamanhos 000, 0 e 1, que minha mãe trouxe de uma viagem a trabalho nos EUA. São baratos e ótimos para pintar coisas pequenas, embora as pontas já estejam entortando um pouquinho. Foi com eles que pintei a maior parte dos desenhos desse post. A cor é uma alegria à parte!

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Estojo de aquarela – Comprei essa latinha Rembrandt vazia na papelaria Caçula (na Saara, no Centro). Infelizmente não vendem mais (esta já está enferrujando…). Dentro, coloquei potinhos com aquarela em pastilha Winsor & Newton (comprados em Lisboa) e alguns potinhos vazios que enchi com tinta de tubos variados. Tudo isso está mais ou menos colado no fundo da lata com uma massinha americana chamada Blu-Tack que é uma maravilha (cola mas não seca; o que me permite trocar ou repor as cores).

Ps: Sobre as cores, vou ter que escrever num próximo post! É cor demais para dar conta por hoje.

* 5 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-ou-dignas-de-nota da semana:

* A Luiza Vilela publicou no Noo um belo artigo sobre modelos vivos, com algumas falas minhas e até um desenho antigo (2008). Adorei participar da história — e preciso escrever (ontem!) para ela para elogiar o texto!

* Adriana Calcanhotto no Arte 1 lembra que Tom Jobim dizia: “A melhor coisa é lutar pela simplicidade. Fazer música complicada é fácil.”

* Antônio, chegando em casa da escola, me conta a aula de história da arte como quem acaba de assistir a um grande filme!

* Surpresa no caderno Prosa, do jornal O Globo, de sábado (8/8/2015): na capa, uma foto tirada por mim do Howard S. Becker ilustra uma ótima entrevista na página seguinte!

* Alice acordando sonolenta: “Péra, mãe, meu cérebro ainda está ligando…”

Depois que postei, minha professora-flor, Chiara Bozzetti (Instagram @atelierchiaroscuro), me avisou que hoje (12/08) é Dia Nacional das Artes! Que coincidência… parece até que sou uma jornalista que planeja a pauta do blog consultando calendários de efemérides… Só que não!

 

 

 


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Vivendo sem borracha

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Quando passo horas fazendo um desenho que sai certinho, como no calendário de julho, tenho uma sensação de conquista boa. Só que dura uns cinco minutos. Logo vem a irritação-avaliativa: tá cafona; tá igual ao guardanapo que a titia usa no Natal; tá parecendo uma sacola de supermercado; tá com cara de papelaria da Disney dos anos 1980. Tá certinho demais!

— Mas certinho é tão bonito…

— Né, não. Certinho é chato.

Difícil é ser irreverente como o Millôr, que dizia: “Viver é desenhar sem borracha”. Ou engraçada como a fada-fofa que fica nua e desafia: “se não gostares, a culpa é tua!” (Sylvia Orthof).

Ainda procuro o desenho com a imperfeição-que-saia-perfeita. Algo que não seja nem tão fruta-etiqueta, nem tão folha-de-teste-de-aquarela.

* 7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:

* No caminho do post da semana passada tinha um apêndice. E dentro do apêndice tinha uma pedra. Como disse o poeta:

“Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.”

Carlos Drummond de Andrade – Alguma poesia (1930)

* Em resumo-resumidíssimo: filhote com dor, filhote operado, filhote sarado!

* Durante o caminho da pedra para fora da barriga, sua única preocupação era: “Meu cabelo tá direito?”

* Já sem pedra, mas antes da alta, ele perguntava: “Quando vou poder comer pipoca? E bolo de chocolate?”

* No meio do caminho, passei uma semana enganando minha mãe no Whatsapp. Ela estava viajando a trabalho, meio doente ainda por cima, e não merecia saber que o neto estava no hospital. E enganada ficou até domingo… O mundo pelo celular é uma ilusão.

* Antes da pedra, a vida parecia tranquila. Na árvore em frente à janela do meu quarto tinha uma família de bem-te-vis, com dois adultos e dois filhotes fofos. O Google me fez achar que eram Cambacicas, mas não eram. Minha carreira de ornitóloga-de-araque foi pro brejo. Depois da pedra, não os vi mais.

* Ainda antes da pedra: acordei às 7:15 da manhã para assistir uma aula-aberta de História da Arte com a professora Lisiane Bacelar como parte de ser a super-mãe de um aluno do 9o. ano do Colégio Andrews. Foi linda: aprendi que a música Starry starry night é uma homenagem a Van Gogh. Valeu o sacrifício de acordar tão cedo.

Sobre o desenho: Tirinha de papel com pinceladas de aquarela para testar as cores dos desenhos de frutas que fiz para o calendário de julho/2015. A intensidade dos desenhos (do calendário) se deve muito ao fato de que pintei em papel próprio para aquarela (meu primeiro Arches, hot press!), e não no papel comum. As tintas foram quase todas Winsor & Newton e os pincéis usados foram entre os tamanhos 00 e 2. As linhas foram feitas sem lápis e borracha. Desenhei com a canetinha Copic 0.05 (que está fina demais, mesmo trocando o refil do cartucho de tinta. Acho que não valeu o custo.) Depois de tudo pronto, escaneei, acertei os tamanhos das frutas e “colei” na folha do calendário com ajuda do Photoshop. Abaixo vai a imagem (reduzida) da página inicial, do jeito que estava antes da edição!

frutas pequeno