Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Uma cidade, duas cidades

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Nosso gato Ulisses ficou doente essa semana. Entra na caixa, sai da caixa, agonia, miado. A veterinária é certeira: o problema é no intestino. Segunda-feira, às 8h da manhã eu já estava na porta da clínica de ultrassom em Ipanema (“a única que serve”, diz a vet-super-exigente; e quem sou eu pra contestar…) Cheguei cedo nesse pedacinho da cidade que quase não frequento desde a morte do Gilberto (Velho)…

Que conforto achar um banco de madeira na calçada! Entre a clínica e a loja de suco, sento-me com a caixa-e-o-gato-dentro. Ao meu lado, um senhor forte, pelos oitenta anos. Aos poucos, várias pessoas param para falar com ele. Oferecem suco, conversam sobre os filhos, falam mal da política… Todos o chamam de “sensei” — e me dou conta de que ele deve ser um mestre de artes marciais de alguma academia ali perto.

Durante os vinte minutos de espera, desenho as pessoas que vão passando. Sinto saudades de Lisboa, do Eduardo Salavisa a desenhar no Parque da Estrela, dos eventos da comunidade de desenho urbano.

“To know one town, you really need two towns.”

A frase é do artista Jonathan Twingley na sua aula na Sketchbook Skool dessa semana. A “arte”, ele diz, “é sobre tudo que está vivo”. Precisamos de liberdade (e prática, muita prática) para criar.

A orla, as montanhas e as lagoas do Rio são lindas, sim; mas conhecendo a vida em outras cidades é que sentimos o quanto vivemos apertados, cansados e estressados aqui. No ponto, no ônibus, no metrô, na faculdade, nas papelarias, na cobal: a expressão de fadiga é democraticamente distribuída. Que sorte a minha ter uma caneta e um caderno nessas horas!

6 Coisas impossivelmente-legais-inusitadas-interessantes-engraçadas-difíceis-ou-dignas-de-nota da semana:

* Alice toda feliz na volta da escola: “Mãe, hoje aprendemos matéria nova em português! Porque, por que, porquê, que, quê com acento!”

* Ouvir a voz de Mário de Andrade! Descobri a gravação de 1940 graças ao link enviado pelo querido André Botelho que compartilha comigo a paixão por esse escritor-músico-poeta-artista-tudo.

* Aula de espaço negativo e modelo-vivo no IFCS: palmas para a turminha nota mil desse semestre de Antropologia e Desenho!

* Fiz um novo sketchbook sozinha, com cadernos costurados, guarda de craft e capa-envelope… tudo nos moldes do que aprendemos na Palmarium, mas com tamanho 19,5 x 17,5. Papel de aquarela encomendado na Dritter: Conqueror Connosseur Soft White 300gr 100% algodão. Custo total com 48 páginas: menos de R$ 20,00 reais!

* Sorvete no feriado com as crianças… passam vários meninos e meninas vendendo balas e pedindo sorvete também. Meus filhos conversam comigo sobre a situação, falam que trabalho infantil é proibido, pensam nas alternativas e na falta delas. “Para onde poderiam ir, mãe?” “Será que não poderiam denunciar a tia (que os coloca pra trabalhar) na delegacia?” [Suspiro.] Vou comprar um picolé para os dois que nos pediram. O pequeno é tão pequeno que não sabe que sabor quer. Eu digo que manga é bom, mas ele se diverte pedindo cada hora um diferente. Depois se conforma com o de abacaxi, igual ao da irmã/prima. Apesar da tristeza da situação, me conforta saber que meus filhos, mesmo muito jovens, não são alienados ao mundo que os rodeia.

* E porque às vezes é preciso esquecer disso tudo: dia-de-correio-feliz ontem! Chegou um romance novo-usado por R$14,90 via Estante Virtual! (Se for bom, depois indico.)

E a semana de vocês?

Sobre o desenho: Canetinha Pigma Micron 0.8 (estava com saudade das linhas mais largas!) em caderninho Canson pequeno (A6). Adicionei as cores com aquarela mais tarde em casa.


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Artes, cadernos, livros e coisas impossíveis

Imaginem um lugar onde as marcas do tempo são belas, as falhas são histórias, as fragilidades são forças… Esse é o Atelier Palmarium, um espaço cheio de delicadezas, onde se respira fabricação de livros. Cada gesto de Cristina Viana, sua dona-artista, revive e reinventa tradições de centenas de anos…

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Suas mãos são como as dos artesãos que aprederam com seus mestres, que aprenderam com seus mestres, que aprenderam com seus mestres… Papéis, linhas, agulhas, instrumentos, tecidos, colas, pincéis, máquinas de apertar, de cortar, de gravar… Tudo isso se junta de forma ritual e cheia de mágica para fazer um livro ou um caderno — e lindos!

Tive o prazer de conhecer um pouquinho desse mundo no início de abril/2015, num workshop de encadernação do tipo códice. O objetivo era nos ensinar a fazer um caderninho com papel de aquarela, ou “sketchbook”, como dizemos no mundo do desenho.

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Essas são as imagens das minhas anotações das quase 8 horas de trabalho. Depois de uma certa altura, foi difícil continuar anotando, como vocês podem ver… Foram muitos detalhtes e coisas que nunca imaginei que existissem, medidas em 0,00 milímetros e precisas como num plano de vôo para a lua.

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Abaixo, o caderno pronto (à esquerda) com os desenhos iniciais mostrando a capa-envelope — uma pequena obra de arte em si mesma, proposta pela Cristina para que pudéssemos terminar o trabalho num dia só.

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Sobre os livros:

Toda essa aventura me fez lembrar de um monte de livros sobre livros que aprendi a amar ao longo dos anos… De tudo do Umberto Eco, do Robert Darnton e do José Mindlin, passando por Dom Quixote, pelos policiais de John Dunning, pelos textos da Alessandra El-Far, pelo livro sobre handmade-books que recuperei de um empréstimo, pelos “leitores-comuns” de Virginia Woolf e Anne Fadiman (cujo amor pelos livros foi tanto que levou seu filho a comê-los!), pelos autobiográficos de Anne Lamott, Stephen King e todos os seus companheiros-escritores de estante… E até do despretensioso “As memórias do livro: romance sobre o manuscrito de Sarajevo” de Geraldine Brooks (Ediouro, 2008, trad. Marcos Malvezzi Leal), porque fala de restaurações, ilustrações e páginas de um livro-tesouro que passa de mão em mão por centenas de anos.

Essa semana soube de duas pessoas que leram livros comentados por mim aqui no blog. Fiquei tão feliz! E me lembrei de indicar para vocês o blog “Seven Impossible Things Before Breakfast“, mantido por Jules Danielson, sobre os bastidores da ilustração de livros infantis (principalmente nos EUA). O arquivo do blog é vertiginoso, a seção de entrevistas é incrível e as imagens de ilustrações-em-processo são fantásticas.

O título do blog é uma homenagem a outro ícone dos apaixonados por livros: Lewis Caroll! É uma referência a um diálogo da Rainha Branca com Alice, em “Através do espelho”. Alice diz que “não se pode acreditar em coisas impossíveis”. Mas a Rainha discorda: “Quando eu tinha a sua idade”, conseguia “acreditar em até seis coisas impossíveis antes do café-da-manhã”!

Por que parar em seis?, pensou Jules… E todas as semanas ela também publica uma pequena listinha de sete coisas (Kicks!) “impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota” que aconteceram na vida dela relacionadas ou não a livros. E ainda convida os leitores do blog a compartilhar as suas nos comentários.

Acho que vou adotar a prática aqui no blog também, pois nunca consegui explicar nem pra mim mesma a palavra “coisas” no subtítulo que inventei (“desenhos, textos, coisas”). Ficam sendo “coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota” que eu conseguir lembrar da minha semana passada, sem número fixo, que de fixa na vida já basta a conta da Light.

Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:

* Alice me deu muitos abraços na sexta-feira porque eu a fiz estudar uma matéria que, afinal, caiu na prova de matemática (apesar de ela jurar que não cairia).

* Ensinei o Antônio a escrever uma referência bibliográfica — ele foi o único da turma que apresentou a formatação “correta” segundo a professora. Eu não acredito em “formatações corretas”, mas valeram 2 pontos num trabalho! Ufa. Meus anos e anos editando livros não foram em vão…

* Descobri no forno um empadão com a palavra CLARA feita de massa que me fez chorar… (Presente-surpresa da nossa funcionária Jô para o aniversário da Clarinha.)

* Vi um documentário lindo: “Margaret Mee e a Flor da Lua” (6,00 reaiszinhos na locadora Cavideo).

* Ao invés de fazer o quase-atrasado relatório do CNPq, tenho lido textos e mais textos sobre ilustração científica, meu novo tema de pesquisa pelos próximos 3 anos!

Sobre os desenhos: Registros do workshop de encadernação feitos com canetinhas Pigma Micron e aquarelados no caderninho Laloran. Acrescentei algumas colagens de linhas, restos de papéis e tecidos. Muita gente viu os corações (na terceira imagem) e não reconheceu o local onde almoçamos… Alguém adivinha?

 


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Anti-selfies

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Foi meu filho quem mostrou: — Olha, mãe, quase todos têm barba aqui no auditório! (Estávamos na PUC, assistindo a uma mostra com produções dos alunos de… cinema; alguém desconfiou?)

Antônio sempre foi assim, capaz de detectar padrões visuais, mesmo nas situações mais complexas. Fazia quebra-cabeças de 250 peças aos quatro anos, decorava mapas e bandeiras, sabia identificar o andar de um shopping pelo desenho dos mosaicos no chão.

Eu não. Tenho dificuldade com ambientes grandes, lojas de departamentos, multidões e paisagens. Vai ver porque sou miópe nos dois olhos (bastante), mesmo usando óculos o dia todo desde os 13 anos.

Gosto de olhar de perto, de gente, face, rosto, retrato… E dos outros! Como escrevi aqui, o que me motiva é conhecer as pessoas. De mim, já tenho o suficiente. Se pudesse até que seria ótimo doar meus pensamentos repetitivos por aí — mas tenho certeza de que ninguém ia querer…

Felizmente, cada vez mais aprendo e aproveito o fato de que desenhar é uma forma saudável de esquecer de mim.

Abaixo, pessoas iluminadas pelo letreiro laranja e vermelho de um restaurante.

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Abaixo, à esquerda, faces da platéia durante um seminário de antropologia (IFCS/UFRJ).

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A seguir, pessoas na sala de espera de um cartório.

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E para terminar, meus personagens mais frequentes: passageiros cansados no metrô.

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Sobre os desenhos: Linhas feitas com canetinhas de nanquim permanente Unipin 0.05 ou 0.1 sobre caderninho Laloran. Nas barbas da PUC, as sombras foram feitas com aguada de nanquim no local, através de um pincel waterbrush. Nos desenhos da platéia, usei canetinha vermelha Moji 0.38 (antes que vocês corram para comprar: acho as Unipins bem mais macias.) Nos demais, cor adicionada em casa com aquarela Winson & Newton.

 


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Continue a nadar, continue a nadar

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Quase me afoguei no mar por volta dos onze anos. Não perdi a consciência, mas fui tirada da água por dois salva-vidas que seguravam meus braços com força e me mandavam afundar e respirar, afundar e respirar. Nunca recuperei a coragem com onda de praia, mas sou um pouquinho teimosa (de onde será que a Alice puxou?) e cheguei a me formar num curso de mergulho, com cilindro, pé-de-pato e tudo mais.

Também já tive dois namorados-peixes (um ainda tenho!), do tipo que morre se não nadar todo dia. Os dois tentaram me conquistar para participar desse amor pelo mergulho matinal. Só faltou combinarem com meu sono, meu ouvido, meu nariz, meu cabelo, meu frio… ah, e ainda arranjarem uma piscina sem cloro. Em 2013, fiz até um protetor de ouvido especial para tentar vencer o bloqueio, mas a anti-piscinice foi mais forte.

Pessoa-peixe é ótima para namorar, desde que você saiba com quem está nadando… É do tipo que fica bem sozinha, gosta de sons repetitivos (conhecem o Philip Glass dos anos 1980?), acorda cedo feliz, tem relógio à prova d’água e mini-toalha de atleta. E tem o lado peixe: escorrega toda vez que você tenta segurar!

Essa é a graça. Amar alguém que nada ao seu lado; nem te puxa, nem te empurra. Não tem tempo ruim, chuva, frio, madrugada, tristeza; é “bora pra piscina”. Como canta a peixinha Dory, personagem do filme Procurando Nemo, toda vez que se atrapalha:

— Continue a nadar, continue a nadar, continue a nadar…

[No original: “Just keep swimming, just keep swimming, just keep swimming.” Vejam aqui]

Essa filosofia-aquática da Dory serve pra tudo, vamos combinar?

E é bem mais delicada do que a da Alice, que outro dia pegou um copo d’água bem grande e foi toda sorrateira jogar na cara do irmão. Detalhe: ele estava dormindo. Só ouvi os gritos pela casa!!

Eu — Filha, por que você fez isso????

Alice — Ah, não sei… queria ver se era engraçado!

Antônio — Mentira, mãe. Ela viu isso no Rezende!

Eu — Rezende?? Quem é Rezende? O que é Rezende?

Alice — Ele é muito legal, Antônio!!

Antônio — Ele faz vídeos sobre Minecraft, mãe. Outro dia ele jogou água na cara do irmão dormindo também.

Alice, na maior cara-de-pau: — É, e pelo menos o irmão dele achou engraçado…!

Eu, a mãe-sendo-mãe — Alice?? Dois dias sem internet! E pede desculpas para o seu irmão.

Sobre o desenho: Fiquei feliz porque as crianças finalmente voltaram a me ajudar nesse calendário de fevereiro — por acaso mês do signo de peixes também. Aprendemos no Google que esse era o último mês do calendário romano, e não tinha nome porque ninguém marcava o tempo no inverno. Existem várias lendas sobre por que fevereiro tem 28 dias mas, para mim, a grande data é 26, aniversário do meu filhote, nascido em pleno Carnaval de 2001, com direito a pediatra cheio de purpurina na sala de parto (contei a história nesse post aqui; e indico também uma fonte engraçadíssima sobre fevereiro aqui).

Fica o convite para que, mesmo nesses tempos difíceis, “continuemos a nadar”, cada um nas suas cores e no seu ritmo.

Fizemos o desenho com canetinhas Unipin 0.05 e colorimos com lápis-de-cor Prismacolor. As sombras foram feitas com caneta brush Tombow Abt, n.95. No Rio, dá para comprar as duas canetas na papelaria JLM, no Largo do Machado.

 

 


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Mortos pelo Rio

 

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Quando ainda era bem pequeno, diante de uma série de fotos em preto e branco, Antônio fez uma pergunta que me supreendeu:

— Eles estão mortos, mamãe?

Hoje, na tentativa de homenagear algumas das dezenas de pessoas assassinadas nesses primeiros dias de 2015 no Rio de Janeiro (e nem falo do Brasil, pois já seriam centenas), lembrei dessa nossa conversa.

— Sim, filho. Eles estão todos mortos.

E não sei como podemos continuar vivendo no Brasil assim…

Nos anos 1950, o sociólogo Everett Hughes formulou uma explicação simples para os milhões de mortos na Alemanha da Segunda Guerra Mundial. Alguém estava fazendo o “trabalho sujo”, enquanto a “sociedade” seguia mais ou menos vivendo como se não fosse com ela. Isso soa familiar?

Hoje, no Brasil, morrem principalmente jovens meninos pretos pobres, moradores das áreas desfavorecidas das cidades. Quando grande parte da minha família foi dizimada na Guerra, eram judeus, os pretos pobres da ocasião.

É uma ilusão achar que eles morrem e nós não. Estamos morrendo juntos, pouco a pouco, a cada nome que acrescentamos nessa lista macabra. Porque um dia nossos filhos vão nos perguntar:

— Mas vocês sabiam disso e não faziam nada?

Sinceramente, gostaria que alguém me dissesse o que posso fazer.

O título desse post foi para me lembrar de que essas pessoas estão sendo mortas porque moram no Rio de Janeiro, porque moram no Brasil. Porque é isso que acontece com quem mora aqui.

Sobre o desenho: Retratos feitos a partir de fotos de sites com notícias sobre assassinatos no Rio de Janeiro em janeiro de 2015 de crianças, estudantes, policiais, pessoas. Fiz num caderno antigo utilizando canetinha Unipin 0.05 e aguada de nanquim.


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300 dias

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É (quase) como escrever uma tese que nunca acaba:

Foram 16 dias para achar um apartamento e assinar uma promessa de compra e venda — dei sorte nessa fase!

Seguiram-se 107 dias de espera, filas, bancos, cartórios, prefeitura, mais certidões, e muitas caixas de mudança… e afinal sair da antiga casa.

Foram mais 177 dias em duas casas provisórias até podermos abrir a porta, entrar e morar no nosso novo apartamento!

Nesses 300 dias, aprendemos (com a colaboração do Antônio e da Alice):

– Um cartório é como uma loja de ferragens: você gasta muito mais do que pode e sempre precisa voltar no dia seguinte e no outro e no outro.

– A Caixa Econômica é a sucursal do purgatório.

– Os impostos, taxas, certidões e carimbos para mudar de casa são infinitos.

– Nunca alugue um apartamento provisório ao lado de um posto de gasolina.

– Uma boa fita adesiva pode consertar uma porta sanfonada caindo aos pedaços.

– Sem casa, seus gatos sofrem mais do que você.

– Amoedo é para os fracos. Leroy Merlin é para os fortes. (Eu sou fraca.)

– O entulho pode ser bonito:

– Uma portaria verde pode ser mais bonita ainda:

portaria Mariz

– A Casa Homero ainda existe.

– Morar perto da escola dos seus filhos tem preço; e vale.

– A obra acaba. A poeira é infinita.

– Uma máquina de lavar roupa precisa de uma tomada de 20 amperes. (Mas não me perguntem o que são amperes.)

– Ficar sem casa: engorda os adultos; emagrece as crianças.

– Bacalhau não é um peixe; é emenda feita por um marceneiro.

– Passar detergente no cabo da Net facilita sua entrada nos conduites da parede.

– Morar em três casas diferentes = fazer 42 cópias de chaves em 177 dias.

– Nunca jogue fora um pedaço de arame.

– Morar num prédio antigo de quatro andares é… sua filha chegar no térreo pela escada mais rápido do que você descendo no (velho) elevador.

– Telas anti-mosquito valem mais do que mil cortinas. (Pensamento positivo, porque o dinheiro pra cortina acabou…)

– A vida surpreende, para o mal e para o bem: armários comidos por cupins; porteiro apaixonado por Saramago!

Palavra da Alice (escritas por ela mesma):

“Gente que nem eu, aí vai uma dica: se sua mãe não deixar você dormir com ela, faça uma greve, pegue seu cobertor e durma na frente da porta dela=D!… depois ela e seu irmão vão aprender uma lição.”

[Lição aprendida: nem eu nem o Antônio conseguimos abrir a porta dos nossos quartos na manhã seguinte porque alguém (e seu colchãozinho) se instalou no corredor.]

Sobre os desenhos: O desenho que abre o post foi feito bem antes da mudança. O lado direito é a nossa sala em sonho… pois ainda não temos estantes nem livros fora de caixas, mas os gatos já estão sim (muito) felizes! (O lado esquerdo é meu estojinho de aquarelas.) O desenho seguinte, do entulho, foi feito umas seis semanas antes da obra acabar. Passei uma hora e meia no meio da poeira, mas feliz de ver o fim chegando… Os elementos da portaria e da fachada do prédio (cobogós verdes) foram feitos durante uma longa espera por um vidraceiro que não veio. Em todos: usei canetinhas Unipin de 0.05 a 0.2, aquarela e lápis de cor. Os cadernos quadradinhos são Laloran e o caderno em paisagem é um moleskine de aquarela.


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Show de filha

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Dia 2 de outubro Alice não acordou muito bem. Ficou de molho, sem escola, mas lá pelas 16h, parecia totalmente recuperada e dando pinotes de tédio. Propus que fóssemos ao shopping comprar uma chuteira, já que a antiga estava apertada. Ela topou. Chegando lá:

Alice: — Mãe, vamos olhar [no mapa eletrônico das lojas] para irmos direto onde tem chuteiras?

Eu: — Tudo bem, filha.

E ela, rápida, achou tudo e organizou a “busca”.

De vez em quando, eu dizia: — Alice, peraí, deixa eu só ver essa loja rapidinho.

Alice: — Ah, não, mãe, a gente veio aqui pra ver as minhas coisas.

Eu, mais à frente: — Alice, calma, eu quero aproveitar e comprar um presente para o amigo do seu irmão.

Alice: — Não… não dá, a gente ainda não foi na Nike.

Eu, numa última tentativa — Alice, olha que casaco bonitinho…

Alice: — Mãe…

Eu: — Mas Alice, você está sendo muito ditadora!

Alice: — Ué? Só estou fazendo meu papel de filha!

Eu tive que rir… Pra terminar bem: compramos uma chuteira muito simpática e brasileira, ufa!

No dia seguinte, ela ficou doente mesmo. Acordou vomitando, com febre alta, dor de garganta… [Não se preocupem, ela já está ótima!] À noite, mesmo medicada, continuava caidinha e super triste porque não poderia participar do jogo de futebol do dia seguinte.

Seria seu primeiro jogo-amistoso “de verdade”, num clube. Ela chorava por não poder jogar… E eu, inventando um jeito de consolá-la, disse que um dia ela seria uma jogadora tão famosa que ia ser entrevistada pelo Neymar (já velhinho):

— Alice, como você se sente sendo a primeira jogadora brasileira campeã mundial em três Copas do Mundo?

E ela, enxugando as lágrimas:  — Em três Copas não, mãe. Só em duas, tá?

Eu: — Mas por que não três, Alice?

Ela — Por que eu não posso passar o Pelé. Só ele ganhou três Copas.

Assim mesmo, ponto final, seríssima. [E eu e o Antônio nos acabamos de rir!]

Mais tarde, Alice vendo uma briga entre irmãos na novela Império, um almofadinha e um tipo “bad boy”.

Eu: — Ai, esse cara é uma chato… Não convence…

Alice — Mãe, pelo menos ele está amadurecendo!

Uns dias depois, Alice super entediada fazia bagunça numa gaveta.

Eu: — Alice, cuidado, essa gaveta é frágil, vai quebrar!

Antônio, se metendo: — Alice, se vc tocar meus CDs, eu te jogo pela janela!!

Eu: — Que jeito de falar é esse, Antônio?

Antônio, rindo: — Ah, é do térreo, nem vai doer tanto…

Alice, revoltada: — Se você me jogar pela janela, eu jogo óleo e boto fogo em todos os seus funis!!

Nós dois: — Hãããã???? Funis???

Alice: — O que, o que, o que vocês estão rindo?

Eu: — É vinis, filha, vi-nis. Aquele disco grande que o Antônio comprou é um disco de vinil.

[E mais uma vez desatamos de rir…]

Já totalmente curada, Alice se dedicou uma manhã inteira à produção de presentes de aniversário para uma ex-professora. Depois de muita negociação, ela concordou que eu transcrevesse aqui no blog a cartinha feita por ela para todos os amigos assinarem (desde que eu tirasse os nomes: — “Pras outras professores não ficarem com ciúmes, mãe”):

“X,

Parabéns pelos seus anos de vida e também pelos seus anos de profissão. Todos nós da turma [xx] te amamos muito e sempre vamos te amar por tudo que você fez pela gente. Você é muito legal e os alunos que estão com você são muito sortudos. E também é óbvio que a nossa foi a melhor turma que você já teve.

Feliz aniversário!”

Imaginem a emoção dessa professora… E a minha também… Ser mãe-professora e ver a filha escrevendo uma cartinha dessas!

Sobre os desenhos: Os desenhos que abrem o blog foram feitos no apartamento “ovinho” (nossa casa provisória). Alice estava jogando no Ipad e infelizmente ficou com cara de adulta :-(. Já o gato Charlie estava nessa pose de doidinho mesmo! Enfim, foi o que consegui… Usei canetinha preta Pigma Micron 0.05 e aquarelas.

Abaixo, um desenho que fiz como dever-de-casa do workshop online da professora Melanie Reim, na Sketchbook Skool. Neste, além das aquarelas, usei uma canetinha Muji 0.38 que o Ju trouxe de Portugal, junto com um caderninho Laloran novo, viva!

capitao salomao


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A cor salva!

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Estamos todos — adultos, crianças & gatos — nos sentindo engaiolados no micro-apartamento provisório. Daí a vontade de desenhar pássaros sem gaiolas para o calendário de outubro. Decidi que não posso abandonar os temas coloridos para esse enfeite-útil das nossas geladeiras. Na falta de boas tiradas da Alice, a cor salva!

Queria aproveitar também para dizer:

Obrigada de verdade a tod@s que têm mandado mensagens e comentários positivos sobre o blog! Sei que não tenho conseguido responder, mas cada linha enviada me dá uma força enorme para continuar com essa ideia maluca de desenhar e escrever toda semana.

Só agora, aliás, me dei conta de que este blog também é uma espécie de trabalho voluntário: tem que ralar muito, ter compromisso (mas não obrigação), acolher as próprias dificuldades e apoiar quem está à volta. Mas o retorno é o máximo: a sensação de se sentir útil!

Tive a sorte de virar voluntária quando fiquei grávida do Antônio, em 2000. Me apaixonei pelo grupo Amigas do Peito, de apoio à amamentação, onde atuei intensamente por 11 anos. Em 2010, com as minhas duas crianças desmamadas, me aproximei do apoio aos animais de rua, ajudando a encontrar lares para dezenas de gatinhos abandonados. Nessas duas atividades, acabei criando os blogs, lidando com muitas pessoas, aprendendo e recebendo muito mais do que pude oferecer, como diz o clichê-super-verdadeiro sobre o tema.

Há uns três anos, mantive as amizades, mas acabei precisando me afastar. Eu ia escrever que foi “por falta de tempo”, mas não. Não rola falta de tempo quando a gente se apaixona por uma causa! A verdade é que… bem, eu me apaixonei sim, mas foi pelo meu namorado. E paixão depois dos 40 é um trem que a gente não pode deixar passar, sô!

Agora que estamos virando um casal normal, com espaço para o resto do mundo, percebo que a vontade de me dedicar a alguma causa está crescendo de novo. Quando eu era “antropóloga da política”, não conseguia nem imaginar misturar trabalho com voluntariado, como muitas amigas que admiro fazem. Mas desde que virei “antropóloga que desenha”, vejo um mundo de possibilidades se abrindo… tenho certeza de que em breve vou conseguir juntar tudo! Deixa só eu me mudar, me aguardem!

E para fechar o post, mais uma brincadeira de casinha! Nunca pensei que ia encarar uma loucura gótica dessas, mas aí está! Graças ao amor pelo futebol da Alice, que conseguiu convencer até o Antônio a jogar com ela, passei uma hora e pouco fazendo esse desenho no último domingo. Depois, já em casa, terminei de desenhar os tijolinhos, acrescentei as sombras e os dois detalhes ao lado, tendo como referência fotos feitas com o celular.

gurilandia

 

Sobre os desenhos: Os pássaros do calendário foram feitos a partir de fotos do Google, com canetinha Pigma Micron 0.005, e coloridos com lápis de cor Prismacolor (não aquarelável) e CaranD’Ache (aquarelável). Tenho a felicidade de ter duas caixas grandes de 72 e 80 lápis cada uma, que considero entre os bens mais valiosos da minha casa! Quase morri uma vez que a Alice levou uma delas para a escola, porque decretou que não podia fazer os trabalhinhos do segundo ano sem aquelas 80 cores diferentes… Alice sendo Alice! (O pior é que eu concordo e me identifico tanto com ela… se a minha mãe tivesse uma caixa dessas, eu ia ser a primeira a tentar “pegar emprestado” e nunca mais devolver…)

O desenho da Gurilândia, uma casa-clube em Botafogo, foi feito com a mesma caneta 0.005 e depois sombreado com a aguada de nanquim que uso na waterbrush Sakura. As crianças votaram para eu deixar preto & branco. Então assim ficou! Mas acho que, no fundo, nós três ficamos com medo de que eu não acertasse nas cores e “estragasse” o desenho. Descobri no encontro de Paraty que muita gente tem esse medo… Bora enfrentar.

 

 

 


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Brincando de casinha

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Alice hoje não quis participar da aula de inglês. Ficamos tristes, eu e a professora (que ela adora!), tentando entender por que às vezes ela empaca desse jeito… Uma determinação que só vendo pra acreditar.

Agora à noite, achei essa história de quando ela tinha seis anos e falamos de uma situação parecida. Estávamos a caminho do pediatra:

K — Filha, agora vamos ao pediatra, tá? Tem que ter um pouquinho de paciência porque está com trânsito.

Alice — Ah, mãe, eu adoro ir lá. Lá tem aqueles palitinhos coloridos! [Palito de ver garganta com sabor.]

K — Sim, filha… Mas lembra o que aconteceu da ultima vez? Você se comportou tão mal… [não queria ser examinada, medida nem pesada!]. Eu morri de vergonha. Dessa vez, você não vai fazer isso, né?

Alice — Nããão! Pode deixar, mãe.

K — Que bom, filha. Porque, lembra da vergonha que você sentiu lá na escola? Imagina se eu agarrasse a sua amiguinha e desse um monte de beijos? Aí mesmo é que você morreria de vergonha, né?

A — Sim.

K — Entao… foi assim que eu me senti na última vez que fomos ao consultório do pediatra.

A — Ah, mãe, mas se um adulto fizesse isso, de encher uma menina na rua de beijos, ia ser louco!

K — Ia dar vergonha… viu? Estou só comparando pra você entender…

[E a resposta dela, com aquele sotaque carioca super carregado:]

Alice — Ah, mãe, não… Vamos combinar…, né? Eu sou CRI-AN-ÇA!!!

Pois é, filha, aos oito anos e meio, você ainda é criança sim. Vamos combinar, tá?

Só me lembra disso da próxima vez que formos visitar a Fábrica Behring — um local de ateliês de arte no Rio de Janeiro — e você decidir que vai transformar um pequeno bloco de concreto (que achou pelo chão) num objeto conceitual:

Alice — Mãe, vou fazer uma obra artística usando uma serra elétrica. Vou transformar isso num minion e colocar atrás de uma porta de vidro!

E não teve jeito: o bloco de concreto está aqui em casa aguardando seu destino artístico.

Viram, queridos da Escola de Belas Artes (EBA) da UFRJ:a Alice não foi hoje dar palestra comigo, mas quem sabe daqui a alguns anos? Obrigada pela acolhida — foi um encontro maravilhoso!

Sobre o desenho: Uma casa inteirinha desenhada por mim! Me senti criança de novo, igual à Alice! Parece uma coisa tão boba, mas cada um tem os seus desafios…  Acho que foi a primeira vez que consegui fazer isso numa página de caderno (sem recorrer a fotografias ou à imaginação). Ainda estou contagiada pela energia de Paraty e, pensando bem, pela concentração do Antônio e pela determinação da minha caçulinha.

O desenho foi feito todo na rua em aproximadamente 45 minutos, sem contar o tempo de terminar os tijolinhos.  Já quase no final, tive que me aproximar para conseguir enxergar melhor a grade. Nessa hora, dois homens que trabalhavam na casa vieram ver o que eu estava fazendo, meio desconfiados. Mostrei o desenho e tivemos o diálogo feliz que anotei na página ao lado!

O material que utilizei foi só canetinha Pigma Micron 0.005 no caderninho Laloran.


2 Comentários

Chips a mais

davinci

O Jornal Nacional anuncia a primeira convocação de Dunga para a seleção brasileira.

Eu — Alice, o que você achou da lista do Dunga?

Alice — Horrível!

Eu — Nossa, por que, filha?

Alice — Ele não chamou o Thiago Silva, o melhor zagueiro do mundo!

Antônio, entrando na conversa: — Ah, Alice, cada um acha o seu jogador o melhor…

Alice — Como assim?

Antônio — Portugal acha que o Cristiano Ronaldo é o melhor zagueiro do mundo! Já o Brasil acha que o Neymar é que é o melhor zagueiro do mundo!

Alice revira os olhos…

Outro dia, Antônio chegou da escola animado com a boa nota que tirou em Ciências. Comentei com a Jô que era só ele estudar um pouquinho e já guardava toda a matéria. E concluí: — Ele tem um “chip a mais”, Jô. Tem uma memória muito boa.

Alice ouviu nossa conversa e gritou lá da sala: — E eu, mãe, não tenho um “chip a mais”?

Eu — Não, filha. Você não tem um chip a mais. Você tem vários!!

Pronto. O assunto de hoje era Leonardo Da Vinci, mas achei melhor contar logo as novidades da Alice. Tem gente reclamando quando deixo para o final do post!

A inspiração para o desenho foi o maravilhoso livro “O fantasma de Da Vinci: a história desconhecida do desenho mais famoso do mundo”, de Toby Lester (ed. Três Estrelas, selo do Grupo Folha; tradução de José Rubens Siqueira). Ô coisa boa de ler, de olhar, de pesquisar, de fuçar notas, bibliografia e agradecimentos, tipo-quero-mais!!

Partindo do seu fascínio pelo desenho do “homem vitruviano“, de Da Vinci, Lester escreve uma dupla história: a do mundo das ideias que tornaram esse desenho possível; e a do homem Leonardo (de Vinci, de Florença e de Milão) até o momento em que o desenhou. A primeira começa com Augusto, imperador romano, forjando seu corpo em estátuas e moedas de um homem-modelo ( 27a.c.) e segue passeando pela história da arquitetura, da arte, da filosofia e da política nas cidades italianas, até o século XVI. A segunda nos traz as amizades de Da Vinci, suas mazelas, suas pequenas listas de afazeres (“desenhar Milão”) e grandes desafios (“aprender latim”). Nas inseparáveis cadernetas com quase 30 mil páginas de anotações, lemos frases sábias, engraçadas, visionárias:

“O ar está cheio de imagens incontáveis, para as quais o olho é um ímã.”

“Quando a fortuna se manifesta, agarre-a com firmeza pelo topete, porque ela é careca atrás.” (1490)

“Com quais palavras, ó escritor, você descreverá com semelhante perfeição toda a configuração que este desenho aqui fornece?” (c.1500)

É contagiante a curiosidade de Da Vinci; e consolador aprender que ele odiava prazos e quase nunca terminava as obras que prometia (aos outros e a si mesmo)…E tudo isso sendo exímio pintor, escultor, músico, arquiteto, engenheiro, físico, médico… com uma biblioteca de 116 livros!

Ok, chega. Como diz o Antônio, Leonardo Da Vinci não é para os fracos.

(Espero que a Alice não leia isso, mas o Da Vinci devia ter uns mil chips a mais.)

Sobre o desenho: Resolvi estrear um novo caderninho que estava “economizando”, do selo Laloran, da Keta Linhares, com um formato quadrado e umas páginas de aquarela que dão vontade de morder, nem lisas nem ásperas demais. Tenho duas dessas belezinhas graças ao querido Eduardo Salavisa, que me deu a dica e mediou a compra. Aproveitei para tentar furar o bloqueio (vulgo projeto-para-o-cnpq) que tem me afastado dos cadernos e dos desenhos. Ufa, consegui. Enviei o projeto e encarei o caderninho, mesmo correndo o risco de não estar a altura.

ccampo