Karina Kuschnir

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Julho/2025 com o coração cheio

Não! Desse jeito, o senhor é uma folha ao vento. Essa vontade, o senhor tem de encontrá-la dentro de si mesmo. Somente assim vai poder cuidar de fato da sua neta. As crianças são extraordinárias, o senhor sabe disso, percebem mais o que é silenciado do que o que é dito. Se o senhor cuidar de Miraijin com um vazio no coração, transmitirá esse vazio a ela. Se, ao contrário, tentar preencher esse vazio, e não importa se vai conseguir ou não, basta que tente preenchê-lo, então, transmitirá a ela esse esforço, e esse esforço, simplesmente, é a vida. Pode acreditar. (…)

“– Trabalhamos com os desejos, com os prazeres. Porque os desejos e os prazeres sobrevivem até mesmo na situação mais desastrosa. Somos nós que os censuramos. Atingidos pelo luto, censuramos nossa libido quando é justamente ela que pode nos salvar. Você gosta de jogar bola? Pois então, jogue. Gosta de caminhar à beira-mar, comer maionese, pintar as unhas, capturar lagartixas, cantar? Faça-o. Isso não vai resolver nenhum dos seus problemas, mas também não vai agravá-los, e, nesse meio-tempo, seu corpo se livrará da ditadura da dor, que quer mortificá-lo.”

“– E o que tenho de fazer?
– Não sei, são coisas complexas, não dá para dizer pelo telefone. Mas, basicamente, deve ter em mente que, neste momento, o senhor está frágil, está em perigo. E tem de tentar salvar do naufrágio todas as coisas de que gosta.” (Sandro Veronesi, O Colibri, p. 176-7)

As falas acima são do doutor Carradori, psiquiatra aposentado que aconselha Marco Carrera, protagonista do romance O Colibri, de Sandro Veronesi, em luto profundo por perder sua amada filha de 20 e poucos anos.

Os contrastes extremos da conversa me encantam. Há um reconhecimento da dor e de sua legitimidade: o que nos puxa para o naufrágio e mortifica é real e perigoso. Mas, ao mesmo tempo, há a persistência da libido, “porque os desejos e os prazeres sobrevivem até mesmo na situação mais desastrosa”.

Diante desse paradoxo, que bonito lembrar que nossas tarefas na vida são “coisas complexas” , que não se resolvem com fórmulas ou truques do tiktok! É preciso encontrar nossas vontades mais profundas, sem censura, pois a libido é o que “pode nos salvar”. Mais do que o resultado, é o esforço da busca que conta: “esse esforço, simplesmente, é a vida”.

Se no mês passado eu trouxe a ideia de felicidade como “viver na primeira pessoa do plural”, nesse mês lembro de como precisamos de uma conexão íntima com nossas vontades e prazeres para poder estar no coletivo. Se nosso coração estiver vazio, é isso que transmitiremos ao mundo.

Nesse momento, escrevo com o coração cheio. Partes dele permanecem escuras, difíceis ou vazias? Sim, mas olho para elas com ternura. Há muita beleza em reconhecer as pessoas que “estão sepultadas dentro de nós” (Veronesi, p. 241).

Bom julho, pessoas queridas!

Faça aqui o download do PDF em alta resolução para imprimir.

PS-alerta: Este post não é um apoio à ditadura da felicidade! Resgatar nossa libido quando ela é necessária e preciosa não é o mesmo que positividade a qualquer custo ou negação do valor do sofrimento. Sobre isso, acabei de ler Happycracia e recomendo!

Sobre as citações: As frases iniciais estão no romance O Colibri, de Sandro Veronesi (trad. Karina Jannini, ed. Autêntica). Agradeço à minha querida amiga Julia O’Donnell pela indicação! O Happycracia é uma livro de não-ficção Edgar Cabanas e Eva Illouz (Trad. Humberto do Amaral, ed. Ubu). A obra foi indicada no primeiro semestre do clube do livro do Calma Urgente. Não participei mas estou lendo a listinha deles. Gostei tanto das indicações que comecei a participar do segundo semestre de 2025!

Sobre as felicidades coletivas acessíveis: Para participar do clube do livro do Calma Urgente, cliquem aqui: https://clubedolivro.calmaurgente.com/. Acho que ainda dá tempo. Para ter um gostinho de boas discussões trazidas por eles, um exemplo aqui sobre espionagem digital, capitalismo e política. Nesse mês, gostei de ouvir algumas conversas do Christian Dunker sobre psicanálise, como essa sobre ter raiva na terapia (tem no spotify também). De podcast, o Não inviabilize continua meu top10 para a faxina. Ouço no app de assinantes mas tem no spotify.

Sobre o calendário: Para imprimir, não esqueçam de configurar para “ajustar à área de impressão”.

Sobre os desenhos: Para o calendário, aproveitei os anteriores e acrescentei camadas transparentes de lilás no aplicativo Procreate (Ipad). Ajustei as datas para o mês de julho e fiz o PDF.

Você acabou de ler “Junho/2025 e a felicidade no plural”, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2025. “Junho/2025 e a felicidade no plural”, Publicado em karinakuschnir.com, url: https://wp.me/p42zgF-48z. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Você não está sozinha

(…) como se fosse um dever / do artista criar / esperança, mas por quê? por quê? / a própria palavra /
falso, um dispositivo para refutar / a percepção – No cruzamento, // luzes ornamentais da estação. / Eu fui jovem aqui. Andando / de metrô com meu livrinho / como se me defendesse // desse mesmo mundo: / você não está sozinha, / dizia o poema, / no túnel escuro.
(Outubro, Louise Glück, trad. N. Santander)

Desde que o Juva morreu, senti muita necessidade de ficar sozinha. Não que eu fosse a pessoa mais sociável do mundo. Quem me conhece vai revirar os olhos: “você sempre foi assim”, zoa uma amiga. Não sei. Eu era a inocente “de metrô com meu livrinho”, como diz o poema. O luto sobrepôs uma camada sobre tudo. Sabem aquele glacê com tanto açúcar que parece cimento e ninguém aguenta comer? Alguns definem luto como “o vazio”; pra mim é “o cheio”: ocupa, preenche, inunda.

Em outubro, comecei a perceber uns espaços. Quis doar livros e tralhas, desmontar móveis, esvaziar gavetas, aceitar um convite. Fui a duas reuniões presenciais, participei de uma assembléia. Desfiz meu mini escritório de casa. Troquei duas mesas grandes por uma pequenina. Pendurei a tão sonhada rede no lugar. Uma parte eram os nossos planos; outra parte tive que inventar sozinha. Mas não digo só: Alice e Antônio me ajudaram. ♥ Taí como ficou.

Não sou boa de esquecer o passado. Amo coisas antigas. Coleciono, cultivo, colo e desenho nos cadernos. Imagina o amor. O amor que o Juva insistia que era dentro e eu que era fora. Como se ele já soubesse. Que um dia eu ia precisar aprender isso. Tá sendo na marra, mas tô aprendendo.

Uma metade cheia, uma metade vazia / Uma metade tristeza, uma metade alegria
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor (Chico Buarque)

Este não é um post triste. O poema chegou pelo zap, por um amigo. Falávamos da guerra. Todos colocaram carinhas tristes, mas para mim foi emoji de coração. Foquei na esperança, como o dever da artista, na pergunta de Louise Glück. Esperança por mim, por vocês, por todas as criaturas que um dia perderam seu chinelo real ou metafórico por aí. Aconteceu isso com a Havaiana que abre o post. Era nossa queridinha, mas partiu-se o par. Compramos outro correndo. Não estava no tamanho certo nem era alegre como ela.

Hoje esse é disputado por aqui. É a alegria de quem chega precisando de um chinelinho extra para caminhar.

Bons caminhos, pessoas queridas! Até semana que vem. ☼

Projeto “Como escrever um texto em 8 meses” — Desde o último post, escrevi 1557 palavras em três dias. Pois é, falhei. Quer dizer, mais ou menos. A meta era 300 palavras por dia e fiquei em 259,5. Viram como rende? Essas mil reuniões tiveram seu custo para a escrita pois cheguei tardíssimo em casa, exausta. Quando a agenda estiver assim, preciso escrever de manhã. Digo isso em voz alta para ver se meu cérebro noturno escuta! Voltando ao tema: foi muito produtivo começar a escrever. Há uma semana atrás eu estava perdida sobre o que queria fazer e como. A escrita tirou muitas coisas do caminho, colocou outra e — o principal — me fez ter ideias no metrô, no banho, na hora de dormir. Conversei com um amigo sobre o que escrevi. Saí do zero. Vislumbro pequenas tarefas. Decidi minha primeira leitura. Abri uma pasta no computador. Micro avanços. Semana que vem volto aqui para contar. (Se você não tem ideia do que estou falando, veja o post inicial da semana passada.)

Sobre a citação de Louise Glück: Recebi o poema Outubro, de Louise Glück, no original em inglês, em um grupo de amigos do zap. Achei a tradução do Nelson Santander do blog Singularidade Poética, do maravilhoso Paulo Henriques Brito. A íntegra do poema nas duas línguas aqui.

Sobre a citação do Chico Buarque: Quando comecei a escrever sobre o luto ser cheio, a canção do Chico falando sobre o copo vazio começou a tocar na minha mente. Fui ler e descobri que também falava de amor. ♥

Sobre a reorganização do mini-escritório no quarto: Quase tudo do novo espaço de trabalho é reaproveitado. A rede era da Alice, a mesinha de apoio era do Juva. A luminária, o tapetinho, a cadeira e duas prateleiras já eram minhas. A impressora tá escondida embaixo da mesa em um banquinho antigo também. As coisas que comprei foram uma mesa da Huma, via Magalu (r$316+frete) e uma prateleira extra para os gatos subirem nas outras duas (r$23,00, Palácio das ferramentas, metrô Uruguaiana). Gastei um pouco com acessórios de ferragens: gancho para rede, parafusos, mão francesa e feltro adesivo para a prateleira. Por sorte, gosto de ferramentas e já tinha furadeira e até uma aparafusadeira —esta comprada para montar e desmontar as mil estantes do Ju, daquelas de ferro com milhões de porcas e parafusos. Essa maquininha salva vidas e é super divertida de usar!.

Sobre os desenhos: Linhas com canetinhas Pigma Micron de várias espessuras no caderninho Laloran. Cores feitas com aquarelas, lápis de cor e um pouquinho de guache. Na página do chinelinho preto, tem uma etiqueta colada. São ilustrações de antes do luto, de janeiro de 2022. Levei vários dias debruçada sobre esses objetos tão cotidianos e bonitos. Fico emocionada só de olhar a havaianinha florida. Vocês também se sentem assim quando tem que jogar fora uma coisa amada? Ou são mais doidos do que eu e guardam no fundo do armário? Me contem, por favor!

Você acabou de ler “Você não está sozinha“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 

Como citar: Kuschnir, Karina. 2023. “Você não está sozinha“, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-41h. Acesso em [dd/mm/aaaa].