Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Estilo copiativo

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O Leonardo, um leitor do blog que não conheço pessoalmente, me escreveu perguntando “se meu estilo tem nome” e como ele faz para desenhar do jeito que eu desenho… Estou há umas três semanas fingindo que não vi o comentário. Vai que ele errou de blog? Deve ter clicado em algum dos links que coloquei na lista de inspirações e comentou aqui por engano… Mas hoje fui rever a mensagem e estava lá o que eu temia: o meu nome logo no início da pergunta. Foi pra mim mesmo.

O problema é que eu não me vejo tendo estilo de desenho algum. Desde pequena eu adorava era fazer cópias. Um dos primeiros desenhos de que me lembro ter feito foi uma tentativa de cópia da capa do LP dos Saltimbancos, uma imagem da galinha com os pintinhos em volta. A minha mãe até mandou emoldurar, apesar dos meus protestos dizendo que só tinha copiado… Depois me atraquei com uns livrinhos de arte da minha avó, do Toulouse-Lautrec, do Degas e do Ingres. Gostava mais de desenhar gente do que coisas.

Na época em que eu tinha uns dez, doze anos, havia uma febre entre as adolescentes de colecionar adesivos e papéis de carta decorados. O problema é que no Brasil não se vendia aqueles que a gente mais gostava, do Snoopy e da Hello Kitty, por exemplo. Quando eu conseguia uma folhinha nova, ao invés de colar por aí, eu fazia o seguinte: copiava os desenhos tim-tim por tim-tim, com canetinhas e lápis de cor, até ficarem “idênticos” aos originais. Depois recortava (deixando uma margem branca, como nos meus modelos) e colava um contact transparente por cima para virarem adesivos. Tenho até hoje uma agenda escolar cheia dessas cópias e, claro, uma caixa bem velhinha com algumas folhas com os adesivos originais ainda intactos! (Outras eu usei com os meus filhos para provar que tinha deixado de ser boba).

A glória dessa fase foi quando minha irmã arranjou um namorado que gostava de desenhar (e copiar) tanto quanto eu. Fazíamos guerras de Garfields! (Outro dia me lembrei dessa fase, aqui.) Ele era muito melhor: sabia tão bem todas as proporções do Garfield e do Spooky que desenhava sem olhar os modelos. Estávamos nos anos 1980 e tudo era muito cafona: passamos a fazer adesivos enormes para colar nos carros dos pais e dos amigos! Pois é.

Depois desse auge copiativo, a única coisa de que me lembro foram os fracassos em duas provas de vestibular de desenho. Fui reprovada na primeira, que fiz ainda no segundo ano do ensino médio. No terceiro ano, resolvi fazer umas aulas para me preparar. Meu sonho era passar para a Esdi.

Arranjei um professor tipinho “gênio”, especialista em física, química e matemática, mas que também se garantia em desenho. Não me lembro das aulas. Só que ele me emprestou Os Miseráveis e me achei o máximo devorando o livro. (Depois, descobri, revoltada, que aquela era uma versão reduzida!) Eita professorzinho charlatão. O resultado: fui reprovada de novo! Uma das questões daquela segunda prova até hoje me dá pesadelos: desenhe objetos análogos ao conceito que aproxima uma escova de dentes de uma escova de cabelo. Desenhe! Até hoje eu não sei a resposta…

Será que é por isso que eu tenho trauma de fazer desenho por encomenda?

E pensar que nesse mesmo vestibular eu tinha passado na minha segunda opção. Entrei para a Escola de Comunicação da UFRJ e não fui fazer matrícula! Se eu fosse a minha mãe, teria me matado!! Mas minha mãe era tipo anos 1970 e não pressionava… O prêmio de consolação foi passar na prova de desenho da PUC; mas aí o caldo já estava entornado. Não conseguia gostar… Logo no primeiro semestre de projeto, fui reprovada pela Ana Branco, merecidamente. Toda a minha auto-estima, de aluna quase exemplar nos anos de colégio, estava indo ladeira abaixo…

Para encurtar a história: subi umas escadas lá na PUC mesmo e resolvi fazer aulas na Comunicação. Acabei me encantando com os professores do curso, tantos os jornalistas como os que vinham de áreas como antropologia, sociologia, história, letras, cinema… Virei jornalista, depois antropóloga e passei uns dez anos praticamente sem desenhar.

…

Acho melhor contar a outra parte num próximo post, tá Leonardo? Sei que não respondi nada de objetivo para a sua pergunta, mas já está muito grande essa história que nem tem graça nenhuma.

…

Sobre os desenhos: O pretexto para responder ao Leonardo surgiu desses desenhos, que comecei a fazer para remendar uma página de observação que deu errado. Me dei conta de que essa mania de copiar me deixa paralisada quando não tenho nada para observar! Como detesto manias (principalmente as minhas), bora lutar contra. Aí vão dois desenhos imaginados… Ambos feitos com canetinhas Unipin 0.05 (abaixo) e 0.2 (acima) e coloridos com aquarela num caderno moleskine velho que tinha umas folhas sobrando. Ah, mas para não dizer que não copiei nada de ninguém, a inspiração das cores é do Prashant Miranda, por quem ando completamente apaixonada; e acho que as construções foram bastante influenciadas casinhas que andei fazendo, aqui e aqui, e por estas lá do início do blog.

 

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A cor salva!

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Estamos todos — adultos, crianças & gatos — nos sentindo engaiolados no micro-apartamento provisório. Daí a vontade de desenhar pássaros sem gaiolas para o calendário de outubro. Decidi que não posso abandonar os temas coloridos para esse enfeite-útil das nossas geladeiras. Na falta de boas tiradas da Alice, a cor salva!

Queria aproveitar também para dizer:

Obrigada de verdade a tod@s que têm mandado mensagens e comentários positivos sobre o blog! Sei que não tenho conseguido responder, mas cada linha enviada me dá uma força enorme para continuar com essa ideia maluca de desenhar e escrever toda semana.

Só agora, aliás, me dei conta de que este blog também é uma espécie de trabalho voluntário: tem que ralar muito, ter compromisso (mas não obrigação), acolher as próprias dificuldades e apoiar quem está à volta. Mas o retorno é o máximo: a sensação de se sentir útil!

Tive a sorte de virar voluntária quando fiquei grávida do Antônio, em 2000. Me apaixonei pelo grupo Amigas do Peito, de apoio à amamentação, onde atuei intensamente por 11 anos. Em 2010, com as minhas duas crianças desmamadas, me aproximei do apoio aos animais de rua, ajudando a encontrar lares para dezenas de gatinhos abandonados. Nessas duas atividades, acabei criando os blogs, lidando com muitas pessoas, aprendendo e recebendo muito mais do que pude oferecer, como diz o clichê-super-verdadeiro sobre o tema.

Há uns três anos, mantive as amizades, mas acabei precisando me afastar. Eu ia escrever que foi “por falta de tempo”, mas não. Não rola falta de tempo quando a gente se apaixona por uma causa! A verdade é que… bem, eu me apaixonei sim, mas foi pelo meu namorado. E paixão depois dos 40 é um trem que a gente não pode deixar passar, sô!

Agora que estamos virando um casal normal, com espaço para o resto do mundo, percebo que a vontade de me dedicar a alguma causa está crescendo de novo. Quando eu era “antropóloga da política”, não conseguia nem imaginar misturar trabalho com voluntariado, como muitas amigas que admiro fazem. Mas desde que virei “antropóloga que desenha”, vejo um mundo de possibilidades se abrindo… tenho certeza de que em breve vou conseguir juntar tudo! Deixa só eu me mudar, me aguardem!

…

E para fechar o post, mais uma brincadeira de casinha! Nunca pensei que ia encarar uma loucura gótica dessas, mas aí está! Graças ao amor pelo futebol da Alice, que conseguiu convencer até o Antônio a jogar com ela, passei uma hora e pouco fazendo esse desenho no último domingo. Depois, já em casa, terminei de desenhar os tijolinhos, acrescentei as sombras e os dois detalhes ao lado, tendo como referência fotos feitas com o celular.

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…

Sobre os desenhos: Os pássaros do calendário foram feitos a partir de fotos do Google, com canetinha Pigma Micron 0.005, e coloridos com lápis de cor Prismacolor (não aquarelável) e CaranD’Ache (aquarelável). Tenho a felicidade de ter duas caixas grandes de 72 e 80 lápis cada uma, que considero entre os bens mais valiosos da minha casa! Quase morri uma vez que a Alice levou uma delas para a escola, porque decretou que não podia fazer os trabalhinhos do segundo ano sem aquelas 80 cores diferentes… Alice sendo Alice! (O pior é que eu concordo e me identifico tanto com ela… se a minha mãe tivesse uma caixa dessas, eu ia ser a primeira a tentar “pegar emprestado” e nunca mais devolver…)

O desenho da Gurilândia, uma casa-clube em Botafogo, foi feito com a mesma caneta 0.005 e depois sombreado com a aguada de nanquim que uso na waterbrush Sakura. As crianças votaram para eu deixar preto & branco. Então assim ficou! Mas acho que, no fundo, nós três ficamos com medo de que eu não acertasse nas cores e “estragasse” o desenho. Descobri no encontro de Paraty que muita gente tem esse medo… Bora enfrentar.

 

 

 


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Brincando de casinha

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Alice hoje não quis participar da aula de inglês. Ficamos tristes, eu e a professora (que ela adora!), tentando entender por que às vezes ela empaca desse jeito… Uma determinação que só vendo pra acreditar.

Agora à noite, achei essa história de quando ela tinha seis anos e falamos de uma situação parecida. Estávamos a caminho do pediatra:

K — Filha, agora vamos ao pediatra, tá? Tem que ter um pouquinho de paciência porque está com trânsito.

Alice — Ah, mãe, eu adoro ir lá. Lá tem aqueles palitinhos coloridos! [Palito de ver garganta com sabor.]

K — Sim, filha… Mas lembra o que aconteceu da ultima vez? Você se comportou tão mal… [não queria ser examinada, medida nem pesada!]. Eu morri de vergonha. Dessa vez, você não vai fazer isso, né?

Alice — Nããão! Pode deixar, mãe.

K — Que bom, filha. Porque, lembra da vergonha que você sentiu lá na escola? Imagina se eu agarrasse a sua amiguinha e desse um monte de beijos? Aí mesmo é que você morreria de vergonha, né?

A — Sim.

K — Entao… foi assim que eu me senti na última vez que fomos ao consultório do pediatra.

A — Ah, mãe, mas se um adulto fizesse isso, de encher uma menina na rua de beijos, ia ser louco!

K — Ia dar vergonha… viu? Estou só comparando pra você entender…

[E a resposta dela, com aquele sotaque carioca super carregado:]

Alice — Ah, mãe, não… Vamos combinar…, né? Eu sou CRI-AN-ÇA!!!

…

Pois é, filha, aos oito anos e meio, você ainda é criança sim. Vamos combinar, tá?

Só me lembra disso da próxima vez que formos visitar a Fábrica Behring — um local de ateliês de arte no Rio de Janeiro — e você decidir que vai transformar um pequeno bloco de concreto (que achou pelo chão) num objeto conceitual:

Alice — Mãe, vou fazer uma obra artística usando uma serra elétrica. Vou transformar isso num minion e colocar atrás de uma porta de vidro!

E não teve jeito: o bloco de concreto está aqui em casa aguardando seu destino artístico.

Viram, queridos da Escola de Belas Artes (EBA) da UFRJ:a Alice não foi hoje dar palestra comigo, mas quem sabe daqui a alguns anos? Obrigada pela acolhida — foi um encontro maravilhoso!

…

Sobre o desenho: Uma casa inteirinha desenhada por mim! Me senti criança de novo, igual à Alice! Parece uma coisa tão boba, mas cada um tem os seus desafios…  Acho que foi a primeira vez que consegui fazer isso numa página de caderno (sem recorrer a fotografias ou à imaginação). Ainda estou contagiada pela energia de Paraty e, pensando bem, pela concentração do Antônio e pela determinação da minha caçulinha.

O desenho foi feito todo na rua em aproximadamente 45 minutos, sem contar o tempo de terminar os tijolinhos.  Já quase no final, tive que me aproximar para conseguir enxergar melhor a grade. Nessa hora, dois homens que trabalhavam na casa vieram ver o que eu estava fazendo, meio desconfiados. Mostrei o desenho e tivemos o diálogo feliz que anotei na página ao lado!

O material que utilizei foi só canetinha Pigma Micron 0.005 no caderninho Laloran.


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A terra é redonda!

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Conhecer gente doida é uma das coisas mais divertidas de se mergulhar no mundo do desenho. Tem gente que passa oito horas por dia desenhando, gente que desenha tudo que vê, gente que desenha dezenas de páginas em poucos segundos, gente que leva seis horas desenhando uma só imagem, gente que desenha por onde anda, gente que usa os mesmos tipos de cadernos há décadas, gente que vai toda semana ao mesmo lugar desenhar, gente que desenha tudo que come ou bebe, gente que viaja para desenhar ou desenha viajando… E ainda: gente que vê tudo quadrado e gente que vê tudo redondo!

Em Paraty, conheci de perto um desses doidos que já acompanhava na internet: Paul Heaston, professor do workshop Wide Angle Perspectives. Estão aqui os desenhos que fiz durante as três horas que passamos juntos. Como já expliquei, fico paralisada de desenhar sob pressão. Vocês precisariam ver o trabalho dos outros participantes do workshop para entender a ingenuidade dos esboços que consegui fazer. (Vejam um exemplo fantástico da Lynne Chapman! E também vários do Flávio Ricardo!)

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Mesmo assim, valeu! O Paul é de uma modéstia incompatível com o próprio talento; e ainda totalmente franco para dizer que não sabe direito como ensinar o tipo de desenho que sabe fazer tão bem. Eita, como seria bom se todos os intelectuais partissem desse patamar! Quanta gente talentosa não tem noção de como dividir seu talento com os outros…

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Fiquei feliz de conseguir documentar um pouco do que o Paul compartilhou com a gente. A ideia é tentar se colocar na superfície ou no interior de um balão de gás, como nas tentativas dos sketches abaixo.

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Nesse último desenho, desenhei o Paul desenhando (sim, ele é duplamente doido: vê tudo redondo e não pára de desenhar um minuto). Tanto é assim que a Linda, mulher dele, sucumbiu ao destino e resolveu passar a desenhar também… (e bem!) Eu, que não chego nem perto da doidice deles, acabei perdendo o foco e fiz esse desenho (abaixo) sem coerência nenhuma…

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Sabedorias da Alice:

Alice, num fim-de-noite de sábado — Mãe, bora brincar de alguma coisa?

Eu — Mas, Alice, querida, você já foi à piscina, já jogou futebol, já brincou com os amigos a tarde toda!

Alice — Ah, e daí? Por acaso existe cota pra brincar?

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Sobre os desenhos: Todos os desenhos foram feitos no caderninho Laloran que levei para Paraty com uma caneta maravilhosa marca Super 5, com nanquim cinza, que ganhamos como brinde do evento http://paraty2014.urbansketchers.org/.Acrescentei as cores com aquarela depois, já em casa.


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Paraty em quadrinhos

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Era uma vez um professor discreto, tímido, amável e talentoso: William Cordero. Antes de Paraty eu nunca tinha ouvido falar dele. Mas bastou uns poucos minutos ao seu lado, e diante de seus desenhos, para me apaixonar! (Paixão artística, pessoal.) Ele é daquelas pessoas que parecem fazer tudo sem esforço, num raro encontro de delicadeza de personalidade e obra. E ainda tem o charme de ser recém-casado, morar numa casa feita por ele próprio, na Costa Rica, e gostar de cachorros! No penúltimo dia do evento, passou quatro horas trabalhando num desenho, como se não existisse mais nada no mundo para fazer, e o resultado foi um arraso… Linhas leves como se tivessem sido feitas em poucos minutos… Quero ser assim quando eu crescer.

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Foi no seu workshop que fiz esses desenhos-em-quadrinhos. A proposta era narrar o dia-a-dia misturando diferentes escalas. A sugestão dele foi que trabalhássemos com “caixas” feitas de linhas para enquadrar pessoas, coisas, falas e movimentos. Os trabalhos dos colegas ficaram incríveis!

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No meu caso, levei um tempo para achar que esses desenhos tinham um destino melhor que o fundo da gaveta… Nesse dia, eu tinha acabado de dar minha segunda palestra — estava feliz, mas exausta! Só quando voltei para casa (oopss… que casa?) é que tive coragem de adicionar as cores. Tudo começou como um grande pretexto para tentar imitar o céu do Tommy Kane. 🙂 No fundo, o que me diverte mesmo é copiar o desenho dos outros! (Pelo menos, dou as fontes para vocês conferirem.)

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100 anos! Hoje, 10/09/2014, minha avó querida faria 100 anos… Passei o dia pensando em desenhar esse bolinho para ela (abaixo), que acabou saindo mais com cara de chapéu do que de bolo! Mas ela nem ia ligar. Acharia lindo!! Ela adorava amarelo, adorava rosas e todas as flores. Adorava viver bem e com festa. Gosto de lembrar de como às vezes eu tinha medo de contar alguma coisa pra ela, tipo uma decisão arriscada ou difícil na minha vida. Receava que ela fosse me dizer (por ser mais velha): “fique onde está, permaneça, conserve.” Mas ela quase sempre dizia: “Que bom, isso mesmo, vá em frente! Viver empacada não vale a pena!” E é desse espírito de coragem que gosto de lembrar. “Que você nos inspire e viva pra sempre na nossa memória, vó.”

 

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Sobre os desenhos: Utilizei os mesmos materiais de sempre: canetinhas de nanquim descartável Unipin e Pigma Micron 1.0, 0.1 e 0.05. A cor foi feita com aquarela Winsor & Newton e um pincel Pentel waterbrush. No primeiro desenho, o céu dos quadradinhos ficou pesado (com waterbrush); daí troquei para um pincel de pelo (no quadro maior do lado direito) e achei que funcionou melhor. Meu sonho era fazer aquarelas leves mas com cores intensas. Ô coisa difícil!  Daqui a alguns anos a gente conversa…

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Leitura da semana: Não levei livro pra Paraty, mas li uma crônica do Arthur Dapieve que lavou a alma: “Saudades do Rio“. É daqueles textos pessoais e ao mesmo tempo universais para todos nós, cariocas, do tempo em que domingo era dia de passear de carro com a família…

 

 


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Chips a mais

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O Jornal Nacional anuncia a primeira convocação de Dunga para a seleção brasileira.

Eu — Alice, o que você achou da lista do Dunga?

Alice — Horrível!

Eu — Nossa, por que, filha?

Alice — Ele não chamou o Thiago Silva, o melhor zagueiro do mundo!

Antônio, entrando na conversa: — Ah, Alice, cada um acha o seu jogador o melhor…

Alice — Como assim?

Antônio — Portugal acha que o Cristiano Ronaldo é o melhor zagueiro do mundo! Já o Brasil acha que o Neymar é que é o melhor zagueiro do mundo!

Alice revira os olhos…

…

Outro dia, Antônio chegou da escola animado com a boa nota que tirou em Ciências. Comentei com a Jô que era só ele estudar um pouquinho e já guardava toda a matéria. E concluí: — Ele tem um “chip a mais”, Jô. Tem uma memória muito boa.

Alice ouviu nossa conversa e gritou lá da sala: — E eu, mãe, não tenho um “chip a mais”?

Eu — Não, filha. Você não tem um chip a mais. Você tem vários!!

…

Pronto. O assunto de hoje era Leonardo Da Vinci, mas achei melhor contar logo as novidades da Alice. Tem gente reclamando quando deixo para o final do post!

A inspiração para o desenho foi o maravilhoso livro “O fantasma de Da Vinci: a história desconhecida do desenho mais famoso do mundo”, de Toby Lester (ed. Três Estrelas, selo do Grupo Folha; tradução de José Rubens Siqueira). Ô coisa boa de ler, de olhar, de pesquisar, de fuçar notas, bibliografia e agradecimentos, tipo-quero-mais!!

Partindo do seu fascínio pelo desenho do “homem vitruviano“, de Da Vinci, Lester escreve uma dupla história: a do mundo das ideias que tornaram esse desenho possível; e a do homem Leonardo (de Vinci, de Florença e de Milão) até o momento em que o desenhou. A primeira começa com Augusto, imperador romano, forjando seu corpo em estátuas e moedas de um homem-modelo ( 27a.c.) e segue passeando pela história da arquitetura, da arte, da filosofia e da política nas cidades italianas, até o século XVI. A segunda nos traz as amizades de Da Vinci, suas mazelas, suas pequenas listas de afazeres (“desenhar Milão”) e grandes desafios (“aprender latim”). Nas inseparáveis cadernetas com quase 30 mil páginas de anotações, lemos frases sábias, engraçadas, visionárias:

“O ar está cheio de imagens incontáveis, para as quais o olho é um ímã.”

“Quando a fortuna se manifesta, agarre-a com firmeza pelo topete, porque ela é careca atrás.” (1490)

“Com quais palavras, ó escritor, você descreverá com semelhante perfeição toda a configuração que este desenho aqui fornece?” (c.1500)

É contagiante a curiosidade de Da Vinci; e consolador aprender que ele odiava prazos e quase nunca terminava as obras que prometia (aos outros e a si mesmo)…E tudo isso sendo exímio pintor, escultor, músico, arquiteto, engenheiro, físico, médico… com uma biblioteca de 116 livros!

Ok, chega. Como diz o Antônio, Leonardo Da Vinci não é para os fracos.

(Espero que a Alice não leia isso, mas o Da Vinci devia ter uns mil chips a mais.)

…

Sobre o desenho: Resolvi estrear um novo caderninho que estava “economizando”, do selo Laloran, da Keta Linhares, com um formato quadrado e umas páginas de aquarela que dão vontade de morder, nem lisas nem ásperas demais. Tenho duas dessas belezinhas graças ao querido Eduardo Salavisa, que me deu a dica e mediou a compra. Aproveitei para tentar furar o bloqueio (vulgo projeto-para-o-cnpq) que tem me afastado dos cadernos e dos desenhos. Ufa, consegui. Enviei o projeto e encarei o caderninho, mesmo correndo o risco de não estar a altura.

ccampo


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Ulisses em fuga

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Juro para vocês que não foi planejado. Aconteceu exatamente assim.

O tema das chaves para o calendário de agosto já estava na minha cabeça há alguns dias. Nem precisa chamar o Sherlock Holmes para adivinhar por que… Com esse monte de mudanças, fui juntando uma tonelada de chaves. Até que ontem, finalmente, ia sentando para desenhar, já mais-do-que-atrasada-e-culpada, quando se deu a seguinte cena:

Antônio: — Tchau, mãe, estou indo!

Vou até a porta dar um beijinho nele: — Tchau, filho, vai bem.

De repente, o gato Ulisses corre por entre as nossas pernas porta afora e escada acima em alta velocidade!

Sem pensar, saio correndo de meias atrás dele pelos andares, mas ainda lembro de gritar:

— Filho, cuidado… com… não…!!! …a porta!!

No meio da frase ouço um grande “blam!”

Antônio, achando que eu estava preocupada com a fuga dos outros gatos, puxou com toda vontade a porta, que ficou lá, fechadinha-da-silva.

— A porta… a porta… não… não…

Me desesperei… Tudo bem não ter casa direito há quase quatro meses, mas ficar totalmente sem teto (e sem sapatos; e numa roupa-pijama!) foi demais.

Praguejei tanto que a vizinha saiu para ver se alguém tinha morrido!

Quando contamos a história da porta, com o gato pendurado no colo querendo fugir de novo, ela quase deu risada. Só não deu porque sentiu que eu voaria no pescoço dela, coitadinha. Uma boa alma!

— Calma, pode deixar que eu chamo um chaveiro para vocês. Vai dar tudo certo.

E nem precisou. Depois de uns minutos de suspense, chegou o porteiro João, que olhou pra tudo aquilo mais calmo ainda. Pegou sua maletinha, chaveou daqui, chaveou dali, voltou com um alicatezinho e “plec”! Coisa-mais-fácil-do-mundo.

— Ai, você salvou a minha vida…

E pronto. Antônio foi para a vó. E eu tratei de dar um bom dinheiro para o João e um pacote de chocolates para a vizinha. E para me acalmar voltei a desenhar… O que eu ia desenhar mesmo? Ah, sim: chaves!

…

Alice-filósofa:

Alice — Mãe, agora que me toquei. Quando eu jogo futebol eu não penso. Por que? Porque fico muito concentrada e não ligo pra mais nada.

 

Eu — É, Alice, que bom!

Alice — Quando fico concentrada, fazendo coisas de agilidade, correndo, meu corpo toma o controle de tudo. Não ligo pra mais nada.

Eu — É, filha, bonito o que você disse.

 

Alice —  Quando você não está fazendo nada, você pensa o tempo todo. E até pensa que está pensando! Você não consegue não pensar. E não pensar é muito bom!

…

Sobre o desenho: Depois de tudo o que aconteceu, qualquer desenho tá perdoado… Saiu tosco… As chaves ficaram grandes demais… Mas é melhor um desenho-mais-ou-menos do que nenhum-desenho, certo? E foi bom ter feito o calendário, porque desenhar para mim é como jogar futebol para a Alice: uma forma muito boa de não pensar! // As linhas foram feitas com canetinha Staedler de nanquim permanente 0.05 e a cor com ecoline diluída e colocada na caneta de aquarela (waterbrush). Tentei usar um pouco de hachurado, mas faltou coragem para fazer as partes escuras de verdade. O original estava em sépia; e ficou tristíssimo! Consegui esse azul depois de scanear, com a ajuda do Photoshop. Prometo algo mais alegre em setembro!


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Continua, Nora!

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Noralóide querida,

bons ventos trouxeram teu livro às minhas mãos na semana passada. E já vou dizendo que adorei, amei, casei! Todos os livros autobiográficos deveriam ser assim: com história, humor, emoção, aventura e um bem-vindo bom-senso. Concordo com tudo, Nora. Você me devolveu a esperança de que o humanismo faz sim muito sentido.

Meu avô também achava a maior bobagem esse papo de ser melhor do que os outros porque nasceu na Europa. Como você bem escreveu: por que se orgulhar de algo que “não passa de um acidente biológico-geográfico”? Ele adorava mesmo era ser brasileiro.

Quando eu era pequena, mas já grande o suficiente para saber do Holocausto, não entendia porque as famílias judias (ou apontadas como judias) não tinham simplesmente ido embora. Levou um tempo para o meu avô me contar que teve que fugir deixando para trás seus pais, seu irmão e muitas pessoas queridas. No caso dele, foi a única fuga possível. Não havia rota, transporte nem vistos, como você contou tão bem. Fugiram apenas os que tiveram sorte e, mais raramente, algum dinheiro.

Foi com muita emoção que li sobre a sua chegada solitária em Lisboa. Que linda imagem a das calçadas de pedras portuguesas iluminadas pelos candeeiros em contraste com o mundo escuro e bombardeado que ficou pra trás. E foi com mais emoção ainda que imaginei o navio te trazendo para a Baía de Guanabara, onde meu avô aportava dois anos antes. Quando vocês chegaram, em 1941, veja só, ele já tinha arranjado uma namorada brasileira e casado! Pode ser que, no caminho para a pensão, vocês tenham cruzado com minha vó passeando grávida da minha mãe.

Adorei cada pedacinho do seu texto — dos primeiros tempos às terras cariocas. Vi um toque gostoso de Mário de Andrade, um não-sei-o-quê que escreve rindo, sem medo das próprias fraquezas e forças. A cena da estufa explodindo é quase uma versão feliz de “O Peru de Natal”:

“Mamãe trouxe a sopa, serviu e, de repente, pum! A estufa caprichou mesmo. Lá estávamos nós que nem fantasmas após a erupção do Vesúvio de Pompéia, todos cobertos de cinzas. As sopas e o resto da mesa também, tudo em volta era um cinzume só. // Pela primeira vez, mamãe desandou a rir toda contente porque finalmente papai havia tido uma demonstração prática do que vinha acontecendo há tempos.”

E seguimos com vocês, do riso ao choro… Mesmo no meio da tragédia, nos encantamos com suas dúvidas sobre estar ou não “autorizada a se considerar adulta”. E veja a coincidência: enquanto você escrevia para a Rainha da Inglaterra pedindo ajuda, minha avó escrevia para o Getúlio Vargas para salvar a família do seu marido que não conseguia sair de Berlim. Ela até subiu de joelhos a escadaria do Palácio do Catete para pedir uma audiência! Minha bisavó alemã era como você: obstinada. Rapidinho aprendeu português, a ponto de escrever cartas lindas que hoje são um tesouro na nossa família. Infelizmente eles não conseguiram dinheiro suficiente para os vistos e “tudo-o-mais”, como você explicou tão bem.

Termino esta carta te dizendo, Nora: foi pouco! Vamos lá, você mesma admitiu no final. Tem muito mais história para escrever. Em nome de todos os seus leitores, te imploro que continue! A Zélia Gattai começou assim, lembra? Do divertido “Anarquistas Graças a Deus” para uma prateleira cheia.

Um abraço muito abraçado,

Karina

…

Sobre o livro: Lindo volume, numa edição caprichada, com muitas fotos e delicados desenhos da autora, além de posfácios escritos por suas filhas Laura e Cora. E tudo isso impresso em papéis criativos e fonte legível! Corram pra ler: Memórias de um lugar chamado onde, de Nora Rónai, ed. Casa da Palavra, 2014. A citação do caso da estufa está na página 85. A abertura e o final desta carta foram copiadas do Mário, claro, de Andrade, por causa de um volume que me caiu nas mãos há poucos dias: Cartas a Murilo Miranda (1934-1945), ed. Nova Fronteira, 1981. Como disse-me um amigo, ser fã de Mário exige cuidado. É um vício e não há estante que chegue… “O Peru de Natal” é um conto de Mário incluído no livro Contos Novos, de 1946. Eu ia escrever que o livro é maravilhoso e tal. Mas fica desde já definido nesse blog que Mário-de-Andrade e maravilhoso são sinônimos.

Sobre o desenho: Ilustração feita a partir de fotos do livro, com canetinha Bamboo na App Procreate no Ipad. Depois organizei no Photoshop. Quando já estava quase pronto, senti falta de algo branco. Daí surgiu a ideia do barco se sobrepondo na imagem. Achei que encaixava na travessia oceânica narrada no livro e no intenso amor da Nora pela água… (As cores foram inspiradas numa imagem que achei há tempos no Pinterest, mas, infelizmente, perdi a referência à fonte original.)


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Aprendendo a desescrever

 Sorelle

A pessoa nascida com uma autoestima mais ou menos leva uma baita vantagem na hora de escrever. Não que eu seja desse tipo, imagina! Mas aprendi com uma amiga escritora que me contou tudo o que agora relato para vocês:

1) Escrever é um pouco como morrer, desapegar. Precisa esquecer do telefone, da porta, do gato miando, da conta de luz, do almoço de amanhã. Coisa fácil para quem já tem pensamentos negativos e vontade de ficar na cama o dia inteiro… Para afastar esses devaneios, minha amiga tem um segredo: “Anoto em um caderninho e esqueço; com o tempo, aprendi a pensar menos”.

2) Quando tiver que escrever algo grande, de fôlego, minha amiga aconselha: “Deixe o resto da vida o mais sem graça possível”. É muito mais fácil abrir mão de uma vidinha insossa e pensar que tudo-será-melhor-no-texto (ou depois-do-texto). Imaginem se os “populares” têm tempo de administrar a beleza, o telefone, os convites, os amigos e ainda as próprias produções literárias?

3) “É natural para o cabeça-baixa ser um pouco cruel consigo mesmo”, afirma minha amiga escritora. Daí advém a sua facilidade de praticar um ato que costuma melhorar qualquer texto: cortar, cortar, cortar! “Atacar sem dó os advérbios e os adjetivos já te leva para lá da metade do caminho para escrever bem”, ela diz. Se forem excluídos e não fizerem falta, que descansem em paz. Se deixarem alguma lacuna, é porque falta informação; nada que um substantivo não resolva.

4) Outro corte que sempre alegra o escritor tristonho é o das palavras-muletas, aquelas que a pessoa tem mania. Minha amiga explica: “Tive um aluno que escrevia ‘destarte’ a cada três parágrafos. Quando encontrei o quinto, dei um ataque: des-car-te todos ou não te oriento mais!” A maioria das pessoas tem mania de “muito”, “mas” (eu!), “mesmo”, “bastante”, “sendo assim”, “sempre”, “nunca”…

5) O derrotado geralmente se acha comum demais, sem destaque, sem personalidade. Outra vantagem! Já imaginaram se cedesse aos chavões e aos jargões? Já basta ser joão-ninguém nessa vida, não dá para escrever igual ao que todo mundo já escreveu… Essas pragas grudam na mente e se escondem até nas linhas das melhores famílias… (Viram? Já se infiltrou um chavão aqui!)

6) Outra característica da pessoa com dificuldade na vida social é o medo de se tornar invisível. Resultado: nunca esquece de colocar um sujeito nas suas frases! Minha amiga concorda. Não aguenta ler que “essas questões não são tratadas de forma crítica…” Opa? Por quem? Pela tia Noquinha ou pelo Otavio Paz?

7) Por não se achar o tal, o escritor caidinho também nunca imagina que alguém vá concordar com ele. Então, nada de usar aquele “nós” majestático dos textos acadêmicos de antigamente. Minha amiga exemplifica: “Nosso cotidiano” não é o mesmo, “nosso ponto de vista” nunca foi, “nosso futuro” não será. O texto tem que destrinchar quem é quem nessa salada. Se houver um “nós”, que se diga direitinho quem faz parte dele.

8) E para minha amiga com baixa autoestima aprender tudo isso, como foi? “Foi sofrido”, ela diz. “Mas essa é outra vantagem de não ser o tal: sempre achamos que podemos revisar mais uma vez. E é nessas muitas revisões que os problemas do texto vão embora.”

…

Ah, preciso parar por aqui… Minha amiga ficou cansada da conversa. Como eu, ela passou boa parte da vida lendo livros de entrevistas com escritores. Todos os volumes famosos que saíram em português; e também a deliciosa trilogia com escritores brasileiros editada pela Edla Van Steen, uma raridade nesse meio tão masculino. E nós duas chegamos à mesma conclusão: ser meio fracassado é uma baita vantagem para aprender a limpar o seu texto, a tirar da frente tudo que atrapalha, dos pensamentos erráticos às palavras e ideias sem sentido. Ou, como disse melhor a minha amiga, é uma baita vantagem para aprender a desescrever.

…

Sobre o desenho: Eu queria ter colocado os novos desenhos do Antônio nesse post, mas não deu porque ele esqueceu o caderno em algum lugar… Resolvi então postar esse, feito no café Sorelle e inacabado… Como acabei gostando mais das partes incompletas (sempre desconfie de assuntos marrons!), achei que combinava com a ideia desse post, uma especie de “menos é mais” da escrita. Os materiais utilizados: canetinha Unipin 0.1, aquarela, lápis de cor e caneta branca Gelly Roll Sakura.


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Leite de vó

jun2014fb

Imersa na casa da minha vó, bem que eu podia aproveitar para me afogar em lágrimas e saudades… Ninguém teria o direito de reclamar. Afinal, na semana que vem, vai fazer um ano  que ela se foi, aos 98. Até pensaram que ela ia morrendo de véspera… Mas não. Toda vez que chegávamos ao hospital, ela bem magra e fraca, os médicos balançavam a cabeça… Só que ela abria os olhinhos verdes e perguntava: “Como vai o Rodriguinho, seu filho? E a Dona Amélia, continua trabalhando no seu consultório?” O doutor não acreditava: “Mas, dona Lydia, a senhora lembra do nome do meu filho e da minha secretária?” E ela: “Ah, e a sua coluna, melhorou? Tem feito fisioterapia?” Era impossível não sorrir. E ninguém tinha coragem de colocá-la para dormir, nem de dar só um remedinho… Bora curar. E ela curava, desafiava a idade e voltava a nos surpreender.

Quando nasci, descobri que não era fácil ser neta dela. Sempre tive uma quedinha pelo direito de sofrer. Mas vinha a minha avó, me botava na cadeira de balanço e começava: “Era uma vez uma fazenda muito bonita onde vivia uma menina feliz…” Era a história dela, ligeiramente editada, digamos. A menina tinha sido feliz até os sete anos, ok. Mas então perdeu a mãe! Depois, mais um pouquinho, lá se foi o pai, ela com doze. Depois, passou até os dezesseis cuidando da irmã com uma tuberculose-que-só-milagre. E isso lá podia ser “infância feliz”? Pois era, assim ela repetiu a vida toda.

Depois que o vovô morreu, achei que seria um baque. Mas ela mudou da casa em que viveu 50 anos como quem passa no vestibular. Bora decorar, fazer obra, botar armários! (Meu avô nunca entendeu a necessidade de mais armários.) Não, não era falta de saudades ou de amor no casal. Era a vontade de viver dela que sempre prevalecia mesmo.

Um dia, ela já viúva, cismei que tínhamos de voltar nessa fazenda fantástica das suas histórias. (Quem sabe eu achava o graal por lá? O que ela teria bebido antes dos sete anos?) Meio a contragosto, ela concordou com minhas sanhas de passado. Fomos, olhamos, tiramos fotos, tomamos chá com umas amiguinhas de infância e ela decretou: “Ah, deixa isso pra lá! Só tem velho!” É. É que ela não envelhecia nessa época, pelos 70.

E eu tentando chorar o meu pobre apartamentinho vendido, onde meus filhos nasceram e cresceram… Aqui nessa casa não rola. A Socorro, que trabalhou com minha avó por muitos anos, veio outro dia conversar comigo. Eu perguntei: “Sobre o que ela falava com você nos últimos tempos?” E a Socorro respondeu: “Ah, sobre as festas de aniversário que ela ia fazer! Para os 99, cismou que seria um jantar com macarrão da Otília. E eu dizia: — Dona Lydia, macarrão para muita gente não dá. Esfria, fica mole. Mas ela era teimosa. E para os 100, ela disse que só chamando a Fafá de Belém para cantar Ave Maria!”

Assim não dá para competir… Eu querendo sofrer um pouco com meus probleminhas, com os males do Brasil e do mundo… E a energia da minha avó, presente nessa casa e nas suas coisas, não deixa. Aqui bem na minha frente está o computador dela! Até uns 97 ela mandava e-mail e quase teve tempo de aprender a usar seu perfil no Facebook.

Não, tragédias não faltaram. Eu contei só as da infância. A mulher tinha uma força para seguir em frente que só vendo! Aproveito para pegar uma casquinha nessa temporada e passar um pouco para vocês. Porque força de viver é que nem leite de mãe: quanto mais a gente dá, mais tem!

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Sobre o desenho: Coisas da cozinha da vovó que desenhei para o calendário de junho de 2014, em homenagem ao primeiro aniversário da nossa despedida. Fiz as linhas com canetinha Unipin 0.1, as cores primeiro com aquarela e depois alguns retoques com lápis de cor. Não sei se já contei aqui da felicidade que foi comprar meus primeiros Prismacolor, aproveitando a ida de um sobrinho aos EUA. São incríveis, são tudo que todos dizem de bom!

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Livro da semana: Ah, e por falar em avós, essa semana comprei o livro da incrível Nora Rónai, “Memórias de um lugar chamado Onde”, editora Casa da Palavra. Leitura maravilhosa garantida para as férias forçadas da Copa!