Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Morte desenhada

choro

 

O gatinho chora pelos mortos e feridos no atentado em Paris hoje, 7/01/2015, e por todos os crimes contra a vida humana por motivações religiosas. (Não custa lembrar que todas as grandes religiões já motivaram assassinatos em nome do seu ‘deus’.)

Parafraseando Dom Quixote: que não sobre nos tinteiros dos cartunistas nem um pontinho de tinta! Que os desenhos possam ser desenhados, que todas as histórias possam ser contadas.


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Balançando

balanço

Nas últimas semanas fiquei numa espécie de limbo. Não consegui fazer as tarefas no prazo, nem responder emails, nem arrumar a casa, nem desejar feliz aniversário para meus amigos, nem escrever para o blog! Estive num leve estado de choque pós-traumático (aka, pós-mudança).  Mas, ufa, passou!

Cinquenta e quatro posts e treze meses depois… retomo o blog para fazer um balanço (ou melhor, dois, né?:-).

O WordPress me avisa que atingi 50.924 visualizações. Mais da metade (27 mil) só para os dois posts mais lidos (a Carta… e as Dez lições…). O engraçado é que criei esse blog para tomar um ar fora do mundo acadêmico…

Sim, sou apaixonada por livros, por dar aulas, por pesquisar e por conhecer a pesquisa dos outros… Também não reclamo de dar palestras, escrever, publicar e prestar contas. Considero minha obrigação compartilhar.

Só que a logística disso tudo anda meio complicada… A formação encolheu (o tempo dos mestrados e doutorados diminuiu); mas os orientandos, as aulas, os eventos, os textos e as publicações se expandiram (alguns ao infinito). Ou seja, todo mundo (professores e alunos) tem que produzir mais em menos tempo.

O problema é que o dia continua tendo aquelas velhas 24 horas de sempre; e as pessoas continuam sendo humanas — mesmo quem vira onça têm que continuar comendo, dormindo etc. e tal. E ainda com diversão, arte, amor e balé (ou série americana na Tv/ipod/ipad/iphone?).

E aí: não dá.

Por tudo isso, preciso continuar tomando ar…! E decreto para mim mesma que vou manter o blog! Farei só umas pequenas mudanças para deixar a tarefa mais trancs, mas acho que ninguém vai notar. (Vou continuar postando, só que sem dia e frequência fixos. E não vou mais mandar posts por email. Assinem o envio automático do WordPress, please.)

Sobre o desenho: Gatinho se balançando feito com canetinha Kuretake num bloco de papel aquarela, e depois borrado com waterbrush. Sujei de propósito o papel para lembrar a vida é assim, meio borradinha mesmo.

Desejo para mim e para vocês um 2015 com menos telas, menos pdfs, menos facebook e menos e-mails. Só não reclamo do whatsapp, pois sou uma whatsapp-group-less. Que nosso 2015 seja um pouquinho mais analógico, com muitos papéis e canetas coloridas; além de mais (muitos) exercícios e dias ao ar livre!

E, finalmente, o melhor balanço de todos: muitos desenhos!! (Vejam abaixo uma reunião de quase todos os publicados aqui.)

imaginarios internos livros 13 Calendarios   externos

externos 2

eletronicos


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300 dias

apartamentop

É (quase) como escrever uma tese que nunca acaba:

Foram 16 dias para achar um apartamento e assinar uma promessa de compra e venda — dei sorte nessa fase!

Seguiram-se 107 dias de espera, filas, bancos, cartórios, prefeitura, mais certidões, e muitas caixas de mudança… e afinal sair da antiga casa.

Foram mais 177 dias em duas casas provisórias até podermos abrir a porta, entrar e morar no nosso novo apartamento!

Nesses 300 dias, aprendemos (com a colaboração do Antônio e da Alice):

– Um cartório é como uma loja de ferragens: você gasta muito mais do que pode e sempre precisa voltar no dia seguinte e no outro e no outro.

– A Caixa Econômica é a sucursal do purgatório.

– Os impostos, taxas, certidões e carimbos para mudar de casa são infinitos.

– Nunca alugue um apartamento provisório ao lado de um posto de gasolina.

– Uma boa fita adesiva pode consertar uma porta sanfonada caindo aos pedaços.

– Sem casa, seus gatos sofrem mais do que você.

– Amoedo é para os fracos. Leroy Merlin é para os fortes. (Eu sou fraca.)

– O entulho pode ser bonito:

– Uma portaria verde pode ser mais bonita ainda:

portaria Mariz

– A Casa Homero ainda existe.

– Morar perto da escola dos seus filhos tem preço; e vale.

– A obra acaba. A poeira é infinita.

– Uma máquina de lavar roupa precisa de uma tomada de 20 amperes. (Mas não me perguntem o que são amperes.)

– Ficar sem casa: engorda os adultos; emagrece as crianças.

– Bacalhau não é um peixe; é emenda feita por um marceneiro.

– Passar detergente no cabo da Net facilita sua entrada nos conduites da parede.

– Morar em três casas diferentes = fazer 42 cópias de chaves em 177 dias.

– Nunca jogue fora um pedaço de arame.

– Morar num prédio antigo de quatro andares é… sua filha chegar no térreo pela escada mais rápido do que você descendo no (velho) elevador.

– Telas anti-mosquito valem mais do que mil cortinas. (Pensamento positivo, porque o dinheiro pra cortina acabou…)

– A vida surpreende, para o mal e para o bem: armários comidos por cupins; porteiro apaixonado por Saramago!

Palavra da Alice (escritas por ela mesma):

“Gente que nem eu, aí vai uma dica: se sua mãe não deixar você dormir com ela, faça uma greve, pegue seu cobertor e durma na frente da porta dela=D!… depois ela e seu irmão vão aprender uma lição.”

[Lição aprendida: nem eu nem o Antônio conseguimos abrir a porta dos nossos quartos na manhã seguinte porque alguém (e seu colchãozinho) se instalou no corredor.]

Sobre os desenhos: O desenho que abre o post foi feito bem antes da mudança. O lado direito é a nossa sala em sonho… pois ainda não temos estantes nem livros fora de caixas, mas os gatos já estão sim (muito) felizes! (O lado esquerdo é meu estojinho de aquarelas.) O desenho seguinte, do entulho, foi feito umas seis semanas antes da obra acabar. Passei uma hora e meia no meio da poeira, mas feliz de ver o fim chegando… Os elementos da portaria e da fachada do prédio (cobogós verdes) foram feitos durante uma longa espera por um vidraceiro que não veio. Em todos: usei canetinhas Unipin de 0.05 a 0.2, aquarela e lápis de cor. Os cadernos quadradinhos são Laloran e o caderno em paisagem é um moleskine de aquarela.


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Ulisses em fuga

agosto2014b

Juro para vocês que não foi planejado. Aconteceu exatamente assim.

O tema das chaves para o calendário de agosto já estava na minha cabeça há alguns dias. Nem precisa chamar o Sherlock Holmes para adivinhar por que… Com esse monte de mudanças, fui juntando uma tonelada de chaves. Até que ontem, finalmente, ia sentando para desenhar, já mais-do-que-atrasada-e-culpada, quando se deu a seguinte cena:

Antônio: — Tchau, mãe, estou indo!

Vou até a porta dar um beijinho nele: — Tchau, filho, vai bem.

De repente, o gato Ulisses corre por entre as nossas pernas porta afora e escada acima em alta velocidade!

Sem pensar, saio correndo de meias atrás dele pelos andares, mas ainda lembro de gritar:

— Filho, cuidado… com… não…!!! …a porta!!

No meio da frase ouço um grande “blam!”

Antônio, achando que eu estava preocupada com a fuga dos outros gatos, puxou com toda vontade a porta, que ficou lá, fechadinha-da-silva.

— A porta… a porta… não… não…

Me desesperei… Tudo bem não ter casa direito há quase quatro meses, mas ficar totalmente sem teto (e sem sapatos; e numa roupa-pijama!) foi demais.

Praguejei tanto que a vizinha saiu para ver se alguém tinha morrido!

Quando contamos a história da porta, com o gato pendurado no colo querendo fugir de novo, ela quase deu risada. Só não deu porque sentiu que eu voaria no pescoço dela, coitadinha. Uma boa alma!

— Calma, pode deixar que eu chamo um chaveiro para vocês. Vai dar tudo certo.

E nem precisou. Depois de uns minutos de suspense, chegou o porteiro João, que olhou pra tudo aquilo mais calmo ainda. Pegou sua maletinha, chaveou daqui, chaveou dali, voltou com um alicatezinho e “plec”! Coisa-mais-fácil-do-mundo.

— Ai, você salvou a minha vida…

E pronto. Antônio foi para a vó. E eu tratei de dar um bom dinheiro para o João e um pacote de chocolates para a vizinha. E para me acalmar voltei a desenhar… O que eu ia desenhar mesmo? Ah, sim: chaves!

Alice-filósofa:

Alice — Mãe, agora que me toquei. Quando eu jogo futebol eu não penso. Por que? Porque fico muito concentrada e não ligo pra mais nada.

 

Eu — É, Alice, que bom!

Alice — Quando fico concentrada, fazendo coisas de agilidade, correndo, meu corpo toma o controle de tudo. Não ligo pra mais nada.

Eu — É, filha, bonito o que você disse.

 

Alice —  Quando você não está fazendo nada, você pensa o tempo todo. E até pensa que está pensando! Você não consegue não pensar. E não pensar é muito bom!

Sobre o desenho: Depois de tudo o que aconteceu, qualquer desenho tá perdoado… Saiu tosco… As chaves ficaram grandes demais… Mas é melhor um desenho-mais-ou-menos do que nenhum-desenho, certo? E foi bom ter feito o calendário, porque desenhar para mim é como jogar futebol para a Alice: uma forma muito boa de não pensar! // As linhas foram feitas com canetinha Staedler de nanquim permanente 0.05 e a cor com ecoline diluída e colocada na caneta de aquarela (waterbrush). Tentei usar um pouco de hachurado, mas faltou coragem para fazer as partes escuras de verdade. O original estava em sépia; e ficou tristíssimo! Consegui esse azul depois de scanear, com a ajuda do Photoshop. Prometo algo mais alegre em setembro!


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Caixas, gatos e listas

gatosfb

A semana andou na direção oposta dos gatos do desenho: muito trabalho, caixas de mudança, poeira, dor de garganta, taxista furioso batendo no meu carro e listas enormes — uma de tudo que vai para o guarda-móveis e outra das milhares de coisas que preciso providenciar. O pior está sendo encarar o fato de que não sou mais uma garotinha livre leve e solta que sai por aí mudando de casa com uma mochila nas costas. Já estamos em 58 caixas e contando… Consola saber que metade está recheada de livros; e metade dessa metade com livros das crianças. Quem notou isso foi a professora de inglês do Antônio e da Alice: “Nossa, nessa idade eles já têm tantos livros; que lindo!” Ufa. Que lindo, então, vamos encarar.

Mas lindo mesmo foi achar a lista de tarefas da Alice, escrita por ela num papel A4, tipo todo oficial, preso a uma prancheta, por sua vez, presa com um barbante na porta do armário. Depois de uma certa relutância, ela me autorizou a reproduzir aqui para vocês. Segue a versão digitada para facilitar a leitura (e o original na imagem abaixo):

Lista de coisas para fazer
1 – Convidar o Zé para ir em casa ou eu ir na casa dele
2 – Lembrar de pedir para a Dani (a professora de capoeira) para provar a calça 6 anos
3 – Ajudar a fazer a mudança
4 – Comprar uma bola de futebol
5 – Sábado ligar para o Pedro e o Zé para conectar no Minecraft ❤
6 – Avisar ao Zé que a Maria Eliza tá namorando com o João Pedro (da van)
7 – Quando estiver no Leblon, perguntar à mamãe onde é a Lagoa
8 – Comprar um deck para colocar a bike no carro
9 – Lembrar de trazer cartas para trocar com o Hugo (da van)

Aí vai a versão com a letrinha dela:

listaAlice2

Posso não estar raciocinando direito hoje, mas acho que a Alice está dando de dez em mim. Ok, ela herdou a minha mania de fazer listas — uma das rotas de fuga que esqueci de mencionar no post da semana passada — e o senso de dever que vem junto (“ajudar a fazer a mudança”). Mas todo o resto é dedicado aos amigos e às coisas que ela gosta de fazer… Prova de que os meus defeitos não estão atrapalhando a vidinha dela!

Sobre o desenho: Eu tinha planejado outra coisa para o calendário de maio, mas não tive como fazer na confusão que está a minha casa. Com os gatos apaixonados pelas caixas, foi fácil usá-los como modelos. Os desenhos foram feitos com uma canetinha preta de nanquim que não é à prova d’água (a mesma desse post). Depois passei um pincel molhado para borrar de propósito. A ideia veio da aula de hoje (do Laboratório de Antropologia e Desenho que estou oferecendo no IFCS) que, por sua vez, foi inspirada na quinta aula da Sketchbook Skool. Passamos a tarde conversando sobre os desenhos científicos na história da antropologia e desenhando a partir de modelos de pequenos animais de resina (eu ia escrever dos “animais de brinquedo do Antônio”, mas não fica bem brincar na graduação; então a gente finge que é trabalho).

Agradecimentos: Muito, muito obrigada pelas mensagens e comentários sobre a carta-post da semana passada. O melhor de tudo foi saber que meu amigo melhorou; que aquelas palavras fizeram alguma diferença! O que desejei para ele vale para todos que estão nesse barco: força aí.


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Uma semana com defeito

charlie bolsa.bmp

Quando me apaixono por um artista, me divirto procurando seus defeitos. Não, não é um prazer perverso para me afastar da paixão. Ao contrário, me delicio e me apaixono ainda mais porque as supostas falhas e defeitos (geralmente apontadas por eles próprios sobre este ou aquele trabalho) trazem à tona um caminho criativo, feito de fragilidades, deslizes e perdas.

Acho graça, por exemplo, num trecho da quase autobiografia de Saul Steinberg quando ele conta sobre o período em que passou no Instituto Smithsonian, em Washington, nos anos 1960. Ele lembra que, influenciado pela presença maciça de funcionários chineses, resolveu fazer um diário desenhado num rolo de papel com dez metros de comprimento. O problema é que foi se tornando “escravo do rolo”, e acabou estragando o trabalho “de tanto querer embelezá-lo”.

(Viram? Agora podemos fingir que Saul Steinberg conseguia estragar algum desenho…)

Em outro trecho auto-crítico, da mesma obra, o artista afirma que sempre considerou mais difícil e arriscado observar do que imaginar, outro feito que soa impossível:

“[Nos meus desenhos de observação] vejo alguns dos meus defeitos constantes: terminar sem terminar, cansar e renunciar a insistir num ponto que seria essencial; por timidez ou por preguiça, deixo de insistir, e as coisas não terminam como deveriam, a promessa é mais abundante do que o resultado.”

Nem parece o mesmo Saul Steinberg retratado nos livros dedicados à sua obra. Minha história preferida de um deles é a contada por seu amigo Ian Frazier, da revista The New Yorker. Enquanto outros artistas ficavam melancólicos e desanimados quando algum editor rejeitava seus desenhos, Saul simplesmente os colocava em um novo envelope e os mandava de volta! Fazia isso quantas vezes fossem necessárias até que os editores entendessem o recado. E entendiam.

Tudo isso porque aqui em casa a semana foi cheia de defeitos. Tive uma virose e descobri que tenho uma pedra no rim. O desenho ficou incompleto e o blog teve o post atrasado em dois dias. (Para quem está chegando agora, minha promessa é publicar toda quarta-feira. Se eu trabalhasse num jornal, estava demitida?) Experiência vivida, lição aprendida: preciso preparar esses posts com mais antecedência e ainda ter alguns na manga para semanas-com-defeito.

Sobre o desenho: Meu gato Charlie tem medo de gente desconhecida e tantas falhas no pelo que ontem a Alice comentou, entre divertida e temerosa: — “se vier muita visita aqui em casa, mamãe, o Charlie vai ficar careca.” Mas ele é o meu gato-enfermeiro, aquele que sempre sabe se estou doente, por fora ou por dentro. As linhas foram feitas em canetinha Faber-Castell Pitt S (mais ou menos equivalente a uma 0.4) e a bolsa foi colorida com aquarela. Ficou faltando cor num pedaço, mas assim foi minha semana também. A aquarela está vívida (sem Photoshop!) porque o papel desse caderno é o máximo! Ganhei de presente de Natal do meu cunhado, que achou a relíquia intacta na estante: está ligeiramente amarelado nas primeiras folhas e desgastado por fora. Perfeito para mim que tento não gostar de coisas perfeitas. 🙂

Sobre os livros de Saul Steinberg: As citações são das páginas 78 e 131 do livro Reflexos e sombras, de S. Steinberg com colaboração de Aldo Buzzi (IMS, 2011, trad. Samuel Titan Jr.). É uma pequena joia de livro, embora o depoimento deixe grandes vazios no coração de uma leitora apaixonada. A anedota de Frazier está em Steinberg at The New Yorker (Joel Smith, ed. Harry N. Abrams, 2005). Outras maravilhas do autor podem ser encontradas em Saul Steinberg Illuminations (Yale Univ. Press) e Saul Steinberg: as aventuras da linha (IMS, org. Renata Saraiva). Na internet, vale visitar links produzidos pelo IMS aqui e aqui, além da Fundação Saul Steinberg. Se alguma alma souber onde consigo o documentário La ligne de Steinberg, dirigido por sua sobrinha Daniela Roman, agradeço. Não sei por que esses diretores de documentários tornam tão difícil o acesso aos seus filmes…