“Hoje é teu dia”. Era uma vez um menino que nasceu no dia de Santo Antônio e no dia de Fernando Pessoa. Parou de chorar aos 7 anos, bateu no Fofinha aos 12, conheceu Kau e Te aos 18, escreveu 11 livros, amamentou 2 filhas, adotou outros dois, deu de fumar à Pinga, tocou bateria-bongô-e-carron, foi Pai Noel 17 vezes, teve 587 melhores amigos, 39 irmãos e irmãs. Foi o mais feliz, amoroso, gentil, e engraçado pai e companheiro pra Alice B, Clara, Tê, Antonio, Alice K. e pra mim. Dormiu um bom terço da vida. Gostou tanto de dormir que resolveu dormir mais um bocadinho. Virou o beija-flor que aparece na janela, o vento que traz frescor, a ideia que surge de madrugada, a magia dentro de um livro, o quentinho doce que invade quem pensa em ti.
Saudades de quando você abria os olhos e perguntava: “Dormi?” Sim, dormiu, amor. Dormiu tão profundamente que não tive coragem de te acordar… E da sua resposta: “Dormi tão bem… Estava precisando.” A tua felicidade era simples. Bastava um abraço, um copo, um queijo quente, banho e piscina.
No dia do desenho com chapéu, você estava em Portugal, debatendo literatura e recebendo aplausos. Como era linda a tua voz. Lembras que lemos na última noite em que passamos acordados? Li um capítulo de uma história esquisita. Mas te ouvi dizer, divertido: “você lê muito bem”. ♥
Às vezes me revolta o teu otimismo inabalável. “Coisas melhores virão”, diz o verso da nossa música favorita. Te desenhei pequenino em cima desse coração cor-de-rosa gigante, como o teu. O meu ficou espremido quando vi a parte inferior do desenho: uma pessoinha diante do caminho interditado.
O azul deixa tudo um pouco triste, mas anotei que estávamos ambos alegres nesse desenho. Tínhamos a casa só para nós, com cama, gatos, comidinhas, canetas e livros. Ainda sinto o cheiro da tua camiseta azul-clara Best alguma-coisa. Já te disse que amo teus pés tortos? Já.
Bem no cantinho esquerdo da imagem acima tem teu pé de novo. Quem te ama, te reconhece pelo pé. Cada dedinho operado pelo doutor. Nessa página confusa, misturei nosso dia na livraria Blooks e em casa. Registrei: “você não está lindo como és, mas eu te amo”. A Lola gostava do teu colo. Eu lia Virginia Woolf, presente teu.
Nesse caderno, brincamos de retratos no café Severino, na livraria Argumento. Te desenhei e você me desenhou. ♥ Você nunca-não tinha coragem de fazer as coisas. Não sei medir se tenho mais saudades do teu lado rotineiro (natação-café-trabalho-as-mesmas-piadas) ou do teu lado “vamos a isto”, que topava qualquer coisa. Eram sólidos mas infinitos de você.
Talvez estejam pensando que os desenhos estão feios, mas você gostava. Festejamos meu aniversário na hora do trabalho, mesmo sabendo que íamos nos ver à noite de novo. Sua mãe ligou se queixando de labirintite. A sua paciência era quase infinita para coisa difíceis; e às vezes curtinha para coisas fáceis. Era engraçado esse contraste.
Por que te escrevo coisas que você já sabe? Não sei. Ainda acho bilhetes teus e meus dentro de livros e cadernos. As palavras escritas eram parte da gente junto.
Termino esse feliz aniversário com um desenho teu com cabelos! Esse fica na sala, escondido em um porta-retrato com duas portinhas da Gato Preto, de Lisboa. Estás ali e estás aqui.
Você, que ainda parece ao alcance da mão todas as madrugadas, agora me diz: “É isso, Kau. Escreve, desenha, chora um bocadinho, se der vontade. Moro em ti.”
Sim, amor, estou tentando. Te amo, hoje, teu dia, todos os dias.
“Vou começar assim. Simples. Hoje é uma data bonita pra nós — e eu quero celebrar contigo: aqui e aí; e, quando eu chegar, bem ao teu lado, abraçados. Muita coisa aconteceu entre nós, e são muitos anos juntos… E, depois de tudo o que a gente viveu, eu sinto hoje, no meu coração, que te amo mais. Mas como pode? Sentir, hoje, um amor maior significa que o amor que se sentia antes era menor? Não. Não é isso. E eu não sei explicar. Estou falando de um amor por ti que só cresce, e cresce a cada dia. Então hoje ele é menor do que amanhã? Não. É uma lógica inversa. Amanhã é que será ainda maior do que é hoje. Parece ser a mesma coisa, mas não é. Estou falando de amor, e isso não tem uma lógica normal. O nosso amor tem outras coisas dentro; outras lógicas: uma paixão por ti que me emociona. Me sinto a pessoa mais feliz do mundo por ter você me amando — e eu te amo do jeito que você é. O que sei, hoje, e mais do que nunca, é que não consigo imaginar a minha vida sem você; não consigo; e não quero ficar longe de você.”
A carta acima poderia ter sido escrita por mim, mas não foi. Foi escrita pelo Juva, no dia 27 de janeiro, nosso aniversário de namoro.
Eu lhe respondi que o amava também, hoje mais do ontem, e que nunca estaríamos longe. E lhe repeti uma expressão com a qual ele sempre nos consolava — a mim, à Alice, à Clara, à Teresa e aos amigos — quando reclamávamos de saudades: “Não estamos longe. Eu moro em ti.” …
Eu e Juva nos conhecemos na PUC-Rio, em 1990. Nos tornamos amigos, o que foi grande privilégio para mim e todos que o conheceram, como vocês sabem bem. Nossa amizade e nosso amor passavam pela palavra: líamos juntos, trocávamos cartas, fundamos um clube de literatura por e-mail, digitamos SMS no início do namoro, milhares de zaps e dezenas de bilhetinhos que escondíamos um nas coisas do outro.
Remexendo em nossos papeis, encontrei uma troca de cartas de 1993, sobre amizade. Eu reclamava de amigas se afastando e lhe escrevi: “…com você é diferente. Acho que fizemos um laço bem largo, que dá para esticar no espaço e no tempo, sem medo de arrebentar.”
E ele me respondeu com lindezas e com uma paráfrase: “sim, Kau, a gente fez um laço bem largo que dá para esticar no espaço e no tempo, sem medo de arrebentar”. E acrescentou: “boa imagem”; “esta era a ideia que eu estava tentando escrever”.
Mal sabia eu que o Juva era um mestre do tempo. Com ele, aprendi tudo que importa sobre essa misteriosa experiência:
– Que a língua portuguesa é linda porque diferencia o ser e o estar.
– Quando estávamos com ele, éramos nós. E não falo só de mim. Falo de uma mágica que todos que o amaram tiveram o privilégio de viver: quando estávamos com ele, sentíamos sua presença inteira, éramos parte de um mundo único, que ele criava com cada um de nós.
– Era como se nos dissesse, sem precisar dizer: oi, cheguei: “o Juva-agora-estou-e-sou-todo-teu”.
…
Eu não queria estar aqui. Eu não queria que houvesse esse hoje. Eu não queria o dia 9 de abril de 2022 e os trinta dias que se seguiram. Mas se fosse eu a pessoa partida, ele estaria ao microfone, de pé, dando um jeito de permanecer inteiro, com o talento de transformar dor em amor, palavras em sorrisos, emoção em abraços, sentimentos em palavras.
E porque era exibido também, a gente sabe. Adorava discursos, palco, plateias e os merecidos aplausos (que sempre recebia).
É por isso estou aqui, pela Alice e pela Clara Batella, pelo Antônio e pela Alice Kuschnir., pela Teresa, pela Telma, por seus irmãos, por todos que o amavam tanto quanto nós. E somos muitos.
Quem não amava o Juva?
…
Mas ele ficaria chateado comigo, e com todos vocês, se as lágrimas fossem demais. Um bocadinho, talvez, ok. Mas ele não gostaria de nos ver sofrer.
O Juva sabia se doar tanto às pessoas, ser tão generoso, que às vezes tinha dificuldade de receber. A um pequeno gesto nosso, retribuía-nos com presentes, livros, flores, mensagens e mimos, como se não entendesse que ele próprio era um presente constante em nossas vidas.
Tive o privilégio de ser sua amiga por 32 anos, e sua namorada por 11 anos, dois meses e onze dias. E agora, como li ontem num sinal na PUC: “seguimos juntos”, precisando inventar “novas formas de convívio”.
…
Uma vez, há muito tempo, o Juva foi a um cardiologista em Lisboa que lhe falou sobre as batidas de seu coração, terminando com uma frase que ele adorava repetir, com sotaque português:
“Pois o senhor Juva, o vosso coração bate tanto, que o senhor jamais poderia fazer o papel de morto!”
E ria-se da própria história.
Anos mais tarde, outra vez às voltas com o coração em um hospital, registrou em papel um micro-conto:
“Depois que eu morrer, não vou avisar ninguém.” …
Esse era o Juva. Não apenas um “mestre do amor”, como tão bem definiu a Lou, mas um mestre do sorriso e da dor.
Nasceu com a dor e com ela criou uma intimidade (palavra e sentimento que amava). Da maioria das suas dores, que tanto nos preocupavam, comentava distraído: “Deixa estar, essa dor eu já conheço”, como quem fala de um parente distante, talvez um pouco chato, mas que não se pode evitar.
Outras vezes, não: chegavam-lhe dores novas. Assustava-se de início. Mas enquanto ainda estávamos aflitos em busca de remédios, ele já vinha de carinhos, com jeito de quem faz amigos em um país cuja língua não se sabe. Como no famoso bordão que repetia quando cada um de nós viajava:
“Vai para a França? Mande um abraço para os franceses. Diz que foi o Juva.”
E assim ele mandava um abraço para as suas dores: amigando-se com elas. …
Então estou aqui, neste país distante, como me ensinou a Guida (Neves). Só que dessa vez não me refiro ao passado, mas ao tempo presente e ao tempo desconhecido, imaginando o que o Juva gostaria de nos dizer:
“Ficaram aí na terra? Mandem um abraço para os terráqueos. Digam que foi o Juva.”
E ficaria feliz, satisfeito consigo mesmo, de “nos imaginar sorrindo” , como gostava de dizer.
Que definição maior de amor do que desejar o sorriso do outro?
… Em seus livros, escritos, aulas e palestras extraordinárias — em sua presença e alegria de viver –, Juva nos deixa um legado gigante: o de que o bem e o amor existem e estão (ao nosso alcance).
Para me dar forças de falar hoje, trouxe comigo uma roupa da minha sobrinha Elisa, que está grávida de 7 meses. O que me conforta para enfrentar a morte é pensar na vida, nos bebês como o Nini e o João, que estão por nascer, no pequeno Ravi que fez um ano sábado, nas crianças encantadoras, como a Helena tocando jazz aos onze anos; nos jovens descobrindo o mundo, como Clara e Alice Batella, Antonio e Alice Kuschnir.
E penso também nas crianças que ainda temos dentro de nós, como o Juva-menino, com sua energia insaciável para aprender e incorporar os ditos dos autores e amores de sua vida: o trancs, do Thomaz, as corujas da Clara, o chill e o “confia” da Alice Pips Batella.
Era um homem-flor que, em seu tempo conosco, tinha uma forma única de nos olhar e transmitir acolhimento e esperança. …
Comecei, e agora termino minha fala com as palavras do próprio Juva. Estas foram escritas em 2021 para o velório de sua querida amiga Karin:
“Eu sei onde você está agora. Você está neste exato momento, dentro dos corações de todos nós.” Confia.
E repito para mim mesma e para vocês: o Juva mora em nós.
Vamos amá-lo para sempre?
…
• Acima foi o texto que li na missa de 30 dias do Juva, no dia 10/5/2022, na capela da PUC-Rio. Agradeço às muitas pessoas que me ajudaram a organizar essa homenagem e a todas que estiveram presentes, em pessoa, por zoom ou em mensagens de carinho.
Reúno na página abaixo as demais homenagens que foram lidas na missa, assim como as que foram escritas para a cerimônia realizada em Oeiras, Portugal, e algumas publicadas em redes sociais:
Guardei esse post para hoje pois é aniversário do Juva, 13/6 — data que ele adorava porque coincidia com o aniversário do Fernando Pessoa e ainda era dia de Santo Antônio. Meu homem-flor, que saudades. Que todos tenham uma semana de saúde, paciência e amor. ♥
…
Sobre os desenhos: A primeira imagem do post é um desenho do Juva feito por mim em 2011 a partir de fotografia tirada por Manuela Ribeiro. Esse retrato acabou virando sua identidade na contracapa do livro “O verso da língua”. A segunda imagem (do beijo) desenhei em 2012 para um clipe animado da gente se beijando. O terceiro desenho (do juva-gatinho) foi feito em 2015 para a página “autores” do nosso livro “Do gato Ulisses, as sete histórias”. Abaixo, tentei retratar uma de suas paixões: tocar bateria, coisa que, contra todas as probabilidades, não só aprendeu como também ensinou. Registro feito na casa do Tomás, em 2013 (se não me engano).
…
Atualizado em 14/6/2022.
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Como citar: Kuschnir, Karina. 2022. “Juva Batella (1970-2022) – Homenagens“, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3V6. Acesso em [dd/mm/aaaa].
“Uma única pessoa está ausente, mas o mundo inteiro parece vazio.” (Phillipe Ariès)
“E então… não mais. (…) o que chamamos de luto é como estar em um submarino, em silêncio sobre o leito do oceano, sentindo a carga da profundidade, ora perto, ora longe, açoitados por recordações. (…)
Você se senta para jantar, e a vida que você conhecia termina. Em uma batida do coração. Ou na ausência de uma. (….) Eu queria gritar. Eu queria que ele voltasse.” (Joan Didion)
No dia 9/4/2022, às 11:50h da manhã, faleceu meu companheiro de amor e de vida, Juva Batella. Ao contrário da Joan, que passou seus primeiros meses de luto tentando entender se havia algo que ela pudesse ter feito para evitar a morte do marido, sinto-me serena quanto à inevitabilidade do que ocorreu. Não havia nada que alguém, máquina ou medicamento pudesse ter feito. Ele precisava da cirurgia, ele marcou a data, e fomos avisados dos imensos riscos.
Minhas tempestades são outras: acordo com a certeza de que ele ainda está aqui, e já não está; lembro que preciso lhe contar o que está acontecendo, e já não posso. Tudo dói uma dor sem remédio, porque não há sorrisos e abraços dele à venda nas farmácias. Seus áudios no Whatsapp soam menos reais a cada dia. Havia tantos planos — nossa rede, nossa varanda –, e já não há.
É preciso reaprender a viver, ser, sentir, pensar, falar… É como se as bordas do mundo que eu conhecia tivessem desaparecido. Sinto-me no oceano de que fala Didion, mas em mar aberto, sem os contornos de um submarino ou de alguma terra à vista.
Ao mesmo tempo, não estou só. O Juva — como falarei no próximo post — foi a pessoa das pessoas. Deixou-me numa ilha cuidadosamente povoada por seres que o amavam, aquecendo o meu coração.
A cada um dos “navegantes e navegantas”, como ele escreveu, agradeço o imenso carinho, sem o qual eu não poderia estar aqui, tentando seguir. Na mensagem que mandou à família, amigos e alunos avisando da cirurgia, terminou por me deixar instruções sobre o que fazer:
“A Karina vai cuidar de vocês, este grupo de amigos do coração, mandando-lhes as novidades acerca do andamento do update [do coração].
Navegar é preciso. (Mas viver também é preciso.) Pensem em mim. ♥”
Cá estou, procurando as palavras e “cuidando de vocês”, escrevendo as “novidades” que eu não queria escrever, vivendo a vida — porque “é preciso” — e pensando nele, com todo amor do mundo, pra sempre.
Relendo os últimos posts, me surpreendi que minhas prioridades para 2022 continuam válidas, ainda que a vida tal como eu conhecia tenha desaparecido. Registrei: “preciso manter a saúde física, mental e artística em dia — e não esquecer disso depois do Carnaval”. O que eu não imaginava era o significado desse “carnaval”, uma época de inversões e liminaridades festivas que se assemelha tanto ao tempo da morte, como a antropologia nos ensina.
Ainda não estou “do outro lado” do meu luto. Mas 52 dias, 8 horas e dez minutos depois, estou aqui escrevendo, já tendo pintado uma aquarela, desenhado um padrão de corações, feito três sessões de terapia e duas de musculação. É um degrauzinho.
Bom junho para todos, com amor, saúde e paciência. ♥
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Sobre a citação: Os trechos das epígrafes estão no livro “O ano do pensamento mágico”, de Joan Didion (Harper Collins, 2021, tradução de Marina Vargas).
Sobre o desenho: Aquarela feita em papel Canson Montval (cortei uma folha grande em pedaços A4). Molhei o papel e fiz manchas nos tons de lilás, pincelando com outras cores. Achei que ia seguir os processos anteriores, trabalhando no app Procreate, mas minha canetinha do Ipad quebrou (não carrega, não funciona ). Lembrei da minha velha plaquinha de digitalização Wacom Intuos que graças às deusas funcionou direitinho associada ao Photoshop (mencionei essa compra de 2019 aqui). O processo foi o mesmo dos demais calendários desse ano: mantive duas camadas da aquarela sobrepostas, uma mais escura por cima de uma mais clara. Depois desenhei as linhas dos corações apagando a camada de cima com a canetinha eletrônica (modo lápis-borracha no Photoshop). Para a grade do calendário, adaptei as de 2021 como sempre.
A estampa de corações foi baseada em um desenho que fiz para o Juva quando ele estava em Portugal. Minha inspiração foram as aulas da artista Neha Modi, que assisti no Skillshare em janeiro. Vocês podem ver o trabalho dela no Instagram @expressionsbyneha.
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Como citar: Kuschnir, Karina. 2022. “Junho/2022 — Viver é preciso“, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3UJ. Acesso em [dd/mm/aaaa].
“…não persigas o êxito. O êxito acabou com Cervantes, tão bom novelista até ao Quixote. Ainda que o êxito seja sempre inevitável, procura um bom fracasso de vez em quando para que os teus amigos se entristeçam. (…) Décimo: tenta dizer as coisas de modo que o leitor sinta sempre que no fundo é tanto ou mais inteligente do que tu. De vez em quando tenta que efetivamente o seja; mas para conseguir isso terás de ser mais inteligente do que ele.” (Augusto Monterroso, da biblioteca de Juva Batella)
A vantagem de ter um namorado poeta é voar. Não é preciso ler Murakami nem Arthur Clarke. Um dia, ele vai te beijar e te convidar para ser o sol. E tudo que você achava impossível, acontecerá.
Quando alguém bem enraizado, planejado, controlado e sabedor de todas as coisas do universo te disser que gente não voa, teu coração vai parar de bater um pouco. Mas, lá no fundo, uma voz de dentro vai sussurrar: não acredita. Lembra do vôo do sonho de ontem!
Quando você não conseguir dormir, leve um poeta contigo, deixe a vida lá fora e aguarde os seus efeitos mágicos. Só estar ali. Adormecer, flutuar ou voar. Tudo pode, tudo é bom, tudo é possível.
Sim, este ser existe! Ele veio ao mundo chamado Juvenal, nome antigo, igual ao do pai, mas um dia encheu e passou a se chamar Juva. Ele sabe, é um apelido esquisito, difícil na hora de se apresentar, mas impossível de esquecer quando se conhece a pessoa-em-si.
Depois de doze livros, duas filhas, dois empregos, muita disciplina e café, o Juva voltou a escrever na internet, agora semanalmente, reanimando seu blog. Já tem centenas de textos maravilhosos lá dentro, mas é um recomeço e tá diferente. Vai ter ficção, não-ficção, referências, livros, técnicas de escrita, cursos, maluquices e… desenhos!
ilustração de K. Kuschnir para o post “Os desconectados”, de J. Batella
Logo eu, que sou medrosa feito a peste, mas um pouquinho corajosa também, resolvi me enturmar. Primeiro, fiz apenas o novo topo do blog, que é a imagem que abre esse post, aquele amontoado gostoso de livros, lápis e materiais de quem ama escrever.
ilustração de K. Kuschnir para o post “Inferno astral”, de J. Batella
Depois pedi para continuar… Cada um desses desenhos menores é uma ilustração para os posts novos. Como fazer desenhos para outra pessoa me traz uma enorme ansiedade, decidi que me concentraria nas ideias visuais e utilizaria uma técnica bem fácil (explicada no final).
ilustração de K. Kuschnir para o post “O instante de Sisifo no tempo de Cecília Meireles”, de J. Batella
O Juva é super disciplinado, escreve tudo com capricho e antecedência, coisa que eu nunca consigo, vocês sabem. Ele é do tipo que termina os posts no domingo para publicar na quarta! Daí chega a minha vez de desenhar. O mais difícil foi este (acima), que chamamos de “Sísifo calmo”. A primeira versão estava óbvia, com o homem empurrando a pedra morro acima. Por sugestão do Juva, mudei a figura para um Sísifo descendo calmamente a montanha, na bonita inversão que o texto sugere. Há dois detalhes que ficaram imperceptíveis na escala da imagem no computador: a “pedra” é feita de um emaranhado de letras, que são também as “pedrinhas” vermelhas que vão sobrando na parte baixa da montanha, como cascalhos que se soltam ao longo desse perpétuo trabalho.
Nessa empreitada mais ou menos conjunta (minha parte é uns 16%?) estamos nos desafiando a voar juntos. Já temos quase oito anos de milhas aéreas, que se somam aos vinte da amizade terrestre, de antes. Os pessimistas dizem que um amor assim não existe, mas eu digo: existe sim.
Vendo esse projeto, lembro-me dos versos do próprio Juva na história do nosso gato Ulisses:
“queria a proposta de uma vida só sua, e procurou a resposta miando para a lua. A lua, miando para o gato, iluminou as águas do mar, e Ulisses pensou de imediato que era hora de voltar a navegar.”
Sobre as citações: A primeira, de Augusto Monterroso, está na seção Bibliotequinha do blog, com citações de vários autores. As frases estão nas páginas 115 e 116 do texto “Decálogo do escritor”, de Augusto Monterroso, publicado no livro O resto é silêncio (Lisboa, Oficina do Livro, 2007).
A citação final está na página 66 do livro Do gato Ulisses as sete histórias, de Juva Batella (ilustrações Karina Kuschnir, editora Vieira & Lent, 2015.)
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Sobre os desenhos: Tecnicamente, são desenhos simples de fazer. Começo organizando uma imagem a partir de uma ou mais fotografias no Photoshop (no primeiro desenho, foi uma foto panorâmica que tiramos aqui em casa). A seguir, exporto essa imagem .jpg para o Ipad e abro no Procreate. Coloco a transparência da camada em cerca de 70%. Crio então uma nova camada (layer) e passo a desenhar tendo a foto como referência de fundo, mas acabo inventando ou recriando algumas coisas nessa hora.
Não tenho “pencil” nem Ipad pro, infelizmente. Utilizo meu Ipad velhinho (acho que é um 2) e uma canetinha com ponta de borracha gorducha, dessas chinesas que custam 10 reais na lojinha de capas de celular. Para ter uma certa identidade, estabeleci o padrão de fazer as linhas principais sempre com pincel “marcador redondo” preto, com espessuras que variam de 12 a 4 aproximadamente. Para o cinza, crio uma nova camada e desenho com marcador “caneta pincel” (com uns 30% de transparência). Propus que todos os desenhos fossem nessas cores, com uma pitada de outra cor aqui e ali. É algo levemente inspirado nos cartoons que adoro da revista New Yorker. A grande vantagem desse tipo de ilustração é a rapidez! Dá para desenhar sem pensar muito, testando algumas ideias e variações, além de não ter pós-produção (escanear, limpar, editar etc.).
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Você acabou de ler “Voando junto – Minhas ilustrações para o blog do Juva Batella“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺
Muitas vezes na vida precisei de um empurrão. Não que me falte energia ou interesse pelas coisas. Adoro aprender, me envolver e fazer, mas… a coragem de mostrar pro mundo… essa é escassa na minha receita interna. Por isso gosto e dependo tanto das pessoas que me dão um tranco, e dos bem fortes, tipo me-jogar-na-piscina-com-roupa-e-tudo.
Um dia eu estava quieta no meu canto, feliz de desenhar em caderninhos para o resto da vida, quando ela me ligou. “Quero que você escreva um artigo para o Prosa sobre desenho e antropologia. Vamos publicar uma página com seus textos e desenhos?” Fiquei super lijongeada com o convite — era elogio, né? — mas totalmente descrente da minha possibilidade de atendê-lo. Eu só consegui responder: “Não, imagina, você está confundindo. Desenho é uma coisa, antropologia é outra.” E ela, que é muito mais inteligente e esperta do que eu: “Não é não, frô. Mistura que dá certo! Bora, faz aí.” [E ela não escreveu assim, curtinho, não. Gastou um tempão me dando coragem, pessoalmente e por escrito.]
E foi esse empurrão da querida Mànya Millen, então editora do caderno literário Prosa, do jornal O Globo, que mudou a minha vida de 2011 pra cá. Fiquei quase um ano enrolando para entregar o material. Mas foi ao longo desse ano que tomei o rumo apontado por ela, juntando meu mundo acadêmico e criativo num só. Em janeiro de 2012, a página com textos e desenhos foi finalmente publicada e, não por acaso, foi também esse material que, algum tempo depois, gerou a ideia de criar este blog (como vocês podem ler aqui).
Na semana passada, a Mànya e o Prosa saíram do Globo. Fiquei de luto como leitora do caderno literário. Aqui em casa temos pilhas de Prosas históricos, porque a Mànya nunca fez jornal de embrulhar peixe. Ela fez arte, opinião, reportagem, imagem. Fez todo esse universo mágico dos livros circular para um mundo com horizontes mais amplos e reflexões mais profundas — justamente o tipo de conteúdo de que mais precisamos nesse brasil tão depenado…
Para a Mànya, o meu desejo é que tudo isso seja um grande empurrão, igual ao que um dia ela me deu. Que seja um tranco, daqueles que nos levam para um lugar mais interessante, mais feliz, mais perto de nós mesmos e das pessoas que amamos.
Nos últimos dias, tanta gente escreveu coisas lindas sobre ela… Queria compartilhar especialmente as lindas palavras de sua filha, Julia Millen:
“Desde que me entendo por gente sabia que minha mãe era jornalista. Desde novinha eu sabia o que era pauta, lead, diagramação, subir matéria, fechamento de caderno, plantão -conhecido também como: “quinta feira mamãe chega de madrugada”, ou também: “mamãe trabalha esse fim de semana”. Desde muito pequena eu sabia que ela trabalhava no Globo. Desde sempre eu sabia que ela fazia parte do Prosa & Verso. Desde pequena eu sempre senti um orgulho inexplicável, mesmo quando ainda nem sabia ao certo o que ela fazia, mas só por saber que minha mãe era jornalista cultural e que trabalhava no Prosa. Desde pequena eu aprendi que esse orgulho surgia por saber o quanto ela amava aquilo. Desde pequena eu aprendi que o jornalismo é só para quem o ama loucamente. E desde muito pequena ela me ensinou a amar as palavras e os livros como ninguém. Desde não tão pequena, porém, ela me ensinou o quanto esse mesmo jornalismo era difícil, o quanto sobreviver de jornalismo era complicado, e o quão saturado e instável era o mercado do impresso, o jornalismo de discussões infinitas que rodavam pelo tema: “será que com a internet o jornal irá acabar? ”. Por muito tempo me forcei a acreditar que não. Hoje eu tenho certeza que sim. Hoje, após 20 anos, o Prosa vai deixar de existir. Hoje, o jornal perde o seu caderno mais bonito. Hoje, o Globo só perde. Os tempos estão difíceis para as palavras, mas o orgulho e a gratidão por compartilhar tanta informação, permanecem. Muito obrigada, mãe, Manya Millen. Dias mais bonitos virão.”
Muito obrigada, Mànya! Que muitas flores estejam no teu caminho, frô.
…
* 3 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-hilárias-difíceis-interessantes-ou-dignas-de-nota da semana:
* Na sexta passada, eu e o Juva demos duas palestras para os alunos do 9o. ano do Colégio Andrews sobre “Processo criativo” (ou como fizemos o livro “Do gato Ulisses as sete histórias”). Fui com medo de decepcionar meu filhote, que estaria numa das turmas… Mas ele adorou e nos contou depois que seus amigos amaram, ufa!
* Até a véspera da palestra, passei dias trabalhando num artigo em co-autoria com o Vinícius Moraes de Azevedo, meu bolsista de iniciação científica no IFCS. E não foi nada chato, porque o material etnográfico da pesquisa dele é muito engraçado. As crianças vieram até ver porque eu estava rindo tanto. E agora preciso convencer a Alice de que ela não pode falar em “xarpi”!
* Mas a escrita acabou me afastando dos pincéis… Mesmo por poucos dias, fui ficando inquieta e desanimada. Felizmente, ontem consegui sentar e recomeçar. E registro aqui, para não esquecer: basta recomeçar. (Seja o que for que esteja nos fazendo bem: andar, escrever, pintar, desenhar, cantar, tocar, até o temido “terminar a tese”!)
…
Sobre os desenhos: Flores de uma árvore jasmim-manga que fica na Praça Nelson Mandela, na saída do metrô de Botafogo (zona sul do Rio). Fotografei com o celular e depois desenhei em casa. Na imagem à esquerda, fiz primeiro com lapiseira, depois pintei com aquarela, buscando dar volume (com várias camadas finas, sempre esperando secar entre elas). À direita, fiz direto o contorno com canetinha de nanquim, pintando depois só com algumas pinceladas. Ambas no caderninho Laloran de sempre. Os materiais são os mesmos registrados aqui.
“O artista é um bicho assim: a dor dá cor ao seu jardim…” (Juva Batella, em Do gato Ulisses as sete histórias, p.38)
Pela coragem de atravessar a cidade, pela paciência de encarar a fila, pelos sorrisos, pelos abraços, pelas flores, pelos carinhos, pelos compartilhamentos, pelas mensagens dos que não puderam ir, e pelos quase 150 Ulisses que vocês levaram para passear… muito obrigada!
…
Queria escrever sobre os livros que estou lendo, mas não terminei nenhum dos dois ainda… Também estou em crise de decidir o que quero desenhar, mas tanto os diários da Margaret Mee quanto as cartas do Van Gogh me levam em direção às plantas. Na falta de um jardim de verdade, fui para um imaginado (acima) e para um pequeno parque perto de casa (abaixo).
Sempre leio que o artista cria a partir das suas “referências de infância”. Tipo José Lins do Rego escrevendo sobre a vida no sítio do pai — história aliás lindamente transformada no livro “O menino que virou escritor” de Ana Maria Machado (ilustrada por Ciro Fernandes, ed. José Olympio).
Mas menina urbana tem lá referência?
Pensa daqui, pensa dali, chego à conclusão de que tenho umas memórias de coisa verde sim. As plantas da escola onde estudei até os 12 anos ocupavam a nossa falta-do-que-fazer nos anos 1970. Na hora do recreio, uma das minhas atividades preferidas era arrancar essa florzinha vermelha do pé, despetalar e sugar o miolo! É uma eca, eu sei… mas não tinha celular nem mp3 naquele tempo. E o ser humano gosta de fazer besteira.
Uma coisa divertida dessa busca pelo jardim perdido é usar o Google para descobrir o nome das plantas. Essa aí de cima é uma “Malvaviscus arboreus”, também chamada de hibisco-colibri pelos especialistas (porque não acredito em “nome popular” de planta).
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* 7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:
* Uma amiga leu o post sobre os 3 Ps (paixão, paciência e prática) e me mandou de presente a linda ideia dos três Cs: Coragem, Coração e Consciência!
* Apesar da resistência, reli com a Alice “Os bichos que eu tive”, da Sylvia Orthof, e ela teve que admitir que achou muito engraçado.
* Um tio-cunhado leu o post sobre as críticas e me mandou de presente a história de quando ele entrou para a família. Depois de se hospedar na casa da minha tia-avó, ele ouviu-a ligar sorrateiramente para a futura sogra: — “Dida, tu sabes que ele tomou banho e deixou tudo impecável, como se o banheiro não tivesse sido usado!”
* A Cora Rónai fez uma foto incrível e escreveu um perfil muito simpático de um dos meus heróis no Rio de Janeiro: o Tony, que resgata, protege e doa animais abandonados, com a ajuda da Marluce, sua companheira.
* Participei a convite da Daniela Manica e da Marina Nucci de uma roda de conversa emocionante no IFCS com alunos e funcionários, sobre gênero, corpo e trabalho. Foi um momento marcante nesses quase dez anos de UFRJ, que me lembrou o amor por tudo que aprendi na escola das Amigas do Peito.
* Achei por acaso (e comprei por um preço ótimo!) o lindíssimo livro “Usos e circulação de plantas no Brasil”, organizado pela Lorelai Kury (ed. Andrea Jakobson).
* Três crianças disseram que leram de uma vez e adoraram o nosso “Do gato Ulisses as sete histórias”!
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* Sobre os desenhos: Desenhos feitos no caderninho Laloran com aquarelas Winsor & Newton e lápis de cor Carand’Ache aquarelável. No primeiro, o jardim foi de imaginação, exceto pelo passarinho inspirado numa imagem do livro-fofo The Summer Book, da Susan Branch, que ganhei de presente há seculos da Dri. A frase à direita é de uma das cartas de Van Gogh para seu irmão Theo. Para o segundo desenho, colhi algumas flores de verdade caídas no chão, já bem murchas, coitadas, pois não tive coragem de arrancar do pé onde um beija-florzinho tomava seu café-da-manhã.
Alice, ontem à noite: — Mãe, me dá o livro. Vou ler. Não posso chegar no lançamento sem ter lido né? ?
Eu: — Ok, filha, claro, tá aqui.
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Alice, na página 42: — Mãe, adorei o Gatovsky. Ele é bem legal. Estão querendo comprar ele. Mas porque o Juva usa aspas ao invés de travessão?
Eu: — Os dois são certos… Ele preferiu aspas por causa das rimas.
Alice, aos prantos, invade meu quarto: — Mãe!!! A Babi morreu… a Babi morreu…
Eu, tentando consolá-la: — Eu sei, filha… Mas, pensa bem, agora a Babizinha que você tanto ama está para sempre no livro…
Alice, ao terminar: — Mãe, adorei!
Eu: — Que bom, querida!! De qual parte você mais gostou?
Alice: — De quando o Ulisses conheceu a Penélope!
Eu: — Esse também é meu capítulo preferido, filha!
Alice: — Gostei do livro, é bem legal. E é melhor do que “Os bichos que eu tive”, da Sylvia Orthof. [Implicando, porque ela sabe que eu amo esse livro.]
Eu: — Ai, filha, não fala isso! Eu adoro o livro do Ulisses, mas a Sylvia é imbatível!
Alice: — Mãe, pára de ser velha. Os desenhos dos bichos desse livro [da Sylvia] são horríveis. E faz logo o meu autógrafo!
[E mais não falei; porque os desenhos do Gê Orthof são maravilhosos… É só a minha filha sendo filha… ]
Sobre os desenhos: Fiz a imagem que abre o post a partir de uma foto da Alice que tirei ontem mesmo. Desenhei com canetinha 0.05 e fiz umas aguadas de aquarela sobre papel A4 comum. O gatinho é o Charlie, que toda a noite faz companhia para a Alice ler. Depois de pronto, fui no Photoshop e encaixei no desenho uma imagem escaneada da capa do livro! Todas as outras imagens são ilustrações do livro novo. Abaixo, mostro pra vocês algumas ideias que tive antes de resolver qual seria o tipo de ilustração final — e isso levou mais de um ano!
Sobre o livro: O lançamento é quinta-feira, 11/junho, na livraria Argumento, a partir das 19h. Para quem não puder ir ou estiver fora do Rio, todas as informações estão no site da editora Vieira & Lent. Na semana passada, esqueci de publicar pelo menos um pequeno trecho da quarta capa:
“Ulisses viajou o mundo inteiro, um mundo de aventura, um mundo de cheiro. Foi bailarino, músico e marinheiro; foi artista de rua e gato em cativeiro. Também se apaixonou, e o nome dela é bonito. A fera se chama Penélope — como no mito.
Viaje com este gato, ao longo de sua estrada. Vamos repensar a vida, esta grande, grande charada.”
Imaginem uma família crítica, agora multipliquem e elevem ao quadrado… É mais ou menos de onde eu vim. A tia mais fofinha era do tipo que olhava seus dentes antes de te dar bom dia. A avó pegava no colo e contava histórias, mas ai se você estivesse mais gorda. A redação da escola vinha com nota dez, ufa, parabéns; mas o filho da fulana escreveu uma com 60 linhas — quantas linhas tinha a sua mesmo?
A pessoa não sai ilesa vivendo 20 anos nessa espécie de bancada-Roda-Viva constante. Vira crítica também; ao cubo, três vezes. Isso não garante que vai ser boa em alguma coisa, mas até que favorece a profissão acadêmica… Adquire-se uma imaginação infinita para antecipar críticas.
Agora, joguem essa pessoa no mundo da arte? Ferrou. Num universo de parâmetros tão subjetivos, de mestres tão obsessivos, de imagens tão encantadoras… Como a pessoa pode se achar no direito de bater à porta? Não, de jeito nenhum. Me deixem aqui no meu cantinho rabiscando no caderno, que é melhor. Assim eu pensava.
Mas uma rede de amigos e até muitos da família (!) me empurraram porta adentro… Manoel, Nathalia, Arthur, Manya, Mário, Gilberto, Eduardo S., Clau, Bel, Mari, Ale, Robs, Joana, Malu, Sofia, Susi, Andrea, Hanny, Dady, Ronald, Elisa, Celina, Antônio, Alice, Vera, Cilene e, claro, o Juva, que escreveu, esperou, ouviu, aturou, incentivou, acolheu, elogiou, amou… Taí a coragem que vocês me ajudaram a ter! Meus agradecimentos infinitos também para os leitores desse blog, e aos amigos do Facebook, por tantas gentilezas, incentivos e apoios, principalmente em 2014, um dos anos mais difíceis da minha vida.
E um pote de sachê para o Charlie, a Lola e o Ulisses, meus gatos amados que aceitaram virar livro-de-verdade! (E não levem atum, porque a Lola é membro dos Atumhólicos Anônimos.)
Se estiverem fora do Rio, podem pedir online na Vieira & Lent !
Como contei no post sobre as dez lições da vida acadêmica, meu primeiro trabalho no mestrado foi sobre João Ubaldo Ribeiro. Era centrado no livro Viva o povo brasileiro, cujas quase 700 páginas li apaixonadamente em 1990.
Com a morte do João, deu tanta saudade dos seus romances… Li todos (até então publicados) de uma vez só!
Foi assim. Um belo dia, entrei numa sala de aula da PUC (era meu último semestre no curso de jornalismo) e conheci um aluno três anos mais jovem que se dizia “sobrinho do João Ubaldo Ribeiro”. Um cara incrível, engraçado, poético, falante e bonito. Ficamos amigos. Éramos ambos apaixonados por literatura, por cartas e por escrever. Ele provou que era sobrinho do João mesmo! Toda semana me dava um romance do tio. E ao invés dos textos do curso (de Psicologia da Comunicação), conversávamos horas e horas sobre os livros, as cartas, os artigos, o humor e as ideias do Ubaldo!
O ápice da minha febre-ubaldina foi quando terminei meu sofrido trabalho (já no mestrado) e mandei para o “tio João”. Depois, fui finalmente conhecê-lo em pessoa. Tivemos uma conversinha… Ele ali, naquela simplicidade, na casa da sogra, de chinelos, sem ares de fama. Dei boas risadas. A gente não se deve levar muito a sério, ele disse.
O sobrinho dele também passou a escrever livros, tem vários romances lindos. Fez até uma tese de doutorado sobre o tio (que vai virar livro) e guardou com carinho o presente histórico: a máquina de escrever Remington — exatamente a máquina onde foram datilografadas as páginas mágicas de Viva o povo brasileiro e que vai desenhada aí em cima.
E como consegui desenhar essa máquina para o blog? Porque tenho fotos — ela está na casa portuguesa deste que muitos anos e perdas de cabelo depois se tornou meu namorado…
Deixo com vocês a homenagem que ele escreveu para o jornal O Público (Portugal) na semana da morte de João Ubaldo.
Cartas ao jovem sobrinho
Juva Batella
Quando publiquei o meu primeiro livro entreguei um exemplar ao velho tio e, ansioso como um jovem autor não deveria ser, não esperei passarem-se 24 horas e já o procurei, batendo-lhe à porta, para saber o que havia afinal achado do meu primeiro romance, e ele me puxou para dentro com veemência, como se fugíssemos de repórteres, e me aconselhou aos cochichos a jamais perguntar a opinião de alguém acerca de um livro que se tenha escrito. “Deixe que o leitor se manifeste, querido sobrinho. Jamais pergunte uma coisa dessas!” E me disse meses depois, numa carta, que eu arranjasse, por amor a todos os santos da Bahia, uma ocupação decente, “que não se aproximasse tão perigosamente do ofício de seu tio”. E as inúmeras cartas que recebi dele começavam sempre assim: “Irrepreensível e inadmoestável sobrinho”. E me aconselhou a ler Shakespeare. “Basta isso, sobrinho! E que Deus tenha pena de sua alma jovem! Basta ler Shakespeare, ainda há tempo!, e todo o resto virá naturalmente. E se você me disser que não lê em inglês aí eu deixo de me dar com você, vá ler inglês urgentemente, conselhos do velho tio: há que ler os clássicos! Os clássicos não são clássicos à toa. O que se deve evitar é ler o que escreveram sobre os clássicos, a não ser que o autor do clássico sobre o clássico seja também um clássico, coisa rara, mas encontradiça.” Também me aconselhou a ler Homero, “principalmente A Ilíada, é claro”, e me sugeriu que evitasse as traduções em versos, porque os pés gregos são inimitáveis. E numa das cartas, a maior e a mais divertida de todas, simulou uma entrevista que eu daria, anos mais velho, à revista Fortune, onde, acendendo o meu charuto com uma nota mil dólares, relataria ao curioso e assustado repórter as origens do meu sucesso capitaneando um império editorial sem tamanho. “Mas vê-se que o senhor não é um fumante de charutos…”, assim disse eu, como personagem de João Ubaldo, ao estupefato repórter que me entrevistava para a Fortune. “Qualquer fumante de charutos sabe que o charuto aceso com uma nota de mil dólares tem um sabor inigualável.” E em todo os momentos da minha vida o velho tio praticamente me obrigou a prosseguir em minha “trilha triunfal e adotar como lema Audaces fortuna juvat, que calha muito com o seu nome: a sorte sorri aos audazes! Em frente! Eia Sus!”, escreveu ele, que sempre assinava assim: “Misteriosamente, João Ubaldo Ribeiro”.
Hora de reler o velho tio, linha a linha, e refazer esse traçado que já faz parte de mim.
Ah!, e de vez em quando ele assinava assim: “Do seu velho tio, Ubaldão, o Cruel”.
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Alice News:
Eu — Alice, como você está? Ainda com “zero problema”?
Alice — Não… essa semana estou com problemas.
Eu — Ah, é? Quais?
Alice — Estou… pro-fun-da-men-te precisando de uma coisa.
Eu — O quê?
Alice — Eu me obsessei pelo Felipe Lahm.
Eu — Como assim, filha?
Alice — Eu preciso conseguir um card dele, e dos brilhantes!
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Sobre o desenho: Fiz o desenho sobre a foto da máquina original com uma canetinha para Ipad (genérica, que o Antônio comprou no Japão por 5$) na app Procreate. Depois imprimi, colori com lápis de cor para que a fita da máquina ficasse verde e amarela, e scaneei de novo. Levei quase duas horas para desenhar a máquina e todos os seus detalhes. A melhor parte foi observar com calma cada pedacinho, cada desgaste, e ainda os símbolos antigos de cruzeiro, de libra, de parágrafo… É bem clichê dizer isso, mas… saber que uma peça tão simples produziu uma obra tão gigante me faz lembrar de consumir menos & produzir mais.
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Imperdível: No Centro Cultural dos Correios, no Rio de Janeiro, exposição com obras (e até inéditos) de J.Carlos! Curadoria Julieta Sobral; iluminação impecável do Ronald Cavaliere.