Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Zero problema

UskBcn
Alice adora quando encontra mulher dirigindo táxi. Ontem avistou uma no trânsito e me perguntou:

— Mãe, você gostaria de ser taxista?

Eu — Não, filha, detesto trânsito! E ainda o dia inteiro…

Alice — Ah, mas imagina só: cada passageiro tem uma história para contar! Quando você se dá conta, já acabou o caminho!

Eu — E você, filha, o que gostaria de fazer quando for adulta?

Alice — Hum, será que pode ser “treinadora de futebol da seleção brasileira”? Será que pode ser mulher? Eu acho que pode!

Eu — Deveria poder sim.

Alice — … Ou então: professora de educação física, artista, desenhista, jogadora de futebol e… diretora da Globo!

Eu — Legal, filha.

[e mais tarde…]

Alice — Mãe, estou tão feliz! Atualmente eu tenho “zero problema”.

Eu — Como assim?

Alice — Eu resolvi o problema do cabelo na escola, o da falta da minha bola e o da falta da minha bicicleta, que você buscou hoje.

Eu — Que bom, filha! E como é que a gente faz para ter “zero problema”?

Alice — Ué? É só resolver todos. Resolve um, depois outro, depois outro e assim vai.

Eu — Mas os meus problemas nunca acabam…

Alice — É que nem jogo de futebol, mãe. Não pode sair todo mundo da defesa de uma vez; nem atacar com todos os jogadores de uma vez. Tem que defender quando precisar defender, e atacar quando precisar atacar. E não pode perder a bola.

Eu — Eu sempre perco a bola…

Alice — Não deixe nada te causar problema, mãe.

Eu — É, filha, você tem razão. Quer dizer que você não tem problema…?

Alice — Pensando bem, eu tenho um problema sim: não tenho com quem brigar!

Eu — Como é que é?

Alice — É que o Antônio está viajando! Ah, e tenho outro problema também: a Alemanha vai ganhar a Copa de 2018…

Sobre o blog: Vamos combinar que a semana passada não existiu? Eu finjo que não deixei de escrever o post-de-quarta e de brinde a gente ainda anula os jogos infames da seleção brasileira! Como os jogadores, não sei explicar o que aconteceu: apagão, excesso de Copa, volta às aulas das crianças, mudança número três, obras, gatos, dor nas costas, tudo-isso-junto. Só que não; não adianta dar desculpa. Desde que o blog existe, tive motivos bem piores do que esses para não escrever ou não desenhar ou os dois. Então, bora pra frente. Faz de conta que a semana passada não existiu.

(Mas vamos abrir uma exceção para não apagar a crônica deliciosa do Arthur Dapieve que saiu no Globo na sexta e nenhum dos textos sempre lúcidos do Mário Magalhães no Uol. A Copa ficou melhor com eles.)

Sobre o desenho: Feito no último dia do Simpósio Urban Sketchers em Barcelona, em julho de 2013. Que saudades dessa semana incrível! Queria voltar a desenhar assim… A mistura de cores e materiais foi influência dos workshops que fiz com duas artistas maravilhosas: Inma Serrano e Marina Grechanik. Usei de tudo um pouco: lápis de cor, caneta de pena e nanquim, aquarela, caneta Pentel com ecoline dentro, canetinha Unipin 0.1 e até lápis de cera (acho). Por falar nisso, em agosto acontecerá o 5o. Encontro dos Urban Sketchers no Brasil, em Paraty — ainda dá para participar!

E como alguns têm escrito para saber como se desenvolver no desenho, recomendo a maravilhosa Sketchbook Skool, uma escola online criada pelos ultra-simpáticos e talentosos Danny Gregory e Koosje Koene. Amei o primeiro semestre e estou sonhando com o segundo…


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Sonhando com Ceps

julho2014c

A pior coisa de se mudar três vezes em menos de dois meses é ligar para a Net, cancelar a Net, ter que repetir o seu CPF para a Net, ser chamada de senhora cem vezes pela Net, desistir da Net…

E o Cep? A gente já não decora mais número de celular, vai decorar Cep de moradia provisória? Sim, tem que decorar. Porque atendente da Net não sabe achar o Cep se você disser só o nome da rua. Ele te diz: –“Senhora, essa rua não existe.” ou — “Esse local não tem Net disponível.” — o que é a mesma coisa de não existir, tá subentendido.

Então estou me mudando para um endereço provisório que não existe? Não, calma, Karina. Foi só o Cep que o rapaz da Net não conseguiu achar.

— Moço, o Cep tá aqui: 22222-222.

— Ah, sim, achei. Não se preocupe, essa rua existe sim. Mas não tá disponível.

— Como assim, não está disponível? Já tem outra Net funcionando lá. Eu só quero transferir a minha.

— Sim, minha senhora… Mas se já tem uma, então não está mais disponível…

Bem, vou poupar vocês… Ninguém merece. E daria umas três páginas de post.

O engraçado é que, diante da quantidade de vezes que tive que dar meus endereços nas últimas semanas — o velho, o atual, o da semana que vem e o futuro — sonhei com um calendário cheio de envelopes!

Amo cartas; escrever e receber…  Para minha sorte, sempre tive parentes morando fora do Brasil. Eu era a alegria dos velhinhos da família, pois adorava escrever para eles. Fui tão apaixonada por cartas na infância que me inscrevi naqueles clubes de correspondência que eram anunciados nas revistas em quadrinhos. Cheguei a trocar algumas com desconhecidos Brasil afora — eram amizades virtuais décadas antes do Facebook!

A principal inspiração para os desenhos do calendário de julho foram as cartinhas de amor do pintor Guignard para sua amada Amalita. Tive o privilégio de ver uma exposição sobre essa coleção no Museu do artista em Ouro Preto. (Na imagem acima, são os envelopes com coração vermelho.) Para os demais desenhos, como meu acervo pessoal não está acessível, fui à cata de inspirações na internet.

Sobre o desenho: Linhas feitas com canetinhas Unipin 0,05 e 0,01, depois coloridas com aquarela e lápis de cor. Ah, e sempre esqueço de falar que uso uma waterbrush (caneta de aquarela) com uma aguada de nanquim ou de ecoline sépia para fazer as sombras. Como uso papel de impressora comum, acho que as sombras ajudam a destacar um pouco mais o desenho.

 


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Aprendendo a desescrever

 Sorelle

A pessoa nascida com uma autoestima mais ou menos leva uma baita vantagem na hora de escrever. Não que eu seja desse tipo, imagina! Mas aprendi com uma amiga escritora que me contou tudo o que agora relato para vocês:

1) Escrever é um pouco como morrer, desapegar. Precisa esquecer do telefone, da porta, do gato miando, da conta de luz, do almoço de amanhã. Coisa fácil para quem já tem pensamentos negativos e vontade de ficar na cama o dia inteiro… Para afastar esses devaneios, minha amiga tem um segredo: “Anoto em um caderninho e esqueço; com o tempo, aprendi a pensar menos”.

2) Quando tiver que escrever algo grande, de fôlego, minha amiga aconselha: “Deixe o resto da vida o mais sem graça possível”. É muito mais fácil abrir mão de uma vidinha insossa e pensar que tudo-será-melhor-no-texto (ou depois-do-texto). Imaginem se os “populares” têm tempo de administrar a beleza, o telefone, os convites, os amigos e ainda as próprias produções literárias?

3) “É natural para o cabeça-baixa ser um pouco cruel consigo mesmo”, afirma minha amiga escritora. Daí advém a sua facilidade de praticar um ato que costuma melhorar qualquer texto: cortar, cortar, cortar! “Atacar sem dó os advérbios e os adjetivos já te leva para lá da metade do caminho para escrever bem”, ela diz. Se forem excluídos e não fizerem falta, que descansem em paz. Se deixarem alguma lacuna, é porque falta informação; nada que um substantivo não resolva.

4) Outro corte que sempre alegra o escritor tristonho é o das palavras-muletas, aquelas que a pessoa tem mania. Minha amiga explica: “Tive um aluno que escrevia ‘destarte’ a cada três parágrafos. Quando encontrei o quinto, dei um ataque: des-car-te todos ou não te oriento mais!” A maioria das pessoas tem mania de “muito”, “mas” (eu!), “mesmo”, “bastante”, “sendo assim”, “sempre”, “nunca”…

5) O derrotado geralmente se acha comum demais, sem destaque, sem personalidade. Outra vantagem! Já imaginaram se cedesse aos chavões e aos jargões? Já basta ser joão-ninguém nessa vida, não dá para escrever igual ao que todo mundo já escreveu… Essas pragas grudam na mente e se escondem até nas linhas das melhores famílias… (Viram? Já se infiltrou um chavão aqui!)

6) Outra característica da pessoa com dificuldade na vida social é o medo de se tornar invisível. Resultado: nunca esquece de colocar um sujeito nas suas frases! Minha amiga concorda. Não aguenta ler que “essas questões não são tratadas de forma crítica…” Opa? Por quem? Pela tia Noquinha ou pelo Otavio Paz?

7) Por não se achar o tal, o escritor caidinho também nunca imagina que alguém vá concordar com ele. Então, nada de usar aquele “nós” majestático dos textos acadêmicos de antigamente. Minha amiga exemplifica: “Nosso cotidiano” não é o mesmo, “nosso ponto de vista” nunca foi, “nosso futuro” não será. O texto tem que destrinchar quem é quem nessa salada. Se houver um “nós”, que se diga direitinho quem faz parte dele.

8) E para minha amiga com baixa autoestima aprender tudo isso, como foi? “Foi sofrido”, ela diz. “Mas essa é outra vantagem de não ser o tal: sempre achamos que podemos revisar mais uma vez. E é nessas muitas revisões que os problemas do texto vão embora.”

Ah, preciso parar por aqui… Minha amiga ficou cansada da conversa. Como eu, ela passou boa parte da vida lendo livros de entrevistas com escritores. Todos os volumes famosos que saíram em português; e também a deliciosa trilogia com escritores brasileiros editada pela Edla Van Steen, uma raridade nesse meio tão masculino. E nós duas chegamos à mesma conclusão: ser meio fracassado é uma baita vantagem para aprender a limpar o seu texto, a tirar da frente tudo que atrapalha, dos pensamentos erráticos às palavras e ideias sem sentido. Ou, como disse melhor a minha amiga, é uma baita vantagem para aprender a desescrever.

Sobre o desenho: Eu queria ter colocado os novos desenhos do Antônio nesse post, mas não deu porque ele esqueceu o caderno em algum lugar… Resolvi então postar esse, feito no café Sorelle e inacabado… Como acabei gostando mais das partes incompletas (sempre desconfie de assuntos marrons!), achei que combinava com a ideia desse post, uma especie de “menos é mais” da escrita. Os materiais utilizados: canetinha Unipin 0.1, aquarela, lápis de cor e caneta branca Gelly Roll Sakura.


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Leite de vó

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Imersa na casa da minha vó, bem que eu podia aproveitar para me afogar em lágrimas e saudades… Ninguém teria o direito de reclamar. Afinal, na semana que vem, vai fazer um ano  que ela se foi, aos 98. Até pensaram que ela ia morrendo de véspera… Mas não. Toda vez que chegávamos ao hospital, ela bem magra e fraca, os médicos balançavam a cabeça… Só que ela abria os olhinhos verdes e perguntava: “Como vai o Rodriguinho, seu filho? E a Dona Amélia, continua trabalhando no seu consultório?” O doutor não acreditava: “Mas, dona Lydia, a senhora lembra do nome do meu filho e da minha secretária?” E ela: “Ah, e a sua coluna, melhorou? Tem feito fisioterapia?” Era impossível não sorrir. E ninguém tinha coragem de colocá-la para dormir, nem de dar só um remedinho… Bora curar. E ela curava, desafiava a idade e voltava a nos surpreender.

Quando nasci, descobri que não era fácil ser neta dela. Sempre tive uma quedinha pelo direito de sofrer. Mas vinha a minha avó, me botava na cadeira de balanço e começava: “Era uma vez uma fazenda muito bonita onde vivia uma menina feliz…” Era a história dela, ligeiramente editada, digamos. A menina tinha sido feliz até os sete anos, ok. Mas então perdeu a mãe! Depois, mais um pouquinho, lá se foi o pai, ela com doze. Depois, passou até os dezesseis cuidando da irmã com uma tuberculose-que-só-milagre. E isso lá podia ser “infância feliz”? Pois era, assim ela repetiu a vida toda.

Depois que o vovô morreu, achei que seria um baque. Mas ela mudou da casa em que viveu 50 anos como quem passa no vestibular. Bora decorar, fazer obra, botar armários! (Meu avô nunca entendeu a necessidade de mais armários.) Não, não era falta de saudades ou de amor no casal. Era a vontade de viver dela que sempre prevalecia mesmo.

Um dia, ela já viúva, cismei que tínhamos de voltar nessa fazenda fantástica das suas histórias. (Quem sabe eu achava o graal por lá? O que ela teria bebido antes dos sete anos?) Meio a contragosto, ela concordou com minhas sanhas de passado. Fomos, olhamos, tiramos fotos, tomamos chá com umas amiguinhas de infância e ela decretou: “Ah, deixa isso pra lá! Só tem velho!” É. É que ela não envelhecia nessa época, pelos 70.

E eu tentando chorar o meu pobre apartamentinho vendido, onde meus filhos nasceram e cresceram… Aqui nessa casa não rola. A Socorro, que trabalhou com minha avó por muitos anos, veio outro dia conversar comigo. Eu perguntei: “Sobre o que ela falava com você nos últimos tempos?” E a Socorro respondeu: “Ah, sobre as festas de aniversário que ela ia fazer! Para os 99, cismou que seria um jantar com macarrão da Otília. E eu dizia: — Dona Lydia, macarrão para muita gente não dá. Esfria, fica mole. Mas ela era teimosa. E para os 100, ela disse que só chamando a Fafá de Belém para cantar Ave Maria!”

Assim não dá para competir… Eu querendo sofrer um pouco com meus probleminhas, com os males do Brasil e do mundo… E a energia da minha avó, presente nessa casa e nas suas coisas, não deixa. Aqui bem na minha frente está o computador dela! Até uns 97 ela mandava e-mail e quase teve tempo de aprender a usar seu perfil no Facebook.

Não, tragédias não faltaram. Eu contei só as da infância. A mulher tinha uma força para seguir em frente que só vendo! Aproveito para pegar uma casquinha nessa temporada e passar um pouco para vocês. Porque força de viver é que nem leite de mãe: quanto mais a gente dá, mais tem!

Sobre o desenho: Coisas da cozinha da vovó que desenhei para o calendário de junho de 2014, em homenagem ao primeiro aniversário da nossa despedida. Fiz as linhas com canetinha Unipin 0.1, as cores primeiro com aquarela e depois alguns retoques com lápis de cor. Não sei se já contei aqui da felicidade que foi comprar meus primeiros Prismacolor, aproveitando a ida de um sobrinho aos EUA. São incríveis, são tudo que todos dizem de bom!

Livro da semana: Ah, e por falar em avós, essa semana comprei o livro da incrível Nora Rónai, “Memórias de um lugar chamado Onde”, editora Casa da Palavra. Leitura maravilhosa garantida para as férias forçadas da Copa!


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Portão D

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No meio da mudança, aproveitei para doar alguns livros e devolver outros que estavam emprestados. Mas um volume acabou no dono errado e, quando todas as caixas já tinham ido para o guarda-móveis, eis que me aparece de volta. Sabe aquele objeto que fica rodando de canto em canto, sem destino? Pois assim ficou o livrinho meio bege, meio rosa, no nosso lar provisório. Até que há uns dias, órfã da biblioteca, e sem vontade de avançar (e arrependida) do único volume que trouxe pra cá, fui ter com o dito cujo.

Pulei a introdução e o prefácio. Prefiro só ler explicações sobre obras de literatura depois de lê-las por mim mesma. (Também tenho horror de ver trailer de filmes que pretendo assistir.) Não é frescura, nem superstição. É simplesmente porque adoro a sensação de fazer descobertas, de sentir que estou tateando em busca de segredos e pistas, como nas caças-ao-tesouro da infância.

E que surpresa maravilhosa eu tive! O livro chama-se “Ladrão de casaca: Uma aventura de Arsene Lupin”, de Maurice Leblanc (trad. de Paulo Hecker Filho, Ed. Nova Fronteira). Aventura, suspense, romance, ironia, mistérios de quebrar-a-cabeça. Estou só no terceiro capítulo e já comecei a diminuir o ritmo com pena de acabar logo…

Não, não vou contar nada da história. Só resolvi trazer o assunto para o post porque ontem, tentando animar meus alunos a avançarem nas suas experiências etnográficas, me lembrei de como é importante saber “brincar de detetive” quando fazemos uma pesquisa. Sair de casa com uma pauta pronta deixa tudo sem graça.

Muitos já escreveram sobre isso, mas gosto especialmente do texto “Sinais: raízes de um paradigma indiciário” do historiador italiano Carlo Ginzburg (capítulo do livro “Mitos, emblemas e sinais”, editado pela Companhia das Letras). Ele escreve sem cerimônia sobre Sherlock Holmes, Freud, Galileu, Voltaire e outros autores de várias épocas, numa mistura divertida e empolgante sobre o tema da investigação científica.

Bem que eu desconfiava que a minha intensa formação em Agatha Christie tinha sido uma boa introdução às ciências sociais! Como Poirot podia descobrir a solução de um crime mostrando que sua testemunha “via” com a imaginação (o que esperava ver) e não com os “olhos” sem um doutorado em semiologia?

Tive a sorte de me encontrar com o mundo dos sinais e dos signos na faculdade de comunicação. É uma forma de olhar o mundo como se fosse um quebra-cabeça, um segredo a ser desvendado, um portão que se abre, quem sabe, para o país das maravilhas ou só para uma imensa obra do metrô.

Ah, e claro: fui examinar o volume perdido do Ladrão de Casaca! E não é que descobri o dono? Num cantinho das páginas iniciais estava o nome do meu irmão e o ano 1975 escritos na caligrafia da minha mãe. O pobrezinho tinha 11 anos nessa data e já devia dar sinais de que não ligava muito para a leitura… Alguém que perde um livro desses não o merece de volta, merece? Pois eu é que não vou devolver!

Aflita com a falta de assunto, perguntei para a Alice pela manhã: “Tem alguma ideia para o post de hoje, filha?” E ela, rápida: “Ah, escreve sobre mim, sempre faz sucesso!”

Sobre o desenho: Esse “Portão D” do desenho fica no cruzamento da R. General Venâncio Flores com Av. Ataulfo de Paiva no Leblon. Fui dar uma volta no canteiro de obras do metrô, e até consegui espiar o lado de dentro, mas acabei preferindo a ideia de retratar esse pedaço de escavadeira encoberta. Aliás, nem sei se é escavadeira mesmo. Preciso voltar para olhar direito. Como sempre acontece quando desenho, há detalhes que só passo a  enxergar quando estou desenhando. Uma das melhores coisas dessa cena foi descobrir que a cadeirinha azul (no canto esquerdo) estava com os pés traseiros enfiados para dentro do plástico. Adorei achar esse pedacinho de improviso em meio a uma obra tão imponente.

Desenhei no caderninho velho-novo (o mesmo desse post aqui) com canetinhas, aquarela e lápis de cor a partir da observação e depois com a ajuda de uma foto feita com celular para me lembrar dos detalhes. Queria ter conseguido fazer uma Kombi branca, cheia de escadinhas, parada à direita, mas não tive fôlego. Vai chegar o momento, me disse o Antônio, em que vou poder desenhar (e ler!) o dia todo, como a Lisa Congdon, uma das artistas que está inspirando desenhos lindos dele! Em breve vou postar aqui.


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Planos para 2015

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“Minha mãe? Ela é mais bonita do que ela pensa que é.” Essa foi a frase que ganhei de presente do Antônio no domingo. Estou até agora processando, porque aprendi na antropologia que devemos “levar a sério o que dizem os nossos nativos”. Assim ensinava a professora Lygia Sigaud, que não nos deixava respirar se percebesse uma mínima hesitação na nossa convicção etnográfica.

Levar a sério o que dizem os “nativos” (palavrinha simpática se usada com humor, vamos combinar) não é tomar suas ideias como verdades, ela dizia. É pensar sobre o significado dos seus ditos a partir do contexto e das relações envolvidas, isto é, levando em conta quem diz o quê para quem, em quais circunstâncias, tempo e lugar.

“Eu sou mais bonita do que penso que sou?” perguntei, entre feliz e preocupada… “Sim, mãe, é sim!”, ele acrescentou num tom solidário: “Sua auto-estima é que não anda lá essas coisas…”

E ele dizia isso para mim e para si próprio, tenho certeza…

Tudo bem, conheço meia dúzia de pessoas que “se acham” mais do que são. Mas eu e todas as outras precisamos do elogio do Antônio: somos melhores do que pensamos que somos.

Sobre o desenho: Esse desenho foi feito em 2012 quando fui acompanhar um amigo até a estação das barcas, na Praça XV.  Usei canetinha preta e lápis de cor. Escolhi a imagem para esse post em homenagem ao Elias, pipoqueiro que fica em frente ao colégio onde os meus filhos estudam. Faça chuva, faça sol, ele está lá, sorrindo para todos. As crianças atropelam a fila, querem chiclete com pipoca e mate pra ontem, colocam as moedas por todos os lados, e o Elias sempre gentil e de bom humor. Algo me diz que a auto-estima dele é melhor do que a minha. Então, bora parar de frescura e me aprumar para o próximo dia das mães!

 


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Love maps

lovemaps2

Às vezes é preciso esquecer a lógica e sonhar… Nesse desenho, de 2011, imaginei um resultado do Google Maps que unia Brasil e Portugal numa tela só. Esse é o mundo em que vivo hoje, com filhos amados separados pelo Oceano Atlântico, mas unidos por uma felicidade imensa quando estão juntos.

Alice B., Alice K., Clara e Antonio: que esse mapa esteja sempre presente na vida de vocês!

Sobre o desenho: Canetinha nanquim e lápis de cor, com detalhes da tela do Google Maps (da época) e também de desenhos de Steinberg para a New Yorker (setas e pássaros). No meio do mapa, fiz o impossível: uma serrinha ligando Oeiras ao Rio de Janeiro…


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Mãe, não esquece, tá?


cenacasa

Alice, aos seis anos, estava com tosse há dias… Tentei dar antialérgicos (vários, mas numa sequência científica, claro, porque fui médica na outra encarnação). Mas tem uma hora que olho de mãe… Vi que ela estava caidinha e febril… Achei melhor ir logo para a emergência pediátrica. Peguei-a no colo, menos por necessidade, e mais por vontade de tê-la bem perto de mim. Descendo no elevador, ela se animou um pouco:

Alice — Vamos de carro ou de táxi, mãe?
K — De táxi, filha, porque não quero me preocupar em estacionar…
Alice — Ah, foi por isso que você pegou minha mesada?
K — É, filha, eu peguei, mas amanhã eu devolvo. Porque táxi tem que ter trocado.
Alice — Ah, mãe, não esquece, tá?

[Na portaria]
Alice — Mãe, olha lá a vovó. Ela vai ficar preocupada de me ver saindo no seu colo!
K — Depois eu explico, filha.
Alice — Não esquece, tá?
K — Não se preocupe: acabei de lembrar que eu disse para a sua vó que você estava febril hoje de manhã.
Alice — Ah, tá bem. E depois eu conto pra ela.

[No táxi]
K — [Pro motorista] Boa tarde, vamos para o Copa D’Or por favor.
Alice — Mãe, que lugar é esse? Você não falou que era hospital?
K — É sim, filha. É um hospital chamado “Copa” de Copacabana, que é o bairro; e “D’Or” que significa “de ouro”, em francês. E eles têm outros chamados: Barra D’Or, São Cristóvão D’Or… ops, não, não é São Cristóvão D’Or, filha, é Quinta D’Or, que eles acham mais chique, mas fica em São Cristóvão.
Alice — Ah… Entendi. É que nem shopping.

[No consultório da médica, já depois que a radiografia indicou que era pneumonia]
Dra — Ela teve febre?
K — Ah, teve sim, uns 37 graus e 6, mas só hoje de manhã.
Alice — Não, mãe: foi só 37 graus e 3. Tem que esperar apitar três vezes [o termômetro].
K — Não, Alice, foi 37 graus e 6!
Alice — Mãe… [muito desconfiada]
Dra. — [Já achando graça:] E quanto ela pesa?
K — Ai… não sei bem… Uns 21, 22 quilos?
Alice — hãã? Mãe??? Eu peso entre 19 e 20! [a balança deu 20.900]
Dra. — Tem que dar o antibiótico 3 vezes ao dia, nos horários certos, está bem?
K — Claro, posso fazer às 7h, às 15h e às 11 da noite?
Alice — Uhuu… vou poder dormir bem tarde!!!
K — Nada disso, filhinha. Você dorme cedo e eu te dou o remédio com você dormindo.
Alice — Ah, então vou poder acordar a hora que eu quiser!
Dra — Você acorda cedo, Alice?
Alice — Eu acordo, mas a minha mãe só gosta de acordar às dez horas da manhã!
K — Filha? Mas eu acordo às 6 para ajudar o seu irmão a ir para a escola?
Alice — Ah, sim, você acorda, mas depois volta pra dormir!
K — Não é nada isso, Dra. É que hoje eu voltei para tentar fazê-la dormir mais um pouco… [maior mentira]

[E seguiu-se uma não tão breve discussão sobre o horário em que ela queria tomar os remédios e sobre os meus maus hábitos…]

Alice — Ah, e quantos dias eu posso faltar a escola?
Dra. — Alice, quero que você fique pelo menos uma semana em casa.
Alice — Uhhu! Mas e o futebol? Eu posso jogar futebol?
Dra. — Não, Alice, acho melhor você ficar bem calminha e descansar.
K — E usar meias, não é, doutora?
Dra. — Isso: usar meias o tempo todo. Nada de pés descalços. [Ufa, uma vitória da mãe]
Alice — Mas isso pega? Eu posso ficar perto da minha vó e do meu irmão?
Dra. — Não, não pega não.

[E à noite antes de dormir]
Alice — Mãe, tem que lembrar de colocar o despertador para não esquecer a hora do meu remédio, tá?
K — Tá bem, Alice, não vou esquecer.
Alice — Mãe, amanhã tem que avisar a escola. Ah, e pedir para eles mandarem meus deveres-de-casa pelo Antônio. Não esquece, tá?
K — Tá, filha, claro.
Alice — Ah, e liga também para a Rose, para avisar que eu não vou no transporte, tá?
K — Pode deixar, filhinha. Descansa…
Alice — Quantos remédios eu vou tomar?
K — Dois.
Alice — Só dois?? Mas e aquelas horas todas que a médica falou?
K — Sim, desculpe, filha: são dois tipos de remédios, mas tem que tomar várias vezes por dez dias. dá um monte.
Alice — Mãe… só mais uma coisa… Eu já vou tá boa pro aniversário da Vilani? [a ex-babá dela, super querida]
K — Vai sim, filha, muito boa!
Alice — Não esquece, tá?

Sobre o texto: O texto (e o desenho) são de maio de 2012. Só penso em coisas boas quando vejo essa imagem. Além da paz de vê-los lendo e felizes, lembro que o desenho foi colorido por nós três juntos. Eita época boa em que as crianças gostavam de desenhar comigo! Foi nessa fase também que a Alice começou a se divertir com as revistinhas em quadrinhos do irmão. Ah, e não se preocupem: ela enjoou de me controlar em tudo — quer dizer, desde que eu não esqueça de buscá-la na capoeira e de ligar para a mãe do seu melhor amigo para combinar um programa!

Sobre o desenho: A qualidade da imagem está ruim (o fundo parece azul!) porque o desenho foi feito em papel A3. (Que coragem eu tinha!! O A3 é o dobro do A4, tamanho comum que usamos para as impressoras). Por isso, não consegui escanear, só fotografar e depois ajeitar (mal) com Photoshop. O material utilizado foi um bloco de desenho comum (daqueles de criança), canetinhas nanquim (provavelmente 0.3) e lápis de cor. Tudo feito a partir da observação da mesa da sala e de parte da cozinha da nossa casa, com participação da gatinha Lola e da sapa Trancs.


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Alergia aos imperativos

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Não sei bem como começou a minha alergia aos imperativos. Talvez com a mania da minha avó de ir a videntes, que ela chamava carinhosamente de “pitonisas”. Ciganas, mães de santo, leitoras de cartas e de borras de café; mas também padres, rabinos, monges, budistas e médiuns. Todos tomavam café com ela.

Era uma espécie de novela. Você sentava e ouvia a previsão dos negócios, das doenças, dos casamentos, da chegada do sucesso ou das viagens. Tinha suspense, intervalos e próximos capítulos. Às vezes ela brigava com um deles, decepcionava-se. Ou ao contrário: elegia um guru, virava macrobiótica ou crente do dia para a noite. Ninguém se metia. “Coisas da vovó”. Duravam pouco e ela logo voltava para seu mix místico.

Eram gentes de todos os tipos, que nos levavam a visitar bairros longínquos, onde entrávamos nas suas casas ou templos, com respeito, fossem pretos, brancos, pobres, ricos, velhos, jovens, simples ou complexos. Alguns viravam conselheiros, confidentes, e até os melhores amigos pela vida toda.

Eu adorava minha avó, e me apaixonei pelo seu sonho de prever o futuro. Acompanhava suas excursões e, mais crescida, comecei a arriscar algumas visitas sozinha. Lembro de uma cigana, no alto da ladeira dos Tabajaras — olha o João do Rio aí — numa casa surpreendentemente branca e cheia de tapetes. Ela foi firme: eu ia “casar com um estrangeiro, que gostava de papéis e tinha olhos azuis.” Outra vez, fui numa senhorinha muito distinta que lia borras de café. E lá vinha o futuro: era certo o meu casamento com um homem alto, “estrangeiro e de muito estudo.” Variava a ordem, mas a previsão era consistente! Fazer o que? Cliente meio loira, com sobrenome estranho e cara de boa aluna (já de óculos desde cedo)…

Só que não. Eu não queria casar: queria ser grande (para bater nos meus irmãos) e fugir de casa para escrever e desenhar (lembram?).

Admito: ganhar na loteria não era uma má ideia. Será que elas não poderiam ver os números para mim? Não era para isso que serviam as numerólogas, tão na moda nos anos 1980? Não. Elas serviam para dizer que você deveria mudar de nome. Era só eu me chamar “Karynnah” e tudo ia dar certo.

Até que caiu a ficha. Nada mais de videntes e bilhetes da sorte. Confesso que pensei em casar com o meu primeiro namorado, bem moreninho, de olhos pretos e péssimo aluno. (Se eu não confessar, minha irmã vai me delatar nos comentários…) Felizmente acordei a tempo e acabei casando com um ator de teatro no Circo Voador.

Foi assim que peguei alergia aos imperativos. Não, não por culpa do ator; e nem do pai, nem da mãe! Meu pai não estava nem aí (literalmente). E minha mãe foi revolucionária à sua moda nos anos 1970. Acreditava no construtivismo e seu lema estava mais para “se vire” do que “me obedeça”.

A alergia veio mesmo é das previsões de pitonisas e dos manuais de auto ajuda ruins. Eles te dizem: “leia, cuide, seja, trabalhe, estude, corra, compre, medite, tome, faça”. Fico logo empolada: — “Ah, vão se catar. Vão mandar na vovozinha, que eu odeio que mandem em mim.” E também não mandem na minha falecida avó, pois no fundo ela ouvia a todos, mas só fazia o que queria.

(Ok… Não fica bem uma antropóloga escrever isso… Afinal, nas ciências sociais passamos metade das nossas vidas falando para os alunos sobre o poder da “coerção social” ou das “leis de ferro da oligarquia” — que eram de bronze, no original, mas o tradutor deve ter achado o material fraquinho, e pôs logo o ferro para assustar. Mas, convenhamos, se estamos ensinando sobre essas forças “invisíveis” há mais de um século, elas não são tão invisíveis assim, né? Até minha filha de oito anos sabe que o Obama lê o Facebook dela.)

Quando se liga o “radar anti-imperativos”, é como tomar uma vacina. Nenhum salvador de plantão te pega; nem vidente que quer te casar com turista, nem jogos de azar, nem anúncio da coca-cola, nem filósofo francês que descobriu o Graal, nem autor da moda que anuncia a solução final da antropologia.

Não é desacreditar de tudo. É tomar distância de quem profetiza que agora “o mundo tem que ser assim”.

Prefiro desenhar, contar histórias… e, principalmente, não mandar na vida de ninguém. 

Sobre os desenhos: Pedacinhos de um caderno de campo feito em Lisboa em 2013, para homenagear meu namorado, o homem mais gentil, doce, alegre, criativo e lindo da face da terra; e também muito, muito alérgico, como eu, a todos os imperativos e vontades de comandar as pessoas. Utilizei canetinhas Unipin 0.2, aquarela e lápis de cor, num caderninho de papel comum, mas com capa linda, e que agora só é vendido na Inglaterra… Aliás, se alguém tiver um endereço UK para me ajudar a comprar outros, agradeceria muito! *__*  (Para todos com mais de 18 anos: essa carinha à esquerda foi sugerida pelo Antônio. É um emoticon que significa “olhinhos brilhando”. Eu tinha digitado outro que, segundo ele, era impublicável… Vai saber!)

Agradecimentos: Na semana passada tive os meus cinco-mil-cliques-de-fama… Agradeço a gentileza dos que leram, likearam, compartilharam, comentaram. Prometo que não vou sucumbir ao sucesso, nem tentar postar coisas interessantes por várias semanas, de modo que possamos voltar aqui aos trinta e dois leitores e às bobagens de sempre. Lições demais também atrapalham!


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Vendo a vida voar!

bikeakc

Vocês não sabem, mas esse blog tem um conselho editorial. Ou melhor, tem um conselheiro/copidesque/revisor/editor-adjunto que desde o primeiro dia vem trabalhando nos bastidores para me ajudar a manter um padrão de qualidade gráfica e textual além, claro, de bom humor, que é o propósito de tudo que fazemos. Hoje, porém, ele está de folga. Pela primeira vez vou ter que me aventurar a publicar um post aqui sem a sua ajuda.

Ele nasceu de madrugada, completamente cor-de-rosa e careca. Foi logo fazendo xixi em cima de todo mundo. Estava morrendo de fome mas aprendeu rápido que seu destino era mamar e ter uma página na internet. Aos dois meses, sua homepage já tinha dezenas de leitores. Quando ele soube do sucesso, deu gritinhos de felicidade agarrado a um tigre laranja. Desde essa época, seu poder de concentração nos admirava mais do que os olhos azuis. Adorava dormir e chorar em doses quase iguais. Aos três meses, dominou o chocalho e passou a gostar de tomar banho — uma prova de como as pessoas mudam! Tornou-se um ás nas gargalhadas aos quatro meses, começando com segurança sua carreira de conquistador. Para ajudar, nasceram nesse época uns quatro ou cinco fios do famoso cabelo. Aos sete meses, apaixonou-se por um telefone colorido, numa espécie de premonição sobre qual seria seu objeto do desejo treze anos depois. Os exercícios lhe causavam uma certa preguiça, assim como qualquer tentativa de comer coisas diferentes — taí uma personalidade estável! Aos oito meses começou nos estudos da linguagem e não parou mais: hoje sente necessidades extremas de comprar coleções de livros em inglês. Dominou as palminhas aos nove meses e dispensou para sempre a chupeta, num ataque de raiva e sono. Aos onze meses e vinte e dois dias, anotações em seu diário diziam: “anda bem sozinho, quase corre”, “dá tchau”, “aponta com o dedinho”, pede “água, colo, mama, papa”, “encaixa potes e blocos”, “brinca de pique com a mamãe”, “gosta de bonecos de bichos”.

diario11meses

Nos anos seguintes superou alguns traumas: teve o dedo mordido por uma tartaruga no Jardim Botânico, assustou-se com pesadelos com João Ratão (aquele que caiu-na-panela-do-feijão no dia em que deveria se casar com a dona Baratinha), aprendeu a gostar de pipoca, quebrou o braço e entendeu a diferença entre ter pais antropófagos ou antropólogos. Apaixonou-se perdidamente por quebra-cabeças, bichos de plástico, bichos de verdade, gatos, pinturas, desenhos e todas-as-viagens-do-mundo. Aos cinco meses, já demonstrava um amor incomensurável pelos livros. Foi batizado com Dr. Seuss, Lygia Bojunga, Sylvia Orthof, Pippi Meialonga, Pequeno Nicolau, Ruth Rocha… Mas se graduou sozinho com os sete volumes de Harry Potter, enciclopédias Larousse, mitologia grega, Desventuras em Série, quadrinhos, mangás, Senhor dos Anéis e um mundo de volumes. Os novos amores são a música, a fotografia e ver a vida passar voando numa bicicleta!

Nenhum dos seus talentos, porém, supera a sensibilidade para perceber o sentimento do mundo, para olhar nos nossos olhos e perguntar — “Tá tudo bem com você?”

E hoje te respondo: — “Tá tudo bem sim, filho; tá tudo ótimo! Sou a mãe mais feliz do mundo no dia do seu aniversário de treze anos!! Você me surpreende, me encanta e me ensina a ser uma pessoa melhor todos os dias.”

Sobre os desenhos:  Essa é a bicicleta nova-usada que compramos há quinze dias como presente de aniversário adiantado. Desenhei meio correndo, no intervalo entre as voltas que ele dava sem parar. Resolvi deixar todas as tortices e manchas assim mesmo, sem tentar fazer “outro melhor”. Acho que é um bom lembrete para nós dois de que a vida é feita de coisas que funcionam e outras que nem tanto, mas mesmo assim temos que seguir em frente e dar risada. Para desenhar, usei aquarela, canetinhas e lápis de cor. Uma parte fiz ao vivo, mas terminei os detalhes olhando uma foto. O outro desenho é uma página de um dos caderninhos-diários que venho fazendo para o Antônio desde que ele nasceu.