Karina Kuschnir

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Feliz aniversário, Jane!

Hoje, 16 de dezembro, Jane Austen faria 249 anos! Vovó Jane nasceu em 1775 em Steventon, Inglaterra. Suas obras não são os romances água com açúcar que a gente vê na Netflix. Ao contrário, se olharmos com cuidado, veremos que a maioria dos casamentos de suas histórias são péssimos, cheios de implicâncias, tédio, jogos de interesses e, sobretudo, péssimos maridos — até os que se casam com suas heroínas. Suas personagens mulheres são bem mais interessantes, tanto por suas qualidades quanto por suas imperfeições, deslizes, dramas e erros que a autora faz questão de nos mostrar.

Não sou nenhuma Agatha Christie (que homenageou Jane batizando Miss Maple com seu nome de batismo), mas honro a memória da senhorita Austen com trechinhos de um de seus livros menos conhecidos, A Abadia de Northanger (1817). Este livro, pra mim, simboliza a luta (e o fracasso) de Jane para se estabelecer como autora com rendimentos à altura de sua obra, enquanto estava viva. O manuscrito foi vendido, depois recomprado e editado por ela que, infelizmente, morreu antes de vê-lo pronto.

O aniversário é de Jane, mas o presente foi ela que escreveu para nós. Sua narradora-autora de Northanger Abbey surge aqui e ali na história, conversando conosco com um jeitinho cúmplice e irônico que tantas vezes vimos suas personagens incorporarem. Neste livro é a própria Jane que nos fala, desde o prefácio com a advertência sobre as vicissitudes da publicação, até a justificativa de entregar ao público uma heroína meio burrinha:

“As vantagens da tolice natural em uma linda menina já foram estabelecidas pela excelente pena de uma autora irmã*. E à forma como ela tratou o assunto acrescentarei, por justiça aos homens, que, embora [para eles] a imbecilidade nas mulheres seja um grande aprimoramento de seus encantos pessoais, há uma porção deles (…) muito bem informada para desejar algo mais na mulher do que a ignorância”. (AN, p.103, estes e demais grifos são meus)

Quase 100 páginas depois, após nos contar as desventuras de Catherine Morland em Bath, Jane ressurge no texto culpando-se pelos insucessos de sua protagonista, que não volta em triunfo à terra natal, como lamenta a autora:

“Minha tarefa, porém, é completamente diferente; trago minha heroína de volta para casa em solidão e desgraça (…). Uma heroína viajando em uma carruagem de correio é um golpe tão forte nos sentimentos que nenhuma (…) compaixão pode suportar.” (AN, p.210)

Como em outros romances de Austen, a leitura é um remédio para a tristeza e até para alegria demais. Em A Abadia de Northanger, o conselho vem da mãe de Catherine com ironia. Receando que a filha esteja entediada por não morar numa casa grandiosa como Northanger, recomenda:

” — Tem um ensaio muito bom em um dos livros lá em cima que fala desse assunto: é sobre moças que se tornam mimadas demais para suas próprias casas depois de conviver com pessoas de classe social mais alta. (…) acho que lê-lo lhe fará muito bem.” (AN, p.229)

Fico pensando em como Jane Austen conseguia ser tão sensível a emoções como a desta mãe diante de sua adolescente insuportável! Está claro que foi o bom-humor da própria autora que a embalou nessa narrativa que é simultaneamente da personagem e do próprio romance. Ao se surpreender com o amor do herói pela heroína, Jane se explica ao leitor:

“Esta é uma circunstância inédita nos romances, reconheço, e terrivelmente aviltante da dignidade de uma heroína. Mas, caso isso também seja inédito na vida corriqueira, pelo menos a honra de ter uma imaginação extravagante será toda minha.” (AN, p.232)

E é nesse espírito de galhofa que Jane comenta a necessidade de resumir sua história para não nos aborrecer; de fingir que Catherine não recebia correspondências clandestinas, nem que seus pais “viravam o rosto para o outro lado” ao vê-las chegar. Faz concessões mencionando personagens que não pertencem à fábula e termina entregando aos leitores a decisão de escolher qual a moral da história preferem!

Obrigada, querida Jane, por tudo que você criou, pensou, leu, escreveu e nos brindou nesse mundo. Que seu aniversário seja sempre uma oportunidade de reler, sorrir e chorar contigo.

Abaixo, uma outra Jane, em forma de mini estátua, do Instagram da Helô Righetto, que dá dicas, faz lives e ainda tem um ótimo podcast sobre Jane Austen com Rapha Perlin — sou tão fã das duas que até ganhei brinde!

Sobre o livro: As citações acima são do volume “A abadia de Northanger”, de Jane Austen. Tradução de João Sette Camara e Marcelo Barbão. Jandira, SP: Tricaju, 2021. *A pena da autora-irmã indicada na primeira citação é uma referência ao romance Camilla, de Fanny Burney, muito em voga na época da redação original do livro (1803).

Dica de podcast sobre Jane Austen: “É uma verdade universalmente reconhecida … por @raphaperlin e @helorighetto, intitulado em homenagem à frase de abertura do romance “Orgulho e preconceito”.

Sobre os desenhos: Desenho de abertura: página de um caderninho Laloran com três pétalas de orquídea coladas com fita mágica (do lado esquerdo) e três pétalas de orquídea desenhadas com lápis grafite e aquarela por mim em 2023. A ideia dessa imagem foi brincar com o que é real e o que é pintura, como a autora brinca com sua narrativa. Ao escanear, ficou mais visível a presença da fita mágica que quase não se vê ao vivo.

Desenho da estátua de Jane com base na foto que ilustra o podcast. Feito num caderninho de folha comum, com canetinha Pigma Micron 0.1 e sombras com caneta pincelTombown (provavelmente cor 75).

Você acabou de ler Feliz aniversário, Jane!”, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 

Como citar: Kuschnir, Karina. 2024. “Feliz aniversário, Jane!, Publicado em karinakuschnir.com, url: https://wp.me/p42zgF-45I. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Uma doce sensação de abrigo em 2024

Pessoas queridas, pensei que estava só com paciência e prática, mas lembrei que estou apaixonada pela George Eliot. Em sua escrita, tudo é sério e irônico — tudo é “brincadeira e verdade”, como na música do Caetano. É um deslumbramento.

No seu livro mais autobiográfico, O moinho à beira do rio Floss, Eliot nos conta a história de Maggie Tulliver, uma menina de “oito ou nove anos, bem-educada e bem instruída” que tinha frequentado “só um ano num colégio …e tinha tão poucos livros que às vezes lia o dicionário. Se déssemos uma volta pelo seu cérebro, encontraríamos lá a mais inesperada ignorância.” (p. 121) Será?

Logo que a conhecemos, Maggie se esconde com uma tesoura para cortar os próprios cabelos, cansada das críticas da família e de ser menina. Tempos depois, foge de casa para ser livre e viver com os ciganos. É comovente acompanhar como descobre a pobreza e seu despreparo diante do mundo.

Encanta-se com Philip, um jovem que sabia contar histórias, muito tímido devido à corcunda de nascença. Adorava-o, até porque:

“Maggie tinha uma certa ternura pelas coisas deformadas; preferia sempre as ovelhas de pescoço torto, porque lhe parecia que as que eram fortes e bem constituídas não apreciavam tanto os carinhos, e ela gostava de fazer festas a quem as apreciasse.” (p. 192)

Quando Maggie se apaixona pelos livros que finalmente tem às mãos, reflete:

“Nos livros havia sempre pessoas amáveis e ternas, e que gostavam imenso de agradar uns aos outros. O mundo fora dos livros não era um mundo feliz; parecia ser um mundo onde as pessoas se portavam o melhor possível com as pessoas que não amavam e que lhes não pertenciam.” (p. 256)

De todos, ouve que tem de “ter paciência”. Exercita essa habilidade, censura-se tanto que experimenta a paz no “quietismo” que a tudo renuncia. Até que a vida lhe chama e seu coração é fulminado por um amor impossível. Diante da necessária separação, Maggie (e Eliot) dizem:

“Não posso esquecer tudo e começar outra vida. Devo voltar para trás, muito embora eu sinta que, sob os meus pés, já não existe nada de sólido.” (p. 525)

Como Eliot já havia nos preparado, Maggie desejava o que, de certo modo, todos nós também queremos:

“…era uma criatura cheia de anseios apaixonados e entusiastas por tudo o que era belo e alegre; sedenta de todos os conhecimentos, (…) com um inconsciente desejo de qualquer coisa que (…) desse à sua alma uma sensação de abrigo.” (p. 257, no original,   “a  sense  of  home)

É isso, queridos leitores. Que 2024 traga a todos nós paixão, paciência e prática, mas sobretudo o acolhimento da casa, com sua doce “sensação de abrigo”! ♥

A imagem que abre este post está em alta resolução e segue aqui um pdf para download que vocês podem baixar para imprimir. Vai com carinho especial para todos que estão enfrentando as festas em meio aos prazos de TCC, dissertações, teses e outras pressões acadêmicas ou não.

Sobre o desenho: Grafia e cores inspiradas na arte de Tom Gauld. O lema dos três Ps inventei há uns anos inspirada em uma aula online que fiz com o artista indiano-canadense Prashant Miranda. Ele mencionou perseverança ao invés de paciência, mas esta é para mim a maior das virtudes. Tecnicamente, utilizei os materiais de sempre: canetinhas Pigma Micron 0.1 ou 0.05, aquarelas e papel Canson. Se quiserem, tem a versão abaixo dos três Ps para baixar aqui.

Sobre as citações: Li a versão portuguesa de O moinho à beira do rio Floss, de George Eliot (trad. de Fernando de Macedo, ed. Mimética). A versão original está disponível gratuitamente no Internet Archive, mas não me sinto confiante para ler ficcção em inglês. Trago aqui as duas citações finais no original pois são tão lindas:

Trecho orginal sobre a sensação de abrigo: ”Maggie  in  her  brown  frock,  with  her  eyes  reddened  and  her heavy  hair  pushed  back,  looking  from  the  bed  where  her father  lay,  to  the  dull  walls  of  this  sad  chamber  which  was the  oentre  of  her  world,  was  a  creature  full  of  eager,  passionate longings  for  all  that  was  beautiful  and  glad  ;  thirsty  for  all knowledge ;  with  an  ear  straining  after  dreamy  music  that died  away  and  would  not  come  near  to  her ;  with  a  blind,  unconscious yearning  for  something  that  would  link  together  the wonderful  impressions  of  this  mysterious  life,  and  give  her soul  a  sense  of  home  in  it. “

Trecho orginal sobre não ter nada de sólido sob os pés: “No  wonder,  when  there  is  this  contrast  between  the  outward and  the  inward,  that  painful  collisions  come  of  it. I  can’t  set  out  on  a  fresh  life,  and  forget  that :  I  must  go  back to  it,  and  cling  to  it,  else  I  shall  feel  as  if  there  were  nothing firm  beneath  my  feet.” 

Sobre a música do Caetano: Refiro-me ao verso “É tudo só brincadeira e verdade” da canção “Tá combinado”. Aqui a letra e o canto na versão de Betânia.

Você acabou de ler “Uma doce sensação de abrigo em 2024“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 

Como citar: Kuschnir, Karina. 2023. “Uma doce sensação de abrigo em 2024“, Publicado em karinakuschnir.com, url: https://wp.me/p42zgF-42x. Acesso em [dd/mm/aaaa].

Amo receber comentários e mensagens, mas nem sempre consigo responder com o carinho que vocês merecem. Querendo continuar a conversa, me chamem no chat do Instagram! Obrigada por estarem aqui.♥.