“Então aquilo era felicidade, viver na primeira pessoa do plural.” (Chimamanda Adichie)
Hoje, a aula de antropologia foi sobre o texto “A expressão obrigatória dos sentimentos” (1921), de Marcel Mauss. Há uns anos, inventei de começar essa aula fazendo uma dinâmica inspirada em exercícios teatrais. Chamo um grupo de estudantes para a frente da sala e peço para eles sortearem um papel. Neste, está descrita uma situação que eles devem representar para a turma. As situações evocam emoções fortes do tipo “medo de uma barata”, “feliz por receber uma mensagem de amor”, “prendendo o riso”, “com dor de queimadura”, “com raiva de alguém” etc. Na dinâmica, o grupo que sorteia a situação fica de costas e, ao ouvir “1, 2, 3, já”, se vira para a turma com a expressão facial correspondente. A turma precisa adivinhar o que estava escrito no papel.
Eles acertam logo. Às vezes, é preciso relaxar, voltar a ficar de costas e repetir o gesto ou expressão facial. Mas é fascinante como, em qualquer turma, esse exercício sempre dá certo. Dele concluímos um dos principais conceitos do texto: o de que existem modos de expressão dos sentimentos padronizados, reconhecível tanto para quem emite quanto para quem recebe o gesto, quando ambos participam dos mesmos códigos culturais.
Mauss chama isso de expressão “obrigatória”, provocando propositalmente uma sensação de desconforto em pessoas que se acreditam únicas e singulares, ainda mais naquilo que consideram íntimo. Pois é aí que está a beleza: o “mais que humano em nós” está nos coletivos, onde vivemos e naqueles que vivem em nós, nossa língua, nossa memória, nossos afetos, nossas músicas queridas.
Nessa virada de maio para junho, agradeço por tantas sensações de viver plenamente “na primeira pessoa do plural”, como diz Chimamanda. Na aula de hoje, vendo os psicólogos do futuro encenando suas emoções; no teatro Poeira, assistindo “Deserto”, inspirada em Roberto Bolaño; no show de Gilberto Gil, cantando “Se eu quiser falar com Deus”, junto com a multidão; no almoço festivo de domingo, comemorando e compartilhando pratos, comidinhas e afetos feitos de gatos e gente.
Viva Marcel Mauss, viva a antropologia e a sociologia. Podemos até não ter as soluções, mas sem suas reflexões não poderíamos sequer vislumbrá-las.
Sobre as citações: A frase que abre o post está na p. 112 do livro “A contagem dos sonhos”, de Chimamanda Adichie (Companhia das Letras, 2025). A expressão “o mais que humano em nós” é da canção “Tá combinado”, de Caetano Veloso. O texto “A expressão obrigatória dos sentimentos” (1921), de Marcel Mauss tem várias edições, mas a referência que utilizo é: Leitura: MAUSS, Marcel. 2003. “A expressão obrigatória dos sentimentos”. In: Sociologia e Antropologia. São Paulo: Cosac & Naify.
Sobre as felicidades coletivas acessíveis: Vejam no RJ a peça “Deserto”, inspirada em Roberto Bolaño, no teatro Poeira, ou acompanhem possíveis viagens pelo país no instagram deles. O show Tempo Rei de Gilberto Gil vai seguir acontecendo até o final do ano. Não percam!
Sobre o calendário: Para imprimir, não esqueçam de configurar para “ajustar à área de impressão”.
Sobre os desenhos: Para o calendário, aproveitei os anteriores e acrescentei camadas transparentes de lilás no aplicativo Procreate (Ipad). Ajustei as datas para o mês de junho e fiz o PDF. (Estou em busca de um Ipad usado, pois o meu tem 7 anos e está pifando. Se alguém tiver interesse em vender, me manda uma mensagem por favorzinho.)
…
Você acabou de ler “Junho/2025 e a felicidade no plural”, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺
Como citar: Kuschnir, Karina. 2025. “Junho/2025 e a felicidade no plural”, Publicado em karinakuschnir.com, url: https://wp.me/p42zgF-48z. Acesso em [dd/mm/aaaa].
Essa frase saiu de surpresa junto com a vontade de compartilhar o calendário de maio de 2025, mesmo já sendo dia 7. E, de repente, vejo tantos significados nela… Desde muito pequena, me cobri de metas e obrigações. Por fora, talvez eu fosse só uma espectadora de novelas, como já contei aqui. Por dentro, porém, o norte da minha bússola era a independência: trabalhar, fazer o certo, servir.
E o que tem isso a ver com chegar atrasada? Tudo. A pessoa responsável não atrasa, não passa mal, não pode ter um defeitinho para não decepcionar ninguém. E haja terapia. Até que um dia, finalmente eu cheguei atrasada — e o terapeuta me deu parabéns!
Isso foi há mais de 25 anos e, com o tempo, acabei esquecendo os encantos do atraso. Voltei para os meus padrões: planejar tudo, entregar no prazo, chegar no horário, emitir pareceres e relatórios em dia. Aprendi a dizer não, mas só para não falhar. Foi importante, mas nada de improvisos — aí já seria demais!
Agora, crescidinha, desejo atrasar bastante! Em vez de querer ser grande logo, como na época da A bolsa amarela, estou tentando ser mais espontânea, mais criança. É meio clichê dizer isso? Mas quem se importa? Ninguém, como diz o bordão favorito aqui de casa: “ninguém liga!”.
Então, bora andar na chuva, ficar enrugada no mar, queimada de sol na trilha, feliz em São Gonçalo, atrasada ouvindo Beto Guedes e Ana Frango Elétrico. Ah, e que o mês mais lindo do ano só comece no dia 7!
Sobre o calendário: Não esqueçam de configurar para “ajustar à área de impressão”. Testei na minha impressora (Epson L386) e a cor ficou ok. Espero que gostem!
Sobre os desenhos: Para o calendário, aproveitei os anteriores e acrescentei camadas transparentes de azul no aplicativo Procreate (Ipad). Ajustei as datas para o mês de maio e fiz o PDF. Estou em busca de um Ipad usado, pois o meu tem 7 anos e está pifando. Se alguém tiver interesse em vender, me manda uma mensagem por favorzinho.
…
Você acabou de ler “Maio/2025 e a beleza de atrasar”, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺
Como citar: Kuschnir, Karina. 2025. “Maio/2025 e a beleza de atrasar”, Publicado em karinakuschnir.com, url: https://wp.me/p42zgF-48p. Acesso em [dd/mm/aaaa].
“A vida ainda era vivível. Bastava esquecer, tomar essa decisão com determinação, brutalmente. A escolha era simples: a escrita ou a vida. Teria eu a coragem (…)?” (Jorge Semprún, A escrita ou a vida)
Pessoas queridas, calendário atrasadíssimo mas feito! Perdi meus óculos e fiquei sem condições de trabalhar no computador. Mas foi por uma ótima causa: fiz uma pequena viagem à serra, imersa no verde, em banhos de rio e até chuva! Foi mágico! E vocês? Blocaram, descansaram ou ficaram presos na escrita da tese?
Recebam meu abraço apertado e votos de força e paciência aos que estão com os prazos de 31 de março nos calcanhares. Tá acabando, vai passar. E abraço também aos que têm outros prazos pela frente.
Escrever durante um período como o Carnaval é renunciar à viver, sejam as delícias da gandaia ou do ócio. Não é fácil. Precisamos nos entregar ao texto, enquanto o mundo continua a girar lá fora. E haja paciência para lidar com o tempo da criação, com seus ritmos, pausas e acelerações fora do nosso controle. E haja disciplina para aplacar a ansiedade pelas cobranças internas e externas, junto à sensação de que não somos suficientes.
Passei por tudo isso nos primeiros 15 dias de fevereiro. Tive um artigo para entregar e foi desafiador demais. Tentei seguir planos, rotinas, pomodoros, mas passei pelos clássicos: evitação, lentidão, empacamento, inspiração, descrédito, para-que-serve-isso-tudo, e aquele final de horas seguidas sobrecarregadas de cafeína para finalizar.
Ufa. Por que precisa ser assim?
Sobre a dúvida de Semprún, sigo acreditando: coragem é optar pela escrita e pela vida, no pêndulo de difícil equilíbrio, mas de permanente tentativa. No dia 15 de fevereiro, o artigo foi enviado, o prazo foi cumprido. E a sensação no dia seguinte é indescritível. O alívio, a leveza, o desejo de sol e ar, vem tudo junto, como uma mini-primavera pessoal florescendo.
Aprendi sofrendo (muito) no mestrado: terminem primeiro, pensem depois.
Porque “depois” os pensamentos irão embora e sobrará só uma doçura de ter feito.
Pelo menos até que cheguem os pareceres! Hahaha Depois conto como foi.
…
Sobre o calendário: aqui vai o PDF em alta resolução para imprimir. Não esqueçam de configurar para “ajustar à área de impressão”. Apesar da corzinha desmaiada na tela, na minha impressora (Epson L386) a cor ficou simpática. Espero que gostem!
Sobre a citação: SEMPRÚN, Jorge. A escrita ou a vida. Tradução de Rosa Freire d’Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. A citação está na página 193 da versão eletrônica.
Sobre os desenhos: Para o calendário, aproveitei o de fevereiro e acrescentei camadas transparentes de verde no aplicativo Procreate (Ipad). Dessa vez, refiz os números dos dias em cor preta pois achei o branco difícil de ler no dia a dia. Para os demais desenhos: canetinha Pigma Micron 0.3 e lápis de cor, em caderno Tilibra A5, linha Happy. Datas com carimbo Colop, mini-dater s120.
Um ótimo março para nós.
…
Você acabou de ler “Março/2025 e os desafios da escrita”, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺
Como citar: Kuschnir, Karina. 2025. “Março/2025 e os desafios da escrita”, Publicado em karinakuschnir.com, url: https://wp.me/p42zgF-47O. Acesso em [dd/mm/aaaa].
Quem reconhece uma sacolinha lotada assim, levanta a mão! Taí a imagem que sintetiza as minhas “férias” e a de quase todos os professores que conheço. Pilhas de trabalhos pra corrigir em casa, e a ilusão de que vamos terminar artigos, entregar pareceres, enviar relatórios, marcar orientações e, quem sabe, dar um gás na pesquisa e até uma arrumada nos programas de curso do semestre que vem. [Pausa para suspirar.] Alguém se identifica?
Confesso que pesquei essa listinha de um amigo querido, que me mandou um áudio comentando tudo que ele tinha pensado em fazer nesse recesso da universidade. Ri sozinha de nervoso ouvindo a mensagem no zap. Pessoa mais doida é professor… Não sabe fazer conta da imensidão do próprio trabalho, não sabe dizer não pros textos, pros alunos, pros amigos que pedem pareceres, nem pra si mesmo…
A maioria está assim por conta da precarização do trabalho, claro. O que mais tem é professor com 30 turmas em três empregos. Mas nem todos!
Muitos, como eu, se atolam porque lidam com assuntos e causas que os apaixonam. Só que a vida é como um grande barco de restaurante japonês: para comer as peças que mais gostamos, temos que entubar um monte de kani.
E olha que eu me acho super organizada. Tenho um sistema com todas as informações sobre o que preciso fazer, quando, onde e como. Sei quanto tempo levo nas tarefas e quais compromissos não posso ou não quero aceitar. Tenho clareza sobre as minhas prioridades — filhos, depois eu mesma (amor/saúde/arte incluídos), aulas e alunos, atividades da universidade em geral, a casa e o mundo.
Mas a vida e a antropologia estão aí pra nos lembrar que os laços obrigam. Se amamos nossos bichos, nos cabe cuidar. Se vamos publicar num livro da Routledge (sim, viva!), precisamos fazer o parecer que nos pedem. Se nos dedicamos às aulas, temos que corrigir os trabalhos à altura. A cada “sim”, temos uma dívida em potencial cozinhando. É preciso levar as obrigações a sério, já dizia a saudosa professora Lygia Sigaud.
A doença da Lola me impactou, alguns alunos atrasaram… e a sacolinha cheia de trabalhos foi ficando esquecida num canto. De repente, me pareceu tão bonita, recheada assim. Precisei desenhar e pintar antes de começar a corrigir. Justifiquei pra mim mesma que estava tudo bem, que o prazo ainda não chegou, que tem trabalhos vindo por e-mail ainda, porque foi pro brejo a minha rigidez de professora jovem e determinada. Como diria meu ex-terapeuta, “– É uma vitória quando você chega atrasada, Karina.” Taí o motivo do atraso, alunos queridos. Fiquei pintando os trabalhos de vocês e escrevendo post. Tudo em nome da arte, porque só a arte e os estudos nos salvam.
A pequena “natureza morta” que ilustra esse post une essas duas coisas: arte (a sacolinha preta foi presente do Simpósito anual dos Urban Sketchers em Manchester, de 2016, onde dei uma palestra); e estudos (os trabalhos de duas turmas maravilhosas de 2019-1, um semestre em que me dediquei a estudar e me renovar). Juntos, esses objetos me lembram do motivo de eu estar aqui pensando, escrevendo e desenhando em público, enfrentando a timidez e a preguiça. rs
Obrigada pela companhia, pessoal. Boa sorte e muita tranquilidade para todos que estão às vésperas das seleções de mestrado nesse final de julho. Meu coração está com vocês. ♥
6 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-ou-dignas-de-nota — Amo blogs e newsletters. Aí vão algumas que são ótimas companhias para ler nos momentos em que vocês precisarem de bons conteúdos pra se distrair, sem precisar recorrer às redes sociais:
* Duas Fridas: newsletter do blog Duas Fridas da Helê e da Monix. Sempre com temas ótimos, bom humor e com lembranças maravilhosas de posts passados que me fazem sorrir e esquecer o caos dos tempos atuais.
• Ainda não acabei de pensar nisso: newsletter do blog Papiro Papirus, da Rita Caré, portuguesa, artista, bióloga, comunicadora, cheia de humor e maravilhas a nos deliciar com suas descobertas e reflexões.
• Eva-Lotta: newsletter do blog da ilustradora alemã Eva-Lotta Lamm que ama o mundo das anotações desenhadas, aprender novas habilidades, pensar o cotidiano de forma lúdica e ensinar. Uma lindeza! (em inglês)
• Austin Kleon: newsletter semanal do blog do autor que descobri por meio da Rita Caré (acima) — obrigada, Rita! Traz sempre uma listinha de dez sugestões de leituras, links, imagens interessantes para o autor. Voltada para quem ama livros, arte, educação: ou seja, nós! (em inglês)
• Viktorija Illustration: newsletter mensal do blog da ilustradora Viktorija, baseada em Londres. Traz propostas de exercícios, inspirações, dicas e sugestões de materiais de arte. É bem despretenciosa e bonitinha. (em inglês)
• E como faço para saber dessas coisas? Utilizo um app de blogs chamado Feedly, onde “assino” os blogs que gosto, separados por assuntos. Leio no notebook, mas é também o meu app de celular preferido, seguido do Kindle, cheio de amostras de livros que não vou comprar!
E vocês, quais newsletters me indicariam?
…
Sobre o desenho: Fiz primeiro um rascunho rápido com lapiseira observando a sacola cheia com os trabalhos de uma turma, apoiada na pilha de trabalhos da outra (o caderninho vermelho foi feito por uma aluna super querida da aula de antropologia e desenho desse semestre, uma graça). Depois desenhei por cima com caneta de nanquim permanente Unipin 0,2, em verso de um papel do bloco Canson Aquarelle XL (capa turquesa). Depois apaguei o lápis e pintei com vários materiais: a sacola preta e o caderno vermelho foram pintados inicialmente com uma guache acrílica (Acryla Gouache, da Holbein, que ganhei ano passado e só agora comecei a experimentar); as letras brancas na sacola foram feitas no dia seguinte (para a base secar bem primeiro!) com caneta Gelly Roll 0,8 branca da Sakura. O restante foi colorido com lápis de cor (os detalhes dos trabalhos) e aquarela (especialmente as sombras).
…
Você acabou de ler “Férias de professora“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺
“Há, em cada um de nós, uma floresta virgem, emaranhada, inexplorada; um campo nevado onde não se veem nem pegadas de pássaros.” (Virgina Woolf)
Quando meu filho começou a comer frutas e legumes, depois de seis meses de amamentação exclusiva, fiquei insegura. Bora ligar para o médico: devo dar uma banana ou meia banana? Tempos depois, um primo pediatra me contou como os colegas fazem para responder as perguntas das mães aflitas: “basta dizer dois sim e um não, para a mãe não te achar nem rígido nem desatento demais”. Fica um diálogo assim: “– Meia banana? — Sim! — Um mamão? — Sim. — Morango? — Não, morango é melhor não.”
É brincadeira, mas é verdade!
O que isso tem a ver com o sofrimento na hora de escrever uma tese?
Ter que ligar para o pediatra para pedir autorização para dar uma fruta a um bebê de seis meses é só um sintoma. Mostra como eu estava vivendo a maternidade de forma isolada, sem contar com família extensa, vizinhos, comunidade. No meu caso, até que foram poucos momentos assim. Tive apoio, avós participativos, Amigas do Peito e amigas com bebês.
Quando a gente está na gestação do bebê-tese, porém, os sintomas de isolamento podem ser bem piores. No evento sobre saúde mental (que motivou a primeira parte desse post), ouvi depoimentos sobre depressão aguda, gastrite, angústia, anorexia, excesso de entorpecentes ou remédios, tentativas de suicídio, inseguranças profundas, término de relacionamentos, falência, sensação de estar permanentemente em dívida, exaustão, vergonha, falta de apoio, desistência. Além de todos esses sintomas, recebi comentários no Facebook dos que sofreram (e até desistiram da pós-graduação) pela falta de apoio por engravidar, ser vítima de estupro ou perder os pais com câncer.
Para qual pediatra essas pessoas podem telefonar? Quantos telefonemas seriam suficientes?
Escrevi no post anterior que não sou o meu trabalho, currículo ou diplomas. Acredito nisso, mas quem disse que consigo pensar sempre assim, super saudável, sem me definir por avaliações externas? Bem que eu queria ser esse tipo de pessoa: focada, vivendo meu caminho, sabendo que o processo é mais importante do que o fim etc. O problema é que em 89% do tempo eu não consigo! Vivo me comparando e sofrendo, com sintomas bem parecidos com os que os alunos relataram, apenas em doses menores.
Acho que tenho dificuldade de me distanciar porque o trabalho acadêmico não é apenas um trabalho. É algo muito íntimo. Nós, nossos dados e autores protagonizamos uma história intensa de amor, descoberta e decepção.
Por que sofreríamos tanto se não estivéssemos tão investidos emocionalmente?
Talvez uma parte desse sofrimento venha de nos depararmos com nossa “floresta virgem, emaranhada, inexplorada”, nosso “campo nevado” particular, onde nenhum pássaro pisou ainda, como escreveu Virgínia Woolf. A cada texto, ao invés de decidir a comida do bebê, preciso me perguntar:
O que penso sobre o mundo? O que tenho a dizer? Como posso contribuir para o conhecimento humano?
Parágrafo a parágrafo, duvido da minha capacidade de desemaranhar os pensamentos.
Ao longo da minha formação, as disciplinas eram super teóricas. O objetivo era demonstrar o “domínio da bibliografia”. Aprendi a salpicar meus textos com Weber, Bourdieu e seja-qual-for-o-nome-da-autora-da-moda. Me iludia que isso era fazer jus à história do pensamento — afinal, não se pode inventar a roda a cada texto.
No entanto, hoje, me pergunto: em que momento a repetição do que os outros autores dizem se torna tão automática que já não consigo mais saber o que penso? O que tenho para dizer por escrito? Ou seja: qual pedaço de mim estará no meu trabalho?
Não tenho respostas… Lembro que a escrita da minha tese se tornava menos sofrida quando eu percebia que estava escrevendo algo que fazia sentido no meu íntimo. Eram momentos raros, que faziam o esforço valer a pena. Nos demais, eu estava como no post anterior, perdida de mim, pensando que eu própria era quem ia “deixar de me amar se eu não acabasse a tese”.
…
A academia, como a maternidade, é transitória. O tempo passa, os alunos se renovam, viram a página. A memória do sofrimento não é passada adiante.
Seria muito bom se pessoas que passaram por situações dolorosas na pós-graduação compartilhassem suas experiências. Acho que precisamos de grupos de apoio que, além de abraços, nos permitam manter essas memórias circulando, de modo a acolher quem esteja passando por dificuldades. (Acolher não é resolver, mas escutar, reconhecer — primeiro passo para ajudar qualquer que seja a situação. Não podemos tratar de algo que não enxergamos.)
Tenho conversado com algumas amigas. Fico sonhando em pensarmos juntas sobre espaços de apoio coletivos no mundo acadêmico. Alguém conhece experiências desse tipo?
…
Nessas conversas, esclareci algumas coisas que talvez tenham ficado nebulosas na primeira parte do post:
* Para as orientadoras maravilhosas, atenciosas e dedicadas: sim, vocês existem!
* Não sei se orientação com tempo de escuta e paciência é exceção. Talvez a área das ciências humanas seja uma bolha melhorzinha até, pois recebo comentários de doutorandos de outras áreas com relatos punk.
* Aos orientadores em geral, acho importante ficarem atentos a sinais de alunos que têm muita vergonha de estar em sofrimento. É um ciclo vicioso: a pessoa entra em pânico/depressão e tem mais pânico/depressão por estar assim. Daí fica paralisada e não conta para o orientador(a). De vez em quando recebo relatos sobre isso também.
* Aos alunos: suas orientadoras e orientadores também sofrem, e muito.
* Sim, existem pessoas mimadas, preguiçosas, sem qualquer noção dos seus deveres. Mas não acho que a maioria dos alunos em sofrimento seja desse tipo. A pessoa sofre muito justamente porque valoriza sua vida acadêmica. Aliás, acho que alunos hiper exigentes e dedicados são dos que mais adoecem. Não sei a fórmula para identificar os casos do primeiro tipo, mas plágios costumam ser um dos sintomas.
* Prazos não são vilões em si mesmos. Como escreveu uma amiga: “Sem prazos nunca publicaríamos nada, já que todo artigo, por melhor que seja, sempre pode ficar melhor”. Trabalhar dá trabalho: exige foco e capacidade de priorizar, assim como de abrir mão de distrações. O segredo é conseguir equilibrar tudo isso, sem esquecer de se cuidar.
* Essa semana estive igual a vocês: digitando e apagando, digitando e apagando… Reescrevi esse post umas três vezes. Quis deixar isso registrado para ninguém pensar que escrevo sem revisar ou sem medo.
* Para terminar, indico o site maravilhoso da professora Eva Scheliga com referências, ferramentas, links, artigos e posts sobre escrita, editoração científica e desenvolvimento de projetos de graduação e pós-graduação, além de aplicativos e gadgets úteis para o trabalho acadêmico: https://evascheliga.wordpress.com/
…
Sobre a epígrafe: O trecho da Virgínia Woolf está em “O sol e o peixe”, livro de ensaios publicado pela editora Autêntica, indicado por uma leitora do blog super querida. Estou adorando; talvez vire um post.
Sobre o desenho: Desenhei essa dupla inspirada em diversas fotos sobre o tema abraço que procurei no banco de imagens Shutterstock. Utilizei canetas de nanquim permanente 0,2 e 0,05 Pigma Micron, num papel Canson (bloco azul escuro, para Mixed Media; prefiro o verso da folha, que é mais liso). Depois escaneei a imagem e resolvi colorir no Photoshop, coisa que raramente faço (só uma vez, aqui).
…
Você acabou de ler “Você vai deixar de me amar se eu não acabar a tese? (Parte 2)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂
toda força do mundo pra você. Eu também já quis desistir muitas e muitas vezes. Agora em agosto, inclusive, quase joguei meu projeto no lixo. Os prazos deixam a gente em dúvida de tudo, até do sentido do nosso próprio trabalho. Já aconselhei aqui o truque de produzir um texto como se estivesse escrevendo uma carta para uma pessoa querida. Conta a tua história, de vez em quando mete uma piada no meio. Tenta rir de si mesma. Esse é o único atenuante que funciona, pelo menos pra mim.
Às vezes, essas paralisias são fruto do excesso de importância que damos ao nosso mundinho. Melhor pensar como você mesma disse outro dia: trabalho acadêmico pode ser como lavar louça. Podemos seguir acumulando pratos, conhecimentos, palavras e deixando o mundo girar aos pouquinhos. A experiência de fazer um mestrado é só para você ter uma experiência de fazer um mestrado. Não é para revolucionar a ciência. Aliás, que bom! Pensa nas pessoas que querem “revolucionar” alguma área e veja como muitas delas se tornam arrogantes e messiânicas!
Quanto a passar um mês sem conseguir escrever, bem-vinda ao clube, querida. Você, Weber, Malinowski, eu, Chris, Dani, todos já passamos por isso e nos martirizamos. Escreve um diário, junta com a escrita da dissertação, mistura tudo isso, depois edita. Às vezes a gente precisa de 29 dias sem escrever uma linha e depois um dia escrevendo tudo — era assim que o Oliver Sacks produzia! Vários escritores já passaram por isso. é humano. A gente não é computador que realiza x tarefas por dia.
Uma coisa que faz falta no ensino da pós-graduação é mostrar aos alunos que as leituras e conhecimentos que aprendemos precisam de tempo para amadurecer. Nosso pensamento é que nem fruta. Pode parecer bonito, mas não estar maduro. Pensar sobre as coisas e escrever sobre elas demanda da gente uma energia enorme; tipo gravidez, amamentação, sexo, necessidades fisiológicas, sono… nada disso é simples nem automático, embora seja “natural”. Precisamos de um tempo, um ritmo, um calor, uma música, um bem-estar qualquer dentro da gente que impulsione.
Abraça teus amores, humanos e bichos, dá uma volta no parque. Escreve primeiro, desiste depois. Pensa assim: vou me livrar logo dessa dissertação e depois vou desistir da vida acadêmica. Só o fato de decidir desistir já vai tirar um peso enorme (tipo, vale qualquer coisa, certo?). Daí, quando acabar a dissertação, você pensa se quer desistir mesmo. Se sim, ok. Terá encerrado um caminho com a sensação de dever cumprido. Se não, ok também. Irá partir para o doutorado com uma experiência diferente pra te apoiar nos momentos difíceis. No entanto, se estiver impossível continuar do jeito que está, pede uma pausa, tranca, respira, busca ajuda, porque tudo tem um custo, e você é que sabe o seu. Só não se machuca no caminho, porque sua vida é muito, muito,mais importante do que qualquer trabalho.
♥ te admiro,
K.
…
Agosto foi mês de voltar de férias, sentir frio, ficar deprimida e cumprir prazos chatos. Felizmente, setembro chegou! Descobri que 21 é o dia da árvore, daí o tema do calendário.
A inspiração inicial para as formas veio dessa ilustração. A qualidade não está muito precisa porque usei marcadores em papel comum. A vantagem é que é bem mas rápido de colorir do que o lápis-de-cor. Esses desenhos têm me feito sonhar com um estojo gigante de Copic markers — é baratinho… quase o preço de um notebook!
Aí vai o calendário para imprimir: tem versão grande em .pdf ou em .jpg (cliquem na imagem acima). Depois me digam se a impressão em casa melhorou com o arquivo maior!
…
Sobre o desenho: Fiz primeiros as manchas de cores com marcadores Tombow brush e Sakura Koi Brush. Apenas o verde claro foi feito com lápis-de-cor Primalo Caran D’Ache. As linhas foram feitas com canetinhas Staedtler triplus fineliner e Graphik line maker da Derwent.
…
Você acabou de ler “Setembro/2017 – Pensando em desistir“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂