Karina Kuschnir

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Brincando de pesquisar – Ideia para aula lúdica

paletatorta

Como prometi, hoje vou explicar a brincadeira que fiz com a turma de Antropologia II logo na primeira semana do semestre. Acho que o exercício vale para ensino médio, graduação ou até pós, por que não? Resolvi postar aqui no formato de “plano de aula”. Assim, fica mais fácil para quem quiser experimentar com seus alunos. Depois me contem!

Objetivos da aula:

. Compreender que os indivíduos são diferentes e levam essas diferenças consigo, para além das diferenças nos seus aspectos visuais, que impactam no nosso primeiro contato.

. Compreender que os indivíduos são semelhantes dentro de certas condições sociais; e isso fica claro quando os comparamos sob certos critérios.

. Compreender que precisamos levar em conta essas duas dimensões (acima) para conhecermos a nós mesmos e aos outros.

. Uma pesquisa deve gerar conhecimento e nos transformar. O papel começa em branco, mas deve ser preenchido por algum conteúdo. Precisamos aprender algo a partir de uma pesquisa.

. Uma pesquisa pode ser divertida e interessante; pode ser vivida como um enigma, um quebra-cabeça que desvendamos.

. Fortalecer a autonomia: mostrar que podemos e devemos pensar a partir dos nossos dados, classificá-los e interpretá-los.

Material necessário:

. Canetas para quadro branco

. Papeis A4 para cortar em 6 (É melhor o professor levar 1 folha para cada aluno)

. 6 pedaços de papel com números grandes de 1 a 6 para classificar as respostas sobre uma mesa

Dinâmica – Como foi feita a aula:

Avisar que: As respostas são anônimas; não é para nota; não tem resposta certa ou errada; conta como participação. Pedir que tentem ser bem específicos na resposta.

Preparação: Pedir para os alunos cortarem o papel em 6 pedaços e numerar. (Desenhei um papel com divisão em 6 no quadro)

Quadro: Escrevi as perguntas abaixo no quadro.

Alunos escrevendo: Pedi que os alunos respondessem nos pedaços de papel numerados (cada papel recebeu duas respostas, por ex., 1a. e 1b.), dando aproximadamente 1 minuto para resposta (sem precisar copiar as perguntas).

1) Desde que me entendo por gente, tenho…
a. dificuldade com..
b. facilidade com…

2) Na minha vida…
a. a maior tragédia é…
b. o maior privilégio é…

3) Meu traço mais marcante para…
a. os outros é…
b. para mim é…

4) Hoje em dia…
a. meu maior medo é…
b. minha maior coragem é…

5) Se eu pudesse, gostaria de…
a. aprender a…
b. viajar para …

6) O que me faz…
a. mais feliz é…
b. mais infeliz é…

Após as respostas:

. Cada aluno colocou suas respostas na mesa de acordo com o número correspondente. Ou seja, ficamos com pilhas de respostas 1, 2, 3 etc.

. Cinco alunos voluntários vieram, um de cada vez, ler 6 respostas aleatórias, uma para cada número, formando assim um  “personagem”. Foi emocionante, engraçado, estranho, surpreendente, interessante! Em muitos casos, percebemos repetições/padrões, mas também diferenças, distâncias e individualidades.

. Pedi para eles escolherem um número para eu ler todas as respostas. Eles escolheram o número 6 (Feliz/Infeliz). Achei bem significativo, pois foi nesse item que apareceram algumas imagens mais subjetivas. Li as respostas para a pergunta 6B (motivos de Infelicidade) e fui dividindo em dois grupos (em quantidades quase iguais). Perguntei: “Com qual critério eu dividi essas respostas?”. Eles responderam corretamente que foi “infelicidade social” (por ex. desigualdade social) ou “infelicidade individual” (por ex. terminar um romance). Peguei o grupo “social” e li as respostas da questão 6A (motivos de Felicidade). Muitos papéis foram parar na pilha “individual” nessa questão. Ao final, restaram apenas 4 papéis na resposta 6A do tipo “social”! A turma foi me ajudando a interpretar as respostas binariamente, mas acabamos decidindo criar uma categoria meio-termo para respostas com a palavra Arte e Amor em geral. O restante ficou no grupo “individual”. Todo o processo gerou bastante diversão geral, e também um material para debater sobre diferenças, semelhanças e possibilidades de classificação, como era o objetivo da aula desde o início.

. Fui ao quadro novamente e tentamos classificar as perguntas (da 6ª para 1ª) em tipos de informação. Com a ajuda dos alunos, decidimos que cada dupla de perguntas correspondeu aos seguintes recortes mais gerais: 1-Aptidão/Personalidade; 2-Realidade/Sociedade; 3-Personalidade/Identidade; 4-O que nos move/Atitude; 5-Desejos/Sonhos/Futuro; 6-Gostos/Sentimentos/Aspectos sociais vs. psicológicos. (Os termos são deles!)

. Fiz uma observação de que não coloquei nenhuma pergunta relacionada a aspectos visuais das pessoas de propósito, para não criar constrangimentos (por ex. risos da turma diante de alguma resposta), mas que eles precisariam ser levados em conta também. Expliquei que as perguntas foram apenas pretextos para mostrar como é interessante conhecer as pessoas e seus projetos… Falei da importância de sairmos do piloto automático (na vida e no pensamento) para podermos aprender e gerar conhecimento.

Nossa avaliação:

. A turma riu em vários momentos (de leituras das respostas, especialmente). Achei que criamos um ambiente de atenção, respeitoso e divertido, bem favorável à proposta. Notei um sinal positivo nos tempos de hoje: ninguém saiu mais cedo ou pareceu estar no celular!

. Fiquei com vontade de reproduzir aqui um monte de respostas legais, mas o post ficaria ainda mais enorme… Se ficaram curiosos, façam a experiência e vejam o que acontece.

. A monitora Aimée Weiss fez uma avaliação por escrito que me deixou muito feliz (obrigada, Aimée!). Um trechinho para vocês:

“O exercício foi bastante interessante justamente pela necessidade de autoanálise dos alunos em relação a sentimentos, personalidade, isto é, aspectos interiores, não externos, e que, por isso, precisam de maior reflexão para serem constatados. Não se trata de características dadas, evidentes/visíveis, mas sim que, para percebemos, faz-se necessário olhar e observar a nossa vivência pessoal. Foi muito interessante perceber a grande quantidade de pessoas que se diziam tímidas ou com dificuldades de contato social. Acho que as tarefas desenvolvidas durante a aula incentivam uma participação e construção coletivas. Este aspecto, juntamente com o exercício de etnografia, será muito importante como desafio para essas pessoas, de maneira a sair de suas zonas de conforto para se comunicar. Ao mesmo tempo, os alunos mais extrovertidos vão precisar de mais cautela para a atividade de observação, contemplação, sem necessariamente recorrer à imediata comunicação verbal. […] A atividade também comprovou a importância da nossa autonomia, da colocação das nossas impressões e observações para alcançarmos conclusões numa pesquisa. Mostrou também aos alunos que qualquer tema pode ser usado para pesquisa, desde que demonstremos que temos algo a conseguir captar, uma descoberta a fazer. […]  Pude observar um grande interesse e concentração dos alunos com a atividade, justamente por ela sair do padrão acadêmico. Esses exercícios tornam a aula muito mais leve, prazerosa e divertida. Também notei que eles não ficaram vidrados no celular. :-)”

Esse é o primeiro post de uma série sobre aulas lúdicas:

E talvez vocês gostem de outros posts com a tag mundo acadêmico.

Para quem se interessa pelo tema: o blog tem posts sobre o tempo pra fazer a tese – parte 1 e parte 2como explicar sua tese, dicas para aproveitar a defesa de doutorado e outros textos sobre minhas experiência na importância de escutar, nos truques da escrita, na elaboração de uma carta para a seleção de mestrado, na escrita de projetos, nas defesas de tese, nas dores de não passar, na falta de tempo, no ensino de antropologia e desenho, no aprender adesescrever, nas agruras de ser doutoranda, na vida dos alunos, no sorriso do professor, nas lições da vida acadêmica, na importância de não ser perfeito e nas muitas saudades de Oxford 1, 2, 3 e 4!

7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-divertidas-ou-dignas-de-nota da semana passada:

. Agruras de hospital: caí na mão de um técnico de enfermagem que mais pareceria um carcereiro! Ele me examinou (39,3 graus de febre, pressão baixa, desidratada) e, ao invés de ajudar, começou a me dar bronca: “bota a máscara porque tá dando muito H1N1” (a máscara me sufocando), “por que você não tomou remédio pra febre?” (eu tomei, moço); e depois de me furar várias vezes, ele não desistia: “a culpa é da sua veia que não tá aparecendo”! Ainda bem que minha sobrinha surgiu com a Wilma (outra técnica de enfermagem) e me salvou!

. Alice se recuperou das contusões e está apaixonada por tocar Lisbela no violão. Sei que elogio de mãe não vale, mas está lindinha demais! Pena que essa semana foi a vez dela ficar resfriada…

. Começamos maio com um plano familiar bem modesto: ler uma página de “Viagem ao centro da terra”, de Julio Verne, todos os dias. É o mesmo exemplar que li quando tinha a idade deles.

. Antônio, apesar da exaustão do ensino médio, está pintando e desenhando muito!

. Descoberta culinária da semana, nessa vida pós-açúcar: nibs de cacau orgânico. Uma delícia pra jogar em cima de qualquer fruta! Tem em qualquer loja de produtos naturais.

. Assisti a palestra TED “Uma história visual do conhecimento humano“, do pesquisador Manuel Lima. Além do conteúdo lindo e interessante, olha a coincidência: ao mandar o link para um amigo querido, ele me responde que tem o livro do autor sobre o tema! Peguei emprestado, claro. 🙂

. E outra palestra TED, essa para se divertir, sobre procrastinação, com o Tim Urban.

Sobre o desenho: Paleta de cores que fiz em 2015, no início do meu curso de aquarela no Atelier Chiaroscuro, da professora Chiara Bozzetti. Achei que dava uma boa ilustração para essa aula em que produzimos um monte de papeizinhos. As manchas foram feitas a partir das três cores primárias (as primeiras à esquerda) com todas as outras cores da minha paleta na época. É sempre um exercício válido. Recomendo!

Você acabou de ler “Brincando de pesquisar – Ideia para aula lúdica“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2016. “Brincando de pesquisar – Ideia para aula lúdica”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-lx . Acesso em [dd/mm/aaaa].


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A vida dos outros

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Quando fui parar na antropologia, minha mãe ficou muito preocupada. Eu tinha carteira assinada como jornalista e ia virar “antropo-o-quê”? Mas eu não; achei lindo escrever “antropóloga” em formulários de hotéis ou em documentos tipo-procuração que só servem para coisa chata. (A profissão melhora bastante o desgosto de encarar a burocracia.)

Bem, é um pouco mentira isso de ser antropóloga. Porque a atividade de professora é a que realmente ocupa o meu tempo. E, como as chances de realizar trabalho de campo são raras, faço de tudo para aproveitar a sala de aula para pesquisar. Afinal, tem um monte de alunos ali na minha frente, várias vezes por semana! Vou ficar falando o tempo todo? Nem pensar.

Meu objetivo número um como professora é dar um jeito de saber mais da vida dos alunos. Não estou interessada se eles decoraram os conceitos de Marcel Mauss. Estou é constantemente curiosa para saber o que pensam, qual presente gostariam de ganhar, como vêm e vão da faculdade, e como posso dar um jeito de metê-los numa pesquisa etnográfica (para obrigá-los a me contar tudo sobre a experiência, claro).

Um dos truques que inventei para pesquisar em sala numa disciplina de Metodologia foi pedir para os alunos escreverem uma redação com o título “Minha vida” em uma página. É bem cafona esse nome, eu sei, mas gera um tipo de material que adoro ler. Com uma boa análise, dá para mostrar aos alunos-que-se-acham-tão-singulares-e-únicos com são parecidos! Os padrões estão sempre lá: os desejos de consumo, os temas recorrentes, os sonhos de viagens, as pessoas da família.

Essa redaçãozinha simples serve para lembrá-los que uma pesquisa também é feita dos silêncios que provoca. Imaginem, naquela turma de jovens de 18 a 21 anos ninguém bebe, nem usa drogas, nem pensa em namorar! Como uma pesquisa pode enganar tanto assim, gente? Eles quase sempre morrem de rir de si mesmos; e constatam na prática que todo “dado” é construído, feito para alguém, variando segundo hora, lugar, contexto etc. Eu finjo que o objetivo é ensinar Ciências Sociais. Mas o lucro é que saio dali sabendo um pouquinho mais de cada um. Histórias tão lindas que já li: menina adotada, dançarina, mãe; menino perdido, outro poeta e até um que era da equipe olímpica de polo aquático!

Hoje em dia, quando não tenho tempo de analisar redações inteiras, faço em sala de aula uma versão mais curtinha. Peço que escrevam num papel o que fariam se ganhassem na loteria… a) 100 reais?; b) 10 mil reais?; c) 1 milhão de reais? Depois fazemos coletivamente a compilação e a análise das respostas. Todo mundo se diverte; e se arrepende; e quer começar tudo de novo. Não é fácil se ver objetificado numa tabela.

Contei tudo isso porque essa semana achei no meu computador uma adaptação do “Questionário Proust” — uma série de perguntas associada ao escritor francês que (supostamente) adorava esse jogo de salão. A partir de várias fontes na internet, criamos a nossa própria lista de perguntas, com a participação das crianças. (A Alice acrescentou uma pergunta sobre surf!) Depois, colocamos cada questão em um papel dobradinho, dentro de um chapéu, para ser sorteada. Foi a brincadeira certa para quebrar o gelo durante um reencontro de parentes que não se viam há muitos anos. Dá para saber um pouco mais de cada um com um pouco de humor. Aí vai a lista:

O que é mais importante em uma pessoa? Com qual figura histórica você se identifica? Como você gostaria de morrer? Qual a sua heroína favorita? O que seria a maior das tragédias? Onde gostaria de viver? Quais são os artistas que você mais gosta? Quais são os poetas de que mais gosta? Quem são seus heróis? Qual é o seu maior defeito? O que lamenta não ter feito? O que mais valoriza nos amigos? O que você mais detesta? Onde e quando foi mais feliz? Quais são os seus escritores favoritos? Quais são os seus heróis de ficção preferidos? Quais são os personagens históricos que você mais despreza? Quais são os seus heróis na vida real? Qual a característica que mais deplora nos outros? Qual é a pessoa que mais admira? Qual é a sua característica mais deplorável? Qual é a sua característica mais marcante? Qual é a sua ideia de felicidade perfeita? Qual é a sua maior extravagância? Qual foi a sua maior realização? Qual foi a sua viagem predileta? Qual é o lema da sua vida? Quem você gostaria de conhecer melhor? Que lugar você gostaria de conhecer? Qual é sua ideia de felicidade? Qual é sua maior qualidade? Qual é sua palavra favorita? Qual é o móvel da sua casa favorito? Qual é o maior amor da sua vida? Qual é seu atual estado de espírito? Qual é sua cor favorita? Que defeito é mais fácil perdoar? Quem são suas heroínas na vida real? Quem você gostaria de ser, se não fosse você mesmo(a)? Se pudesse voltar à vida como outra pessoa, quem seria? Seu compositor favorito é… Seus autores preferidos? Sua atividade favorita é… Qual é a sua parte do dia favorita? Qual é a sua bebida favorita? Qual é o seu estilo musical favorito? Se você pudesse mudar alguma coisa no seu passado, o que você mudaria? Qual é o último filme que você viu? Qual foi o último livro que você leu? Qual é a sua fruta favorita? Qual é o seu sabor de sorvete favorito? O que você gostaria de aprender que você ainda não aprendeu? Você prefere frio ou calor? Bicicleta, carro ou prancha de surf? Qual é a sua lembrança mais antiga? Gato ou cachorro? Café da manha, almoço ou jantar?

Sobre o desenho: Desenhei alguns livros aqui de casa inspirada pelo tema do post da semana passada (e para ilustrar o calendário de abril/2014). O bonequinho à frente foi feito a partir de um Gaston Lagaffe que tenho em miniatura. Acrescentei o Garfield porque era o meu personagem favorito na adolescência. Os materiais foram os de sempre: canetinhas nanquim 0.3, lápis de cor e aquarela.