Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Respirar, escrever, pontuar. E feliz dez anos do blog!

Já nas alturas, pára e respira. Quão difícil é subir a um monte. Que difícil é a busca de um espaço. Que difícil é a busca de si própria. Chamou a si todas as forças e continuou a subir.” (Paulina Chiziane, O alegre canto da perdiz, p. 211)

A maior dificuldade de escrita dos estudantes é com a pontuação. Não sei se sempre foi assim. Será que é mais um dos sintomas de pandemia prolongada. O ar nos faltou tanto que temos dificuldade de parar para respirar de novo.

Vou dar um exemplo. Pedi para os alunos descreverem acontecimentos do seu cotidiano. No trecho abaixo, demonstro os sinais da enfermidade (com redação fictícia):

“A consulta médica foi como esperado, conversamos sobre os sintomas e houve uma espera menor do que da outra vez e aí minha mãe chegou após o trabalho, e tivemos que ir ao ponto de ônibus mas não estava tão quente e foi agradável segurar sua mão e sentir seu apoio.”

Dá para entender? Dá. Mas pobres leitores! O problema é que 90% dos estudantes escrevem assim. Não é falta de conteúdo, na minha opinião. É falta de ar, de pausa, de respiração. Também não é pouca leitura. Eles lêem muito, mas lêem correndo, como escrevem. Tudo é com pressa, como os vídeos do Tik Tok.

Não tenho esse aplicativo, mas há uma tiktokização das outras redes sociais: o reels do Instagram, os shorts do YouTube. Eu tinha jurado que nunca veria um “shorts”. E ontem fiquei hipnotizada por uma hora nessa armadilha.

Costumo pesquisar dúvidas no YouTube, conforme aprendi com meus filhos. O microondas aqui de casa está sempre com a hora certa por isso. Agora até o YT responde com mini-vídeos. E depois que você vê o primeiro não consegue mais parar. É como um grande parágrafo sem ponto.

Não adianta chamar um teórico da literatura para dizer que é “fluxo da consciência”, porque você não pensou nada daquilo. O algoritmo pensou por você e te tragou para dentro dele. Aconteceu comigo ontem. Não sei o que fiz entre as 22 e as 23 horas.

Acordei de ressaca, ansiosa por um antídoto. Revi leituras das últimas semanas. E cheguei às palavras de Paulina Chiziane que abrem esse post: que difícil é viver, lutar, cansar, parar e mesmo assim continuar. Sento para escrever. Criar é uma cura.

Respiremos!

Dez anos de blog — Obrigada!

No dia 6/11/2023 foi aniversário de 10 anos deste blog! ♥️ Obrigada por estarem aqui, pela companhia desde 2013, pelas dezenas de conversas e calmaria. Agradeço o carinho! Eu tinha me programado para escrever um post bem especial sobre concursos em comemoração, mas meu gatinho Charlie ficou doente. Ele já está bem. Em breve o post sai. Será uma parceria com a Manó (@itsme_mano) surgida no nosso grupo no Telegram, Abraço acadêmico.

Que nosso sonho de uma vida acadêmica mais cooperativa e solidária continue gerando frutos! Obrigada por tudo 💌

Projeto “Como escrever um texto em 8 meses” (Semana 4/36) — Desde o último post, escrevi zero palavras! Hahaha. Foi produção de feriados, gatinho doente, leituras de romances e sequestro de mini-vídeos. Ah, tenho a desculpa de que Alice fez Enem! Serve? Não, né? Foi ela quem fez as provas. Minha curva de produtividade só não está pior porque eu pensei. Sim, gente, pensar cansa e dá trabalho. Requer respiração e amadurecimento. Consegui decidir o tema do que pretendo escrever. Já contei para vocês que este será o texto da minha promoção para professora titular? Eu estava com receio de me expor. Mas decidi que não faz sentido fazer um diário de escrita sem explicar o que me espera no final do projeto. Ano que vem completo o tempo de docência necessário para concorrer ao cargo na UFRJ. Preciso escrever um memorial e uma conferência. O primeiro não me preocupa (sou uma otimista para textos pessoais). Já a segunda tem que ser algo publicável. Como diria o Juva, tem que ter brios. Vamos a isto.

Sobre a citação de Paulina Chiziane: Trecho da página 211 (versão eletrônica) do romance “O alegre canto da perdiz”, de Paulina Chiziane (edição Caminho, Portugal, 2008). É o segundo livro dessa autora maravilhosa que conheci por indicação da querida Sarah Toledo, do Sarices. O blog dela está em pausa, mas tem posts maravilhosos sobre literatura lá. E a Sarah também é professora de espanhol. Da Paulina Chiziane, li também o Niketche. São excelentes e muito diferentes um do outro. Adorei ambos, mas acho que prefiro o estilo mais realista e engraçado de Niketche.

Sobre o desenho: Caixinha usada de lenços Kleenex feita com canetinha 0.05 (bem gasta) da Pigma Micron. Trouxe a imagem da página inteira (acima) porque esse desenho foi feito em um bloco Canson A5, papel branco 90gr, que não se encontra mais pra comprar. As cores foram feitas com lápis de cor. Adoro desenhar objetos do cotidiano e perceber seus detalhes. Vocês já tinham lido a legenda “dia a dia” abaixo da marca? Enquanto desenhava, escrevi algumas notinhas sobre o Juva em janeiro de 2022. Foi muito triste de reler, mas a Paulina Chiziane me socorreu:

“Amar é também abrir a mão e deixar partir. Amar é ganhar e perder. É aceitar semear-se para germinar noutra encarnação.” (Paulina Chiziane, O alegre canto da perdiz, p. 77)

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2023. “Respirar, escrever, pontuar. E feliz dez anos do blog!”, Publicado em karinakuschnir.com, url: https://wp.me/p42zgF-41P. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Julho/2022 – Com a paciência de um boi

“Há uma frase de Gustave Doré que sempre achei muito bonita: Eu tenho a paciência de um boi. Vejo nesta frase ao mesmo tempo algo bom, uma certa honestidade decidida; enfim, esta frase contém muitas coisas: é uma verdadeira frase de artista. (…) Eu tenho paciência, como é calmo, como é digno;” (Vincent Van Gogh)

Paciência é das virtudes que mais admiro. Como escreveu Van Gogh: como é calma, honesta e digna.

Desejo paciência nos dias em que o luto parecer interminável; paciência para a mãe do bebezinho aprendendo a mamar; paciência para a amiga fazendo quimio (tendo que lidar com a pneumonia do companheiro); paciência para a Ana Paula Lisboa continuar escrevendo; paciência para quem enfrenta enfermidades longas; paciência para todos os brasileiros para mais um dia, apesar de tudo.

Que a calma e a dignidade da paciência contagiem vocês, leitores queridos. Que o mês de julho venha renovar o nosso estoque. Baixem aqui o arquivo PDF para imprimir.

Que a segunda metade de 2022 seja generosa para nós. ♥

Vincent Van Gogh, 1883, vaca deitada

Sobre a citação na epígrafe: Trecho da página 123 do livro “Cartas a Théo”, de Vicent Van Gogh, edição L&PM Pocket, tradução de Pierre Ruprecht.

Sobre o desenho: Aquarela feita em papel Canson Montval, depois desenhada com canetinha Wacom e editada no Photoshop. Uma explicação detalhada sobre como tenho feito os calendários está no post de junho

Sobre a pintura: Imagem de pintura a óleo de Van Gogh de sua página na Wikiart (onde se pode ver mais 1930 desenhos e pinturas dele). Há lá também uma página sobre o artista Gustave Doré, citado por Van Gogh na epígrafe.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2022. “Julho/2022 – Com a paciência de um boi“, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Y3 Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Junho/2022 – Viver é preciso

“Uma única pessoa está ausente, mas o mundo inteiro parece vazio.” (Phillipe Ariès)

“E então… não mais. (…) o que chamamos de luto é como estar em um submarino, em silêncio sobre o leito do oceano, sentindo a carga da profundidade, ora perto, ora longe, açoitados por recordações. (…)

Você se senta para jantar, e a vida que você conhecia termina. Em uma batida do coração. Ou na ausência de uma. (….) Eu queria gritar. Eu queria que ele voltasse.” (Joan Didion)

No dia 9/4/2022, às 11:50h da manhã, faleceu meu companheiro de amor e de vida, Juva Batella. Ao contrário da Joan, que passou seus primeiros meses de luto tentando entender se havia algo que ela pudesse ter feito para evitar a morte do marido, sinto-me serena quanto à inevitabilidade do que ocorreu. Não havia nada que alguém, máquina ou medicamento pudesse ter feito. Ele precisava da cirurgia, ele marcou a data, e fomos avisados dos imensos riscos.

Minhas tempestades são outras: acordo com a certeza de que ele ainda está aqui, e já não está; lembro que preciso lhe contar o que está acontecendo, e já não posso. Tudo dói uma dor sem remédio, porque não há sorrisos e abraços dele à venda nas farmácias. Seus áudios no Whatsapp soam menos reais a cada dia. Havia tantos planos — nossa rede, nossa varanda –, e já não há.

É preciso reaprender a viver, ser, sentir, pensar, falar… É como se as bordas do mundo que eu conhecia tivessem desaparecido. Sinto-me no oceano de que fala Didion, mas em mar aberto, sem os contornos de um submarino ou de alguma terra à vista.

Ao mesmo tempo, não estou só. O Juva — como falarei no próximo post — foi a pessoa das pessoas. Deixou-me numa ilha cuidadosamente povoada por seres que o amavam, aquecendo o meu coração.

A cada um dos “navegantes e navegantas”, como ele escreveu, agradeço o imenso carinho, sem o qual eu não poderia estar aqui, tentando seguir. Na mensagem que mandou à família, amigos e alunos avisando da cirurgia, terminou por me deixar instruções sobre o que fazer:

“A Karina vai cuidar de vocês, este grupo de amigos do coração, mandando-lhes as novidades acerca do andamento do update [do coração].

Navegar é preciso. (Mas viver também é preciso.) Pensem em mim. ♥”

Cá estou, procurando as palavras e “cuidando de vocês”, escrevendo as “novidades” que eu não queria escrever, vivendo a vida — porque “é preciso” — e pensando nele, com todo amor do mundo, pra sempre.

E amanhã começa o mês de junho, que segue no arquivo PDF em alta resolução para baixar e imprimir.

Relendo os últimos posts, me surpreendi que minhas prioridades para 2022 continuam válidas, ainda que a vida tal como eu conhecia tenha desaparecido. Registrei: “preciso manter a saúde física, mental e artística em dia — e não esquecer disso depois do Carnaval”. O que eu não imaginava era o significado desse “carnaval”, uma época de inversões e liminaridades festivas que se assemelha tanto ao tempo da morte, como a antropologia nos ensina.

Ainda não estou “do outro lado” do meu luto. Mas 52 dias, 8 horas e dez minutos depois, estou aqui escrevendo, já tendo pintado uma aquarela, desenhado um padrão de corações, feito três sessões de terapia e duas de musculação. É um degrauzinho.

Bom junho para todos, com amor, saúde e paciência. ♥

Sobre a citação: Os trechos das epígrafes estão no livro “O ano do pensamento mágico”, de Joan Didion (Harper Collins, 2021, tradução de Marina Vargas).

Sobre o desenho: Aquarela feita em papel Canson Montval (cortei uma folha grande em pedaços A4). Molhei o papel e fiz manchas nos tons de lilás, pincelando com outras cores. Achei que ia seguir os processos anteriores, trabalhando no app Procreate, mas minha canetinha do Ipad quebrou (não carrega, não funciona :/ ). Lembrei da minha velha plaquinha de digitalização Wacom Intuos que graças às deusas funcionou direitinho associada ao Photoshop (mencionei essa compra de 2019 aqui). O processo foi o mesmo dos demais calendários desse ano: mantive duas camadas da aquarela sobrepostas, uma mais escura por cima de uma mais clara. Depois desenhei as linhas dos corações apagando a camada de cima com a canetinha eletrônica (modo lápis-borracha no Photoshop). Para a grade do calendário, adaptei as de 2021 como sempre. 

A estampa de corações foi baseada em um desenho que fiz para o Juva quando ele estava em Portugal. Minha inspiração foram as aulas da artista Neha Modi, que assisti no Skillshare em janeiro. Vocês podem ver o trabalho dela no Instagram @expressionsbyneha.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2022. “Junho/2022 — Viver é preciso“, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3UJ. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Abril/2022 – Seguindo

Pessoas queridas, aí vai o mês de abril, com o arquivo em PDF em alta resolução para imprimir.

Continuo lendo muito e planejando posts, mas a energia de produzir novas publicações ainda não está se encaixando na rotina. Os posts que vocês mais gostam levam um dia inteiro para ficar prontos, sem contar o tempo de elaboração das imagens. Sim, eu contei: são 6 horas em média para cada parte!

Minhas prioridades para esse ano, como escrevi em janeiro, são manter a saúde física, mental e artística em dia — e não esquecer disso depois do Carnaval! Março passou e sigo na musculação, na terapia e no meu caderninho (desenhando e pintando) todos os dias. Recomendo muito!

Desinstalei o aplicativo Instagram para ter mais tempo. Estava muito viciada em ver stories e reels. Esses algoritmos são malignos! Agora entro de vez em quando pelo navegador, o que é uma experiência tosca, porque eles nos querem viciados no app.

Como estou geneticamente programada para ter vícios, claro que já me viciei em outras coisas: ouvir audiobooks gratuitos no Spotify.

Espero que vocês curtam o calendário de abril e se planejem. Bom novo mês para nós! ♥

PS: O subtítulo é “seguindo” porque é o que temos pra hoje. Estou com duas pessoas amadas doentinhas, precisando de atendimento de saúde sério e acolhimento. Não é hora de metas. O plano é ficar bem. Por isso, mando um abraço fraterno aos alunos de graduação, pós-graduandos, pesquisadores e professores que me seguem — e a todos os amigos e leitores de outras áreas também — vamos superar essa fase!

Sobre o desenho: Aquarela feita em papel Canson Montval (cortei uma folha grande em pedaços A4). Molhei o papel e fiz manchas nos tons de verde, pincelando com outras cores. Escaneei e abri no app Procreate do Ipad, mantendo duas camadas da aquarela sobrepostas, uma mais escura por cima de uma mais clara. Depois desenhei as linhas e folhas apagando a camada de cima com a canetinha eletrônica (pincel Narinder Pencil). Para a grade do calendário, adaptei uma de 2021 com o Photoshop. 

Você acabou de ler “Abril/2022 – Seguindo!“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 

Como citar: Kuschnir, Karina. 2022. “Abril/2022 – Seguindo!“, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Uz. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Março/2022 – Atrasadaaaa!

Pessoas queridas, aí vai o mês de março, com o arquivo em PDF em alta resolução para imprimir.

Nem vou me justificar muito para não atrasar esse post. Espero que ainda dê tempo de vocês curtirem o calendário e se planejarem. Bom março para nós! ♥

Sobre o desenho: Aquarela feita em papel Canson Montval (cortei uma folha grande em pedaços A4). Molhei o papel e fiz manchas nos tons de rosa, pincelando com outras cores. Escaneei e abri no app Procreate do Ipad, mantendo duas camadas da aquarela sobrepostas, uma mais escura por cima de uma mais clara. Depois desenhei as flores apagando a camada de cima com a canetinha eletrônica (pincel Narinder Pencil). Para a grade do calendário, adaptei uma de 2021 com o Photoshop. 

Você acabou de ler “Março/2022 – Atrasadaaaa!“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2022. “Março/2022 – Atrasadaaaa!“, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3TS. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Fevereiro/2022 – É permitido sonhar

“Conforme alteramos nossas referências, transformamos também nossas definições do possível e do impossível.” (Tamara Klink)

Há quanto tempo a gente não encara algo fácil?

Vamos relembrar, porque estamos enferrujados: “fácil” é o que se faz sem dificuldade ou esforço; algo claro, compreensível, cristalino!

Então? Repassemos nossa vida:

  • Habitar: custoso, complicado, apertado.
  • Comer: caro, dá trabalho e a louça nunca acaba.
  • Ter saúde: viva o SUS, mas a conta da farmácia tá maior que a do mercado.
  • Usar máscara: sufocante, apertado, indispensável.
  • Testar pra Covid: qual, onde, quanto, quando?
  • Namorar: Tinder? Socorro.
  • Transportar: demora, sufoca e estorque.
  • Estudar: quem ainda aguenta aulas online? Manda o link que eu ass… zzzzzz…
  • Escrever: aconselham desligar as notificações e digitar… Mas o quê? Pra quê? Por quê? Socorro 2!

Há tempos, o bom senso rareia na vida coletiva. Do lockdown de algumas semanas, aqui estamos, tendo que engolir que “não somos coveiros” e que os e-mails da Pfizer foram parar no spam.

Se você está lendo isso, você sobreviveu, bate aqui.

Vim trazer a esperança de fevereiro porque ninguém aguenta mais. Chegamos. Sequelados, vacinados, seguimos!

Meu maior sonho é aglomerar igual sardinha (no mar, né? não no BRT). Nem sou tanto de carnaval, mas passei a ser. Que mágica será maior do que pular num bloco de rua, cantando uma marchinha bem louca sobre um mundo sem vírus, desemprego e inflação?

Sinal de que estamos mesmo em 2022: é permitido sonhar! O Carnaval de 23 está logo ali.

Calendário de Fevereiro de 2022: Segue o mês de fevereiro no PDF em alta resolução para imprimir.

O desenho é inspirado na viagem da Tamara Klink. Ela partiu da Noruega no veleiro “Sardinha” e veio sozinha até o Recife. Agora está descendo a costa brasileira em direção a São Paulo. Vejam abaixo um pouquinho da história dela e onde acompanhá-la nas redes.

Esses peixinhos também são uma homenagem a um moço-peixe que amo muito, que tá sentindo falta da água mas que, já já, estará de volta nas piscinas do mundo. Conta comigo, sempre. Nadamos juntos há exatos 11 anos hoje. 🐟🐟

Coisas:

♥ A citação da Tamara Klink está numa entrevista que ela deu para o canal #Sal, no Youtube.

♥ Tem uma matéria resumindo a primeira parte da viagem dela aqui.

♥ Dá para acompanhar a viagem em tempo real pelo Instagram dela.

♥ E ainda tem livros!! Sim, Tamara Klink já escreveu dois livros (que estão na minha lista de desejos), publicados pela Editora Peirópolis.

♥ Fiquei sabendo de tudo isso pela Helê, do Duas Fridas, que tem também a Monix. Assinem a newsletter delas. É sempre uma delícia de ler.

♥ Aviso: a abertura da exposição do Antonio Kuschnir no MAC-Niterói foi adiada por causa de um problema no ar-condicionado do Museu. Já já aviso a nova data.

Sobre o desenho: Aquarela feita em papel Canson Montval (cortei uma folha grande em pedaços A4). Molhei o papel e fiz manchas nos tons de azul, pincelando com outras cores. Escaneei e abri no app Procreate do Ipad, mantendo duas camadas da aquarela sobrepostas, uma mais escura por cima de uma mais clara. Depois desenhei as sardinhas apagando a camada de cima com a canetinha eletrônica (pincel Narinder Pencil). Para a grade do calendário, adaptei uma de 2021 com o Photoshop. 

Você acabou de ler “Fevereiro/2022 – É permitido sonhar“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2022. “Fevereiro/2022 – É permitido sonhar”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3TS. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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De mim, recap

“And we’ll collect the moments one by one // I guess that’s how the future’s done” (♫ Feist)
[E vamos colecionar os momentos um por um // Acho que é assim que se faz o futuro]

“Recap” sobre mim para as pessoas novas chegando: sejam bem-vindas!

Sou apaixonada pelo Antônio e pela Alice, duas criaturas sensacionais, segundo minha opinião isenta de mãe. Também amo meu gato e meu namorado — nessa ordem porque o Charlie veio primeiro (sorry, baby).

Adoro escrever sobre livros e coisas úteis. Falo de experiências pessoais quando acho que é engraçado ou bonitinho, mas não gosto de falar de mim. Evito tanto postar selfies em redes sociais que um dia recebi uma mensagem de um leitor do blog perguntando se eu era “de verdade” ou se era uma velhinha cheia de assistentes. Melhor comentário da vida! Virou lenda aqui em casa. Era de um estudante fofo, a quem agradeci muito e respondi que era de verdade sim, bastava buscar no Google.

Em 2022, meu lema será “alegria de viver” porque foi o que mais me faltou em 2021. Traduzindo em karinês: alegria pra mim é quando consigo escrever, desenhar, pintar e ler livros (de papel) todos os dias. Também estou reaprendendo a meditar (tá difícil) e conseguindo fazer 30 minutos de musculação 4x por semana (um micro-hábito bem específico que aprendi com meu filho e que tá indo bem). Meu principal desafio de 2022 é chegar em março sem esquecer disso tudo.

“As pessoas são complexas”, meu ex-orientador repetia. E eu, idem. Adoro ser solidária, mas morro de preguiça de passar álcool no tapetinho da academia. Sou apaixonada por estudar, mas já citei autor que não li só para agradar a banca. Tento ser saudável, mas vivo tomando Tylenol. Não bebo álcool, mas de vez em quando sim. Posso comer maçã todos os dias e depois nunca mais. Já fui festeira, mas invento um monte de desculpas para não sair de casa (mesmo antes da pandemia). Amo dar aulas, só que não também.

Além de jornalista, antropóloga e mãe, sou ex-voluntária da extinta ong Amigas do Peito (meu doutorado pessoal por 11 anos) e professora da UFRJ.

Em 2013, criei esse blog para ter o compromisso de publicar textos e desenhos toda semana. O lema dele é ser útil e bem humorado — para constrastar comigo, que, se deixar, fico chata e inútil rapidinho. Já publiquei 250 posts aqui, todos um pouco autobiográficos, a maioria sobre livros e vida acadêmica, sendo duas coleções de fracassos (Não Passei I e Não Passei II) super instrutivas para combater arroubos de vaidade (tudo pode dar errado) e momentos de desespero (já estive pior).

Acho que é isso. Ufa, que post difícil!

O que mais vocês gostariam de saber? ☼

Projetos para o blog em 2022: publicar novos planos de aulas; fazer uma Parte II sobre cursos de desenho e pintura online; escrever sobre hábitos e organização; falar de livros que li em 2021; e fazer um índice de todos os autores já citados aqui.

Coisas:

♥ Para quem quiser ver se sou de verdade, publiquei pela primeira vez uma selfie junto da imagem desse post no Instagram.

♥ A citação de abertura é da música Mushaboom, da Feist. Vocês podem ouvir no Spotify ou no Youtube.

♥ Sobre o Charlie, tem um desenho dele aqui, num post sobre os “defeitos” do Saul Steinberg.

♥ Amanhã (21/1/2022), às 17h, farei uma live sobre volta às aulas com a maravilhosa Thais Godinho do Vida Organizada, no IGTV dela.

♥ Dia 29/01/2022, estreia a Exposição CHORO, do Antonio Kuschnir, com curadoria do Victor Valery, no Museu de Arte Contemporânea — MAC, de Niterói. (Sim, uma exposição de mais de 70 pinturas do meu filho — artista mais jovem a expor numa individual na história do MAC. Pensem na mãe mais feliz e orgulhosa do mundo!)

Sobre o desenho: Traços feitos com canetinha de nanquim descartável Pigma Micron 0.05 e lapiseira Pentel grafite 0.7 feito em um bloco de desenho espiral “Meu Primeiro Canson” em abril de 2021. Feito a partir de uma fotografia, tentando registrar rapidamente, como se fosse no tempo do ao vivo, como aqui.

Você acabou de ler “De mim, recap“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2022. “De mim, recap”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3TB. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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A dádiva daquele instante – Torto Arado

“Diante dos meus olhos, vi minha mãe erguer sua mão direita e segurar com força o braço que avançava rompendo o ar para lhe atingir. Bastou esse gesto para que cessassem os urros e a cólera da mulher, e um fluxo de serenidade se instaurasse entre os presentes.” (Itamar Vieira Jr., Torto arado, p.59)

Li Torto arado em fevereiro de 2021. Ah, como sonhei em ser segurada pelos braços dessa mãe… Era em mim que ela derramava seu “milagre de energia”, serenando o mundo, por dentro e por fora.

Foi na época em que vivíamos a segunda tsunami pandêmica, falta de vacinas e o sufocamento em Manaus. Não preciso explicar, vocês sabem. Na versão particular desse pesadelo, tive um descolamento de retina e espiralei para aquele tipo de doença que todos os médicos diagnosticam como “stress” e te dizem para “relaxar”. Ah, tá.

Itamar Vieira Jr. chegou fazendo a mágica dos grandes escritores: trouxe paz e esperança, força e suavidade, susto e sossego. Fez surgir pessoas inteiras, complexas, encantadas. Lembrou-me de certezas que eu já julgava impossíveis — de que existem o bem-querer, o barro, o estudo, o rio e os milagres.

“O desalento que se abateu sobre todos com a prolongada estiagem contrastava com o sopro de vida que tudo aquilo poderia ser para nós.” (p. 79)

Essa frase traduz, pra mim, a vida seca e fértil de 2021. Foi ano de doença e morte, de ciência e vacina. Pudemos chorar de ódio, medo e dor, mas também de emoção, conforto e alegria.

Quem não derramou lágrimas na primeira dose? Eu e a moça do posto choramos. Até então, prevalecia o desespero, “como se o arado velho e retorcido percorresse as minhas entranhas, lacerando a minha carne” (p.127).

Torto arado trouxe uma energia que estava ali e não se via. Nas palavras de Zeca Chapéu Grande:

“Se o ar não se movimenta, não tem vento. Se a gente não se movimenta, não tem vida (…).” (p. 99)

Pensei na necessidade de me mexer. A terapeuta falou disso. A energia está dentro da gente. Ok, falta um mapa, mas é melhor do que o “relaxa” dos médicos. O único movimento em que eu conseguia pensar nessa época era fugir. Só que não dava, né? Pra onde? Como dizem sobre o lixo, não existe o fora no planeta terra.

Lembrei dos meus antepassados que escaparam da falta de perspectiva e das perseguições religiosas. Pensei no meu avô que ainda por cima fugiu sozinho. “O sangue do passado corre feito um rio”, escreve Itamar, sobre veias abertas há mais de 500 anos. Só que a fuga aqui não é medo: é coragem. As personagens do livro têm aquela força heroica que nos falta:

“Vocês podem até me arrancar dela como uma erva ruim, mas nunca irão arrancar a terra de mim.” (p. 230)

É tão bom que Torto arado seja novo e traga verdades tão antigas, como a história que conta: “triste mas bonita”. É tão reconfortante que possamos ler e imaginar possibilidades; movimentar não apenas o corpo mas os pensamentos na direção de algo bom:

“Juntas fecharam os olhos e compartilharam a dádiva daquele instante.” (p.258)

Os livros tiveram esse efeito sobre mim em 2021: seguraram minhas mãos e me enlaçaram em seus braços, como Bibiana faz com Belonísia na cena citada acima. Foram 68 volumes; 68 dádivas a me trazer para o instante.

Coisas:

♥ Livro citado: Torto arado, de Itamar Vieira Junior. Editora Todavia, 2019. (Desenho da capa da talentosa artista Linoca Souza).

♥ Lista simpática do The Guardian de 100 coisas para melhorar a vida um pouquinho em 2022.

♥ A dica acima foi do Instagram da Helô Righetto. Além de stories sobre Londres, caminhadas e plantas, a Helo faz ótimas recomendações de livros (reunidas na #HeloReads). Em 2021 ela até gravou (com a Rapha Perlin) um simpático podcast de 8 episódios sobre Jane Austen.

Sobre o desenho: Desenho feito com canetinhas Pigma Micron 0.05 e 0.1 no verso de uma folha do bloco A4 XL Aquarelle Canson (capa turquesa). Cores feitas com aquarela e lápis de marcas diversas. Quis imaginar as irmãs saindo de dentro do livro, talvez para mostrar o quão vivas elas me pareceram em suas páginas. Escaneei na impressora Epson L396 (que não recomendo pois vive dando problema) e depois editei um pouquinho no Photoshop. Não consegui acertar as cores do original na tela, mas segue assim mesmo. Até porque esse blog é um espaço de amor; e amor não combina com vaidade, concordam? ☼

Você acabou de ler “A dádiva daquele instante – Torto Arado“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2022. “A dádiva daquele instante – Torto Arado”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3To. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Janeiro/2022 – Planos sem culpa

“Quando não souberes pra onde ir, olha para trás e saiba pelo menos de onde vens.” (Provérbio africano, citado em Um defeito de cor)

Oi! Tem alguém aí? Passando para dizer que estou com saudades e trago o calendário do mês de janeiro, com o PDF em alta resolução para imprimir! Queria ter feito o ano todo de 2022, mas o meu possível foi um mêszinho só.

Como vocês estão? Espero que bem, vacinados e acolhidos entre pessoas queridas e por si mesmos.

Passei 2021 como a maioria: numa Montanha russa emocional. Atravessei ondas internas e externas difíceis. Precisei aceitar a vontade de ficar quietinha. Trabalhei, cuidei de mim, curti meus amores, me refugiei nos livros, desenhei (pouco) e escrevi (bastante) em papéis de verdade.

Agora veio o desejo de voltar pro blog, grata pela montanha de coisas boas que esse espaço virtual me trouxe, em especial, vocês, leitores tão gentis.

Para 2022, meus votos são por saúde, alegria e simplicidade; que possamos respeitar e considerar as emoções uns dos outros, acolhendo tristezas e dores, promovendo estimas e afetos. Tudo passa. Os tempos difíceis vão passar também.

Sei que temos motivos de sobra para chorar e ter medo, mas gostaria de um 2022 que nos desse permissão para cantar, dançar e sorrir. Por isso adotei um lema que achei no Google (sem autoria): “Life is hard. Choose joy anyway.” (Algo como: “A vida é dura. Escolha alegria mesmo assim.”)

Meu lado Addams olha com certo nojinho para esse conselho tipo “seja feliz”. Como assim, tanta desgraça acontecendo, não dá! Só que dá sim, tem que dar. Há crianças nascendo, livros sendo publicados, médicas se formando, negros protagonizando séries de amor, pessoas recebendo alta, organizações plantando árvores e salvando bichos, pesquisadores descobrindo remédios contra Covid, chilenos votando, jovens se apaixonando. E tem a 5ª temporada de The Office.

Desespero tem limite: bora acreditar. Sei que virada de “ano novo” é apenas um dia normal em que o sol dá uma volta ao redor da terra. Mas pesquisas comprovam que datas rituais nos ajudam a mudar, de verdade.

Façamos planos, sem culpa. Quais são os de vocês?

Coisas:

♥ O provérbio citado na abertura do livro “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves (Record). Leitura maravilhosa de 2021. Espero trazer para cá num futuro post.

♥ Ouvi sobre como as datas especiais no calendário (festas, aniversários, estações, signos, feriados etc.) são boas para aumentar nossa capacidade de mudança em entrevistas com a Katy Milkman, autora do livro How to Change, no Intagram (Igtv do @peopleiveloved) e en vários podcasts (só procurar o nome dela). A autora é uma simpatia.

Sobre o desenho: Aquarela feita em papel Canson Montval (cortei uma folha grande em 14 pedaços A4, me preparando para o ano todo, só que não deu tempo). Molhei o papel e fiz manchas nos tons de amarelo e laranja, pincelando com toques de outras cores. Depois desenhei com lapiseira fina (e grafite HB) as coisinhas de praia: conchas em vários formatos (viva o Pinterest), mas também pequenos objetos que às vezes esquecemos na areia. A ideia era fazer tudo à mão, mas depois que exagerei nos detalhes, acabei finalizando no app Procreate do Ipad. Mantive duas camadas da aquarela sobrepostas e apaguei uma delas com a caneta eletrônica. Para a grade do calendário, consegui adaptar das que fiz para 2021 no Photoshop. Boa passagem de ano, pessoal! ☼

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2021. “Janeiro/2022 – Planos sem culpa”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3T2. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Entre o inofensivo e o mortífero: a delicadeza e o talento de Bel Franke

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Era uma vez uma jovem, Isabel Franke, que tinha uma página no Facebook sobre fotografia e antropologia. Cada semana publicava um texto melhor que o outro. Um dia, de tanto receber meus elogios, ela respondeu perguntando se eu poderia ler seu projeto para o mestrado. Era uma ideia linda e desafiadora. Conversa vai, conversa vem, ajusta daqui e dali: vaga conquistada. Que alegria! Moramos em cidades diferentes mas nos acompanhamos de longe.

Para minha surpresa, meses depois recebi uma mensagem do Chris Tambascia, amigo querido, dizendo que precisava de mim numa qualificação. Logo eu? Não tenho mais nada pra dizer… “Essa você vai aceitar”, ele respondeu: é da Bel Franke.

E aceitei mesmo, e me maravilhei como estava tudo mudado. Só que era a mesma Bel: forte, delicada, inteligente, entregue ao exercício de pensar. Tempos depois nos conhecemos pessoalmente e, há poucos meses, depois de lutas internas intensas, estive no festejado dia da defesa. Ela não acha, mas eu sim: já nasceu mestra. A diferença foi só o diploma.

Quem vê de longe, pensa que a vida pra Bel foi fácil. Só sei da pontinha do iceberg, mas dá pra ver que o mar é profundo. Só uma pessoa com um oceano dentro de si é capaz de fazer uma dissertação sobre fotografia, ilustração, morte, guerra e máscara de gás nos deixando maravilhados. Onde ela se debruça surgem novas camadas.

A Bel é casada, tem bichos e trabalha com educação infantil num museu. Agora, faz parte de um projeto sobre história das roupas e dos tecidos, o Traje Brasilis: vestindo a história do Brasil, além de escrever seu próprio blog: belfranke.com.

Foi do blog da Bel que retirei as imagens para pintar as aquarelas que ilustram esse post. O estojinho preto com fita dourada foi feito por ela à mão, inspirada em um hussif, kit de costura popular nos séculos XVIII e XIX. O estojo antigo, à direita, foi pintado por mim a partir de uma foto de um hussif e um kit de linhas utilizado por um soldado neozelandês na Primeira Guerra Mundial, acervo do Auckland Museum. Para ler sobre a conversa entre esses dois objetos, leiam o post original “O hussif: ou quando a costura histórica e a dissertação se encontram“. Ali vocês terão uma amostra do talento dessa escritora, antropóloga, artista, costureira, historiadora e contadora de histórias. Há na sua arte uma tensão que remete ao sentido da vida, entre o “inofensivo e o mortífero”, como em sua análise de uma imagem de 1919:

“Costurar parece a única ação realmente humana, e por isso chama a atenção como esse personagem [um soldado] está despido de seu equipamento: o capacete que está aos seus pés e a bolsa que deixa entrever o tubo sanfonado de sua máscara de gás. Retratado em pleno ato de puxar a linha, é ele que tensiona toda a pintura, como se sintomatizasse a inutilidade e o absurdo da guerra.” (Bel Franke)

Não podia deixar de compartilhar com vocês esse duplo “pensar e fazer” que a Bel evoca. Tenho sentido em muitos jovens com quem converso a vontade de agir, de produzir concretudes. Concordo, apoio, preciso!

Entre a inocência e a morte, há um fio tênue —  entre a potência de uma criança feliz e a queda no precipício da decepção. De que lado queremos estar?

Não tenho muitas certezas, mas essa sim: estou do lado das crianças e dos sorrisos, da Bel e das costuras, da vida e não da máscara.

Para todos que vão entregar qualificações, dissertações e teses agora em março: meu abraço apertado e um lembrete: “quando não precisamos mais ser perfeitos, podemos ser bons” [And now that you don’t have to be perfect, you can be good. John Steinbeck, East of Eden], epígrafe desse post.

Para todos os professores que estão estreiando ou voltando às aulas: sorriam, sejam gentis, bebam água, descansem. A sociedade pode não nos valorizar como gostaríamos, mas nós somos a base de tudo. Muita transformação pode acontecer dentro da sala de aula — e quem sabe a primeira delas seja aprender tanto quanto ensinar. Dicas de volta às aulas nesse post, e sobre a importância do sorriso do professor, aqui.

7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-emocionantes-e-dignas-de-nota da semana:

♥ A vitrola da Alice continua a mil. Os hits atuais são “Tanto amar“, do Chico Buarque e “Baby“, na voz da Gal Costa. Ela não apenas ouve, mas canta e se acompanha no violão. Haja emoção.

♥ Antônio fez 19 anos! Quem me acompanha nas redes já sabe: compartilhei uma foto linda dele, com o sorriso maior que o mundo — uma imagem que toda pessoa que ama sonha em ver no rosto do filho.

♥ Um acontecimento inusitado. Minha mãe resolveu dar um tênis bonitinho de aniversário pro neto. (Por convicção, Antônio só tem um par de tênis e um de chinelos. Imagina o perrengue com essas chuvas.) Compra feita, presente dado, opa: “tem algo estranho, mãe”. Acreditam que o vendedor colocou na caixa um pé de cada tamanho? No dia seguinte tivemos que ir à loja trocar e ainda ouvimos um pedido de desculpas bem “mixuruca”, como dizia minha avó.

♥  Encontrei um ex-aluno que fez biscoitinhos pra nós, aprendi sobre o projeto para escolas do Permacultura Lab, da Unirio, telefonei para uma amiga que virou psicóloga, troquei mensagens com pessoas solidárias, recebi zaps de alunas com saudades das aulas. Muito obrigada, gente! Não sei realmente onde eu estaria sem vocês.

♥ Telefonei para um amigo que perdeu uma pessoa querida, mandei cartão com flores para outro que tá sofrendo. É difícil saber o que dizer nessas horas? É sim. Mas é importante. Não importa quão sem graça você fique — é mais digno dizer qualquer coisa do que ficar em silêncio.

♥ Na pintura, me dediquei ao desenho desse post e estou tocando também o projeto das 50 pessoas em aquarela (23/50). Preciso de dicas de lugares que sejam abrigados da chuva e bons para observar gente. Qualquer sugestão é válida. Agradecida.

♥ Uma leitora sugeriu um acréscimo na receitinha para lidar com desamor etc.: cuidar de plantas! ♣ Adorei a lembrança. Já tive uma varandinha repleta de vasos e flores. Minha planta preferida é o jasmin branco, desses que se enrosca nas coisas. Tem um cheiro maravilhoso e me lembra a casa da minha avó. Depois de ter gatos deixei de ter plantas, porque são perigosas pra eles; e talvez porque não tive como cuidar de tantos seres vivos ao mesmo tempo. Mas recomendo sim! Vou editar o post acrescentando essa dica. Obrigadíssima, Ana Valéria! ♥

Sobre o desenho: Desenhei a partir de fotos do post sobre os hussifs da Bel Franke. Linhas feitas com canetinha Pigma Micron 0,05 de nanquim permanente, em um papel Canson do bloco Aquarelle XL. Pintura feita com aquarelas dessa paleta. Depois escaneei e limpei as sombras do papel no Photoshop. Não deixem de ler o post original da Bel para acompanhar de perto a análise e outras imagens incríveis que ela publicou. Ah, já ia me esquecendo: a aquarela original será um presente para ela! ♥

Você acabou de ler “Entre o inofensivo e o mortífero: a delicadeza e o talento de Bel Franke“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2020. “Entre o inofensivo e o mortífero: a delicadeza e o talento de Bel Franke”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Qr. Acesso em [dd/mm/aaaa].