Feriadão, preguiça, louça para lavar se acumulando? Quem se identifica levanta a mão!
Não posso reclamar: tenho a casa cheia como sempre sonhei. Além dos genros queridos, meus filhos têm amigos que nos visitam no almoço, no lanche e no jantar. Somos “a casa onde sempre tem comida”! Todo mundo abre a geladeira, fuxica os armários, se serve, fica à vontade.
De uns tempos pra cá, porém, o povo foi pegando intimidade. Volta e meia, sai todo mundo correndo para a rua com uma despedida marota: “Tchau mãe! Te amamos. Não se preocupa. Na volta a gente lava!”.
E lá fica a pobre pia, repleta de louça abandonada até o dia seguinte e além. Seguidas refeições, receitas mirabolantes e lanchinhos da meia-noite formam pilhas dignas de um sítio arqueológico.
Há três semanas, diante do caos, resolvi tomar providências. Não, não lavei a louça! 😉
Fui desenhar! Fiz a imagem que abre esse post e colei na prateleira que fica bem de frente para o crime. Logo em seguida, percebi que precisava fazer outra, até mais importante que a primeira:
Desde então, nossa pia recuperou sua identidade. Anda calminha e orgulhosa de mostrar sua pele lisinha e cheirosa de aço inox. Como nós, ela sente saudades do Juva. Ele era o ás da louça lavada (sempre com música) e o “rei da estocástica”, como adorava se autonomear. Ainda que estivesse cansado, organizava o caos.
Uma tática que deu certo aqui em casa durante a pandemia era só ter em uso o mínimo para cada pessoa. Um copo, um prato grande, um pequeno, poucos talheres e pronto. Isso reduzia muito a louça e nos obrigava a seguir o sistema “usou, lavou”. Mas dessa época não sinto falta. Prefiro mil vezes uma pia lotada, lembrando que somos mais felizes quando compartilhamos e comemos juntos. ♥
Boa lavação pra vocês!
Como brinde, estou deixando uma versão em alta resolução das imagens do post para vocês imprimirem. É só clicar aqui para baixar!
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Sobre os desenhos: Papel de aquarela (era um restinho, por isso não sei qual a marca) desenhado com canetinhas Pigma Micron de várias espessuras. Cores feitas com aquarelas e lápis de cor.
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Você acabou de ler “Louça amiga ♥ Fazendo as pazes com a pia“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺
Como citar: Kuschnir, Karina. 2023. “Louça amiga ♥ Fazendo as pazes com a pia“, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-40D. Acesso em [dd/mm/aaaa].
“Continuou sorrindo ao recordar uma história que ouvira certa vez sobre o romancista Anthony Trollope. Trollope cruzava o Atlântico na época e ouviu, por acaso, dois passageiros comentando o último episódio de um de seus romances. “– Muito bom”, declarou um deles. “– Mas o autor deveria matar aquela velha chata.” Com um largo sorriso no rosto, o romancista aborda-os: “– Cavalheiros, agradeço-lhes imensamente! Vou matá-la agora mesmo.” (Agatha Christie, Encontro com a morte, p. 5)
Há algo de mágico e engraçado nessa cena: o escritor surpreende seus leitores e, ao invés de se aborrecer, lhes oferece uma morte de presente: matemos essa velha chata agora mesmo!
Minha bolsa e minha casa são mais ou menos como a pena mágica de Trollope e Agatha: sempre temos uma soluçãozinha pra tudo. Soluçãozona não temos, porque isso já seria demais.
Elástico, band-aid, saco plástico, lenço umedecido, chiclete, clip, caneta, bloquinho, pastilha para garganta, paninho para o frio do metrô ou do hospital, papel avulso, pen drive, piranha, elástico de cabelo, creme de mão, pasta de dente, fio dental, fone, absorvente, remedinhos para dor de cabeça, dor de barriga, enjôo, gripe, inflamação no dente, torcicolo. Caderninho, máscara descartável, lixa de unha, passas, colírio, carteira, cartão do metrô extra, lenço de chorar, cartão do faz tudo da esquina, fones, mais chiclete, álcool 70% spray pequeno, brilho labial, escova de dente, chave da casa e da mãe, óculos extras, sacolinha dobrável para compras, ansiolíticos de diversas épocas e validade vencida. Às vezes tem biscoito, barrinha de chocolate, antialérgico, post-its, marcadores de página, livros.
Já tive mais: lápis de cor miniatura, adesivos de criança, fraldas, cremes de bumbum, roupinha extra pra eles, outra pra mim, lencinho de baba, brinquedinho de morder, petisco de gato, sabonete líquido, livros de colorir, plaquinha de desenhar, fita crepe.
Para o dia-a-dia, sou daquelas que tem em casa uma pasta de envelopes reaproveitáveis, sacolinhas usadas, caixa de costura, feltro para móveis, saquinho de alimentos, roupas para emprestar. Na gaveta do banheiro, tem escova de dente nova para as visitas (dica: as de viagem são as mais baratinhas), potinhos para levar xampu e cremes. De armas secretas, há uma pinça longa de selos do tipo que meu avô usava, uma ferramenta de dentista com duas pontas que resolvem problemas inesperados, furador de lombada de livro, pincel macio para espanar teclados, colas com várias finalidades, almofadas de carimbo.
Assim como guardo coisas, coleciono informações. Arquivo quase tudo (digitalmente se possível) e sei onde achar: documentos dos falecidos e dos vivos, cadernetas de telefone digitalizadas, fotos antigas, exames médicos, cartas, datas, certificados de vacina não falsificados.
Ser esse tipo de pessoa me conforta. Sempre fui assim. Não é uma questão de dinheiro nem de acúmulo. É um modo de me sentir segura. Sou minimalista: meu armário é o menor da casa — só tenho umas poucas roupas, sapatos e bolsas. Meu estojo de aquarela é o mesmo há 20 anos.
Entre os familiares, já fui zoada pela fama de organizada. Diziam: “espera você ter filho”. Tive. A bolsa de troca do meu bebê era assim. Depois falavam: “ah, quero ver com dois filhos”. Tive a segunda. Perguntem para ela. Outro dia mesmo, Alice me pediu: “Mãe, me passa a lista dos itens de viagem!” 😀
As pessoas se acostumam no bom sentido. Meus amores também já me zoaram, mas quando foi que viajaram sem um brinquedinho-surpresa, um lanche gostoso, um cobertorzinho macio? Inclusive, a ideia desse post foi do Antônio que, semana passada, precisou de um envelope de tamanho grande para guardar uma gravura. Fomos juntos no cantinho da bagunça (sim, também temos) e mostrei para ele a seção dos envelopes reaproveitáveis. “Que perfeito, mãe!” e ganhei um abraço tão gostoso.
Acho que essa cena sintetiza o sentido das coisas: nos dar um abraço de conforto que nos surpreende ou nos acolhe na hora que mais precisamos. São as batatinhas preferidas da aluna aflita, os vários tipos de chás para a mãe, o mel do Davi, o chinelo extra para a Nara, o chocolate do Vicente, a geléia do Tomaz, o biscoito da irmã, a água com gás do cunhado, o bolinho para a Jô. Tinham as castanhas do pará do Ju. Cada pessoa que chega merece um carinho.
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Sobre a citação na epígrafe: Encontro com a morte, de Agatha Christie. (Trad. Bruno Alexandre, L&PM, 2011; original de 1938). Desde 2021 venho relendo todas as obras de Agatha Christie. Foi uma redescoberta porque nas últimas décadas minha coleção (incompleta) ficou pegando poeira ou sendo emprestada aos sobrinhos. Fui para o digital para dar conta! A cada livro percebo mais camadas de ironia e autoironia, assim como certas manias e referências da autora. Se gostarem do assunto, me digam que escrevo mais. Aqui no blog já tem dois posts sobre a sua autobiografia: Lições de escrita com Agatha Christie (Parte 1) e Lições de escrita com Agatha Christie (Parte 2).
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Sobre o desenho: Aquarela de uma embalagem e um saquinho de chá de erva-cidreira Chá Leão. Desenho feito em caderninho Laloran em 2021. Linhas em caneta Pigma Micron 0.05; pintura com tintas da minha paleta de várias origens e alguns toques de lápis-de-cor. Na legenda à direita está escrito: “saquinho de chá depois de 1 dia secando”. Por falar nisso, esbarrei em vídeo que sugere secar esses saquinhos e utilizar o papel em desenhos. Não sei mais onde foi. Vou tentar e mostro pra vocês.
… Você acabou de ler “Coisas que nos abraçam“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺
Como citar: Kuschnir, Karina. 2023. “Coisas que nos abraçam“, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3ZI. Acesso em [dd/mm/aaaa].
“Hoje é teu dia”. Era uma vez um menino que nasceu no dia de Santo Antônio e no dia de Fernando Pessoa. Parou de chorar aos 7 anos, bateu no Fofinha aos 12, conheceu Kau e Te aos 18, escreveu 11 livros, amamentou 2 filhas, adotou outros dois, deu de fumar à Pinga, tocou bateria-bongô-e-carron, foi Pai Noel 17 vezes, teve 587 melhores amigos, 39 irmãos e irmãs. Foi o mais feliz, amoroso, gentil, e engraçado pai e companheiro pra Alice B, Clara, Tê, Antonio, Alice K. e pra mim. Dormiu um bom terço da vida. Gostou tanto de dormir que resolveu dormir mais um bocadinho. Virou o beija-flor que aparece na janela, o vento que traz frescor, a ideia que surge de madrugada, a magia dentro de um livro, o quentinho doce que invade quem pensa em ti.
Saudades de quando você abria os olhos e perguntava: “Dormi?” Sim, dormiu, amor. Dormiu tão profundamente que não tive coragem de te acordar… E da sua resposta: “Dormi tão bem… Estava precisando.” A tua felicidade era simples. Bastava um abraço, um copo, um queijo quente, banho e piscina.
No dia do desenho com chapéu, você estava em Portugal, debatendo literatura e recebendo aplausos. Como era linda a tua voz. Lembras que lemos na última noite em que passamos acordados? Li um capítulo de uma história esquisita. Mas te ouvi dizer, divertido: “você lê muito bem”. ♥
Às vezes me revolta o teu otimismo inabalável. “Coisas melhores virão”, diz o verso da nossa música favorita. Te desenhei pequenino em cima desse coração cor-de-rosa gigante, como o teu. O meu ficou espremido quando vi a parte inferior do desenho: uma pessoinha diante do caminho interditado.
O azul deixa tudo um pouco triste, mas anotei que estávamos ambos alegres nesse desenho. Tínhamos a casa só para nós, com cama, gatos, comidinhas, canetas e livros. Ainda sinto o cheiro da tua camiseta azul-clara Best alguma-coisa. Já te disse que amo teus pés tortos? Já.
Bem no cantinho esquerdo da imagem acima tem teu pé de novo. Quem te ama, te reconhece pelo pé. Cada dedinho operado pelo doutor. Nessa página confusa, misturei nosso dia na livraria Blooks e em casa. Registrei: “você não está lindo como és, mas eu te amo”. A Lola gostava do teu colo. Eu lia Virginia Woolf, presente teu.
Nesse caderno, brincamos de retratos no café Severino, na livraria Argumento. Te desenhei e você me desenhou. ♥ Você nunca-não tinha coragem de fazer as coisas. Não sei medir se tenho mais saudades do teu lado rotineiro (natação-café-trabalho-as-mesmas-piadas) ou do teu lado “vamos a isto”, que topava qualquer coisa. Eram sólidos mas infinitos de você.
Talvez estejam pensando que os desenhos estão feios, mas você gostava. Festejamos meu aniversário na hora do trabalho, mesmo sabendo que íamos nos ver à noite de novo. Sua mãe ligou se queixando de labirintite. A sua paciência era quase infinita para coisa difíceis; e às vezes curtinha para coisas fáceis. Era engraçado esse contraste.
Por que te escrevo coisas que você já sabe? Não sei. Ainda acho bilhetes teus e meus dentro de livros e cadernos. As palavras escritas eram parte da gente junto.
Termino esse feliz aniversário com um desenho teu com cabelos! Esse fica na sala, escondido em um porta-retrato com duas portinhas da Gato Preto, de Lisboa. Estás ali e estás aqui.
Você, que ainda parece ao alcance da mão todas as madrugadas, agora me diz: “É isso, Kau. Escreve, desenha, chora um bocadinho, se der vontade. Moro em ti.”
Sim, amor, estou tentando. Te amo, hoje, teu dia, todos os dias.
“Diante dos meus olhos, vi minha mãe erguer sua mão direita e segurar com força o braço que avançava rompendo o ar para lhe atingir. Bastou esse gesto para que cessassem os urros e a cólera da mulher, e um fluxo de serenidade se instaurasse entre os presentes.” (Itamar Vieira Jr., Torto arado, p.59)
Li Torto arado em fevereiro de 2021. Ah, como sonhei em ser segurada pelos braços dessa mãe… Era em mim que ela derramava seu “milagre de energia”, serenando o mundo, por dentro e por fora.
Foi na época em que vivíamos a segunda tsunami pandêmica, falta de vacinas e o sufocamento em Manaus. Não preciso explicar, vocês sabem. Na versão particular desse pesadelo, tive um descolamento de retina e espiralei para aquele tipo de doença que todos os médicos diagnosticam como “stress” e te dizem para “relaxar”. Ah, tá.
Itamar Vieira Jr. chegou fazendo a mágica dos grandes escritores: trouxe paz e esperança, força e suavidade, susto e sossego. Fez surgir pessoas inteiras, complexas, encantadas. Lembrou-me de certezas que eu já julgava impossíveis — de que existem o bem-querer, o barro, o estudo, o rio e os milagres.
“O desalento que se abateu sobre todos com a prolongada estiagem contrastava com o sopro de vida que tudo aquilo poderia ser para nós.” (p. 79)
Essa frase traduz, pra mim, a vida seca e fértil de 2021. Foi ano de doença e morte, de ciência e vacina. Pudemos chorar de ódio, medo e dor, mas também de emoção, conforto e alegria.
Quem não derramou lágrimas na primeira dose? Eu e a moça do posto choramos. Até então, prevalecia o desespero, “como se o arado velho e retorcido percorresse as minhas entranhas, lacerando a minha carne” (p.127).
Torto arado trouxe uma energia que estava ali e não se via. Nas palavras de Zeca Chapéu Grande:
“Se o ar não se movimenta, não tem vento. Se a gente não se movimenta, não tem vida (…).” (p. 99)
Pensei na necessidade de me mexer. A terapeuta falou disso. A energia está dentro da gente. Ok, falta um mapa, mas é melhor do que o “relaxa” dos médicos. O único movimento em que eu conseguia pensar nessa época era fugir. Só que não dava, né? Pra onde? Como dizem sobre o lixo, não existe o fora no planeta terra.
Lembrei dos meus antepassados que escaparam da falta de perspectiva e das perseguições religiosas. Pensei no meu avô que ainda por cima fugiu sozinho. “O sangue do passado corre feito um rio”, escreve Itamar, sobre veias abertas há mais de 500 anos. Só que a fuga aqui não é medo: é coragem. As personagens do livro têm aquela força heroica que nos falta:
“Vocês podem até me arrancar dela como uma erva ruim, mas nunca irão arrancar a terra de mim.” (p. 230)
É tão bom que Torto arado seja novo e traga verdades tão antigas, como a história que conta: “triste mas bonita”. É tão reconfortante que possamos ler e imaginar possibilidades; movimentar não apenas o corpo mas os pensamentos na direção de algo bom:
“Juntas fecharam os olhos e compartilharam a dádiva daquele instante.” (p.258)
Os livros tiveram esse efeito sobre mim em 2021: seguraram minhas mãos e me enlaçaram em seus braços, como Bibiana faz com Belonísia na cena citada acima. Foram 68 volumes; 68 dádivas a me trazer para o instante.
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Coisas:
♥ Livro citado: Torto arado, de Itamar Vieira Junior. Editora Todavia, 2019. (Desenho da capa da talentosa artista Linoca Souza).
♥ A dica acima foi do Instagram da Helô Righetto. Além de stories sobre Londres, caminhadas e plantas, a Helo faz ótimas recomendações de livros (reunidas na #HeloReads). Em 2021 ela até gravou (com a Rapha Perlin) um simpático podcast de 8 episódios sobre Jane Austen.
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Sobre o desenho: Desenho feito com canetinhas Pigma Micron 0.05 e 0.1 no verso de uma folha do bloco A4 XL Aquarelle Canson (capa turquesa). Cores feitas com aquarela e lápis de marcas diversas. Quis imaginar as irmãs saindo de dentro do livro, talvez para mostrar o quão vivas elas me pareceram em suas páginas. Escaneei na impressora Epson L396 (que não recomendo pois vive dando problema) e depois editei um pouquinho no Photoshop. Não consegui acertar as cores do original na tela, mas segue assim mesmo. Até porque esse blog é um espaço de amor; e amor não combina com vaidade, concordam? ☼
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Você acabou de ler “A dádiva daquele instante – Torto Arado“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺
Como citar: Kuschnir, Karina. 2022. “A dádiva daquele instante – Torto Arado”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3To. Acesso em [dd/mm/aaaa].
Está acontecendo! O desenho entrou para valer na agenda da antropologia — viva!
Na 32ª Reunião Brasileira de Antropologia de 2020 haverá a I Mostra de Desenho Etnográfico, com trabalhos que utilizem desenhos relacionados à pesquisa antropológica. Estou torcendo para chegarem muitas incrições! O prazo para envio foi prorrogado para 29/02/2020.
Para completar minha alegria, a imagem de Miriã Cruz, aluna do meu curso de Antropologia e Desenho no IFCS/UFRJ, foi selecionada para o cartaz de chamada do edital.
A ideia da equipe era ter um registro em que o próprio pesquisador-desenhador estivesse inserido na cena. Essa é uma estratégia gráfica que procuro trazer para as aulas, pois um dos efeitos de desenhar no trabalho de campo é colocar em evidência a presença do etnógrafo na narrativa. Como escreveu uma aluna em sua reflexão:
“Uma das principais lições desse exercício é que o pesquisador não é um mero observador, mas uma parte integrande da pesquisa. Quando pesquisamos, estamos envolvidos corporalmente e psicologicamente com o objeto e os sujeitos pesquisados. A neutralidade científica é um mito.” (Luana Fontel)
Miriã fez o desenho que abre esse post na penúltima aula do semestre. A turma de 2018-2 do curso noturno de Antropologia e Imagem foi inesquecível. Apesar de serem quase 60 pessoas — o que é muito numa aula normal, imaginem numa aula prática –, acho que tivemos uma conexão especial.
Vendo a empolgação de todos, e querendo proporcionar uma experiência diferente, resolvi levá-los para desenhar numa biblioteca reservada do IFCS, onde só se entra com hora marcada. É a nossa “mini Hogwarts” — um pequeno labirinto de três andares de estantes, escadas e passarelas, tudo de madeira. Um lugar incrível de um prédio cuja fundação começa no século XVIII, se constrói no XIX e se modifica ao longo do XX.
A emoção foi coletiva, como escreveu um Fernando:
“Enquanto desenhava, pensava sobre as gerações de pessoas anteriores a mim que passaram por aquele local, desde as que construíram o prédio até as que circulavam por ali. (…) Esperanças, medos, deslumbramentos e o sentimento de vida em movimento me inspiraram a traçar as linhas para meu desenho. Nunca tive um aula assim.” (Fernando Lima)
Fui compartilhando ao longo do post alguns dos desenhos que os alunos fizeram nesse dia. A única orientação era para que incorporassem a si mesmos desenhando e, se possível, algum dos colegas de turma desenhando também. Foi difícil selecionar apenas nove imagens para o post, porque amei todas! Adorei que a Thais escreveu no desenho dela:
“Ouço bem de longe a professora dizer que o ato de desenhar é também de fazer escolhas. Desisto da ideia de abraçar o mundo com as pernas, como sempre diz meu pai. Escolho a ideia do labirinto de escadas cruzadas (…).” (Thais Vilar)
Ah, e não custa lembrar: os artistas são alunos de Ciências Sociais. A maioria não tinha experiência intensiva com artes. Sobre a proposta nesse dia, a Luna escreveu:
“[primeiro] pensei: impossível. (…) no fim, fiquei bem impressionada e bem feliz com meu desenho; e levei pra vida a discussão em aula sobre não olhar apenas para todas as dificuldades que nos fazem sentir pequenos, mas olhar para cada passo, para cada gesto e, assim, enfrentar o que nos paralisa.” (Luna Mendes)
Qualquer pessoa pode desenhar, gente.
Agradeço até hoje por esse dia tão mágico. Obrigada turma de 2018-2! ♥
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Vocês podem ler sobre os fundamentos que utilizo nessas aulas no artigo “Ensinando antropólogos a desenhar” que está na página de referências Antropologia e Desenho.
♥ 2 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-ou-dignas-de-nota da semana:
. Novo número da Revista Tessituras – Revista de Antropologia e Arqueologia, com o dossiê Antropoéticas: outras (etno)grafias, editado por Patrícia dos Santos Pinheiro, Cláudia Turra Magni e Marília Floôr Kosby. Sumário fantástico, com textos de Ana Lúcia Ferraz, Fabiana Bruno, Ana Luiza Carvalho da Rocha, Matheus Cervo,
Aina Azevedo, Daniela Feriani, pra citar apenas alguns nomes que acompanho mais de perto. A vontade é de ler o número inteiro! Já comecei a imprimir pelo PDF da Aina.
. Aproveitando o tema, divulgo uma chamada linda que recebi da revista Fotocronografias — link aqui. O desenho maravilhoso da imagem abaixo é da Thay Freitas (ig: @thay_petit). O prazo para envio de contribuições é 31/03/2020.
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Sobre os desenhos: Os alunos receberam uma folha branca de papel A4, 75 gr, para desenhar. Todos fizeram o desenho por observação direta no local, utilizando caneta (esferográfica preta ou canetinha de nanquim descartável). As cores foram acrescentadas em casa. A Miriã ficou com medo de estragar o desenho original e tirou uma xerox, colorindo com aquarela a cópia. O resultado foi incrível para um papel tão simples! Os demais coloridos foram feitos com lápis de cor e um pouco de aquarela também.
Utilizei imagens anteriores, aproveitando o Photoshop para acertar as cores, ocupar melhor os espaços e clarear o branco do papel. Também marquei com desenhos os principais feriados de 2020 no Brasil. Espero que gostem!
Quem sabe agora vou começando a desenhar 2021 no ritmo certo: com calma. ♥
Muito obrigada pelas mensagens tão positivas pelo post de ontem. Continuar a desenhar e escrever voluntariamente aqui no blog é um dos meus focos de 2020.
Minha palavra-chave nos últimos anos têm sido “força”, mas estou cansada de tentar ser forte o tempo todo. Pra 2020, estou querendo liberdade e leveza.
Revendo os calendários, amei os passarinhos que ficaram no mês de abril. Essa duplinha fofa (acima) parece que tá conspirando: — Bora voar?
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Seguem todos os meses em imagens para vocês verem melhor:
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Sobre os desenhos: Quase todos os desenhos foram feitos com canetinha nanquim à prova d’água 0.05 (Pigma Micron ou Unipin) e coloridos com lápis de cor em papel A4 90gr comum. O único mês feito com marcadores é o de maio (tema Matisse), pois as cores tinham que ser bem fortes e sem textura.
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Você acabou de ler “Calendários 2020 de Janeiro a Dezembro“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺
Está super atrasado e é a primeira vez que aproveito imagens anteriores. Foi o possível, num mês cheio de compromissos e imprevistos… Fico um pouco envergonhada de trazer um tema de tanta opulência em plena crise de 2019. Mas escolhi esse porque as semanas coincidiam e gosto dos desenhos repletos de detalhes.
Espero que ainda seja útil para algumas pessoas.
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Obrigada a todos que me escreveram perguntando se haveria calendário em outubro. Eu tinha até um tema planejado, mas não consegui fazer a tempo, desculpem! Foi um mês de muito trabalho extra e estresses desnecessários. Tenho precisado descansar. Abraço apertado em todos. ♥
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Você acabou de ler “Outubro/2019 reciclado“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺
Esse mês, o tema surgiu da minha dificuldade de encontrar uma luz boa para ler em casa à noite. Ainda não tenho uma maravilhosa, mas tá na lista de “um dia, talvez”.
Quem ama ler, adora uma boa iluminação. O melhor dos mundos é ter luz natural, mas meu quarto não é muito privilegiado nesse ponto. Na cabeceira, tenho uma lâmpada de pé (igual àquela grande e vermelha, no lado esquerdo do calendário, só que é preta, herdada de uma amiga). Na sala, minha fonte é um abajur dourado-descascado (no canto superior direito da imagem). Herdei essa peça da minha mãe e, apesar dos defeitos, é minha queridinha.
No mais, temos a lampada de cúpula vermelha simples (à esquerda do cacto) e a luminária preta (à direita do cacto, que fica na minha mesa de desenho, herdada da minha prima). As demais imagens foram inspiradas em achados na internet.
E o que estou lendo com essa luz toda? Essa semana li uma dissertação de mestrado (ótima, do querido Vinícius Moraes de Azevedo) e continuei a ler quatro livros ao mesmo tempo: “Beatrix Potter: a life in nature”, “Reportagem ilustrada”, “Find your artistic voice” e “A interpretação dos sonhos”. Sigo relendo devagarinho “O caminho do artista”. (Artigos e trabalhos de alunos não contam, né?)
Preciso de luz também porque continuo apaixonada por escrever à mão. Desde julho, voltei a ter um caderno simples onde escrevo pelo menos três páginas por dia. Está sendo um espaço para relaxar, refletir, registrar, planejar, anotar ideias, desabafar e desplugar.
Desejo a todos que Setembro seja um mês de encontros: com pessoas queridas e consigo mesmo. Para mim, o caderno está sendo essa fonte: um refúgio que me alimenta para voltar ao mundo tentando ter lucidez, calma e força, um dia de cada vez.
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Vida acadêmica – Novidade noblog! – Um grande passo que consegui dar essa semana foi criar uma página só para organizar os posts sobre vida acadêmica aqui no blog. Espero que gostem! Ainda estou reunindo os posts por assunto, mas já tem muita coisa lá.
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Sobre o desenho: Apesar da ideia antecipada, só estou postando hoje, 1/09, porque levo muito tempo para rascunhar, finalizar, colorir, escanear e editar um desenho desses. Às vezes consigo trabalhar em várias etapas, mas quase sempre dedico um dia inteiro (sábado ou domingo) para isso. Além das quatro luminárias de casa (descritas acima), peguei inspiração em imagens da internet para as demais. Fiz uma versão a lápis primeiro, depois passei canetinhas 0.1 e 0.05 Pigma Micron de nanquim permanente. É importante deixar secar bem antes de apagar o lápis do rascunho ou de colorir com cores claras sobre elas. A qualidade das canetinhas também se mede por esse tempo de secagem. Na minha experiência, a Unipin é a mais rápida (só que a tinta acaba logo) e a Staedtler é a mais demorada, com a Pigma Micron no meio termo. Depois de tudo seco, colori com lápis de cor Polychromos da Faber-Castell. Confesso que fiquei um poquinho em dúvida se gostei das manchas amarelas para indicar luz, mas agora já foi. A minha luminária preferida foi a de madeira com a cúpula vermelha redondinha. E adorei lembrar de fazer a palava “luz”, enfeite típico dos anos 1980, que eu achava lindo. Outro momento nostalgia foram as mini-luminárias de conectar na parede em quartos de bebê. A do ovinho, do cacto e da estrela são desse tipo. E as de vocês, quais são as preferidas?
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Você acabou de ler “Setembro/2019 com luz“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺
Tentei caprichar pra vocês, gostaram? As imagens são todas inspiradas em bolsinhas, sacolas e estojos que tenho de verdade. Esse é mais ou menos o meu acervo inteiro, fora uma bolsa preta que uso todos os dias.
Os tamanhos estão fora de escala porque tive que adaptar aos espaços do desenho. Cada uma tem sua história, bem no espírito de uma aula lúdica que expliquei aqui.
Das 22 peças, só 5 não foram presentes! Minhas preferidas são as herdadas da minha avó: a mini mochilinha Kipling verde e a mini bolsinha amarela eram de uso dela, até os seus 98 anos. A bolsa rosa de alça bem comprida ela me deu há muitos anos. É de feltro, com umas flores bordadas, uma coisa que eu nunca compraria mas que aprendi a adorar.
A bolsinha porta-moedas com um símbolo da Suiça foi presente da minha tia-avó, para quem comecei a escrever cartas desde que me entendi por gente, um amor gigante. A necessaire em formato de xícara de chá veio da amizade mais antiga, desde os 14 anos, uma amiga com quem venho trocando cartas infinitas a vida inteira.
As duas bolsas coloridas de alça curta à direita são do Nepal, presente da minha ex-sogra. São como colchas quilt, de tecidos emendados, com bordados por cima. Pequenas obras de arte! O lápis-estojo veio de Portugal, esse lugar da saudade do Ju e que sintetiza tanto nosso amor mútuo e pela escrita. Os panos enroladinhos são guarda-pincéis, ambos presentes de amigas queridas. Como a bolsinha transparente (que veio numa compra de materiais da Winsor & Newton), remetem à paz da pintura.
A antropologia está na sacolinha da Reunião da ABA de 2006, em Goiânia. Veio com um tecido de grafismo indígena e é o meu brinde de congresso favorito até hoje. Por estranho que pareça, tem vida acadêmica também na bolsa roxa, presente de uma amiga guru que ficava hospedada na nossa casa quando vinha ao Rio se enfurnar nas bibliotecas e no mundo do século XIX.
E por aí vai… São pedacinhos de memória e afeto.
A maioria está bem usada e gasta, mas minha vontade de comprar coisas novas é zero. Podem me bombardear de anúncios. Estou vacinada. Já tenho mais do que o suficiente para viver (embora as camisetas estejam furando cada vez mais rápido, como já conversamos, socorro!).
Nossos vazios interiores não vão ser preenchidos por coisas, nunca. Cantar com a Alice, desenhar com o Antônio, trocar com os amores e amigos, viver com os livros, as tintas e os alunos por inteiro. Reconhecer a beleza das nossas memórias, mesmo as rasgadinhas e doídas, cuidar das plantas, dos bichos e das pessoas. É nisso que tenho me apegado.
Li essa semana que, na véspera da Segunda Guerra Mundial, Virginia Woolf se desesperava ao ouvir os discursos racistas e fascistas de Hitler no rádio. Seu marido a acompanhava, horrizado. Até que um dia, Leonard Woolf se recusou a escutar. Preferiu ficar no jardim, plantando suas flores, com esperança de que iriam florescer por muitos anos e, até lá, Hitler já estaria morto.
Plantemos flores, conhecimentos, redes solidárias feitas de gentes. Sobreviveremos aos facínoras do nosso tempo.
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Fonte: A historinha do casal Woolf está na página 197 do livrinho “Keep Going”, de Austin Kleon, e foram originalmente contadas nas memórias de Leonard Woof, “Downhill All the Way”. Acabei não resistindo comprar esse livro porque tenho ouvido entrevistas com o autor que é um produtor incansável de diários, prática que retomei nas últimas semanas. Recomendo esperar a tradução, que com certeza virá pois é um desses best-sellers de auto-ajuda para artistas. O primeiro dele, “Roube como um artista”, foi publicado no Brasil pela Rocco. Gostei mais desse último, mas por favor, gente, não saiam esperando grandes profundidades: é uma obra bem modesta, que se lê em poucas horas.
Sobre o desenho: Desenhei observando com canetinha de nanquim permanente Unipin 0,2. Depois colori com vários lápis de cor e fiz alguns detalhes com canetinhas Pigma Micron coloridas. Acho que a base do calendário ficou mais nítida porque venho utilizando um scanner-impressora novo! Tinha comprado em fevereiro (!) mas só em junho tive fôlego para instalar, acreditam? É uma multifuncional Epson L396, sugestão da minha professora de Photoshop. O scanner é mil vezes melhor do que o da minha antiga e basiquinha HP. A impressão ainda não testei muito. É com EcoTank, ou seja, com quatro cores separadas, o que supostamente será uma economia a longo prazo. Mas achei a impressão rápida em preto bem fraquinha e um tanto lenta. Só fica boa se colocar o setup na qualidade normal ou ótima. Enfim, só testando mais. Depois conto aqui.
Boa semana! ♥
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Você acabou de ler “Agosto/2019 – Pedacinhos de memória e afeto“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺
Quem reconhece uma sacolinha lotada assim, levanta a mão! Taí a imagem que sintetiza as minhas “férias” e a de quase todos os professores que conheço. Pilhas de trabalhos pra corrigir em casa, e a ilusão de que vamos terminar artigos, entregar pareceres, enviar relatórios, marcar orientações e, quem sabe, dar um gás na pesquisa e até uma arrumada nos programas de curso do semestre que vem. [Pausa para suspirar.] Alguém se identifica?
Confesso que pesquei essa listinha de um amigo querido, que me mandou um áudio comentando tudo que ele tinha pensado em fazer nesse recesso da universidade. Ri sozinha de nervoso ouvindo a mensagem no zap. Pessoa mais doida é professor… Não sabe fazer conta da imensidão do próprio trabalho, não sabe dizer não pros textos, pros alunos, pros amigos que pedem pareceres, nem pra si mesmo…
A maioria está assim por conta da precarização do trabalho, claro. O que mais tem é professor com 30 turmas em três empregos. Mas nem todos!
Muitos, como eu, se atolam porque lidam com assuntos e causas que os apaixonam. Só que a vida é como um grande barco de restaurante japonês: para comer as peças que mais gostamos, temos que entubar um monte de kani.
E olha que eu me acho super organizada. Tenho um sistema com todas as informações sobre o que preciso fazer, quando, onde e como. Sei quanto tempo levo nas tarefas e quais compromissos não posso ou não quero aceitar. Tenho clareza sobre as minhas prioridades — filhos, depois eu mesma (amor/saúde/arte incluídos), aulas e alunos, atividades da universidade em geral, a casa e o mundo.
Mas a vida e a antropologia estão aí pra nos lembrar que os laços obrigam. Se amamos nossos bichos, nos cabe cuidar. Se vamos publicar num livro da Routledge (sim, viva!), precisamos fazer o parecer que nos pedem. Se nos dedicamos às aulas, temos que corrigir os trabalhos à altura. A cada “sim”, temos uma dívida em potencial cozinhando. É preciso levar as obrigações a sério, já dizia a saudosa professora Lygia Sigaud.
A doença da Lola me impactou, alguns alunos atrasaram… e a sacolinha cheia de trabalhos foi ficando esquecida num canto. De repente, me pareceu tão bonita, recheada assim. Precisei desenhar e pintar antes de começar a corrigir. Justifiquei pra mim mesma que estava tudo bem, que o prazo ainda não chegou, que tem trabalhos vindo por e-mail ainda, porque foi pro brejo a minha rigidez de professora jovem e determinada. Como diria meu ex-terapeuta, “– É uma vitória quando você chega atrasada, Karina.” Taí o motivo do atraso, alunos queridos. Fiquei pintando os trabalhos de vocês e escrevendo post. Tudo em nome da arte, porque só a arte e os estudos nos salvam.
A pequena “natureza morta” que ilustra esse post une essas duas coisas: arte (a sacolinha preta foi presente do Simpósito anual dos Urban Sketchers em Manchester, de 2016, onde dei uma palestra); e estudos (os trabalhos de duas turmas maravilhosas de 2019-1, um semestre em que me dediquei a estudar e me renovar). Juntos, esses objetos me lembram do motivo de eu estar aqui pensando, escrevendo e desenhando em público, enfrentando a timidez e a preguiça. rs
Obrigada pela companhia, pessoal. Boa sorte e muita tranquilidade para todos que estão às vésperas das seleções de mestrado nesse final de julho. Meu coração está com vocês. ♥
6 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-ou-dignas-de-nota — Amo blogs e newsletters. Aí vão algumas que são ótimas companhias para ler nos momentos em que vocês precisarem de bons conteúdos pra se distrair, sem precisar recorrer às redes sociais:
* Duas Fridas: newsletter do blog Duas Fridas da Helê e da Monix. Sempre com temas ótimos, bom humor e com lembranças maravilhosas de posts passados que me fazem sorrir e esquecer o caos dos tempos atuais.
• Ainda não acabei de pensar nisso: newsletter do blog Papiro Papirus, da Rita Caré, portuguesa, artista, bióloga, comunicadora, cheia de humor e maravilhas a nos deliciar com suas descobertas e reflexões.
• Eva-Lotta: newsletter do blog da ilustradora alemã Eva-Lotta Lamm que ama o mundo das anotações desenhadas, aprender novas habilidades, pensar o cotidiano de forma lúdica e ensinar. Uma lindeza! (em inglês)
• Austin Kleon: newsletter semanal do blog do autor que descobri por meio da Rita Caré (acima) — obrigada, Rita! Traz sempre uma listinha de dez sugestões de leituras, links, imagens interessantes para o autor. Voltada para quem ama livros, arte, educação: ou seja, nós! (em inglês)
• Viktorija Illustration: newsletter mensal do blog da ilustradora Viktorija, baseada em Londres. Traz propostas de exercícios, inspirações, dicas e sugestões de materiais de arte. É bem despretenciosa e bonitinha. (em inglês)
• E como faço para saber dessas coisas? Utilizo um app de blogs chamado Feedly, onde “assino” os blogs que gosto, separados por assuntos. Leio no notebook, mas é também o meu app de celular preferido, seguido do Kindle, cheio de amostras de livros que não vou comprar!
E vocês, quais newsletters me indicariam?
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Sobre o desenho: Fiz primeiro um rascunho rápido com lapiseira observando a sacola cheia com os trabalhos de uma turma, apoiada na pilha de trabalhos da outra (o caderninho vermelho foi feito por uma aluna super querida da aula de antropologia e desenho desse semestre, uma graça). Depois desenhei por cima com caneta de nanquim permanente Unipin 0,2, em verso de um papel do bloco Canson Aquarelle XL (capa turquesa). Depois apaguei o lápis e pintei com vários materiais: a sacola preta e o caderno vermelho foram pintados inicialmente com uma guache acrílica (Acryla Gouache, da Holbein, que ganhei ano passado e só agora comecei a experimentar); as letras brancas na sacola foram feitas no dia seguinte (para a base secar bem primeiro!) com caneta Gelly Roll 0,8 branca da Sakura. O restante foi colorido com lápis de cor (os detalhes dos trabalhos) e aquarela (especialmente as sombras).
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Você acabou de ler “Férias de professora“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺