Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Cores de março

mar2015g

Não sei se já comentei aqui, mas um dos desafios da minha vida foi assumir que adoro ser útil e fazer trabalhos manuais.

Comecei a ter noção de que tinha vergonha disso na faculdade de jornalismo. Amava as aulas de teoria, filosofia, história, cinema etc… Mas secretamente continuava querendo ajudar o meu avô a lavar selos.

Um dos professores que eu mais admirava era o Wagner Teixeira (agora já falecido). Ele escrevia divinamente, contava histórias incríveis sobre reportagens heróicas, publicava livros, um sábio. Ficamos amigos porque eu falei para ele: — Professor, me desculpe, mas vou ter que trancar a sua disciplina para fazer um curso de cinema no Estação Botafogo com o Luiz Vieira (da UFF). Ele ficou impressionado de eu dizer isso no meio do semestre ao invés de tentar enrolar para ver se colava. (E não conto isso para posar de certinha: é claro que enrolei vários dos meus professores, mas não ele.)

Não sei bem como foi, mas a partir daí começamos a marcar conversas e ficamos amigos. Ele era da velha guarda, adorava beber, fumar, e tinha uma barriga imensa… e era uma figura adorável e humana. Ia direto ao ponto, sem papo furado. Me indicava livros, me ajudou a sobreviver ao tédio do meu primeiro estágio e me fez ter confiança para tentar o mestrado.

Um dia marcamos um encontro no Centro, na Rua da Quitanda. Ele estaria no escritório de uma associação de aficcionados por dicionários (ele próprio era um). Aficcionados é pouco: eram estantes e mais estantes só de dicionários e obras de referências de todos os tipos. Um lugar incrível! (Pena eu não me lembrar do nome.)

Pois bem. Quando eu chego lá, vejo o seguinte: o professor Wagner Teixeira com tesoura e cola na mão, cortando e colando etiquetas de remetente nos envelopes de correspondência da associação. E ainda escrevendo cada endereço dos destinatários à mão, com caneta e letra caprichada.

Ele me viu chegar e foi logo dizendo: — Quer me ajudar? Adoro fazer esse tipo de trabalho manual. Me acalma. E você?

Eu — Sim! Também adoro!

E ficamos lá, um tempão, naquele silêncio delicioso de quando nos sentimos bem acompanhados, preenchendo papéis que muito provavelmente iam parar no lixo.

Esse momento ficou na minha memória. Sei que é banal… Mas foi mágico saber que uma pessoa que eu admirava tanto intelectualmente também gostava de tesoura e cola; e de fazer coisas práticas e úteis. (Nessa época eu tinha sublimado o desejo de desenhar.)

Queria também dizer obrigada pelos comentários tão gentis aqui e no Facebook sobre o post da semana passada. Foram quase 10 mil visualizações — não que eu esteja contando… imagina! 😉 Mas esse tipo de repercussão ajuda a achar que um blog também pode ser útil!

Sobre o desenho: Amo listras! O calendário de março foi inspirado nas cores de um potinho de porcelana portuguesa (moderna) que tenho aqui em casa; e também na lateral de um livro sobre teoria da cor que vi no atelier da Chiara Bozzetti, com quem estou começando um curso de aquarela. Fiz as linhas com canetinha Pigma Micron 0.2 e as cores com lápis de cor. Comecei usando os aquareláveis, mas depois troquei para o Prismacolor Premier que se mostrou realmente muito superior para cores chapadas e fortes como essas. Acrescentei um pouquinho de Abril porque nunca é demais lembrar que tem feriado no final do mês!

 

 


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Defesa de doutorado: dez dicas para sobreviver (e aproveitar)

sonho duplo

 “And now that you don’t have to be perfect, you can be good.”
John Steinbeck, East of Eden

Quando assisti pela primeira vez uma defesa de doutorado, saí empolgadíssima para comentar com meu (futuro) orientador:

Eu — Puxa, quero ler aquela tese: deve ser maravilhosa!

Ele — Hã? Maravilhosa? Como assim? A tese quase não foi aprovada!

Eu — Ué… Mas a banca elogiou tanto!

Ele, já rindo — Você não entendeu nada, Karina… A banca elogiou pontos sem importância; mas criticou a estrutura do trabalho!

Eu — É? E ele virou doutor assim mesmo?

Ele — Sim!

Quase 25 anos depois desse episódio e após minhas próprias defesas e participações em bancas, acho que aprendi alguma coisa…

Em homenagem às centenas de teses que serão defendidas nas próximas semanas Brasil afora, aí vão dez dicas para sobreviver (e aproveitar) esse momento:

1) Muita gente se apavora antes da defesa, lembrando do pânico que foi a prova de seleção. Nada a ver. Se o seu(sua) orientador(a) é minimamente sério, se a sua defesa está marcada e se a sua tese está entregue, relaxe: você vai passar. (Mas não fica bem mandar imprimir convite para a festinha da noite, muito menos convidar os membros da banca com antecedência!)

2) O que mais me ajuda nas situações de estresse acadêmico é me preparar. Agora que estou do outro lado, sei que uma fala bem ensaiada de 20 minutos é tudo que a banca sonha em ouvir. Algo que Informe a platéia mas não canse os examinadores… Também é prático imprimir a apresentação em letra grande. Tenho implicância com power-point de texto em defesa, mas para imagens ou filmes, às vezes é inevitável.

3) Se na hora de montar sua apresentação você for como 95% dos doutorandos que ainda não sabem exatamente sobre o quê é a tese…, relaxe: você é normal. Os outros 5% são uns chatos.

4) A defesa é um ritual mas não um teatro infantil requentado. Ao contrário! Na minha experiência e na de muitos que já passaram por isso, a defesa é um dos melhores momentos da vida acadêmica. Durante quatro horas, cinco professores se dedicarão exclusivamente a debater o seu trabalho com você. Quando isso vai acontecer de novo? Talvez só numa homenagem póstuma (e você não vai estar lá para ver).

5) Para aproveitar ao máximo, umas dicas aparentemente bobas, mas úteis: usar a sua roupa mais apresentável-com-conforto no dia (roupa nova é arriscado, vai que aperta), ir ao banheiro antes, levar água e uma comidinha discreta para o intervalo (chocolate, castanha, uva). Na minha defesa, levei aqueles saquinhos com mel dentro; mas eu mordia, mordia, e nada de abrir… foi horrível. O doutorando mais engraçado que já vi começou a defesa instalando um verdadeiro piquenique na mesa: comidinhas variadas, bebidas, guardanapos! (E passou super bem. Foi considerado excêntrico.)

6) O meu Grande-Medo era ouvir críticas que eu não soubesse responder; ou pior: críticas tão ferozes que não restasse nada de bom no meu trabalho. Isso é uma Grande-Bobagem, por vários bons e maus motivos… Um bom motivo é que, como escreveu Umberto Eco, se foi você mesmo que fez a pesquisa, você é a pessoa que mais saberá defendê-la. Confie nisso. Outro bom motivo é que todo trabalho tem pontos fortes (ou deveria). Valorize os seus caminhos e as suas opções.

7) Conheço orientadores experientes que aconselham seus alunos a defenderem-se a qualquer custo das perguntas da banca. Não concordo. Acho que é importante se valorizar, mas também reconhecer quando algo interessante (ou problemático) for sugerido. Uma das defesas mais legais que assisti foi a que o orientando fez questão de convidar uma banca feroz, só com professores famosos por serem durões. E, a cada pergunta, ele vibrava, anotava e dizia: “manda mais!” Tudo para poder responder de igual para igual depois! Foi um espetáculo.

8) Ainda um bom motivo para enfrentar o Grande-Medo: humildade faz bem. Como diz Steinbeck na epígrafe acima, quando não precisamos mais ser perfeitos, podemos ser bons. (Vovó Trude diz que o bom é inimigo do ótimo. Ela tem razão: queremos fazer teses incríveis, fantásticas e que vão revolucionar o mundo, mas vamos fazer apenas Teses. Ponto.)

9) Isso me lembra outro bom motivo para afastar o medo: a conclusão do doutorado é o começo da vida acadêmica e não o fim. É a partir da defesa que começamos a trabalhar de verdade. Sei que isso parece irreal agora (antes), mas vai por mim. A vida começa depois da tese.

10) Os maus motivos para não ter medo da defesa infelizmente também existem: quando seu(sua) orientador(a) ou os membros da banca não fazem um bom trabalho, não terminam de ler a tese, não se empenham em elaborar questões relevantes, não focam no seu tema, não estão interessados em contribuir com a sua pesquisa… Sem falar naqueles defeitinhos sórdidos: ciúmes, agressividade, inexperiência, preguiça. Enfim, uma prova de que os doutores continuam sendo humanos. Resta voltar ao ponto 9 e lembrar que a vida continua.

Foi pensando no tempo em que eu esperava os dias para a minha defesa (nos idos de 1998!) que fiz o desenho acima. Como já contei aqui, somatizo as minhas ansiedades e medos tendo pesadelos terríveis. Sonhava que tinha esquecido de entregar um capítulo, que não lembrava de levar a apresentação, que saía massacrada… Todo o roteiro acima (do 1 ao, infelizmente, 10 também).

O problema de quem tem muito pesadelo é voltar a dormir. Hoje, pela primeira vez, resolvi desenhar a imagem que me ajuda a retomar o sono de madrugada. Imagino que estou deitada na beira de um rio, embaixo de uma árvore, num dia bonito, e tento me concentrar na sensação de paz desse cenário. Aprendi esse tipo de visualização ainda adolescente, com uma professora de violão. Quase sempre dá certo.

Espero que o post e a imagem ajudem a todos a atravessar bem as defesas que vêm por aí! Boa sorte!

Update de fev/2017: leitores novos, sejam bem-vindos! O post tem sido lido por milhares de pessoas nos últimos dias mas o WordPress só me diz que o link vem de algum lugar do Facebook… Alguém poderia me mandar a origem para eu agradecer a referência? Podem postar nos comentários, mandar via mensagem de Facebook ou por e-mail! Obrigada ♥

Sobre o desenho: Registrei o processo antes de adicionar cor, pois estava insegura se ia dar certo (esse caderno Laloran é maravilhoso, mas não está com papel próprio para aquarela). As linhas foram feitas com canetinha nanquim Pigma Micron 0.3 e as cores com aquarela Winsor & Newton e waterbrush Kuretake.

Você acabou de ler “Defesa de doutorado: dez dicas para sobreviver (e aproveitar)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2015. “Defesa de doutorado: dez dicas para sobreviver (e aproveitar)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url “http://wp.me/p42zgF-cG“. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Anti-selfies

rostos

Foi meu filho quem mostrou: — Olha, mãe, quase todos têm barba aqui no auditório! (Estávamos na PUC, assistindo a uma mostra com produções dos alunos de… cinema; alguém desconfiou?)

Antônio sempre foi assim, capaz de detectar padrões visuais, mesmo nas situações mais complexas. Fazia quebra-cabeças de 250 peças aos quatro anos, decorava mapas e bandeiras, sabia identificar o andar de um shopping pelo desenho dos mosaicos no chão.

Eu não. Tenho dificuldade com ambientes grandes, lojas de departamentos, multidões e paisagens. Vai ver porque sou miópe nos dois olhos (bastante), mesmo usando óculos o dia todo desde os 13 anos.

Gosto de olhar de perto, de gente, face, rosto, retrato… E dos outros! Como escrevi aqui, o que me motiva é conhecer as pessoas. De mim, já tenho o suficiente. Se pudesse até que seria ótimo doar meus pensamentos repetitivos por aí — mas tenho certeza de que ninguém ia querer…

Felizmente, cada vez mais aprendo e aproveito o fato de que desenhar é uma forma saudável de esquecer de mim.

Abaixo, pessoas iluminadas pelo letreiro laranja e vermelho de um restaurante.

rostos-001

 

Abaixo, à esquerda, faces da platéia durante um seminário de antropologia (IFCS/UFRJ).

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A seguir, pessoas na sala de espera de um cartório.

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E para terminar, meus personagens mais frequentes: passageiros cansados no metrô.

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Sobre os desenhos: Linhas feitas com canetinhas de nanquim permanente Unipin 0.05 ou 0.1 sobre caderninho Laloran. Nas barbas da PUC, as sombras foram feitas com aguada de nanquim no local, através de um pincel waterbrush. Nos desenhos da platéia, usei canetinha vermelha Moji 0.38 (antes que vocês corram para comprar: acho as Unipins bem mais macias.) Nos demais, cor adicionada em casa com aquarela Winson & Newton.

 


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Continue a nadar, continue a nadar

fev2015fb

Quase me afoguei no mar por volta dos onze anos. Não perdi a consciência, mas fui tirada da água por dois salva-vidas que seguravam meus braços com força e me mandavam afundar e respirar, afundar e respirar. Nunca recuperei a coragem com onda de praia, mas sou um pouquinho teimosa (de onde será que a Alice puxou?) e cheguei a me formar num curso de mergulho, com cilindro, pé-de-pato e tudo mais.

Também já tive dois namorados-peixes (um ainda tenho!), do tipo que morre se não nadar todo dia. Os dois tentaram me conquistar para participar desse amor pelo mergulho matinal. Só faltou combinarem com meu sono, meu ouvido, meu nariz, meu cabelo, meu frio… ah, e ainda arranjarem uma piscina sem cloro. Em 2013, fiz até um protetor de ouvido especial para tentar vencer o bloqueio, mas a anti-piscinice foi mais forte.

Pessoa-peixe é ótima para namorar, desde que você saiba com quem está nadando… É do tipo que fica bem sozinha, gosta de sons repetitivos (conhecem o Philip Glass dos anos 1980?), acorda cedo feliz, tem relógio à prova d’água e mini-toalha de atleta. E tem o lado peixe: escorrega toda vez que você tenta segurar!

Essa é a graça. Amar alguém que nada ao seu lado; nem te puxa, nem te empurra. Não tem tempo ruim, chuva, frio, madrugada, tristeza; é “bora pra piscina”. Como canta a peixinha Dory, personagem do filme Procurando Nemo, toda vez que se atrapalha:

— Continue a nadar, continue a nadar, continue a nadar…

[No original: “Just keep swimming, just keep swimming, just keep swimming.” Vejam aqui]

Essa filosofia-aquática da Dory serve pra tudo, vamos combinar?

E é bem mais delicada do que a da Alice, que outro dia pegou um copo d’água bem grande e foi toda sorrateira jogar na cara do irmão. Detalhe: ele estava dormindo. Só ouvi os gritos pela casa!!

Eu — Filha, por que você fez isso????

Alice — Ah, não sei… queria ver se era engraçado!

Antônio — Mentira, mãe. Ela viu isso no Rezende!

Eu — Rezende?? Quem é Rezende? O que é Rezende?

Alice — Ele é muito legal, Antônio!!

Antônio — Ele faz vídeos sobre Minecraft, mãe. Outro dia ele jogou água na cara do irmão dormindo também.

Alice, na maior cara-de-pau: — É, e pelo menos o irmão dele achou engraçado…!

Eu, a mãe-sendo-mãe — Alice?? Dois dias sem internet! E pede desculpas para o seu irmão.

Sobre o desenho: Fiquei feliz porque as crianças finalmente voltaram a me ajudar nesse calendário de fevereiro — por acaso mês do signo de peixes também. Aprendemos no Google que esse era o último mês do calendário romano, e não tinha nome porque ninguém marcava o tempo no inverno. Existem várias lendas sobre por que fevereiro tem 28 dias mas, para mim, a grande data é 26, aniversário do meu filhote, nascido em pleno Carnaval de 2001, com direito a pediatra cheio de purpurina na sala de parto (contei a história nesse post aqui; e indico também uma fonte engraçadíssima sobre fevereiro aqui).

Fica o convite para que, mesmo nesses tempos difíceis, “continuemos a nadar”, cada um nas suas cores e no seu ritmo.

Fizemos o desenho com canetinhas Unipin 0.05 e colorimos com lápis-de-cor Prismacolor. As sombras foram feitas com caneta brush Tombow Abt, n.95. No Rio, dá para comprar as duas canetas na papelaria JLM, no Largo do Machado.

 

 


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Mortos pelo Rio

 

mortos

Quando ainda era bem pequeno, diante de uma série de fotos em preto e branco, Antônio fez uma pergunta que me supreendeu:

— Eles estão mortos, mamãe?

Hoje, na tentativa de homenagear algumas das dezenas de pessoas assassinadas nesses primeiros dias de 2015 no Rio de Janeiro (e nem falo do Brasil, pois já seriam centenas), lembrei dessa nossa conversa.

— Sim, filho. Eles estão todos mortos.

E não sei como podemos continuar vivendo no Brasil assim…

Nos anos 1950, o sociólogo Everett Hughes formulou uma explicação simples para os milhões de mortos na Alemanha da Segunda Guerra Mundial. Alguém estava fazendo o “trabalho sujo”, enquanto a “sociedade” seguia mais ou menos vivendo como se não fosse com ela. Isso soa familiar?

Hoje, no Brasil, morrem principalmente jovens meninos pretos pobres, moradores das áreas desfavorecidas das cidades. Quando grande parte da minha família foi dizimada na Guerra, eram judeus, os pretos pobres da ocasião.

É uma ilusão achar que eles morrem e nós não. Estamos morrendo juntos, pouco a pouco, a cada nome que acrescentamos nessa lista macabra. Porque um dia nossos filhos vão nos perguntar:

— Mas vocês sabiam disso e não faziam nada?

Sinceramente, gostaria que alguém me dissesse o que posso fazer.

O título desse post foi para me lembrar de que essas pessoas estão sendo mortas porque moram no Rio de Janeiro, porque moram no Brasil. Porque é isso que acontece com quem mora aqui.

Sobre o desenho: Retratos feitos a partir de fotos de sites com notícias sobre assassinatos no Rio de Janeiro em janeiro de 2015 de crianças, estudantes, policiais, pessoas. Fiz num caderno antigo utilizando canetinha Unipin 0.05 e aguada de nanquim.


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Não passei

naopasse

Não passei no vestibular de desenho (duas vezes).

Não passei na prova de estágio da editora Abril.

Não passei na prova de inglês do mestrado.

Não passei na primeira seleção de Prodoc do Museu Nacional.

Não passei no concurso do Departamento de Comunicação da PUC.

Não passei em seleções do CNPq e da Faperj (várias).

Quis registrar esses momentos porque às vezes fico sem palavras quando um amigo ou amiga queridos me dizem: “não passei”.

Para quem faz parte do meio acadêmico, nessa época do ano, o facebook fica cheio de comemorações: “passei no mestrado!”, “passei no doutorado!”, e até “passei na residência” (viva, prima!). E os posts ficam cheios de likes e comentários: é tão fácil e gostoso dar os parabéns!

Mas o que dizer diante dos não-postados: “não passei”, “não foi dessa vez”?

No documentário Vocação do Poder, os diretores Eduardo Escorel e José Joffily acompanham seis candidatos a vereador no Rio num ano eleitoral. Uma das cenas que mais me emociona no filme é quando um candidato começa a verificar os resultados das urnas e descobre que não obteve os votos que esperava. Sem querer acreditar, ele olha uma, duas, três, dez vezes, os boletins impressos das urnas. Passa e repassa aqueles papeis, como se pudesse acontecer um milagre: se ele olhar de novo, só mais uma vez, talvez aqueles números mudem… Mas não; ele não passou também.

Isso de achar ou não achar nosso nome numa lista é forte. Exige uma humildade, a menos que a lista seja uma fraude, o que também acontece sim.

Mesmo com lágrimas e choro, é um pouco mais fácil quando você é pessimista (como eu) e já acha que não vai chegar lá (escrevi sobre isso nesse post). Sempre tenho um plano B. Em algumas dessas situações, foi aquele clichê: “não passar” foi mesmo a melhor coisa que me aconteceu! Certas vezes, a única saída foi me resignar. Em outras, tentei de novo e consegui.

Acho que o desafio é escapar de viver em função de uma definição externa de nós mesmos; e seguir em frente, mesmo quando não temos o “aval do mundo” (aplausos, likes, prêmios, nome no topo da lista).

Taí uma boa meta para 2015!

E um abraço apertado para os meus querid@s que não passaram (e também para os que passaram). Como se diz por aí: tamo junto!

Sobre o desenho: Desenhei essa pontezinha desativada no Jardim Botânico em outubro para um desafio (entre amigas) sobre reflexos. Hoje me lembrei que a frase na plaquinha (“Favor não ultrapasse”) encaixava bem no tema do post. O desenho foi feito no local, num moleskine de aquarela, com canetinha preta de naquim. Aquarela e lápis de cor acrescentados em casa.

Você acabou de ler “Não passei“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2014. “Não passei”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url “http://wp.me/p42zgF-bJ“. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Balançando

balanço

Nas últimas semanas fiquei numa espécie de limbo. Não consegui fazer as tarefas no prazo, nem responder emails, nem arrumar a casa, nem desejar feliz aniversário para meus amigos, nem escrever para o blog! Estive num leve estado de choque pós-traumático (aka, pós-mudança).  Mas, ufa, passou!

Cinquenta e quatro posts e treze meses depois… retomo o blog para fazer um balanço (ou melhor, dois, né?:-).

O WordPress me avisa que atingi 50.924 visualizações. Mais da metade (27 mil) só para os dois posts mais lidos (a Carta… e as Dez lições…). O engraçado é que criei esse blog para tomar um ar fora do mundo acadêmico…

Sim, sou apaixonada por livros, por dar aulas, por pesquisar e por conhecer a pesquisa dos outros… Também não reclamo de dar palestras, escrever, publicar e prestar contas. Considero minha obrigação compartilhar.

Só que a logística disso tudo anda meio complicada… A formação encolheu (o tempo dos mestrados e doutorados diminuiu); mas os orientandos, as aulas, os eventos, os textos e as publicações se expandiram (alguns ao infinito). Ou seja, todo mundo (professores e alunos) tem que produzir mais em menos tempo.

O problema é que o dia continua tendo aquelas velhas 24 horas de sempre; e as pessoas continuam sendo humanas — mesmo quem vira onça têm que continuar comendo, dormindo etc. e tal. E ainda com diversão, arte, amor e balé (ou série americana na Tv/ipod/ipad/iphone?).

E aí: não dá.

Por tudo isso, preciso continuar tomando ar…! E decreto para mim mesma que vou manter o blog! Farei só umas pequenas mudanças para deixar a tarefa mais trancs, mas acho que ninguém vai notar. (Vou continuar postando, só que sem dia e frequência fixos. E não vou mais mandar posts por email. Assinem o envio automático do WordPress, please.)

Sobre o desenho: Gatinho se balançando feito com canetinha Kuretake num bloco de papel aquarela, e depois borrado com waterbrush. Sujei de propósito o papel para lembrar a vida é assim, meio borradinha mesmo.

Desejo para mim e para vocês um 2015 com menos telas, menos pdfs, menos facebook e menos e-mails. Só não reclamo do whatsapp, pois sou uma whatsapp-group-less. Que nosso 2015 seja um pouquinho mais analógico, com muitos papéis e canetas coloridas; além de mais (muitos) exercícios e dias ao ar livre!

E, finalmente, o melhor balanço de todos: muitos desenhos!! (Vejam abaixo uma reunião de quase todos os publicados aqui.)

imaginarios internos livros 13 Calendarios   externos

externos 2

eletronicos


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300 dias

apartamentop

É (quase) como escrever uma tese que nunca acaba:

Foram 16 dias para achar um apartamento e assinar uma promessa de compra e venda — dei sorte nessa fase!

Seguiram-se 107 dias de espera, filas, bancos, cartórios, prefeitura, mais certidões, e muitas caixas de mudança… e afinal sair da antiga casa.

Foram mais 177 dias em duas casas provisórias até podermos abrir a porta, entrar e morar no nosso novo apartamento!

Nesses 300 dias, aprendemos (com a colaboração do Antônio e da Alice):

– Um cartório é como uma loja de ferragens: você gasta muito mais do que pode e sempre precisa voltar no dia seguinte e no outro e no outro.

– A Caixa Econômica é a sucursal do purgatório.

– Os impostos, taxas, certidões e carimbos para mudar de casa são infinitos.

– Nunca alugue um apartamento provisório ao lado de um posto de gasolina.

– Uma boa fita adesiva pode consertar uma porta sanfonada caindo aos pedaços.

– Sem casa, seus gatos sofrem mais do que você.

– Amoedo é para os fracos. Leroy Merlin é para os fortes. (Eu sou fraca.)

– O entulho pode ser bonito:

– Uma portaria verde pode ser mais bonita ainda:

portaria Mariz

– A Casa Homero ainda existe.

– Morar perto da escola dos seus filhos tem preço; e vale.

– A obra acaba. A poeira é infinita.

– Uma máquina de lavar roupa precisa de uma tomada de 20 amperes. (Mas não me perguntem o que são amperes.)

– Ficar sem casa: engorda os adultos; emagrece as crianças.

– Bacalhau não é um peixe; é emenda feita por um marceneiro.

– Passar detergente no cabo da Net facilita sua entrada nos conduites da parede.

– Morar em três casas diferentes = fazer 42 cópias de chaves em 177 dias.

– Nunca jogue fora um pedaço de arame.

– Morar num prédio antigo de quatro andares é… sua filha chegar no térreo pela escada mais rápido do que você descendo no (velho) elevador.

– Telas anti-mosquito valem mais do que mil cortinas. (Pensamento positivo, porque o dinheiro pra cortina acabou…)

– A vida surpreende, para o mal e para o bem: armários comidos por cupins; porteiro apaixonado por Saramago!

Palavra da Alice (escritas por ela mesma):

“Gente que nem eu, aí vai uma dica: se sua mãe não deixar você dormir com ela, faça uma greve, pegue seu cobertor e durma na frente da porta dela=D!… depois ela e seu irmão vão aprender uma lição.”

[Lição aprendida: nem eu nem o Antônio conseguimos abrir a porta dos nossos quartos na manhã seguinte porque alguém (e seu colchãozinho) se instalou no corredor.]

Sobre os desenhos: O desenho que abre o post foi feito bem antes da mudança. O lado direito é a nossa sala em sonho… pois ainda não temos estantes nem livros fora de caixas, mas os gatos já estão sim (muito) felizes! (O lado esquerdo é meu estojinho de aquarelas.) O desenho seguinte, do entulho, foi feito umas seis semanas antes da obra acabar. Passei uma hora e meia no meio da poeira, mas feliz de ver o fim chegando… Os elementos da portaria e da fachada do prédio (cobogós verdes) foram feitos durante uma longa espera por um vidraceiro que não veio. Em todos: usei canetinhas Unipin de 0.05 a 0.2, aquarela e lápis de cor. Os cadernos quadradinhos são Laloran e o caderno em paisagem é um moleskine de aquarela.


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Ainda é primavera

nov2014

Flores de papel pra geladeira de vocês! A primavera de 2014 já está quase acabando, mas foi nela que pensei para fazer esse calendário. Casa nova, vida nova! Finalmente chegou o dia (hoje) de receber a mudança que estava há seis meses no guarda-móveis. E, pra completar, na quinta o blog fará aniversário de um ano (viva).

Com toda a trabalheira de terminar a obra e começar a casa, foi um milagre o calendário ter ficado pronto… Quer dizer, milagre não… Não tenho uma força de vontade sobrenatural. Estou conseguindo fazer o desenho todos os meses (nem sempre em dia) justamente porque esse é um desenhar que me faz esquecer de todos os meus problemas. Ainda mais porque uso papel comum, numa folha já escrita, com simples de lápis de cor — ou seja: tensão zero!

Sobre o desenho: Flores praticamente copiadas dos trabalhos da Lisa Congdon e cores inspiradas nos livros da editora Planeta Tangerina (Portugal)!


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Ensinando antropólogos a desenhar

Foto01Sei que ninguém está interessado em antropologia numa sexta-feira à noite, véspera das eleições presidenciais mais disputadas dos últimos tempos. Então aceitem minhas desculpas pelo “intervalo intelectual”: é que só hoje consegui cumprir o compromisso de publicar o post da semana!

Saiu o artigo sobre o curso de desenho e antropologia que criei no IFCS/UFRJ! A experiência começou no primeiro semestre de 2013 e já está na terceira turma. Nesse texto, explico de onde veio a ideia do projeto e como desenvolvi algumas das oficinas propostas. Um resumo do resumo do artigo:

Apresento neste trabalho os resultados de uma experiência de ensino chamada “Laboratório de Antropologia e Desenho”, que propõe o desenho como ferramenta central para a pesquisa etnográfica. Alunos sem formação prévia na área foram apresentados ao ato de desenhar como uma forma de se conhecer o mundo.

Através de aulas práticas, as convenções em torno do desenho acabaram desconstruídas para, em seu lugar, reencontrarmos novas formas narrativas capazes de evocar graficamente ideias, encontros, diálogos, observações e percepções sobre a vida social. Por meio de exercícios, tratamos da formação dos pesquisadores aos dispositivos de diálogo e troca com o universo pesquisado, passando pelo processo de registro dos dados e da divulgação dos resultados.

Buscamos explorar as consequências, perguntas e soluções que emergem do ato de se ensinar a desenhar e construir narrativas gráficas no (e sobre o) trabalho de campo.

Na publicação, faço os muitos agradecimentos necessários e cito os autores que me ajudaram a pensar e planejar essa aventura. Mas queria deixar registrado um <<muito obrigada>> especial aos estudantes (bolsistas e alunos) que colaboraram ao longo do curso e que cederam seu tempo, suas imagens e seus textos para a pesquisa.

Espero que gostem!

O artigo completo pode ser lido aqui: Ensinando antropólogos a desenhar: uma experiência didática e de pesquisa. Foi publicado como parte do dossiê “Imagem, pesquisa e antropologia”, organizado por Andréa Barbosa (Unifesp), para a revista Cadernos de Arte e Antropologia, v.3, n.2. Vale a pena ver também os outros textos desse excelente volume.

Cordeiros da Bahia

Em breve, brevíssimo, uma versão em inglês do meu artigo estará disponível. E para quem tiver interesse em ler outros textos que escrevi sobre o tema: estão aqui.

Planos!

Agora – Estou escrevendo um artigo sobre os resultados dos trabalhos finais dos alunos (buscando incluir o material das três turmas que já passaram pelo curso).

No horizonte – Publicar online os destalhes de todas as oficinas (que se renovaram bastante desde o primeiro curso) para alunos e professores que queiram experimentar os exercícios em suas aulas.

Para 2015 – Começa uma outra fase da pesquisa. O tema é… surpresa!

Sobre o desenho inicial desse post: A imagem foi feita por mim num Ipad (App Adobe Ideas, caneta Bamboo) a partir de uma fotografia das alunas Poema Eurístenes (desenhando) e Bárbara Machado (sendo desenhada) tirada em sala de aula, no IFCS/UFRJ, durante uma das oficinas do curso.