Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Arrumar gavetas, escrever textos – 2 truques para driblar a procrastinação criativa

Vocês já tiveram vontade de arrumar uma gaveta mas desistiram porque, antes mesmo de começar, perceberam que não iam conseguir arrumar o armário inteiro? Acontece demais comigo! E não só com arrumação: desisto de ler uma parte porque o certo era ler o livro todo, deixo de fazer 20 minutos de academia porque a série dura 45 minutos, desisto de comprar só uma coisinha no mercado porque não verifiquei a lista de tudo que está faltando… E até de fazer mini post nesse blog porque o correto seria encarar a lista de posts sérios a serem escritos — mas isso exigiria a coragem e a energia que ainda não estou tendo.

Hoje mais cedo cheguei a começar a trabalhar em dois posts já iniciados mas percebi que não teria forças para terminá-los.

Fiquei pensando… qual é a dificuldade? Não é falta de concentração nem de vontade teórica. Meu corpo e minha mente estão muito acostumados a se concentrar e a trabalhar no computador depois de 34 anos de experiência. Também não é falta de ideias ou temas. Entendi que estou sem grandes estoques da energia específica que a escrita criativa necessita.

E que tipo de energia é essa? É aquela vontade de acolher as próprias ideias e a pulsão prazerosa de compartilhá-las com os leitores. É um equilíbrio tênue entre alegria da descoberta solitária (o momento da escrita em si) e o compartilhamento corajoso do olha-que-legal-eu-descobri (o momento de entregar sua escrita ao mundo).

Talvez muitos sofrimentos e procrastinações com os TCCs, dissertações, teses e escritas acadêmicas em geral venham desse entre-lugar, né? Estar aqui-e-aí-com-vocês ao mesmo tempo. Né fácil não, pessoas! Talvez fique um pouquinho menos difícil se a gente entender o que está acontecendo. Dois truques para ultrapassar esse obstáculo que (às vezes) funcionam para mim:

• Para o drama “eu e minhas ideias”: primeiro escrevo, depois questiono. Geralmente, depois de escrever, o questionamento diminui bastante! E você sai do outro lado já-tendo-escrito!

• Para o drama “minhas ideias e os leitores críticos”: penso só nos leitores que me apoiam, meus filhos, minha mãe e amigos. E sigo em frente, aproveitando as críticas construtivas para discordar, ajustar o que for possível ou aproveitar para um próximo texto.

Claro que isso tudo é bem mais fácil de escrever do que fazer. Mas… vejam só: se vocês estão lendo esse post é porque os truques funcionaram, hahaha. Esse micro-macro problema não se resolve com um post só. Mas o blog inteiro tá aqui para isso. Lembram da gavetinha bagunçada do armário? É isso. Arrumar uma só gaveta faz diferença sim. Não pensem no armário inteiro.

Finalmente, para citar um lema de vida, que o Antônio me ensinou para aqueles momentos em que sua roupa está furadinha, seu texto não tem muita fluência e sua aula foi um pouco capenga: “ninguém liga!”

Boas escritas e bom final de semana! #tamojunto ♥

5 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:

♥ Participar da festa de desenhos do mês de outubro com as queridas Rachel Paterman, Melina Vaz e Patricia Matos está sendo a melhor coisa do mês. Acompanhem lá pelo meu Instagram e pela #academinktober.

♥ A experiência mais linda de desenho foi rascunhar para a palavra “reciprocidade” já exausta e, na versão final, a nanquim, ver que a imagem pareceu demais comigo e com o Juva — não foi planejado!

♥ Vi que vocês gostaram da indicação de série da semana passada, então hoje indico Only murders in the building, da Disney/Star+. Eu e Alice amamos. São 4 temporadas curtas e recomendamos ver aos poucos. O elenco é incrível, assim como a direção de arte, a música, a montagem e o roteiro. (Mesmo que eu quisesse, Alice não gosta de maratonar, nem ver dois episódios de uma vez, por mais empolgante que seja o final. Não sei onde ela aprendeu isso! Eu sou daquelas que vira a noite quando empolga.)

♥ De ficção, recomendo Oliver Kitteridge, de Elizabeth Strout. Em breve virá o terceiro volume para o Brasil e vocês vão me agradecer ter começado. Mas só recomendo para maiores de 50 anos, em idade biológica ou emocional. 😉

♥ Descobri que vão lançar um novo emoji com olheiras em 2025! Quem se identifica? É fofinho demais. Trouxe a imagem para compartilhar com vocês.

Sobre o desenho: Desenho de observação de uma estojo de lápis de cor antigo feito no caderninho Laloran. Linhas com canetinha Pigma Micron 0.05 ; cores feitas com aquarelas, lápis de cor, um pouco de guache e canetinha de gel branca Sakura Gelly Roll. Eu ia aproveitar esse desenho para um post sobre lápis-de-cor na seção de materiais do blog, mas percebi que a imagem não mostra direito os lápis e nem foi feita com eles! Então veio para cá de ilustração aleatória mesmo. Pensando melhor, agora percebo que esse estojo, com uma parte de plástico transparente, é uma boa metáfora para os processos descritos no post. Afinal, quando a gente começa a escrever, só tem uma vaga ideia do que vai sair, como quem espia esses lápis-de-cor pelo visor da embalagem. Só escrevendo — ou só experimentando os lápis do estojo — que vamos descobrir o que somos capazes de dizer, fazer, desenhar.

Você acabou de ler “Arrumar gavetas, escrever textos – 2 truques para driblar a procrastinação criativa“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 

Como citar: Kuschnir, Karina. 2024. “Arrumar gavetas, escrever textos – 2 truques para driblar a procrastinação criativa“, Publicado em karinakuschnir.com, url: https://wp.me/p42zgF-446. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Retorno ao blog: aquecimento e academinktober

Pessoas queridas, que saudades!

Esse é um mini post para tirar a poeira e retomar o ritmo. O blog ficou adormecido por uns meses enquanto eu doava minha energia para outras frentes da vida. Com vocês também é assim? Cobertor curto que chama, né? A gente volta pra ginástica, oferece curso de extensão, conecta com amigas, fica a mil nessas coisas; e quando vê a casa está com infiltração, as plantas morrem e os relatórios travam. Me digam que isso acontece com vocês também, por favorzinho… Porque comigo é sempre assim: enquanto uns pratinhos rodam, outros vão caindo pelo chão. A diferença do “pratinho blog” é que esse é o meu xodó. Apesar de não ter postado, continuei desenhando, lendo (muito) e escrevendo pensando em vocês. Outro dia, fiz uma maratona de digitalizações que gerou 174 páginas de desenhos ainda não publicados — em breve trago eles para cá!

Enquanto o próximo post não chega, convido vocês a acompanharem a série de desenhos sobre a vida acadêmica que estou publicando no Instagram. Na comunidade das artes, o mês de outubro é conhecido como “inktober”, um período de 31 dias para fazer e compartilhar um desenho por dia (31 desenhos). Como seu criador é um chato e patenteou o nome, as pessoas começaram a criar suas próprias propostas. As antropólogas e ilustradoras Rachel Paterman @desorientanda e Melina Vaz @melina_vax do @academicomics criaram o “Academinktober”. Abaixo uma amostrinha. Sigam os desenhos lá pela #academinktober.

5 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:

♥ A melhor coisa da semana está sendo retomar o blog, mas isso não vale! A explicação desta seção, para quem é novo ou esqueceu, está no post Artes, cadernos, livros e coisas impossíveis.

♥ Ainda saudosa da série Ted Lasso, da Apple Tv. Demorei a engrenar, mas terminei apegada aos atores e personagens. É fofa e chega ótima na terceira temporada.

♥ Ando apaixonada e lendo tudo do Leon Tolstói. Entre os contos, fiquei impactada por A nevasca (1856) que achei para compartilhar. (Leiam lá e me digam se concordam que a neve parece o algoritmo do tiktok.)

♥ Uma coisa linda da semana foi ter a companhia da Mel participando do “jogo do melhor e do pior” na hora do jantar. Se vocês não conhecem o jogo, vale reler o post As cores de cada dia! Dá para jogar sozinho, em dupla ou com um monte de gente. É uma alegria.

♥ Outra boniteza e alívio é que meu gato Charlie melhorou de um resfriado longuíssimo. Nada com um bom spray de corticóide no nariz, hahaha. 😉

Sobre o desenho: Desenho de observação e “distorção para maior” de uma caixa de fósforo pequena feito no caderninho Laloran. Linhas com canetinha Pigma Micron 0.05 ; cores feitas com aquarelas, lápis de cor, um pouco de guache e canetinha de gel branca Sakura Gelly Roll. Achei legal conectar a volta ao blog aos fósforos que produzem fogo e energia de uma forma que sempre parece meio mágica pra mim.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2024. “Retorno ao blog: aquecimento e academinktober“, Publicado em karinakuschnir.com, url: https://wp.me/p42zgF-43B. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Seis dicas para ouvir e transcrever textos falados — ou como depender menos dos olhos na vida acadêmica

Óculos de brinde para ler muito de perto (aquarela @kk)

“…os meros fatos oculares podem ser enganosos. Feche os olhos, meu amigo, em vez de arregalá-los. Utilize os olhos do cérebro, não do corpo. …o senhor faz deduções a partir de coisas que viu. Nada pode ser tão ilusório quanto a observação.” (Poirot, em Morte nas nuvens, Agatha Christie)

Taí um livrinho antigo que valeu demais reler, ou melhor, ouvir! Depois de duas cirurgias e sete encrencas nos olhos em 2023, aprendi a utilizar vários aplicativos e sites para driblar esse mundo retinocêntrico da vida acadêmica. Compartilho com vocês, contando um pouco do que me aconteceu.

Precisei fazer uma cirurgia de retina de emergência em abril, com direito a gás e cinta de silicone no olho esquerdo. Foram 45 dias de bruços para a recuperação. Sim, vocês leram certo. De bruços.

1. Natural Reader – https://www.naturalreaders.com/online/ – De longe a melhor descoberta de 2023! É um aplicativo, site e extensão para o Chrome que lê textos da internet ou de arquivos doc, pdf e epub. Tem versão gratuita ou paga. A diferença é na qualidade das vozes. Todas são boas, só que as plus ou premium soam mais naturais. Fiz uma assinatura, mas Antônio usa e adora a versão gratuita. Tem vozes em 20 línguas, com recurso de highlight, anotação, pronúncia, pular cabeçalho, ajustar velocidade, marcar página e tornar fotos legíveis.

O NR é o app mais utilizado do meu celular. Já ouvi milhares de textos com ele: relatórios, projetos, teses, artigos e meus amados livros inteiros. Já passam de cem em seis meses. Ouvi desde Agatha Christie e auto-ajuda até obras de Maya Angelou, Beatriz Nascimento, Yaa Gyasi, Zora Hurston, Franz Fanon, Grada Kilomba, Edward Said, Virginia Woolf, Carolina de Jesus e Saidiya Hartman. Escutei autores antigos e colegas com livros no prelo, artigos ou dissertações.

No início, achei que o NR viria apenas me socorrer em um momento difícil. Meses depois, não consigo me imaginar vivendo sem a voz literária que ele me traz. Nem tudo ouço em qualquer lugar. Uma reflexão densa como a de “Silenciando o passado”, de Michel-Rolph Trouillot, precisa de concentração. Já o manual de anti-autoajuda “Quatro mil semanas”, de Oliver Burkeman, posso ouvir limpando a caixa dos gatos, lavando louça ou esperando o metrô. Já autoras como Angelou, Nascimento e Kilomba escrevem tão bem que tornam qualquer situação especial.

Uma utilidade bem-vinda do NR é reavivar a memória de textos já lidos. Revisar os materiais de aula deixa de ser entediante. É assim que estou relendo Truques da Escrita e os artigos indicados nas disciplinas do semestre. Recorro ao app também para ler rapidamente textos de estudantes e fazer a última revisão nos meus próprios escritos. O som ajuda a detectar na hora errinhos de digitação ou repetição de palavras, por exemplo.

Paninho da ótica Vista Nova (aquarela @kk)

2. Outras formas de ouvir textos – As ferramentas de leitura de texto em voz alta estão em vários softwares, sites e gadgets. Por meio do menu “Acessibilidade”, o Google (Google Docs e família) lê textos no celular e no Chrome. O problema é configurar as muitas etapas e ainda separar a informação a ser lida. O Word (seção Revisão, opção “Ler em voz alta”) tem boas vozes e uma leitura agradável, mas converter tudo em .docx não seria prático nem viável! O mesmo com todos os apps da Adobe (a empresa mais chata do mundo). Alguns modelos de Kindle lêem os textos, assim como apps do sistema iOS. A plataforma Substack e jornais como New York Times têm opção de play. Há os audiolivros — gratuitos e ruins, ou caros e chatos, hahaha. Há outras extensões de leitura para navegadores, como Read Aloud. Testei várias e, na minha experiência, nenhuma é tão boa, simples e eficiente como a Natural Reader.

3. Transcrição de textos com Telegram – Basta mandar um audio para o usuário @transcriber.bot do Telegram que seu texto será transcrito. É gratuita e ainda faz pontuação sem você ter que ditar “ponto” e “vírgula”. Ao contrário dos microfones do Google, a transcrição do Telegram têm uma excelente formatação no português. Na versão grátis, minha experiência é de bons resultados com audios de até 20 minutos. Em alguns horários pode falhar, mas é só enviar novamente. Na versão Premium (paga) do aplicativo, há uma opção de transcrever ao lado de todos os áudios. Testei por um mês; é ótima e estável. (Aprendi essa dica com a Hannah. Obrigada, flor!)

4. Transcrição de textos com Transkriptor – https://app.transkriptor.com/signIn – Esse é um serviço online de gravação e transcrição de áudio profissional. Há amostras grátis e assinaturas de várias quantidades de tempo (a minha é a básica, de 300 minutos por mês). Eu nem precisava assinar, mas não resisti, tamanha a minha felicidade em ver a qualidade do texto. Pensei nas centenas de horas que gastei com transcrição das minhas entrevistas etnográficas; e as outras dezenas de gravações de diários de campo que me causaram tendinite no doutorado.

Para mim, o melhor uso desse tipo de serviço é poder transcrever os áudios de trabalho. Desde que comecei meus problemas oculares, passei a fazer a primeira versão dos meus textos gravando ideias no Whatsapp ou direto no app do celular. Também já fiz sessões de orientação gravadas com alunos. Depois, é só mandar transcrever tudo e, como num passe de mágica, temos 8, 10, até 15 páginas de rascunho digitadas. Economiza tempo, energia e muitas tensões corporais! (Agradeço essa dica à querida Marize, amiga do grupo de apoio que mantenho no Telegram chamado Abraço Acadêmico. É só nos procurar lá ou clicar aqui.)

5. Transcrição de textos em outros apps – Teclado do Google (celular), Google docs (no celular ou navegador), Word (opção “ditado do Office”) e vários outros softwares e aplicativos transcrevem textos falados. O problema deles, na minha opinião, é a má qualidade da pontuação e a pouca praticidade. Talvez o menos piorzinho seja o do teclado do Google. Nos telefones Samsung, ir nas configurações, procurar “teclado padrão” e mudar para “Gboard” (pois é, nomezinho ridículo). Nos outros celulares deve ter um caminho parecido. Acho que vale para textos rápidos, mas não supera o serviço gravação-transcrição.

Journalist Studio, da Google – https://journaliststudio.google.com/pinpoint/collections – Esse seviço também promete transcrever audios e muitas outras habilidades. Foi dica de uma aluna que ainda não testei.

6. Dica bônus – traduzindo PDFs inteiros – Sabe aquele PDF interessante que veio em uma língua que você não sabe ou está com preguiça de ler? Então, agora o Google Tradutor permite que a gente envie um documento inteiro e o receba de volta em português. Eles colocaram novas abas: “Imagens”, “Documentos” e “Sites” na página inicial https://translate.google.com.br/?hl=pt-BR. Basta arrastar ou fazer o upload do arquivo para ter o conteúdo traduzido na língua que quiser. Estou começando a usar e achando promissor. Já penso nos artigos a traduzir para as disciplinas da graduação sem gerar sofrimento.

É isso, pessoal. Um viva aos sons! Boas gravações e audições para vocês. Depois me contem o que acharam. ♥

Projeto “Como escrever um texto em 8 meses” — Desde o último post, escrevi 1368 palavras. Piorei em relação à média anterior. Meu maior feito foi abrir um arquivo de 900 páginas e conseguir ler as primeiras 100 (no NR, claro). Preciso reservar um dia na semana para esse projeto.

Sobre a citação de Agatha Christie: Frases de Poirot na página 77 do romance “Morte nas nuvens”, de Agatha Christie (edição da L&PM Pocket, tradução de Henrique Guerra.)

Sobre os desenhos: Linhas com canetinhas Pigma Micron de várias espessuras no caderninho Laloran. Cores feitas com aquarelas, lápis de cor e um pouquinho de guache. Ganhei os óculos vermelhos de brinde da ótica Vista Nova, no Jardim Botânico (Rio de Janeiro). Conseguir uma receita correta e lentes funcionais para os meus olhos pós-cirurgia foi uma saga de quatro meses. Minha primeira aquarela pós-alta foi justamente a que abre esse post, seguida da outra, com o lencinho da ótica. Achei significativo desenhar os objetos que foram me trazendo de volta ao mundo dos videntes.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2023. “Seis dicas para ouvir e transcrever textos falados — ou como depender menos dos olhos na vida acadêmica“, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-41A. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Você não está sozinha

(…) como se fosse um dever / do artista criar / esperança, mas por quê? por quê? / a própria palavra /
falso, um dispositivo para refutar / a percepção – No cruzamento, // luzes ornamentais da estação. / Eu fui jovem aqui. Andando / de metrô com meu livrinho / como se me defendesse // desse mesmo mundo: / você não está sozinha, / dizia o poema, / no túnel escuro.
(Outubro, Louise Glück, trad. N. Santander)

Desde que o Juva morreu, senti muita necessidade de ficar sozinha. Não que eu fosse a pessoa mais sociável do mundo. Quem me conhece vai revirar os olhos: “você sempre foi assim”, zoa uma amiga. Não sei. Eu era a inocente “de metrô com meu livrinho”, como diz o poema. O luto sobrepôs uma camada sobre tudo. Sabem aquele glacê com tanto açúcar que parece cimento e ninguém aguenta comer? Alguns definem luto como “o vazio”; pra mim é “o cheio”: ocupa, preenche, inunda.

Em outubro, comecei a perceber uns espaços. Quis doar livros e tralhas, desmontar móveis, esvaziar gavetas, aceitar um convite. Fui a duas reuniões presenciais, participei de uma assembléia. Desfiz meu mini escritório de casa. Troquei duas mesas grandes por uma pequenina. Pendurei a tão sonhada rede no lugar. Uma parte eram os nossos planos; outra parte tive que inventar sozinha. Mas não digo só: Alice e Antônio me ajudaram. ♥ Taí como ficou.

Não sou boa de esquecer o passado. Amo coisas antigas. Coleciono, cultivo, colo e desenho nos cadernos. Imagina o amor. O amor que o Juva insistia que era dentro e eu que era fora. Como se ele já soubesse. Que um dia eu ia precisar aprender isso. Tá sendo na marra, mas tô aprendendo.

Uma metade cheia, uma metade vazia / Uma metade tristeza, uma metade alegria
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor (Chico Buarque)

Este não é um post triste. O poema chegou pelo zap, por um amigo. Falávamos da guerra. Todos colocaram carinhas tristes, mas para mim foi emoji de coração. Foquei na esperança, como o dever da artista, na pergunta de Louise Glück. Esperança por mim, por vocês, por todas as criaturas que um dia perderam seu chinelo real ou metafórico por aí. Aconteceu isso com a Havaiana que abre o post. Era nossa queridinha, mas partiu-se o par. Compramos outro correndo. Não estava no tamanho certo nem era alegre como ela.

Hoje esse é disputado por aqui. É a alegria de quem chega precisando de um chinelinho extra para caminhar.

Bons caminhos, pessoas queridas! Até semana que vem. ☼

Projeto “Como escrever um texto em 8 meses” — Desde o último post, escrevi 1557 palavras em três dias. Pois é, falhei. Quer dizer, mais ou menos. A meta era 300 palavras por dia e fiquei em 259,5. Viram como rende? Essas mil reuniões tiveram seu custo para a escrita pois cheguei tardíssimo em casa, exausta. Quando a agenda estiver assim, preciso escrever de manhã. Digo isso em voz alta para ver se meu cérebro noturno escuta! Voltando ao tema: foi muito produtivo começar a escrever. Há uma semana atrás eu estava perdida sobre o que queria fazer e como. A escrita tirou muitas coisas do caminho, colocou outra e — o principal — me fez ter ideias no metrô, no banho, na hora de dormir. Conversei com um amigo sobre o que escrevi. Saí do zero. Vislumbro pequenas tarefas. Decidi minha primeira leitura. Abri uma pasta no computador. Micro avanços. Semana que vem volto aqui para contar. (Se você não tem ideia do que estou falando, veja o post inicial da semana passada.)

Sobre a citação de Louise Glück: Recebi o poema Outubro, de Louise Glück, no original em inglês, em um grupo de amigos do zap. Achei a tradução do Nelson Santander do blog Singularidade Poética, do maravilhoso Paulo Henriques Brito. A íntegra do poema nas duas línguas aqui.

Sobre a citação do Chico Buarque: Quando comecei a escrever sobre o luto ser cheio, a canção do Chico falando sobre o copo vazio começou a tocar na minha mente. Fui ler e descobri que também falava de amor. ♥

Sobre a reorganização do mini-escritório no quarto: Quase tudo do novo espaço de trabalho é reaproveitado. A rede era da Alice, a mesinha de apoio era do Juva. A luminária, o tapetinho, a cadeira e duas prateleiras já eram minhas. A impressora tá escondida embaixo da mesa em um banquinho antigo também. As coisas que comprei foram uma mesa da Huma, via Magalu (r$316+frete) e uma prateleira extra para os gatos subirem nas outras duas (r$23,00, Palácio das ferramentas, metrô Uruguaiana). Gastei um pouco com acessórios de ferragens: gancho para rede, parafusos, mão francesa e feltro adesivo para a prateleira. Por sorte, gosto de ferramentas e já tinha furadeira e até uma aparafusadeira —esta comprada para montar e desmontar as mil estantes do Ju, daquelas de ferro com milhões de porcas e parafusos. Essa maquininha salva vidas e é super divertida de usar!.

Sobre os desenhos: Linhas com canetinhas Pigma Micron de várias espessuras no caderninho Laloran. Cores feitas com aquarelas, lápis de cor e um pouquinho de guache. Na página do chinelinho preto, tem uma etiqueta colada. São ilustrações de antes do luto, de janeiro de 2022. Levei vários dias debruçada sobre esses objetos tão cotidianos e bonitos. Fico emocionada só de olhar a havaianinha florida. Vocês também se sentem assim quando tem que jogar fora uma coisa amada? Ou são mais doidos do que eu e guardam no fundo do armário? Me contem, por favor!

Você acabou de ler “Você não está sozinha“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 

Como citar: Kuschnir, Karina. 2023. “Você não está sozinha“, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-41h. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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De volta para o futuro – rumo aos dez anos de blog

Tudo isso era demais para mim, mas tia Melia mostrou-se maravilhosamente à altura da situação.

“Se pensa em tudo o que tem de fazer como se fossem coisas presentes à sua frente, que devem ser feitas todas ao mesmo tempo, acaba se estropiando.

O tempo obriga a gente a fazê-las em seqüência, uma de cada vez, e isso”, prosseguiu com a segurança de alguém que havia vencido por conta própria uma batalha igual,

“[isso] dissolve o peso quase inteiramente. Você é muito esperto e vai conseguir.”

Suas palavras calmas, quase sem emoção, mas de algum modo carinhosas, permaneceram desde então em mim, surpreendentemente úteis em épocas de crise súbita e desastre iminente, ainda que imaginário, quando os prazos finais de todos os tipos assomam diante de mim. (Edward Said, Fora do lugar, p. 247)

Pessoas queridas, quantas saudades. Sigo aqui e vocês aí, mas penso tanto em nossas conversas — passadas, presentes e futuras, como um fio mágico que nos une. Há tanto por retomar e tanto a propor.

Começo pelas palavras da tia de Edward Said, relatadas por ele em suas memórias. Mais do que o próprio autor, foi sua tia Melia quem ressoou em mim depois da leitura. Ela dedicou boa parte de sua vida auxiliando refugiados palestinos com menos recursos. Mesmo diante da tarefa imensa, soube acolher o pequeno, alimentar um de cada vez, achar um serviço aqui, um abrigo ali, ainda que isso não fosse salvar o povo inteiro.

Voltar a escrever o blog de forma descompromissada e cotidiana estava me parecendo uma tarefa impossível. Sabe quando a gente deixa a tese de lado para ir a um congresso e depois fica impossível voltar? Ou quando abandonamos a academia de ginástica depois de um resfriado prolongado? Então, imaginem essa paralisia multiplicada por mil. Não sei como medir o peso da pandemia em 2020, do burnout que vivi em 2021 e do luto que me inundou de 9/4/2022 até hoje.

Mas para quê medir, não é mesmo? Como o amor, a dor não pode ser medida. Todos temos as nossas, mais ou menos em carne viva ou cicatrizadas, talvez nunca só uma coisa ou outra. Tenho aprendido a deixar as minhas irem e virem, me colocando aos pouquinhos em movimento, sem estagnar.

Uma das minhas felicidades mais recentes foi voltar à sala de aula. Bem no dia do meu aniversário, comecei uma nova turma de antropologia e desenho, no IFCS/UFRJ, com direito a um final com visitas dos filhos, genros, alunos e um enorme bolo de chocolate. Divido com vocês a alegria desta grande-pequena festa, desejando secretamente 😉 (no assoprar da velinha) a retomada da nossa conversa: que a gente possa colocar o papo em dia, rumo aos dez anos do blog que se avizinha (6/11/2023).

Sobre a citação na epígrafe: Trecho das páginas 246-247 do livro Fora do lugar: memórias, de Edward Said (Companhia das Letras, trad. José Geraldo Couto, original de 1999).

Sobre o desenho: Aquarela de uma suculenta que achei abandonada em um vidrinho fofo no meu prédio durante a pandemia, feita em caderninho Laloran em 2020. Linhas em caneta Pigma Micron 0.05; pintura com tintas da minha paleta de várias origens. Minha inspiração foi a lindeza das cores da série do Lapin sobre as suculentas de sua varanda em Barcelona. Comprei o curso dele em uma promoção da Domestika (não é propaganda… me decepcionei com a maioria dos cursos dessa plataforma, menos esse rs). Achei que a plantinha resistente simbolizava bem esse tempo de espera do tempo de voltar a criar.

Você acabou de ler “De volta para o futuro – rumo aos dez anos de blog“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 

Como citar: Kuschnir, Karina. 2023. “De volta para o futuro – rumo aos dez anos de blog“, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Zp. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Caderninho azul

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Página inicial com as canetas que desse caderno: 1 Pigma Micron 0,2 azul, 1 Faber-Castell Pitt artist pen brush amarela (cor 184), 1 Muji 0,38 gel azul, 2 Tombow dual brush (1 azul clara, n.451 e 1 azul média n.526). 

Tenho visto tantas pessoas cansadas nas minhas redes sociais que hoje resolvi fazer um post só de imagens. Há tempos não mostro as páginas dos meus caderninhos do dia-a-dia. Como já mencionei, tenho feito desenhos com cores restritas como uma forma de treino (e também para carregar poucas canetas na bolsa!).

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Desenhando frases do Podcast da Fran Meneses (só da @frannerd) e uma versão psicodélica da Lola, minha gatinha tricolor

Uma das coisas legais do podcast da @frannerd é a sensação de ouvir a real do dia-a-dia de uma ilustradora, sem aquele estilo “olha como sou feliz” das redes sociais. As frases da página são dela: “estou tão cansada e culpada de estar cansada” (acho que todas as pessoas que conheço estão assim); e “estou morrendo de medo mas tentando seguir em frente” (idem).

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Raridade: fomos a um restaurante a pedido da Alice. Arrependimento total: comida ruim, preço caro.  Na volta, fiz esse desenho muito tosco do gatinho Charlie.

Uma das coisas estranhas de desenhar com azul é constatar que tudo fica com um clima melancólico, mesmo uma cena feliz.

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Charlie e Juva lendo num dia de chuva

Outro momento raro: depois de uma consulta médica, resolvi aproveitar o pátio do prédio para desenhar o camelô do outro lado da rua.

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Camelô baixinho com carrinho fofo e mesa com toalha de flores. ♥ 

Concluindo: ainda não cheguei nem na metade e já estou querendo desistir de tanto azul! Preferi mil vezes trabalhar com o rosa e o vermelho. Não deixa de ser um aprendizado sobre mim mesma… Vamos ver se sou persistente (ou teimosa) o suficiente.

Bom final de semana, pessoal! Que seja de sol e descanso! ☼

Sobre o desenho: Além das canetas indicadas no início, os desenhos foram feitos num caderninho Laloran. Foi justamente a capa azul escura, com borda de tecido em padronagem que lembra azulejos portugueses, que me fez instituir o azul como tema. É o caderno do meio na imagem abaixo.

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Três caderninhos Laloran que trouxe de Portugal em janeiro/2017

Você acabou de ler “Caderninho azul“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Caderninho azul”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3yU. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Londrinas – Ainda viajando (Parte 4)

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“I am not a replacement. I am person.”

Passei a parte londrina da viagem pensando nas mulheres. Nos museus, no metrô, na biblioteca ou nas casas onde fiquei, conheci um monte. No único dia em que fui sozinha a um restaurante de verdade, perto da universidade, ouvi a frase escrita acima (no desenho vermelho). A conversa girava em torno das agruras da vida acadêmica e uma professora dizia para a outra: “Eu não sou uma peça de reposição. Sou uma pessoa!”

Quantas vezes nos sentimos assim? Eu queria levantar e abraçá-la! (Mas me contive.)

A primeira menina à esquerda falava francês com os irmãos e os pais, uma família de pele negra, todos lindos. Ficaram  tão felizes de ver o desenho! Os irmãos mais novos zoaram a irmã adolescente, tipo “ae, ela desenhou você… tá se achando!”, naquele jeito que nem precisamos saber a língua pra entender. Ela só ria, a mãe e o pai babavam as crias.

Nos desenhos azuis à direita, a perna de uma menina muito branca com uma tatuagem abaixo do joelho onde se lia “S U N S H I N E”. Me deu uma dó no coração por ela, pela busca daquele sol que parecia tão distante, mesmo no verão. Enquanto eu prestava atenção em um monte de suas outras tatuagens, ela tirou da bolsa um espelho grande, em formato de concha, verde água. Pareciam todos saídos de um filme preto e branco dos anos 1940 colorizado artificialmente umas décadas depois. Só o espelho e o batom tinham cor…

Numa viagem mais longa, com o trem vazio, desenhei o padrão do tecido do metrô, para não me esquecer do lugar onde passei tantas horas. No cantinho direito, embaixo, a real dos almoços da viagem: sanduíche e chá por 7 libras.

Nas casas onde fiquei, conheci londrinas de origens chinesa, indiana e inglesa. Essa última era a mais jovem e aflita; e tinha a casa mais bagunçada do universo, mesmo com faxineira vindo cuidar várias vezes por semana (financiada pela intensa atividade dela como hospedeira do Airbnb). A bichinha tinha uma bagunça atávica, do tipo com armários e geladeira entupidos de tudo que “um dia vai precisar”, mesmo que seja um molho vencido em 2013. Ela estava ansiosa com uma entrevista de emprego, para a qual treinou quatro dias seguidos, mas cuja resposta foi negativa, infelizmente.

Na moradia anterior, em Machester (oops, essa não é londrina), tive brevíssimos encontros com a chinesa-inglesa e seu marido inglês-inglês: tudo impecavelmente limpo, arrumado, silencioso. Para completar o clichê: um jardim zen ao fundo, também meticulosamente bem cuidado e verdejante. Felizmente, para eu não passar o resto da vida sonhando em ser como ela, na sexta-feira, ao chegar do evento, percebo algo estranho. Um furacão tinha passado por ali? Sem saber a origem da bagunça, vejo roupas pelo chão, ouço música alta, barulho de latas de cerveja, portas batendo, conversas até as 3 da manhã. No domingo, ao me despedir deles, arrisquei: “– Houve um adolescente por aqui?” E o Gary (o marido), muito sem graça: “–Sim… desculpe a bagunça… foi meu filho (do primeiro casamento) que veio passar o final-de-semana conosco…Ele é impossível!”

Na última hospedagem, fiquei os primeiros dias sozinha no apartamento-casa de uma londrina de pai indiano e mãe inglesa. A casa falava tanto da sua dona: no lugar do espelho do banheiro, um texto sobre os valores da vida. Na parede da sala, a linda vista combinava com fotos de paisagens nas paredes. Na escadaria, malas enfiadas num canto e um retrato da dona aventureira enrolada numa cobra. Mas a cozinha era quem mais me contava: aromas, temperos, livros de culinária e vidrinhos com iguarias a perder de vista. Vegetariana, vegana talvez, apaixonada por comida. Foi a única casa em que tinha azeite! (Nem no supermercado tem azeite. Só em restaurante italiano.) Quando ela voltou, na última noite, descobri: trabalhava com terapias nutricionais, algo assim. Deixei um cachinho de uvas de presente.

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Do passado, conheci Charlotte Brontë (1816-1855) e um pouco de suas irmãs, todas escritoras famosas, mas cujos romances não li (ainda). Fiquei encantada com os documentos, cartas e retratos, principalmente os de autoria de Charlotte. Desde criança, ela brincava de escrever, produzir e ilustrar seus próprios livros. Antes de conseguir viver da escrita, aprendeu aquarela e fez carreira como professora, embora detestasse o isolamento e a falta de liberdade criativa da profissão. Foi publicada primeiro com pseudônimo masculino, até lutar para ter seu próprio nome de autora reconhecido.

Sobre os desenhos: Linhas feitas com canetinhas Pigma Micron azul, vermelha e preta num caderninho em formato japonês com papel comum feito pela Laloran para a marca Navigator, apoiadora do evento Urban Sketchers, onde estive em Manchester. Nas páginas de cima, carimbei a rosa vermelha e o buda preto numa loja Muji (que oferecia o mimo para clientes; mas eu não comprei nada e carimbei assim mesmo). Abaixo, no desenho da Charlotte, feito a partir de um retrato dela, colei um adesivo de florzinha que veio na embalagem de uma fita tipo washi tape.

Esse é o quarto post da série sobre a viagem que fiz a trabalho em jul-ago/2016:
Viagem anti-inveja (Parte 2)
Viagem anti-inveja (Parte 1)
A liberdade de desenhar – Viagem com-inveja (Parte 3)
Londrinas – Ainda viajando (Parte 4)

 


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No que acredito

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“A vida virtuosa é aquela inspirada pelo amor e guiada pelo conhecimento.”

“Duas pessoas entre as quais haja amor perseveram ou fracassam juntas, mas quando dois indivíduos se odeiam, o êxito de um constitui o fracasso do outro.”

“Não há atalho para uma vida virtuosa, seja ela individual ou social. Para construir uma vida virtuosa, precisamos erigir a inteligência, o autocontrole e a solidariedade.”

“Mas nada se poderá conseguir procurando garantir a segurança de uma parte da humanidade à custa de outra (…). Somente a justiça pode conferir segurança; e por ‘justiça’ me refiro ao reconhecimento da igualdade de direitos entre todos os seres humanos.”

Bertrand Russell, No que acredito, 1925

Essas frases saíram de um livrinho que caiu no meu colo essa semana. Ia dar só uma olhada, mas acabei lendo o pequeno volume inteiro! Que sabedoria a desse filósofo que escreve sobre temas complexos de uma forma tão clara e fácil.

3 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:

* Começou o primeiro semestre da UFRJ, e tenho duas turmas. Senti as mesmas apreensões de sempre: não vou dar conta, estou muito cansada, não tenho mais nada para dizer… Mas o encontro com os alunos e alunas reais foi ótimo. Propus exercícios novos em sala de aula (tanto para a Antropologia II quanto para a turma de Antropologia e Desenho) e acho que deu para nos divertirmos bastante! Depois conto mais aqui, se vocês quiserem — será que alguém tem esse interesse?

* Alice foi eleita representante de turma, junto com uma amiga. Fiquei feliz por ela. Por experiência (Antônio também já foi representante), sei que vai ser um caminho de muito aprendizado. Não é fácil.

* Antônio se apresentou com a peça Vida Severina, do grupo de teatro da escola. Foi lindo, emocionante, surpreendente! E claro que sou totalmente isenta para elogiar. No palco ele nem parecia meu filho!

Sobre o livro: Bertrand Russell, No que acredito, LP&M Pocket (tradução de André Godoy Vieira). Depois fiz uma rápida pesquisa no blog Brain Pickings e achei vários posts legais sobre o autor.

Sobre o desenho: Aquarela feita a partir de uma foto que tirei numa rua perto de casa. A árvore estava linda, toda colorida nesses tons. Estou tentando ser mais consistente no uso do meu diário gráfico, fazendo pelo menos um desenho por dia. Para não ficar de cerimônia, comecei essa nova série no final de um caderno Laloran antigo, detonado, pois tinha sido encharcado de água pelas patinhas do Ulisses… Assim não tem como ter pena de errar ou gastar.  A data no canto direito foi feita com um carimbo muito legal: “mini dater”. Não lembro de onde é o meu, mas consegui comprar com facilidade o refil da almofada de tinta. Para as flores, pintei direto com caneta pincel waterbrush e tintas Winsor & Newton. Estou tentando ser mais solta do que nos meus últimos desenhos com contorno. Aproveitei o momento de uma conversa telefônica matinal para pintar, e acho que a leveza refletiu as palavras sábias da minha amiga parteira: “penso, logo existo; penso demais, logo desisto”!

 


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A tese é viva, viva a tese

poshiroshigep

Quando estava no mestrado e no doutorado, eu tinha um medo constante de encontrar alguém e ouvir a pergunta:

— Sobre o que é a sua tese?

Podia ser qualquer pessoa — querida, distante, acadêmica, leiga, humilde, alegre. Não importava. Se ela soubesse que eu andava estudando muito… lá vinha o questionário:

— O que você anda fazendo? Ah, é uma tese? E sobre o que é? Mas qual é o título? Resume!

É, eu sei. É difícil. Suspirar não adianta. Muita calma nessa hora. A pessoa não vai embora. Será que ela percebeu que estou suando?

Sempre fui péssima com questionários, títulos e resumos. Para vocês terem uma ideia: não fui eu que escrevi o resumo da minha tese. E logo na primeira fala da minha defesa, o que uma professora da banca disse? “– Adorei o resumo!” (E eu pensando: puxa, nem dei os créditos para o verdadeiro autor. Mas pelo menos ele estava na plateia ouvindo o elogio! Shhh, não contem pra ninguém.)

Mas e a tese? Sobre o que é mesmo?

Tem sempre aquele truque de responder com outra pergunta: “– Depende: quantas horas você tem para me ouvir?” Com essa, muitos desistem e te deixam em paz.

Porque falar da tese com tempo é até legal, mas resumir um trabalho que você levou 4 anos para fazer (4, com sorte) em apenas 1, 5, 10, ou até em 20 minutos é uma tortura! (Se vocês estão em casa preparando a apresentação do dia da defesa, sabem bem do que estou falando.)

Explicar a tese no meio do processo, ou assim que a terminamos, é como olhar um quadro impressionista com o nariz colado na tela. Para ver a forma, só se afastando um pouco e pedindo ajuda! É mais ou menos como aquele truque de começar a escrever fingindo que está mandando um carta para o melhor amigo. Me ajudou muito ensaiar a explicação sobre a tese tanto com quem eu me sentia totalmente à vontade (mãe, amiga, namorado) quanto com quem, mesmo sem intimidade, compartilhava meu interesse pela área da pesquisa. Falar, gravar, se ouvir, escrever, ler em voz alta, ensaiar. Tudo isso me ajudava a ver o quadro mais amplo. 

E tem a moldura: dependendo de qual a gente escolhe, tudo muda! Pode ser a área que enfatizamos, o recorte que escolhemos, ou até uma reavalição das teorias ou dos dados empíricos; pode também ser uma outra etapa do trabalho: como reescrever tudo para transformar em livro, numa liguagem acessível ao leitor comum. (Essa, aliás, foi a opção que escolhi, quando tive a oportunidade de publicar minha pesquisa de doutorado. Acho que só consegui porque foi uns dois anos depois da defesa.) 

Mas e aquela perguntinha “sobre o que é a sua tese?”

Hoje em dia, depois de pensar muitos e muitos anos, acho que eu gostaria de ter podido responder sem medo: “– A tese eu ainda não tenho certeza sobre o que é; mas a pesquisa eu amei fazer e posso te contar. Você tá com tempo?”

A tese é viva, viva a tese!

E para quem se interessa pelo mundo acadêmico, o blog tem dicas para aproveitar a defesa de doutorado e outros textos sobre minhas experiências… nos truques da escrita, na elaboração de projetos, nas defesas de tese, nas dores de não passar, na falta de tempo, no ensino deantropologia e desenho, no aprender a desescrever, nas agruras de ser doutoranda, na vida dos alunos, no sorriso do professor, nas lições da vida acadêmica, na importância de não ser perfeito e nas muitas saudades de Oxford 1, 2, 3 e 4!

Sobre o desenho: Desenhos feitos na época em que fiz o calendário de agosto/2015, inpirado nas gravuras do artista japonês Ando Hiroshige. Ao buscar uma ilustração para esse post, achei que essas pessoas sozinhas na chuva lembravam bem a situação dos mestrandos e doutorandos na reta final da pós: a gente se sente meio encharcado e desconfortável. Mas o artista soube olhar de longe e nos mostrar a beleza de andar e navegar mesmo assim — como a Dory, do Nemo; como a Margaret Mee no Amazonas. Para os desenhos, fiz uma aguada bem clarinha de aquarela nas páginas de um caderno Laloran. Depois desenhei a chuva e os personagens com canetinha de nanquim descartável 0.05 e 0.01 (para a chuva, usei uma canetinha gasta) e colori as roupas com aquarela mais concentrada.


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Poesia potente

montanha

“o nosso plano secreto,
secreto até para
nós mesmos,
era procurar
o melhor mirante”
(Carlito Azevedo)

Estou apaixonada por Monodrama, livro de Carlito Azevedo, que li e reli nas últimas semanas. É fresco, bonito, triste, suave, engraçado, apaixonado, sonoro, bom, bom de ler. É cheio de ecos e pequenas histórias, como a

“do místico que dizia
fumar para pôr
um pouco de névoa
entre ele e o mundo”

ou a do escritor que teria nascido com um irmão gêmeo, tão idêntico, ao ponto de, num acidente em que um deles morreu afogado, os pais nunca souberam qual dos dois tinha morrido: “se ele ou eu”.

É também um livro de sons, do “micromundo das vibrações sonoras” que arrepiam; um livro que brilha, “com os seus cem sóis”, que pára o tempo:

“por um segundo
fez todo o sentido do mundo
o nosso absurdo ir e vir”

E nos oferece o silêncio:

“uma pessoa do silêncio,
de sua equipe,
ou melhor,
o silêncio é meu
equipamento.
eu disse:
o silêncio
é meu equipamento”

É também um livro de amor,

“e o fim do amor
e com vontades contrárias e confusas
de deslocamento
e invisibilidade”

e de um poeta antropólogo:

“Parei um dia em uma dessas
praças e, deitado sobre a
grama, me pus a escutar a
desconexão absoluta de
todas as falas do mundo, de
todos os sonhos do mundo.”

Carlito escreve sobre as nossas “pequenas humilhações diárias”, aquelas que acordam conosco — nossos sinais, nossos vícios –, como na história do pobre homem que sussurra ter parado de tomar o café preto da garrafa térmica verde e, “neste mesmo instante se dá conta perfeitamente de que foi o café preto da garrafa térmica verde que o deixou”.

São poemas e prosas (não, não sei a diferença) em que as histórias parecem caminhar soltas, sem esforço, como os verbos de Rua dos Cataventos: ele estava, ele esteve, ele foi, ele poderia, ele será, ele colaborou, ele podia ter colaborado, ele vai colaborar, ele jogou, ele confirmou, ele fez, ele vai, “ele dançou conforme a música”.

E ainda nem chegamos na melhor parte, “Dois estrangeiros”. Todo o poema “A) Efeito Lupa” é uma delicadeza infinita; e me sinto má de escolher um pedaço para mostrar aqui, mas escolho, com o aviso de que o trecho não faz jus ao corpo inteiro:

“longe daqui
tenho amigos que me amam

e aos meus poemas
e pensam em mim todos os dias

Longe daqui
alguém leva desesperados numa chalana

alguém estuda as temperaturas
supercondutoras

alguém percebe que não
se tornou um gênio do piano

deve haver alguém que chora
quando sua amiga lhe lê

um poema de
seu poeta preferido”

Como todas as obras que amo, Monodrama também é daquelas que ri de si mesma. Tem drama e humor no mesmo parágrafo, com o poeta misturando a si próprio, o livro, a vida, fazendo graça até quando é “difícil encontrar alguma graça”; fazendo poemas para escapar dos “procedimentos”; buscando lembrar, ou não: “Não se lembra de nada? Que sorte a sua, isso é melhor ainda, pois então você pode inventar tudo.”, diz que lhe disse um amigo.

Numa segunda leitura descobri mais um trecho apavorante de tão bonito, do poeta-etnógrafo:

“Ela lhe disse que os poemas são a transparência através da qual ela gosta de ver o mundo e você disse que ela era a transparência através da qual você gosta de ver o mundo e todos os poemas que há dentro dele e ela chorou e disse que ia embora e que não podia mais lhe ver e que não prestava para você.”

Não sei se ele vai concordar comigo (que dificuldade escrever de autores vivos!), mas vi aqui e ali uma admiração dos horizontes e do céu aberto. Da praia, vem as ondas

“que te nutrem
do opaco e do transparente
de que o mundo
é capaz”.

E a menina que

“está fugindo de casa
com toda a sua força
e todas as montanhas”

E um pouco adiante os barcos na marina que

“também pareciam querer fugir de si mesmos”

Receio estreitar os sentidos do livro com tantos recortes, como se estreita o coração do poeta nas páginas de despedida à mãe. E dele pego palavras emprestadas para me despedir também:

“Sinto que se conseguir escrever agora o que se passa comigo estarei salvo, repito isso a mim mesmo algumas vezes, como repito mentalmente o refrão de que onde há obra não há loucura e onde há loucura não há obra e venho escrever.”

Sobre o livro: Monodrama, de Carlito Azevedo, editado pela 7Letras, em 2009, está em 2ª reimpressão. Encontrei o meu exemplar na livraria Travessa de Botafogo. Em 2015, o livro foi traduzido e editado por Aníbal Cristobo para a editora Kriller71, de Barcelona, com uma capa lindíssima da artista Leila Danziger.

Sobre o desenho: Rabiscos no caderno Laloran feitos durante a última aula de aquarela do ano passado, inpirados nas nuvens do Turner. Por algum motivo surgiu um homenzinho a la Tom Gauld diante da montanha. Sem coragem de desenhar algo especial para o Monodrama, achei que dava para misturar aqui. Quem sabe, o poeta diante da tarefa de escrever, escreva mesmo assim. Usei canetinha 0.1 mm e aquarelas Winsor & Newton. O caderninho é novo e as páginas estão enrugando… o scanner não deu conta, pra variar.