Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Alergia aos imperativos

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Não sei bem como começou a minha alergia aos imperativos. Talvez com a mania da minha avó de ir a videntes, que ela chamava carinhosamente de “pitonisas”. Ciganas, mães de santo, leitoras de cartas e de borras de café; mas também padres, rabinos, monges, budistas e médiuns. Todos tomavam café com ela.

Era uma espécie de novela. Você sentava e ouvia a previsão dos negócios, das doenças, dos casamentos, da chegada do sucesso ou das viagens. Tinha suspense, intervalos e próximos capítulos. Às vezes ela brigava com um deles, decepcionava-se. Ou ao contrário: elegia um guru, virava macrobiótica ou crente do dia para a noite. Ninguém se metia. “Coisas da vovó”. Duravam pouco e ela logo voltava para seu mix místico.

Eram gentes de todos os tipos, que nos levavam a visitar bairros longínquos, onde entrávamos nas suas casas ou templos, com respeito, fossem pretos, brancos, pobres, ricos, velhos, jovens, simples ou complexos. Alguns viravam conselheiros, confidentes, e até os melhores amigos pela vida toda.

Eu adorava minha avó, e me apaixonei pelo seu sonho de prever o futuro. Acompanhava suas excursões e, mais crescida, comecei a arriscar algumas visitas sozinha. Lembro de uma cigana, no alto da ladeira dos Tabajaras — olha o João do Rio aí — numa casa surpreendentemente branca e cheia de tapetes. Ela foi firme: eu ia “casar com um estrangeiro, que gostava de papéis e tinha olhos azuis.” Outra vez, fui numa senhorinha muito distinta que lia borras de café. E lá vinha o futuro: era certo o meu casamento com um homem alto, “estrangeiro e de muito estudo.” Variava a ordem, mas a previsão era consistente! Fazer o que? Cliente meio loira, com sobrenome estranho e cara de boa aluna (já de óculos desde cedo)…

Só que não. Eu não queria casar: queria ser grande (para bater nos meus irmãos) e fugir de casa para escrever e desenhar (lembram?).

Admito: ganhar na loteria não era uma má ideia. Será que elas não poderiam ver os números para mim? Não era para isso que serviam as numerólogas, tão na moda nos anos 1980? Não. Elas serviam para dizer que você deveria mudar de nome. Era só eu me chamar “Karynnah” e tudo ia dar certo.

Até que caiu a ficha. Nada mais de videntes e bilhetes da sorte. Confesso que pensei em casar com o meu primeiro namorado, bem moreninho, de olhos pretos e péssimo aluno. (Se eu não confessar, minha irmã vai me delatar nos comentários…) Felizmente acordei a tempo e acabei casando com um ator de teatro no Circo Voador.

Foi assim que peguei alergia aos imperativos. Não, não por culpa do ator; e nem do pai, nem da mãe! Meu pai não estava nem aí (literalmente). E minha mãe foi revolucionária à sua moda nos anos 1970. Acreditava no construtivismo e seu lema estava mais para “se vire” do que “me obedeça”.

A alergia veio mesmo é das previsões de pitonisas e dos manuais de auto ajuda ruins. Eles te dizem: “leia, cuide, seja, trabalhe, estude, corra, compre, medite, tome, faça”. Fico logo empolada: — “Ah, vão se catar. Vão mandar na vovozinha, que eu odeio que mandem em mim.” E também não mandem na minha falecida avó, pois no fundo ela ouvia a todos, mas só fazia o que queria.

(Ok… Não fica bem uma antropóloga escrever isso… Afinal, nas ciências sociais passamos metade das nossas vidas falando para os alunos sobre o poder da “coerção social” ou das “leis de ferro da oligarquia” — que eram de bronze, no original, mas o tradutor deve ter achado o material fraquinho, e pôs logo o ferro para assustar. Mas, convenhamos, se estamos ensinando sobre essas forças “invisíveis” há mais de um século, elas não são tão invisíveis assim, né? Até minha filha de oito anos sabe que o Obama lê o Facebook dela.)

Quando se liga o “radar anti-imperativos”, é como tomar uma vacina. Nenhum salvador de plantão te pega; nem vidente que quer te casar com turista, nem jogos de azar, nem anúncio da coca-cola, nem filósofo francês que descobriu o Graal, nem autor da moda que anuncia a solução final da antropologia.

Não é desacreditar de tudo. É tomar distância de quem profetiza que agora “o mundo tem que ser assim”.

Prefiro desenhar, contar histórias… e, principalmente, não mandar na vida de ninguém. 

Sobre os desenhos: Pedacinhos de um caderno de campo feito em Lisboa em 2013, para homenagear meu namorado, o homem mais gentil, doce, alegre, criativo e lindo da face da terra; e também muito, muito alérgico, como eu, a todos os imperativos e vontades de comandar as pessoas. Utilizei canetinhas Unipin 0.2, aquarela e lápis de cor, num caderninho de papel comum, mas com capa linda, e que agora só é vendido na Inglaterra… Aliás, se alguém tiver um endereço UK para me ajudar a comprar outros, agradeceria muito! *__*  (Para todos com mais de 18 anos: essa carinha à esquerda foi sugerida pelo Antônio. É um emoticon que significa “olhinhos brilhando”. Eu tinha digitado outro que, segundo ele, era impublicável… Vai saber!)

Agradecimentos: Na semana passada tive os meus cinco-mil-cliques-de-fama… Agradeço a gentileza dos que leram, likearam, compartilharam, comentaram. Prometo que não vou sucumbir ao sucesso, nem tentar postar coisas interessantes por várias semanas, de modo que possamos voltar aqui aos trinta e dois leitores e às bobagens de sempre. Lições demais também atrapalham!


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Dez lições da vida acadêmica

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Sou meio pé-frio para eventos acadêmicos. Outro dia aceitei participar de um que estava o maior sucesso. Plateia cheia, palestrantes chiques de várias partes do mundo, todo mundo se sentindo. Mas chegou a minha vez de falar: penúltima sessão, bem no dia-em-que-ninguém-aguentava-mais; as pessoas importantes pediram desculpas pois-tinham-outros-compromissos, as coordenadoras cataram estagiários para sentar nas cadeiras vazias…

Mas sou uma professora com brios e sigo em frente! A palestra deveria ser sobre como realizar uma boa pesquisa em Ciências Sociais. Transformei numa uma espécie de guia de auto-ajuda para jovens pesquisadores. Estas são mais ou menos as palavras que falei (e os desenhos que mostrei):

“É muito bom estar numa sala com pessoas iguais a mim: todos ganhando pouco, trabalhando muito e sem a menor certeza de ‘pra que serve’ essa profissão…

Vou falar um pouco da época em que estava fazendo mestrado e doutorado, já que essa é uma oficina de alunos de pós-graduação. Mas já vou avisando que não sou a pessoa mais indicada para falar sobre como fazer uma boa pesquisa… Quando entrei no mestrado, meu único objetivo era ganhar uma bolsa! Quer dizer, no fundo, eu queria deixar de ser estagiária de jornalismo… Na minha época, o estagiário de jornalismo passava o dia todo ouvindo o rádio da polícia (o que era proibido) e ligando para os bombeiros para saber se havia alguma tragédia na cidade. Não era a tarefa mais criativa do mundo.

Apesar disso, na minha curta carreira, aprendi a diferença básica entre jornalismo e antropologia: numa redação, escrevemos praticamente o mesmo texto curto todos os dias, com nomes de pessoas diferentes. Nas ciências sociais, tomamos um mesmo grupo de pessoas como tema e escrevemos todos os dias um texto sobre elas que não acaba nunca!

Quando fui estudar para o mestrado, meu maior desafio foi não dormir lendo Marx. Li aquele capítulo do Capital sobre o fetichismo da mercadoria e pensei: ferrou! Não entendi nada. Por sorte, a Maria Claudia Coelho era minha professora na PUC e se dispôs a traduzir aquilo pra mim. E não é que o texto caiu na prova? Uma professora durona estava na banca e me perguntou: porque você escolheu Marx para responder essa questão? Respondi a verdade: não tinha entendido nada quando li pela primeira vez, e depois achei genial —  era uma questão de honra enfrentá-lo na prova! (Só não falei que o mérito era todo da Maria Claudia, pois não ia pegar bem…)

Journal_Page_02Primeira lição aprendida: quase sempre vale a pena entender um texto clássico. É por isso que se tornou um clássico. (Mas nem sempre.)

Aprendi muito com as minhas gafes no primeiro semestre no Museu Nacional. Imaginem vocês que coloquei no meu currículo que sabia tocar violão! (Não, não tinha Lattes naquela época.) E num encontro de encerramento do primeiro período, ouvi um pessoal falando sobre uma tal de “ABA” e não tive dúvida: ‘professor, o que é ABA**?’  Meus colegas de turma vinham da UFF, do IFCS e da graduação em antropologia na Argentina! Todo mundo discutia a hermenêutica maussiana e a cismogênese… (**Associação Brasileira de Antropologia)

Enquanto isso, à tarde e à noite, eu ia para a redação da antiga rádio Jornal do Brasil trabalhar em matérias sobre a Guerra do Golfo, a construção da Linha Vermelha e os efeitos da Queda do Muro de Berlim. A agilidade desse tipo de trabalho me dava alguns trunfos, não posso negar.

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Um dia, tive que apresentar um seminário sobre o Homo Hierarquicus do Louis Dumont para a aula do professor Gilberto Velho. Ele era exigentíssimo mas, ao invés dos 20 minutos que me cabiam, gastei uns 27 ou 30… Terminei o mais rápido que pude, já me explicando: ‘desculpe, professor, demorei um pouco mais do que deveria porque esqueci todas as minhas anotações em casa’. A turma fez um grande ohhhh e de repente virei uma heroína!

Segunda lição aprendida: faça o seu trabalho, entregue o que você se comprometeu a entregar no prazo, mesmo que o resultado não seja perfeito. (Sempre se pode mandar anexos e notas depois!)

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Isso vale também para a escolha dos temas de pesquisa. No jornalismo diário, somos obrigados a enfrentar qualquer pauta, sem tempo para questionamentos filosóficos. Já nas Ciências Sociais… deixa pra lá.

Na época em que tive que escolher um orientador,  expliquei para o Gilberto Velho que não poderia ser orientanda dele de jeito nenhum. Falei que não sabia nada de antropologia, nem o básico do básico. Mas ele me respondeu, o que se tornou a Terceira lição aprendida: “você sabe escrever, e isso é 50% do trabalho do antropólogo”

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Minha sorte foi que logo no curso seguinte que fiz com ele, aprendi o segredo dos outros 50%: Para fazer antropologia bastava ficar o dia todo parada numa esquina, me enturmar com jovens desocupados e escrever um diário sobre isso! Quarta lição, com ajuda de William Foote-Whyte.

Nessa altura, eu sofria muito para fazer os trabalhos de mestrado. Muito! Eu não via sentido naquilo. Tudo me parecia tão inútil… Meu primeiro trabalho foi: “O conceito de nação na obra João Ubaldo Ribeiro em diálogo com Gilberto Freyre e outros autores”. No primeiro rascunho, fiz assim: revi toda a teoria que tinha lido nos primeiros quatro meses do curso e escrevi uma lista de 54 tópicos para abordar no trabalho. 54! A sorte foi que nessa altura eu já tinha tomado outra providência importantíssima para a carreira acadêmica: arranjei amigos mais experientes do que eu! No final, dos 54 tópicos sobraram 3!

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Quinta lição aprendida: na hora de fazer um trabalho, comece pensando pequeno. Quase sempre é melhor dizer muito sobre poucos temas do que o contrário. Felizmente, naquela época, a pressão para escolher um tema para a dissertação era menor do que hoje. Só me decidi a trabalhar com políticos no final do primeiro ano do mestrado. Me pautei pelo que achava que seria uma ‘pesquisa útil’. Acho que estava totalmente errada.

Hoje penso que todas as pesquisas são úteis, (ou quase todas), pois independentemente do tema, no fundo, a grande utilidade de uma pesquisa inicial é formar um pesquisador. (Sexta lição!)

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Gilberto Velho acabou por decidir ser meu orientador, sim. Ele nunca deu muita bola para fórmulas metodológicas. Era como aqueles figurões de Oxford para quem o Evans-Pritchard foi perguntar o que devia fazer quando chegasse nos Azande: “seja um cavalheiro” e “não haja como um perfeito idiota”, foram os melhores conselhos. Ele próprio sempre misturou muitas técnicas nos seus trabalhos, e nosso grupo de orientandos era um exemplo dessa diversidade.

Lição número sete: Tínhamos liberdade para experimentar e nos reuníamos semanalmente num espaço de troca, respeitoso e amigável. E esse é um segredo que não sei se consigo bem explicar: simplesmente não havia nos grupos de orientandos do Gilberto a famosa “feroz competição acadêmica”. Ao contrário, talvez a enorme exigência dele favorecesse em nós o espírito solidário! Nossas experiências envolviam observação participante, sim, mas também entrevistas longas ou curtas, fontes impressas, fontes históricas, imagens, filmes, diagramas, mapas, indicadores sociais, estatísticas eleitorais, fontes comparativas, teoria literária, sociológica, formalismo russo, folclore, urbanismo… O computador pessoal era uma novidade… mas cheguei a utilizar softwares de análise de conteúdo e por pouco não aprendi um sobre estudo de redes…

Que bom que não consegui. No doutorado, escrevi eu mesma uma pequena programação de software para lidar com meus dados de campo e de entrevistas. Mas tanto tempo no computador acabou me gerando uma tendinite tão grave que 90% da redação das 450 páginas da tese foi feita à mão.

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Lição número 8: computador demais sempre atrapalha. Seja no sentido mais direto, do sofrimento que gera no corpo do pesquisador; seja no sentido mais indireto, que é o excesso de dados que acaba por promover. Só para dar um exemplo, em 1991, ainda quando a internet se chamava bitnet e estava engatinhando nas universidades americanas, descobri um tesouro! Uma base de dados chamada Sociofile. Era uma espécie de Google para procurar resumo de artigos acadêmicos. Perdi semanas naquilo, separei uma lista fantástica de centenas de artigos, classifiquei por temas e… me perguntem quantos textos eu realmente li daquela lista? Uns dois ou três. Não deu tempo.

Journal_Page_10Lição número 9: referências bibliográficas demais atrapalham. No meio dessas experimentações todas, acho que tive sorte de passar por temas, lugares e pessoas muito diversos. Fiz pesquisas com elites, em casas legislativas, em favelas, em subúrbios e na Zona Sul, em locais de alta criminalidade, ou com movimentos sociais, em locais com alta escolaridade e renda.

Os políticos na minha opinião são o segundo pior grupo para se estudar. Eu achava que eram os piores: tem até um ditado russo: ‘você sabe quando um político está mentindo? Quando ele abre a boca.’ Eles nunca estão disponíveis, nunca querem te receber; quando te recebem estão ao telefone, quando marcam, esquecem, e quando lembram, não dá mais tempo. Eu morria de inveja de uma amiga que estudava velhinhos… Eu pensava ‘que maravilha seria ter aqueles informantes’, tão dedicados e solícitos, dispostos, simpáticos e com tempo! Até que minha amiga, sabendo dessas fantasias, foi logo me desiludindo: ‘tá maluca? Velhinho é o pior tema do mundo: primeiro, porque eles não param nunca de falar. Segundo, porque eles morrem no meio da sua pesquisa!’

Ok, agora falando sério. A coisa mais importante que aprendi com todos esses temas e experiências foi:

Journal_Page_11Lição número 10: uma boa pesquisa exige paciência, curiosidade e focoQuer dizer, paciência é só uma palavra bonitinha para não dizer: ‘enfrente o tédio’! Então, reformulando: uma boa pesquisa exige o tédio, aquele tempo em que você acha que não está fazendo nada, em que você se permite “se deixar ficar” junto ao universo de pessoas (ou textos) que escolheu para pesquisar. (Eu não disse que era só ficar parada numa esquina?)

Eu tenho um amigo que seguia essa regra, mas à sua maneira: passou mais da metade do seu mestrado sentado na mesa de um bar perto da universidade! Era um tédio bem divertido, digamos. E depois ele acabou fazendo uma dissertação incrível sobre como a pesquisa não deu certo! Hoje ele é um excelente professor doutor numa universidade ótima.

Talvez uma pesquisa seja um longo e paciente processo de aprender a olhar/enxergar, ouvir/escutar, interagir/dialogar com o campo (ou mundo) suscitado pelo tema que você escolheu. É estranho que eu tenha partido do que aprendi com Gilberto Velho para chegar a essa conclusão. Ele era a pessoa mais impaciente e ansiosa que já conheci na vida! Ai de quem não estivesse na aula dez minutos antes de começar. E todas as lendas de que ele chegava ao Museu Nacional às 7:15h da manhã, atendendo telefonemas com voz de “múmia” são verdadeiras. Era uma tortura para ele esperar até as 7:59 – já tarde nos seus parâmetros – para ligar e fiscalizar se já estávamos de pé e operantes!

Mas posso dizer que ele tinha um outro tipo de paciência, que se materializava através de duas práticas constantes: a curiosidade infinita pelo mundo, o que o levava a respeitar todas as fontes de conhecimento; e a capacidade de focar nesse processo de conhecimento como se não houvesse nada mais importante no mundo a fazer. Era uma curiosidade que o levava a ser capaz de ir ao baile funk, ao terreiro de umbanda, ler 300 páginas de um copião de tese num dia só, orientar pesquisas sobre astrologia, atores de cinema pornográfico e representações teatrais sobre a cidade no século XIX.

No meu caso, aprendi a praticar essas três coisas (paciência, curiosidade e foco) muito mais depois que me tornei mãe e me envolvi num trabalho voluntário para apoio a mulheres que desejam amamentar. Durante pelo menos dez anos coordenei grupos onde a principal tarefa era ouvir e dizer ‘hã hã’, ‘sim, entendo…’, ‘como foi isso, me conte…’, e devolver perguntas complicadas com outras simples ‘como você responderia essa pergunta…?’

Tive a sorte de estar num grupo que definia tudo isso como ‘dar apoio’ e ‘suporte’ . E qual não foi a minha alegria quando um dia descobri que era exatamente essa a técnica de entrevistas que o Howard Becker defendeu em seu livro sobre metodologia… Diga o mínimo e ouça o máximo…

Depois desse tempo de pesquisa, escuta e convívio, há que se percorrer ainda um longo caminho. Só que essa é a parte divertida! Fica para a próxima palestra. Obrigada. E agora vamos às perguntas de vocês!” (E foi difícil arrancar umas perguntas, porque os poucos que sobraram estavam com fome, claro.)

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Sobre os desenhos: Todos foram feitos na App Paper (53) no Ipad com canetinha Bamboo.

Agradecimentos: Agradeço à Julia O’Donnell e à Mariana Cavalcanti pelo convite para a palestra; e à Bianca Freire-Medeiros pelos êêêê entusiasmados. Aproveito para desejar que elas tenham mais sucesso na escolha dos convidados para a próxima vez!

Você acabou de ler “Dez lições da vida acadêmica“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2014. “Dez lições da vida acadêmica”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url “http://wp.me/p42zgF-68“. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Últimas Saudades de Oxford

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** O Humor Britânico **
 Ao iniciar uma refeição, os bons hábitos mandam: na França: “Bon appetit!”; na Alemanha: “Guten appetit!”; na Itália: “Buon appetito!”; na Inglaterra: “Never mind…”

** Atendentes, garçons e que tais **
Como vocês sabem, já quase me expulsaram de um restaurante porque eu pedi “water” com sotaque americano. Agora descobri (em 2005!) um crime ainda mais hediondo: pedir “olive oil”!
— O-li-ve-oiiiil? No, I am afraid we don’t have. (resposta simpática)
— O-li-ve-oiiiil? humpf. (resposta tradicional)
Mesmo com um prato de salada verde na frente, o máximo que você vai conseguir é um pouco de sal.

** A contribuição dos fast-foods para a humanidade **
Banheiros limpos no terceiro andar!

** Palavras que vocês não vão achar no dicionário **
“Top up” – Depois de horas tentando entender a voz eletrônica do outro lado da linha, finalmente compreendi. “Top up” é colocar dinheiro via cartão de crédito na conta do telefone celular, no cartão de ligações interurbanas, na máquina de xerox etc. Coisas da vida eletrônica.
“Engaged” – Se diz também quando a linha de telefone está ocupada.

** “I thought you were a student” **
Coisa boa: pelo menos umas cinco vezes fui barrada aqui nos lugares onde só entram pesquisadores e professores porque me confundiram com uma estudante de graduação! (Bem, vá lá, só “estudante”. Graduação já é fantasia minha.) Mas depois que me dei conta disso, resolvi assumir. Nunca mais paguei ingresso de “adulto” em cinema, museu ou teatro!

** Lavando roupa em oito etapas (ou em apenas 130 minutos) **
Você logo percebe os padrões locais de limpeza quando descobre que o seu College tem uma única lavanderia comunitária de 9 metros quadrados para centenas de moradores.

Etapa 1 – Você reserva uma manhã inteira e vai para a lavanderia ver quantas das quatro máquinas estão funcionando. Na chegada, você lembra que esqueceu o cartão magnético que abre a porta. (7 minutos) Não esqueça de novo: cartão, moedas, sabão, roupa suja e sacola. (5 minutos)

Etapa 2 – Você está com sorte hoje: três máquinas estão funcionando. Só um probleminha: todas estão lotadas. Você logo aprende que seus vizinhos gostam muito de colocar a roupa na máquina e sair para dar uma voltinha de 12 horas. Quando uma das luzes apaga, você tem o direito de usar a máquina. (Espera em torno de 13 minutos)

Etapa 3 – É seu trabalho tirar e jogar a roupa molhada do vizinho em cima da máquina. A tarefa não deixa de ser interessante. Você fica conhecendo o lado “íntimo” das pessoas: as russas e suas calcinhas de sex-shop, os adolescentes e suas bermudas rasgadas, o professor  inglês e suas camisas azuis de gola branca, a nova-iorquina e seus modelitos fashion… (5 minutos, se você não parar para examinar as roupas)

Etapa 4 – Colocar sua roupa, colocar a moeda, ler as instruções três vezes, girar o botão da temperatura (que você pensa que é o botão do tempo), apertar a pré-lavagem, ligar. Ah, não esquecer o sabão. (2 ou 5 minutos) Volte para casa e marque uns 40 minutos no relógio.

Etapa 5 – Duas opções: ou você chega antes do tempo, e tem que ficar esperando a lavagem acabar; ou você chega atrasada e todas as suas roupas estão jogadas em cima da máquina (pode contar que uma meia ficou perdida em algum lugar). (10 minutos)

Etapa 6 – Com sorte, uma máquina de secar está vazia. Esta é facil: colocar moedas (até acertar a quantidade de moedas com a quantidade de roupas, é outra história…), colocar a roupa, desistir de ler as instruções, girar o botão para qualquer lado, ligar. Ouvir o vizinho resmungando porque ele quer usar três máquinas, uma para cada tipo de roupa, “porque assim não amassam muito”, ele explica. Voltar para casa. (30 minutos)

Etapa 7 – De volta à lavanderia. Cenário ideal: sua roupa estará seca e te esperando no mesmo lugar. Cenário deprimente: sua roupa ainda está molhada e jogada num canto. Cenário terrível: suas roupas encolheram! Passei pelos três… (10 minutos)

Etapa 8 – Você chega em casa e descobre que esqueceu o sabão na lavanderia! 😦

** Táxi turbinado **
Desde que cheguei, já peguei taxista grosso, enrolão, simpático, estrangeiro-que-não-sabia-o-caminho, indiferente. Mas o auge foi o último: dirigia calmamente bebendo uma cerveja!

** Sinal de que está na hora de ir embora **
Conversando com um pesquisador novato:
Ele:  “Nossa, que bom, está o maior sol!”
Você: “Ah, nem adianta. Quando a gente terminar de colocar os casacos vai estar chovendo…”

Ele: “Oba, parece uma comida gostosa!”
Você: “Nem tente. Tem gosto de chili ou de leite-sem-sal.”

Ele: “Que máximo, vamos entrar nessa livraria?”
Você: “Nem adianta, o livro mais barato vai custar 24,99 pounds. Só uns 135 reais…”

Bem, relevem… Eu devia estar um pouquinho mau-humorada nesse dia!
Como diz um cartão-postal muito procurado aqui: 

“Apart from… the weather, the food, the acommodation, the countryside, the people and the language… I’m having a great time here!”

Sobre o desenho: A imagem desse post começou a surgir na minha cabeça há alguns dias, quando planejei que o calendário de março tinha que ser com o tema “queremos chuva”! Acabou sendo um dos desenhos mais divertidos e ao mesmo tempo trabalhosos de fazer. Como sou teimosa, usei o mesmo papel ruim do post Modelos vivos ou mortos?, mas dessa vez me preparei melhor. Prendi a folha com fita crepe na bancada da pia da cozinha antes de pintá-lo com água, lápis de cor aquarelável e aquarela. Esperei que secasse até ficar só um pouco úmida e passei a ferro. Dessa vez o papel ficou quase liso! Escaneei essa base pintada e fiz os desenhos no Ipad (app AdobeIdeas) com uma canetinha Bamboo que ganhei da minha mãe <3. Depois voltei tudo para o computador, aumentei o contraste (lembram que o azul sempre fica aguado?) e “recortei” as figuras com o Photoshop. Meu plano inicial era fazer toda essa parte à mão, mas deu preguiça quando percebi que teria que organizar cada pedacinho num outro papel e ainda voltar ao scanner… O calendário fica para amanhã — desculpem o atraso carnavalesco.


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Vendo a vida voar!

bikeakc

Vocês não sabem, mas esse blog tem um conselho editorial. Ou melhor, tem um conselheiro/copidesque/revisor/editor-adjunto que desde o primeiro dia vem trabalhando nos bastidores para me ajudar a manter um padrão de qualidade gráfica e textual além, claro, de bom humor, que é o propósito de tudo que fazemos. Hoje, porém, ele está de folga. Pela primeira vez vou ter que me aventurar a publicar um post aqui sem a sua ajuda.

Ele nasceu de madrugada, completamente cor-de-rosa e careca. Foi logo fazendo xixi em cima de todo mundo. Estava morrendo de fome mas aprendeu rápido que seu destino era mamar e ter uma página na internet. Aos dois meses, sua homepage já tinha dezenas de leitores. Quando ele soube do sucesso, deu gritinhos de felicidade agarrado a um tigre laranja. Desde essa época, seu poder de concentração nos admirava mais do que os olhos azuis. Adorava dormir e chorar em doses quase iguais. Aos três meses, dominou o chocalho e passou a gostar de tomar banho — uma prova de como as pessoas mudam! Tornou-se um ás nas gargalhadas aos quatro meses, começando com segurança sua carreira de conquistador. Para ajudar, nasceram nesse época uns quatro ou cinco fios do famoso cabelo. Aos sete meses, apaixonou-se por um telefone colorido, numa espécie de premonição sobre qual seria seu objeto do desejo treze anos depois. Os exercícios lhe causavam uma certa preguiça, assim como qualquer tentativa de comer coisas diferentes — taí uma personalidade estável! Aos oito meses começou nos estudos da linguagem e não parou mais: hoje sente necessidades extremas de comprar coleções de livros em inglês. Dominou as palminhas aos nove meses e dispensou para sempre a chupeta, num ataque de raiva e sono. Aos onze meses e vinte e dois dias, anotações em seu diário diziam: “anda bem sozinho, quase corre”, “dá tchau”, “aponta com o dedinho”, pede “água, colo, mama, papa”, “encaixa potes e blocos”, “brinca de pique com a mamãe”, “gosta de bonecos de bichos”.

diario11meses

Nos anos seguintes superou alguns traumas: teve o dedo mordido por uma tartaruga no Jardim Botânico, assustou-se com pesadelos com João Ratão (aquele que caiu-na-panela-do-feijão no dia em que deveria se casar com a dona Baratinha), aprendeu a gostar de pipoca, quebrou o braço e entendeu a diferença entre ter pais antropófagos ou antropólogos. Apaixonou-se perdidamente por quebra-cabeças, bichos de plástico, bichos de verdade, gatos, pinturas, desenhos e todas-as-viagens-do-mundo. Aos cinco meses, já demonstrava um amor incomensurável pelos livros. Foi batizado com Dr. Seuss, Lygia Bojunga, Sylvia Orthof, Pippi Meialonga, Pequeno Nicolau, Ruth Rocha… Mas se graduou sozinho com os sete volumes de Harry Potter, enciclopédias Larousse, mitologia grega, Desventuras em Série, quadrinhos, mangás, Senhor dos Anéis e um mundo de volumes. Os novos amores são a música, a fotografia e ver a vida passar voando numa bicicleta!

Nenhum dos seus talentos, porém, supera a sensibilidade para perceber o sentimento do mundo, para olhar nos nossos olhos e perguntar — “Tá tudo bem com você?”

E hoje te respondo: — “Tá tudo bem sim, filho; tá tudo ótimo! Sou a mãe mais feliz do mundo no dia do seu aniversário de treze anos!! Você me surpreende, me encanta e me ensina a ser uma pessoa melhor todos os dias.”

Sobre os desenhos:  Essa é a bicicleta nova-usada que compramos há quinze dias como presente de aniversário adiantado. Desenhei meio correndo, no intervalo entre as voltas que ele dava sem parar. Resolvi deixar todas as tortices e manchas assim mesmo, sem tentar fazer “outro melhor”. Acho que é um bom lembrete para nós dois de que a vida é feita de coisas que funcionam e outras que nem tanto, mas mesmo assim temos que seguir em frente e dar risada. Para desenhar, usei aquarela, canetinhas e lápis de cor. Uma parte fiz ao vivo, mas terminei os detalhes olhando uma foto. O outro desenho é uma página de um dos caderninhos-diários que venho fazendo para o Antônio desde que ele nasceu.


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Saudades das Saudades de Oxford 3

chacomleite

** Agruras da Vida Acadêmica **

Você ganha uma bolsa para vir para Oxford e se sente a pessoa mais importante do mundo. Memorize bem esse sentimento, pois quando o diretor do seu centro de pesquisas pedir que você organize um “pequeno workshop internacional”, com apenas 2 meses de antecedência, toda a auto-estima acumulada será necessária!

** O Francês Importante **

Os ingleses acham que é muito fácil organizar um evento, afinal “everybody likes to come to Oxford”! Tente convencer um figurão francês disso… Levei um tremendo bolo na véspera do evento! Um furo à francesa: nem um singelo “je suis desolée…”

** O Inglês Incompreensível **

Você precisa de mais um comentador. Seus colegas sugerem: “chame um inglês de verdade”. Ok, o cara tem vários livros, é reconhecido no meio, parece simpático nos e-mails e aceita! Finalmente, um único participante sobre o qual não precisamos nos preocupar se fala ou não bem inglês.

No dia do Workshop, porém… Ninguém entendeu uma palavra do que o cara disse!! Só rindo pra não chorar. As pessoas se entreolhavam, suspiravam, franziam a testa. Nada. De vez em quando uma palavra ao longe fazia algum sentido. Só não combinava com a palavra seguinte… O problema era uma mistura de tom de voz (variando do inaudível ao operístico), caretas, suspiros, falta de objetividade e uma “malice” congênita!

Além dos comentários no Workshop, ainda tive a “sorte” de sentar do lado dele no restaurante à noite. O cara cheirava a cigarro e falava sem parar sobre a namorada espanhola na Bahia, os pais republicanos, o filho comunista… Bem, só captei esses três assuntos no início — depois não me dei mais ao trabalho… E ele falou a noite toda assim mesmo.

O mais engraçado foi ver o suspiro de alívio dos brasileiros quando eu disse que também não tinha entendido nada do que ele falou. Ainda hoje encontrei uma professora da USP que assistiu o seminário e estava se sentindo péssima, achando que precisava voltar para o curso de inglês!

** Um Senador Italiano **

Tentem visualizar o tipo: terno italiano, cabelo italiano, sapato italiano, cortesia italiana. Um pacote de vaidade. Quando a secretária foi tirar uma foto, ele simplesmente parou de falar para afastar os copos e fazer uma pose! Depois, ainda disse que não havia mais clientelismo na Itália. Imagina se ia admitir essas vulgaridades latino-americanas…

** Um Espanhol e sua Agenda **

Outro convidado sugerido pelo povo daqui. Um espanhol com fama de “excelente”, “fantástico”, “maravilhoso”. Aí o cara se prepara para falar e abre a agenda!!! A agenda!! Sabe aquela coisa com espiral no meio e umas folhinhas miúdas para anotar o dia do dentista? Pois é.

E de lá saíram constituições espanholas do século 18, a legislação eleitoral da Cataluna, a troca de partidos conservadores em 1879… A essa altura, ninguém mais estava prestando atenção.

Bem que desconfiei que a coisa não ia dar certo. A única preocupação dele era saber se poderíamos hospedá-lo no hotel mais caro da cidade. Não, não podíamos. A cada vírgula, repetia que tinha feito doutorado em Oxford. Mas, pelo visto não aprendeu nem o básico, pois saiu para todos os lados com um enorme guarda-chuva e ainda pediu coca-cola na hora do evento!

** A Redenção Latino-americana **

Éramos três brasileiras e um colombiano, seríssimos, falando sobre temas pertinentes, com idéias, começo, meio e fim. Ufa. Fomos os melhores do dia! Mas a concorrência…

** A Plateia **

Muita gente fica nervosa ao ser convidada para Oxford achando que vai falar para grandes plateias. Muito ao contrário. Os eventos tem pouquíssimo público. Quer dizer, meu seminário foi um sucesso: 15 pessoas de fora, sem contar os da casa, amigos e participantes. Com a queda de qualidade da segunda sessão, perdemos metade da plateia. Pra quem gosta de vinho, foi ótimo: sobrou muita bebida no coquetel de encerramento! E mantivemos a tradição: um italiano roncou enquanto uma das brasileiras falava.

Concluindo, o evento foi quase-péssimo, mas felizmente lembrei que teria um ótimo material para esse diário. Afinal, tudo que dá errado é mais engraçado.

** Humor Britânico **

“If you actually look like your passport photo, you aren’t well enough to travel.” (sir V. Fuchs)

** Oxford com Crianças **

As crianças são bem-vindas: a comida é grátis e chega rápido! Mas tem um pequeno detalhe: é tão ruim quanto a dos adultos…

Os museus têm atividades para toda a família e há sempre uma área com avisos de “é permitido mexer, tirar fotos e brincar!”  Fofo.

** Detalhes do Cotidiano **

Todos são a favor de comida em cima do computador, migalhas no teclado, molho nos papéis! Toda mesa de trabalho tem um “cup of tea”, um prato com restos de biscoito, um garfo caído pelo meio, uma garrafa de água com gás quente apoiada em cima do arquivo… Ninguém reclama, ninguém acha estranho. Gostei! Dá um ar de casa bagunçada.

Todas as bicicletas têm uma sacola de plástico enfiada embaixo do assento. No início, não entendi. Mas agora também tenho uma: é para proteger o banco em caso (muito provável) de chuva. Eles não se incomodam com a cabeça, mas andar com a bunda molhada também já é demais!

** Sinais de que está na hora de voltar pra casa **

Já sei de cor o valor de todas moedas.

Minhas mãos estão ficando vermelhas, como as das mulheres inglesas!

Estou começando a gostar de chá com um pouquinho de leite…

Sobre o desenho: Fiz o desenho nos últimos minutos desta quarta-feira a partir de uma foto que tirei do meu café da manhã em Oxford (o pão estava na torradeira, não tive paciência de desenhar tudo, perdoem). A xícara ficou bem fora de proporção e ainda por cima descobri que a canetinha Kuretake nova não é à prova d’água! Mas tudo bem: foi bom lembrar que a louça do meu apartamento era horrível (azul e amarelo-sujo!) e também da minha maluquice de levar um paninho de prato brasileiro, feito com ponto-de-cruz pela querida Maria-de-Itaipava — foi a peça que fez eu me sentir em casa quando estava lá. Resolvi deixar o desenho na folha do caderno inteira porque ficou parecendo um tapete voador… Não custa nada sonhar com um pouco de mágica nos tempos atuais!


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Aos 46 do segundo tempo

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“Olha lá, quem acha que perder // É ser menor na vida // Olha lá, quem sempre quer vitória // E perde a glória de chorar // Eu que já não quero mais ser um vencedor // Levo a vida devagar pra não faltar amor” (trecho da música O vencedor, de Marcelo Camelo / Los Hermanos)

Amo essa música e acho que seria a epígrafe perfeita (que faltou) para a autobiografia de Jonathan Franzen e para a minha própria, se algum dia eu fosse escrevê-la… Ler as memórias do escritor nessa época de volta às aulas foi daquelas coincidências doces e amargas ao mesmo tempo. Minhas lembranças dos tempos de colégio não são nada divertidas; mas meus filhos se rolam de rir quando nos reunimos para falar dessas histórias…

Não fui tão caçula quanto Franzen (um temporão), mas caçula o suficiente para viver em função do meu irmão e da minha irmã mais velhos. Eu queria tanto tanto tanto ir para a escola, como eles, que minha mãe arranjou uma vaga para mim aos dois anos de idade, bem antes do que era comum em 1970. O resultado não foi muito promissor: digamos que eu nem sabia como ficar o dia inteiro sem fraldas! E digamos que meus irmãos adoravam me relembrar disso…

Passei o resto da vida sendo chamada de precoce (elogio das professoras e amigas da minha mãe) ou pirralha (acusação dos irmãos e dos “coleguinhas” de turma).

Não que eu fosse tão deslocada quanto o Jon (Franzen): na escola ele se sentia como se carregasse uma placa no pescoço “não contem nada pra mim”. Mas foi divertido descobrir que gostávamos de coisas em comum, apesar dele ter nascido em 1959 e eu em 1967. Ambos temos um fraco pelos oprimidos e fracassados. Eu também amava Charlie Brown, Snoopy e sua turma. Adorei quando Franzen contou que seu ídolo, Charles Schulz, criador de Peanuts, teria dito numa entrevista: “levei muito tempo para me tornar um humano”; e  explicou que não foi para uma faculdade de belas-artes porque seria um desestímulo “conviver com gente que soubesse desenhar melhor do que ele”. Ou quando lembra que Schulz teve que servir o exército, virou primeiro-sargento e refletiu: “me senti bem comigo mesmo, o que durou oito minutos, e depois voltei para onde estou até hoje”.

Aos quatro anos e meio fui parar numa escola nos Estados Unidos, sem falar inglês e sem minha mãe por perto. Acabei sendo convidada a me retirar por ser uma má influência para o meu priminho e seus colegas. Tudo que me lembro foi de ter tido a ideia de nos divertirmos trocando todos os casacos de lugar (havia um nome e um ganchinho para cada criança-e-seu-casaco); ah, e eu não colaborava muito quando tínhamos que cantar infinitas vezes a música “head, shoulders, knees and toes, knees and toes” (mais tarde hiper popularizada pela Xuxa em xuxês). Como Franzen e Schulz, eu acreditava em fazer as pessoas rirem.

Depois de uns anos numa escola que me hiperestimulava (no bom sentido: assisti Vidas Secas aos 6 anos e meio), fui mais ou menos jogada numa cidade do interior (sem mãe novamente), numa escola de Freiras com F maiúsculo. Em uma semana tive que aprender a rezar Ave Maria e Pai Nosso, vestir uniforme, cantar o hino nacional e fazer exercícios de matemática do século XIX. E sem um traje “anti-ansiedade”, como Jon às vezes conseguia… O coitado passou a adolescência inteira — in-tei-ra — tentando convencer a mãe a aceitar que ele usasse calça jeans aos domingos! (Nada como uma informação dessas para relativizar os nossos problemas…).

Daí em diante, parece que não temos mais nada em comum: Franzen se forma em literatura alemã, vira editor na faculdade; ainda bem jovem escreve uma peça teatral elogiada; alguns anos depois publica o romance Correções que faz dele um escritor famoso e premiadíssimo morando em Nova York! Ele próprio admite:

“Aos quarenta e cinco anos, quase todo dia sinto-me grato por ser o adulto que eu esperava poder vir a ser quando tinha dezessete anos. (…) Ao mesmo tempo, quase todo dia, perco várias batalhas para o jovem de dezessete anos que ainda vive dentro de mim. (…) Você nunca pára de esperar que a história para valer comece logo (…)”

Por incrível que pareça, por menos premiada e famosa que eu seja, acho que posso dizer que me vejo em cada uma dessas palavras. Estou (e não estou) exatamente onde queria estar, aqui e agora, aos 46 do segundo tempo.

Sobre o desenho: Em homenagem ao mês de volta às aulas, aproveitei o calendário de fevereiro para desenhar os materiais antigos e novos das crianças, mas também alguns meus, já que voltei para os meus queridos alunos ontem! A peça mais antiga do desenho é o estojo vermelho, à esquerda, que ganhei de presente da melhor professora de antropologia que já tive, a querida-mas-duríssima Lygia Sigaud (o Antonio adotou como estojo dele agora). A canetinha mais amada é a multicores que a Alice ganhou do amigo Ique (está logo abaixo do nome do mês). O item mais caro é a caneta Lamy amarela, no topo à esquerda, que comprei há pouco tempo, mas que não gostei nadinha de usar… (ainda!) O mais divertido é o estojo preto da Alice que imita um Iphone, bem no meio do desenho (não ficou nada fiel… o estojo custou pouco, é bonitinho e tem tamanho ótimo)!  As linhas foram quase todas feitas com a nova canetinha Sakura Kuretake (no desenho, está logo abaixo dos lapis de cera), indicada com paixão pelo Danny Gregory em seu blog. Ainda estou me entendendo com ela… As cores foram feitas com aquarela, lápis de cor e canetinhas hidrocor variadas.

Sobre o livro: As citações estão nas páginas 51, 84 e 134 de A zona do desconforto, de Jonathan Franzen (Cia. das Letras, tradução de Sergio Flaksman). Li também dois outros livros na semana passada que recomendo, por motivos diferentes: o bonito (mas triste, pelo assunto) Pyongyang — Uma Viagem à Coreia do Norte, de Guy Delisle (Zarabatana Books, trad. Claudio R. Martini); e A assinatura de todas as coisas, de Elizabeth Gilbert (Objetiva, trad. Débora Landsberg), uma distração despretensiosa, mas que me surpreendeu pelo aprofundamento no mundo da botânica e da biologia em geral. E acabaram-se as férias: agora estou relendo Roberto Cardoso de Oliveira, O trabalho do antropólogo: olhar, ouvir, escrever.

Sobre o atraso desse post: Fiquei sem internet o dia inteiro ontem (quarta-feira)… Por algum problema psicológico, só consigo escrever aqui se estiver online no painel do WordPress — nada me convence a escrever no Word. Vou tentar ser mais disciplinada e preparar a coisa com alguns dias de antecedência. (Não que alguém tenha reclamado! Ninguém reclamou… chuinf… mas meu senso de disciplina tem vaidade própria).


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Risadas de botas

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Uma das coisas que mais amo na vida é dar risada, daquelas que dão lágrimas e soluços! E quando um livro, um livrinho só, me provoca essa alegria toda, é o máximo! Pois tive muita muita sorte em 2014: li não só um, mas dois livros que me deixaram com sorrisos e gargalhadas por páginas e páginas.

Queria falar primeiro do Antonio Prata, esse menino que desenhei, nu, de botas, e suas memórias singelas, criativas, sensíveis e sobretudo deliciosamente engraçadas. (Não quero estragar a história, então não vou explicar por que nu ou por que de botas.)

O maior elogio que posso fazer é que a leitura me lembrou dois dos melhores livros de memórias da literatura brasileira: “Os bichos que eu tive” e “Se a memória não me falha”, ambos da Sylvia Orthof, uma deusa da delicadeza e do humor no cotidiano. Como Sylvia, Antonio explora os limites da nossa credulidade ao contar sobre seus insetos, pintos (de vários tipos), tartarugas e o sofridíssimo papagaio Getúlio.

Um dos encantos de Prata-filho (também li e adorei alguns livros do seu pai, Mario Prata; e esses dois Pratas ainda são primos do fantástico Campos de Carvalho!) é a sua capacidade de misturar a narrativa da criança com a do escritor, em frases como:

“Sem opção, enterrei a faca no jardim e parti para a clandestinidade. (…) Se estivesse disposto a correr riscos, mais valia me esgueirar até o quarto e resgatar uns Playmobils para brincar nos 24 ou 36 meses seguintes.”

Achei impossível não rir com as aventuras desse moleque fã do Bozo e do Spectreman, determinado a visitar a África numa prancha de isopor. Tanto faz se você só lembra de uma parte das coisas que ele cita (anos 1980/1990) ou se está conhecendo pela primeira vez. O autor te leva pela mão e te mostra o nonsense daquilo tudo. Quem não fingiu ter febre para não ir à escola e ouviu “as cinco palavras mais frustantes da infância: ‘trinta e seis e meio'”?

Lembrei-me também d”As aventuras do pequeno Nicolau”, de Sempé e Goscinny, que já citei aqui. Prata conta:

“Minha mãe parecia doente, havia engordado muito, reclamava de enjoos e dores nas costas, mas, para minha surpresa, visitas apareciam animadas, acariciavam sua barriga como se fosse uma dádiva dos deuses (…) Uma noite, escutei uns barulhos, minha mãe sumiu por uns dias, e, quando voltou, trazia no colo um bebê, dizendo que eu havia ganhado uma irmãzinha. // Eu achei estranho, nunca tinha pedido irmãzinha nenhuma (…).”

No tempo em que estou agora, com dois filhotes nas idades do personagem, é até covardia ler esse livro… Como não se apaixonar por um autor que escreve sobre a beleza de ver a mãe escovando os dentes, essa mãe que é uma “avalista da ordem e da paz”, uma “embaixadora do país da maternidade, em meio aos perigos da terra estrangeira”, com “a serenidade de uma cama feita, o respeito de uma mesa posta.”

Taí: a mãe do Antonio Prata é minha mais nova ídala.

Ah, e o outro livro maravilhoso que li em 2014 é o Crônicas de Jerusalém, de Guy Delisle (editora Zarabatana). Escrevo sobre ele numa próxima vez, mas desde já recomendo muito!

Sobre o desenho: Optei pelo caminho mais difícil nesse desenho, pois cismei que tinha que estrear meus novos lápis de cor Prismacolor, comprados graças a uma ida do meu sobrinho aos EUA (obrigada irmã!). Que cores lindas e que gostosos de colorir! Mas fazer todos esses detalhes uns por cima dos outros foi bem difícil…  Mas, tudo bem: o que eu queria mesmo era desenhar o Antonio nu, de botas! Espero que ele não se ofenda se por acaso descobrir esse desenho (não, ele não me aceitou de amiga no facebook…). Os materiais foram, no mesmo caderno “velho” que ganhei no Natal: canetinha 0.05, lápis de cor e um pouco de aquarela para as sombras suaves.

Sobre o livro: As citações estão nas páginas 24-25, 35, 69 e 122 do livro “Nu, de botas” de Antonio Prata, editado pela Companhia das Letras em 2013. 

Adendo de 17/4/2015: A linda capa original é do Alceu Chiesorin Nunes!


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A colecionadora de selos

colecionadora de selos desenhos

Na semana passada, minha filha Alice chegou em casa irritadíssima, aos gritos: “Mãe eu quero brincar! Eles não me deixam brincar!!!! E eu quero brincar!!!!! Eu quero brincar!!!!”

Fiquei maravilhada, admirando a potência da menina-criatura que bradava como um Titã: “quero diversão! balé! arte!”

E pensei no meu avô e sua máquina perfotrônica que media o espaçamento do denteado dos selos de sua coleção (daquelas figurinhas que usávamos para postar cartas no correio). Um dia ele me ensinou: é imprescindível na vida de um filatelista ter um sensor eletrônico desses ou seu equivalente manual, um odontômetro.

Contar picotes, explorar impressões e filigranas, avaliar cores e estampas, identificar carimbos e gomas, localizar datas de emissão — todos esses eram pequenos prazeres na vida do meu avô. Pinças, lentes, charneiras, envelopes finíssimos e transparentes, álbuns com gravações em relevo, cantoneiras, catálogos e mais catálogos.

A mágica não estava no lucro, mas na atividade cotidiana, no cuidadoso processo de molhar as cartas para retirar suas preciosas estampas e coloca-las para secar a salvo das crianças. Nas consultas incessantes aos livros em busca da identificação precisa. Na compra de novas quadras, blocos, sanfonas, cadernetas ou folhas. Nas pequenas e grandes decisões de organização. Nas memórias de cada peça, no cultivo dos tesouros, no lamento das perdas, na admiração das lindezas e raridades, na excitação de uma nova conquista.

Meu avô era um homem que amava os selos. Tinha um pequeno escritório que era sua Bat-caverna, um lugar para entrar e sair na ponta dos pés, mas também para sentar no colo, prender a respiração e admirar. As lentes, as luzes especiais, as pinças e os delicados papéis por todo lado.

Mais tarde surgiram meu tio e suas miniaturas de metal. Lá vinha outra versão da vida sob lentes grossas, luzes fortes e mesas cheias de materiais e instrumentos mágicos. Encantamentos, segredos e belezas, dessa vez não apenas em coisinhas compradas e colecionadas, mas fabricadas pelas suas mãos de ourives.

Os objetos da vida cotidiana surgiam em réplicas que pareciam ter comido os biscoitos de encolher da Alice (não a minha, a do País das Maravilhas): regadores, chaves, flores, estrelas, corações, colheres, moscas, raios, lagartos, bonecas e até os próprios biscoitos, reduzidos aos menores tamanhos que podemos imaginar.

Por que nos deliciamos tanto com essa vida de mentirinha, esse faz-de-conta auto evidente?

Simples, diria a Alice (a minha Alice): “Queremos brincar!”

Ao começar a pintar ontem, de repente, olhei para minha mesa com outros olhos. Lá estavam dezenas de canetas, com suas espessuras, origens, tintas impermeáveis ou não, resistentes, frágeis, que deslizam ou resistem, caras e baratas, de diferentes países e origens… E vejo os pincéis e seus pelos que aprendi a identificar, com suas idiossincrasias e comportamentos, conforme a qualidade das tintas, nanquins e aquarelas em que mergulham… E ainda massas, pós, bastões, fluidos, químicas, papéis e cadernos…  E finalmente a peça sem a qual nada disso seria tão mágico: uma luz especial só minha, que vem dentro de uma caixa, e me lembra as luzes de ver selos e de fazer jóias, mas também as dos palcos e dos camarins, as luzes de brincar.

Sobre esse desenho em preto e branco: de início, achei que seria mais uma silhueta feita rapidamente na minha viagem diária do metrô, como as que fiz para o Prosa. O primeiro traço foi feito diretamente no papel (no mesmo caderninho comum que está morando na minha bolsa) com uma caneta de nanquim permanente Uni-pin, espessura 0,1 milímetro (caneta de origem japonesa, mas facilmente encontrável em qualquer boa papelaria no Rio de Janeiro). No mesmo dia à noite, resolvi cobrir parte do desenho com nanquim preto (não, nem todos os nanquins são pretos!). O rosto da moça tinha detalhes tão pequenos que eu deveria ter uma lente especial para isso (um dos instrumentos mágicos que me faltam!). Mesmo assim, não desisti. Usei três pincéis de espessuras 12, 7 e 4, sendo o mais delicado deles um Winsor & Newton Series 7, comprado pela minha mãe em Nova York (são caros, uns 40 dólares), e cujo valor aprendi a reconhecer quando fiz um curso de introdução à aquarela na ilustração botânica. Não persisti nesse tipo de técnica, mas toda as vezes que desenho algo assim detalhado e preciso, especialmente um rosto — onde um erro de um milímetro vale por um quilômetro (disse um grande artista) — sinto-me novamente brincando no colo do meu avô, olhando o mundo como se fosse eu a colecionadora de selos.


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Lagartas azuis

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Hoje peguei um pacote perdido de biscoito creme-craquer-com-gergelim no armário. Na dúvida, dei uma olhada no prazo de validade, pra meados de 2014 (ainda estou conseguindo ler esse tipo de informação, ainda que por cima, ou por baixo, dos óculos, oh idade). Abri o pacote e, bem naquele instantinho antes da primeira mordida, lá estavam elas: lagartinhas se movimentando pra todo lado. Não fiquem com nojo, ainda.

Nojo foi quando comi várias, que fizeram o favor de vir acompanhando umas ameixas caríssimas que comprei no Zona Sul quando estava grávida da Alice. Eu toda me achando, comprando ameixa importada. E toca a ligar para médico, clínico geral, gastro, obstetra, até pediatra… — “doutor, tô grávida, comi umas lagartas nojentas!! e agora?” E todos muito blasés, uns mais íntimos até rindo e parecendo o meu padrasto nos seus dias de humor negro: “Que nada, é proteína!! Vai até fazer bem pro bebê.”

Mas fiquei tão enfurecida que fui pra delegacia dar queixa… O pobre do gerente já tava até demitido quando chegou o dia da audiência de pequenas causas e a coisa não deu nada em nada. Ou melhor, deu que as lagartas do Zona Sul continuam felizes comendo suas ameixas e biscoitos, e a gente que deixe de frescura.
E por que escrevo sobre isso?? É que as lagartas no biscoito me lembraram dos meus dias de fúria e de tristeza… e de como essa coisa de desenhar e escrever e outros talentos que a pessoa tenha são nossas tábuas de salvação…
É por isso gosto tanto dos textos do Arthur, dos dias de chuva, dos contos que meu amigo Mauro deveria estar escrevendo, e do Mário e do Ruy Castro e de todos os doidos que eles biografam, enfim, dessa gente que cheira, chora, bebe, se mata e no meio disso tudo cria coisas. (Mas tão aí a Lygia Bojunga e a Sylvia Orthof provando que podem ser maneiras de um jeito um pouco menos auto-destrutivo.)
Então já vou desescrevendo o post da semana passada. Nada de blog bem-humorado p* nenhuma. Senso de humor, ok. Mas bom humor o tempo todo não dá. Hoje estou mais para Familia Addams… A cena da Wandinha acabando com o acampamento wasp vale mil filmes da Disney.
Vejam que esse blog não tem coerência alguma. Começou todo amarelo e animado. Depois ficou vermelho. E agora chegou na cor num azul bem fundo… que é de piscina e felicidade, mas também é dos olhos e da alma cheia d’água… que é como a gente fica quando pensa nos desencontros, nos malditos que morreram cedo demais, nos malucos que resolveram pirar em vez de deprimir um pouco menos, na pobreza no Maranhão e na Etiópia (que ainda por cima agora eu conheço pelos desenhos do Manoel João Ramos, outro que sofreu perdas demais para uma vida só, e fez alguns dos livros mais lindos da antropologia atual.)
Afinal, esse blog é sobre o que? Sobre mim é que não é. Que não sou novaiorquina nem nada para querer um blog “about me, by me, myself” (título, aliás, de um livro maravilhoso do Dr. Seuss que não vou linkar aqui porque pretendo escrever sobre ele em breve).

Fico devendo a resposta num próximo post. Vou tentar trazer alguma coisa útil. Utilidade é fundamental.

Pensando bem, aqui vai a primeira coisa útil que publico: “não comam nada comprado no supermercado Zona Sul antes de dar uma boa olhada para ver se as lagartinhas chegaram primeiro!”

E para não dizer que sou caótica: os posts principais saem em algum horário às quartas-feiras. (Porque a quarta é o melhor dia da semana: nem tão segunda para dar cansaço, nem tão sexta para nos trazer aquela obrigação de se divertir.)
(E se alguém tiver ideia de dia melhor, me avise. E se alguém tiver saudade de ler alguma bobagem, fique de olho no histórico, pois vou postar coisas antigas em datas antigas e ir acrescentando algumas páginas fixas, como a “Do blog e de mim“.)
Sobre o desenho azul:  No meio da piscina, minha filha e seus dois amiguinhos em momento de felicidade extrema. Fiz o desenho no sábado (16/11/2013) em um caderninho simples, com uma caneta preta Pilot bem comum. Depois pintei em casa com aquarela cor Ultramarin e, quando a tinta secou, desenhei por cima com caneta Posca branca. Para a versão digital, tive que acrescentar um pouco de saturação com o Picasa, pois o scanner sempre estraga os azuis. (Fiquei mais conformada com isso depois que li em vários blogs de artistas-de-verdade que eles enfrentam o mesmo problema. E tive aquela sensação que, afinal, todos precisamos ter quando estamos nos sentido azuis por dentro: “Ufa, não sou só eu.”)


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A Bolsa Amarela

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“Minha semana de castigo foi ótima: escrevi à vontade – tudo que passava na minha cabeça, e tudo que acontecia na bolsa amarela.”

(Raquel, aos dez anos, heroína de “A Bolsa Amarela”, livro de Lygia Bojunga Nunes, publicado pela editora Agir em 1976, com ilustrações de Marie Louise Nery. Hoje o livro é editado pela Casa Lygia Bojunga.)

Quando eu era pequena, queria me chamar Karina Herrmann Kuschnir. Herrmann é o nome de família da minha mãe; a mesma mãe que quis me registrar só Karina Kuschnir porque “tinha trauma de nome grande”. Não acredito muito… acho que era coisa de querer agradar o meu pai.

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Lembrei dessa história porque só outro dia (2/11/2013) tive coragem de reler A Bolsa Amarela. E lá estava na guarda do livro: Karina H. Kuschnir, escrito com minha letra provavelmente aos nove ou dez anos. Era preciso “coragem” porque eu não queria perder a magia de pensar na Bolsa Amarela como o livro-que-marcou-a-minha-vida de criança.

Reli cada palavra e a sensação foi de pleno reencontro, com o livro e comigo mesma. Tudo estava no lugar. A Raquel e eu tendo as mesmas vontades, sofrendo com o peso do mundo, escrevendo cartas para amigos imaginários, inventando histórias, desejando ter nascido diferente. A história começa assim:

“Eu tenho que achar um lugar pra esconder as minhas vontades. Não digo vontade magra, pequenininha, que nem tomar sorvete a toda hora, dar sumiço da aula de matemática, comprar um sapato novo que não aguento mais ver o meu.  Vontade assim todo o mundo pode ver, não tô ligando a mínima. Mas as outras – as três que de repente vão crescendo e engordando toda a vida – ah, essas eu não quero mais mostrar. De jeito nenhum. Não sei qual das três me enrola mais. Às vezes acho que é a vontade de crescer de uma vez e deixar de ser criança. Outra hora acho que é a vontade de ter nascido garoto em vez de menina. Mas hoje tô achando que é a vontade de escrever.”

Vontade de crescer, de ser menino, de escrever. Na minha bolsa amarela, ainda tinha a vontade de desenhar, que não pesava muito, porque todo mundo acha normal criança ter esse tipo de vontade – só passou a ficar esquisita quando fui crescendo.gatinho

“O mundo dão voltas”, diz o meu namorado, fazendo graça ou citando a avó do Ed Motta, não sei bem. Trinta e seis anos depois, resolvi dar uma voltinha com A Bolsa Amarela, pensando no óbvio: “a vida é curta”. Tá na hora de ser mais inteira, mais em paz comigo mesma, de ter uma bolsa mais leve. Alguma coisa me dizia que a Raquel podia me ajudar. Ela conta que vontade não realizada fica gorda, pesada e dá uma vergonha danada na pessoa.

A mágica da Lygia Bojunga é nunca ter medo de levar essas perguntas a sério. As personagens dela – crianças, bichos, coisas e até adultos, às vezes – estão o tempo todo pensando, pensando, pensando pra valer. Sozinhas ou com os amigos, nascem com sede de se interrogar sobre o mundo, sobre si, sobre os outros, sempre. (Num contexto de ditadura militar, como o do Brasil da época, lutar por liberdade de pensamento não era fácil. Hoje, mesmo com inimigos menos óbvios, nem por isso a causa está ganha, vide tudo-o-que-está-acontecendo.) raquelgalo

Como muitas heroínas, a Raquel já nasce com um poder especial: ela sabe das suas vontades.  Isso não é pouco. A maioria de nós tem uma lista imensa de vontades na bolsa, e tem uma dificuldade enorme de escolher as que realmente importam. É difícil separar aquelas que tem a ver com os problemas graves do mundo – ai, um pouco menos de desigualdade por favor – e as que tem a ver com os problemas do nosso cotidiano – ai, um pouco mais de dinheiro no meu salário – daquelas que dizem respeito à nossa existência humana: “Quem eu sou? Por que viver? Para onde vou?”  

Crescer, ser menino, escrever: como a Raquel se entende com essas vontades? A paz com as duas primeiras chega aos poucos, conforme ela vai vendo que criança pode ser levada a sério, que menina pode gostar de jogar bola sem precisar deixar-de-ser-menina, que casa de família não precisa ter chefe mandando criança ficar quieta, que ser bonitinha não é objetivo de vida, que desamarrar pensamento é difícil, mas possível.

Ao vê-la soltar as vontades de crescer e de ser menino na praia, feito papel de pipa, bem fino e levinho, seu amigo Galo pergunta: “– E a tua vontade de escrever?” Ela diz: “–  Ah, essa eu não vou soltar. Mas sabe? Ela não pesa mais nada: agora eu escrevo tudo que eu quero, ela não tem tempo de engordar”.

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Sobre as ilustrações deste post: o livro foi desenhado por mim num caderno comum, com caneta de nanquim permanente 0.2, e depois colorido com lápis de cor. As demais ilustrações são cópias feitas à mão dos desenhos de Marie Louise Nery, com ajuda da app Adobe Ideas, no Ipad, com uma caneta eletrônica Bamboo.