Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Março/2025 e os desafios da escrita

“A vida ainda era vivível. Bastava esquecer, tomar essa decisão com determinação, brutalmente. A escolha era simples: a escrita ou a vida. Teria eu a coragem (…)?” (Jorge Semprún, A escrita ou a vida)

Pessoas queridas, calendário atrasadíssimo mas feito! Perdi meus óculos e fiquei sem condições de trabalhar no computador. Mas foi por uma ótima causa: fiz uma pequena viagem à serra, imersa no verde, em banhos de rio e até chuva! Foi mágico! E vocês? Blocaram, descansaram ou ficaram presos na escrita da tese?

Recebam meu abraço apertado e votos de força e paciência aos que estão com os prazos de 31 de março nos calcanhares. Tá acabando, vai passar. E abraço também aos que têm outros prazos pela frente.

Escrever durante um período como o Carnaval é renunciar à viver, sejam as delícias da gandaia ou do ócio. Não é fácil. Precisamos nos entregar ao texto, enquanto o mundo continua a girar lá fora. E haja paciência para lidar com o tempo da criação, com seus ritmos, pausas e acelerações fora do nosso controle. E haja disciplina para aplacar a ansiedade pelas cobranças internas e externas, junto à sensação de que não somos suficientes.

Passei por tudo isso nos primeiros 15 dias de fevereiro. Tive um artigo para entregar e foi desafiador demais. Tentei seguir planos, rotinas, pomodoros, mas passei pelos clássicos: evitação, lentidão, empacamento, inspiração, descrédito, para-que-serve-isso-tudo, e aquele final de horas seguidas sobrecarregadas de cafeína para finalizar.

Ufa. Por que precisa ser assim?

Sobre a dúvida de Semprún, sigo acreditando: coragem é optar pela escrita e pela vida, no pêndulo de difícil equilíbrio, mas de permanente tentativa. No dia 15 de fevereiro, o artigo foi enviado, o prazo foi cumprido. E a sensação no dia seguinte é indescritível. O alívio, a leveza, o desejo de sol e ar, vem tudo junto, como uma mini-primavera pessoal florescendo.

Aprendi sofrendo (muito) no mestrado: terminem primeiro, pensem depois.

Porque “depois” os pensamentos irão embora e sobrará só uma doçura de ter feito.

Pelo menos até que cheguem os pareceres! Hahaha Depois conto como foi.

Sobre o calendário: aqui vai o PDF em alta resolução para imprimir. Não esqueçam de configurar para “ajustar à área de impressão”. Apesar da corzinha desmaiada na tela, na minha impressora (Epson L386) a cor ficou simpática. Espero que gostem!

Sobre a citação: SEMPRÚN, Jorge. A escrita ou a vida. Tradução de Rosa Freire d’Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. A citação está na página 193 da versão eletrônica.

Sobre os desenhos: Para o calendário, aproveitei o de fevereiro e acrescentei camadas transparentes de verde no aplicativo Procreate (Ipad). Dessa vez, refiz os números dos dias em cor preta pois achei o branco difícil de ler no dia a dia. Para os demais desenhos: canetinha Pigma Micron 0.3 e lápis de cor, em caderno Tilibra A5, linha Happy. Datas com carimbo Colop, mini-dater s120.

Um ótimo março para nós.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2025. “Março/2025 e os desafios da escrita”, Publicado em karinakuschnir.com, url: https://wp.me/p42zgF-47O. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Aniversário de 11 anos do blog! – meus posts preferidos

No dia 6/11/2013 nascia este blog e esta blogueira! Festejo o aniversário com vocês, honrando a quarta-feira, que era o dia de postar antigamente. Trago uma seleção de 11 posts preferidos, um para cada ano de vida, escolhendo alguns da tag Vida Acadêmica também.

2013 Irmãos e irmãs de Shakespeare – “A maior de todas as libertações é a liberdade de pensar nas coisas em si” (Virginia Woolf, 1928) – Sobre a obra Um teto todo seu de V. Woolf e os passageiros do metrô (abaixo).

2014 300 dias – Listinha bem-humorada dos aprendizados com a obra e as três mudanças de apartamento do ano. Escolhi mais pelo desenho da nossa sala, que tem uma gostosidade (palavra da Alice) que gostaria de retomar. Meus preferidos da vida acadêmica são Dez lições da vida acadêmica e o Não passei.

2015 As cores de cada dia – Post sobre nosso jogo do Pior e do Melhor do dia. Mas pela ilustração escolho As quinze vidas de Margaret Mee e Vida, modo de usar — Doze lições de Oliver Sacks. E nesse ano teve também os queridinhos Dez truques da escrita num livro só e Defesa de doutorado: dez dicas para sobreviver (e aproveitar).

2016 Poesia potente – “Sinto que se conseguir escrever agora o que se passa comigo estarei salvo, repito isso a mim mesmo algumas vezes, como repito mentalmente o refrão de que onde há obra não há loucura e onde há loucura não há obra e venho escrever.” (Carlito Azevedo, Monodrama). Nesse ano há posts que me marcaram muito como o Brincando de pesquisar, primeira aula lúdica e o da imagem abaixo que ilustra o Mente selvagem: dicas de escrita de Natalie Goldberg.

2017 – Doze dicas de cursos de desenho e aquarela que já fiz (presenciais e online) – Sem dúvida um dos posts que expressa a vida de artista até aquele momento e para o qual sempre volto em busca de inspiração. Já me prometi fazer uma atualização e vou! Gostei demais de escrever os Lições de escrita com Agatha Christie (Parte 1) e Parte 2 e o Sete coisas invisíveis na vida de uma professora

2018 Caderninho bom, bonito e barato sobre a Papelaria Botafogo que hoje é uma referência para toda a comunidade artística do Rio de Janeiro. Muitos posts emocionantes em 2018, esse ano terrível de tantas perdas, como o assassinato de Marielle e o incêndio do Museu Nacional. Na vida acadêmica, o mais marcante foi Desistindo de (quase) tudo, 14 dias para terminar um texto de 12 páginas (ou 5000 palavras), Não Passei (2) – Janeiro foi fork! e as Dicas para terminar tcc etc 1 e 2.

2019 Lola (2009-2019) sobre a vida da nossa gatinha Lola. Da vida acadêmica, Férias de professora, que é onde está também a ilustração mais difícil e a que mais gostei de fazer.

2020 Medo do medo do medo (e um pouco de coragem) – sobre os muitos medos de criança e da vida acadêmica (um post que esqueci de colocar na página da vida acadêmica, inclusive).

2021 Montanha russa emocional – Ano de pouquíssimos posts, em que fiquei doente emocional e fisicamente, bem simbólico do período da pandemia, respirando como a garotinha do desenho abaixo.

2022 De mim, recap e Quinze dicas para ajudar a ler textos acadêmicos (ou não) – Nesse ano em que perdi o amor da minha vida, esses posts me lembraram de como eu era antes da perda e, depois, de como o prazer pela leitura me salvou.

2023 Você não está sozinha e Uma doce sensação de abrigo – Posts que me lembram a alegria de reconstruir minha vida aos poucos, focando bastante na pintura também. Dos acadêmicos, fico feliz de ter escrito Laboratório de escrita – Fã ou Hater – Ideia para aula lúdica (6 – Parte 1) e Parte 2; e sobre os aplicativos de leitura em: Seis dicas para ouvir e transcrever textos falados — ou como depender menos dos olhos na vida acadêmica

2024 Arrumar gavetas, escrever textos – 2 truques para driblar a procrastinação criativa – meu preferido entre os poucos posts até o momento.

Como disseram vários poetas, não há vilão que impeça a primavera de retornar. Em 2018, num dia de ressaca eleitoral, como hoje, citei de fonte desconhecida: “Em dias nublados, os girassóis se viram uns para os outros, buscando energia. Mesmo quando não há luz, se fortalecem por estarem juntos.” É isso, vida só faz sentido quando temos vínculos, afetos, cooperação, compartilhamento e esperança.

Obrigada pela companhia nesses 11 anos, pessoas queridas!

Seguimos! ♥

Sobre os desenhos: todos os desenhos e aquarelas deste post estão nos links indicados (não há imagens inéditas).

Coisas: Para os posts não ficarem muito grandes decidi alternar entre posts com textos mais longos e posts só com 5 ou 7 “coisas impossivelmente legais” (indicações de leituras, links, artes etc.). A inspiração de dividir vem do podcast É nóia minha, da Camila Fremder, que tem uma edição curtinha e outra longa toda semana. Amo as curtinhas.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2024. “Aniversário de 11 anos do blog! – meus posts preferidos“, Publicado em karinakuschnir.com, url: https://wp.me/p42zgF-44T. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Devagar com as I.A.s – dicas de como utilizei Chat-GPT para escrever esse post

Meu Instagram entrou para a era da inteligência artificial! Não, ele não está me mostrando os melhores posts, nem aprimorando minha vida, muito menos me trazendo a sensação de que aproveitei o tempo. O algoritmo resolveu me soterrar com anúncios sobre ferramentas de I.A.

Minha primeira reação foi de “fomo” (fear of missing out; ou medo de estar perdendo a moda do momento). Quantos apps, quantas soluções, quantos resultados! Depois de salvar uns 20 posts e anúncios — que nunca mais vou ver, claro, pois a gente salva para ter a sensação de que “guardou” a informação — me deu um estalo. Essa tsunami de I.A.s é só uma repaginação para a) propagandas de antigamente: fume Malboro e conquiste o mundo; b) anúncios do final do século 20: compre esse carro e seja livre; c) mensagens multimídias pulverizadas de hoje: faça como eu e seja feliz.

Socorro, é tudo pegadinha do capitalismo! Minha experiência na Comunicação grita nessas horas. Li o clássico Para ler o Pato Donald desde a graduação e reli umas mil vezes para dar aula. Essa obra prima de Ariel Dorfman (argentino-chileno) e Armand Mattelart (belga) é uma lente que nos ensina a perceber como a indústria cultural estadunidense nos seduz e diverte ao mesmo tempo que propaga subrepticiamente a ideologia capitalista.

O que isso tem a ver com a tsunami de aplicativos de I.A. na vida acadêmica (meu “nicho”)? Os anúncios e posts tentam nos convencer de que é possível ler um livro de 500 páginas em 15 minutos, escrever uma revisão bibliográfica em 1 semana, formular um “excelente” artigo em 30 dias e produzir uma tese acadêmica defensável em 6 meses.

Sinto ser a mensageira do “não”… Nenhum desses anúncios cumprirá o que promete. Se você leva a vida acadêmica a sério, sabe que não há “fast-conhecimento”.

Um resumo, por mais bem feito que seja (e muitos não são), não substitui a leitura de um livro. Uma compilação de artigos não é uma revisão de um tema de pesquisa e um coach de escrita competente não produz reflexão original numa área.

Esses recursos podem te ajudar na vida acadêmica? Poder, podem. Mas a que preço? Quantas horas você vai gastar vendo dicas e propagandas até entender qual I.A. é melhor e para qual finalidade? Quanta energia negativa virá de um aplicativo que te disser que existem 1763 artigos na sua temática que você precisa mapear, classificar e decidir se são úteis? Quantas horas de sono e ansiedade você vai passar pensando se o que você está fazendo é plágio, está correto ou é válido de fato para sua produção intelectual?

O que compõe a receita básica do fazer acadêmico: boa noite de sono; alimentação saúdável; bolsas com valores decentes; bons professores e orientadores; colegas e grupos de pesquisa acolhedores; equipamento básico para escrita e/ou pesquisa. Imagina ter isso tudo garantido? Seria 85% do caminho, concordam? Deixamos então uns 15% para inovação, quem sabe um software novo (I.A.s incluídas), um amor, uma descoberta do destino…

Ah, Karina, você não está entendendo: as I.A.s são *revolucionárias*. Serão, pessoal. Acredito que serão. Mas ainda não são. Por enquanto, são ferramentas úteis e até divertidas. Inclusive, tenho testado bastante. Mas isso é assunto para um próximo post, prometo! Abaixo adianto os prompts que utilizei enquanto estava escrevendo esse post e as I.A.s que tenho testado.

Prompts que utilizei para apoiar a escrita deste post no Chat-GPT (versão gratuita)

. Título: “Você poderia me ajudar pensando em ideias de título para esse post, levando em conta um tom bem-humorado? (E junto colei o post já escrito.) → Não gostei de nenhuma das sugestões dele. Pedi mais algumas e continuei não gostando. As I.A.s tendem a trabalhar no registro “vendas” e “cliques-a-qualquer-preço”. Avaliação: ruim.

. Revisão 1: “Teria alguma frase para revisar no texto do post?” → Ele apontou 3 frases e deu 4 sugestões de trocas de palavras. Aceitei apenas 1: “nova roupagem” por “repaginação”. Não costumo pedir revisão geral porque gosto de saber exatamente o que e como ele optaria por revisar. Avaliação: ruim.

. Revisão 2: “Algum erro de digitação ou concordância?” → Ele apontou 4 correções: instagram em minúscula; cortar um “todos” desnecessário; trocar um “perder” por “gastar” [tempo] e compõe no plural. Avaliação: Ótimo em todas.

. Elogio-Destaque: “Qual a frase que você mais gostou ou considerou a mais bem escrita do texto?” → Inventei hoje esse prompt e ele destacou e comentou os aspectos positivos da frase que acabei colocando em negrito no post. Gostei de ter um feedback antes mesmo de publicar e acho que vou adotar esse prompt sempre. Avaliação: Ótimo, surpreendeu.

. Lista: “Você poderia listar aqui apenas os prompts que utilizei nesta conversa sobre o post de hoje?” → Ele listou os prompts acima, mas sem os subtítulos e juntou um agradecimento que não era um prompt. Avaliação: Regular.

Resumindo: o GPT foi útil, mas notem que nenhum dos resultados acima foi “revolucionário”. Continuarei testando e trazendo resultados para vocês. Atualmente estou avaliando: Chat-GPT, NotebookLM, ChatPDF, Scite_, Mapify.co, Connected Papers, Scispace, Docanalyzer.ai, além do Natural Reader e do Transkriptor que já uso desde 2023, como explico nesse post. Lá no “Abraço Acadêmico” temos conversado sobre o tema (Telegram, só clicar aqui.)

Sigamos, com moderação! Me contem o que tem dado certo para vocês. Bom final de semana! ♥

4 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana

♥ No momento não estou vendo nenhuma série, mas indico Hacks, sobre uma comediante e sua redatora. Excelentes atrizes e diálogos. Foram três temporadas. Pena que acabou.

♥ Uma leitura muito boa foi o artigo da antropóloga e cartunista Rachel Paterman (também conhecida como @desorientanda). Uma delícia de capítulo sobre sua trajetória cada vez mais indissociada de desenhista e pesquisadora (hoje na Fiocruz).

♥ Falando em desenho, continuo firme no #academinktober, com um desenho por dia sobre a vida acadêmica. O mais curtido da semana foi o da palavra “tóxico”. Tá no Instagram.

♥ Os 5 desenhos que abrem esse post foram feitos para colocar nas tampas dos potes onde guardo as sementes, aveia e passas. Os potes são de um doce de leite diet maravilhoso da marca Flormel que descobri nas Casas Pedro (RJ).

Sobre os desenhos: desenho de observação das comidinhas feito com canetinha Pigma Micron 0.05 ; cores feitas com lápis de cor Caran D’Ache e canetinhas Pigma Micron coloridas. Foram feitos no verso de uma folha do bloco A4 XL Aquarelle Canson (capa turquesa).

Você acabou de ler “Devagar com as I.A.s – dicas de como utilizei Chat-GPT para escrever esse post“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 

Como citar: Kuschnir, Karina. 2024. “Devagar com as I.A.s – dicas de como utilizei Chat-GPT para escrever esse post“, Publicado em karinakuschnir.com, url: https://wp.me/p42zgF-44z. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Arrumar gavetas, escrever textos – 2 truques para driblar a procrastinação criativa

Vocês já tiveram vontade de arrumar uma gaveta mas desistiram porque, antes mesmo de começar, perceberam que não iam conseguir arrumar o armário inteiro? Acontece demais comigo! E não só com arrumação: desisto de ler uma parte porque o certo era ler o livro todo, deixo de fazer 20 minutos de academia porque a série dura 45 minutos, desisto de comprar só uma coisinha no mercado porque não verifiquei a lista de tudo que está faltando… E até de fazer mini post nesse blog porque o correto seria encarar a lista de posts sérios a serem escritos — mas isso exigiria a coragem e a energia que ainda não estou tendo.

Hoje mais cedo cheguei a começar a trabalhar em dois posts já iniciados mas percebi que não teria forças para terminá-los.

Fiquei pensando… qual é a dificuldade? Não é falta de concentração nem de vontade teórica. Meu corpo e minha mente estão muito acostumados a se concentrar e a trabalhar no computador depois de 34 anos de experiência. Também não é falta de ideias ou temas. Entendi que estou sem grandes estoques da energia específica que a escrita criativa necessita.

E que tipo de energia é essa? É aquela vontade de acolher as próprias ideias e a pulsão prazerosa de compartilhá-las com os leitores. É um equilíbrio tênue entre alegria da descoberta solitária (o momento da escrita em si) e o compartilhamento corajoso do olha-que-legal-eu-descobri (o momento de entregar sua escrita ao mundo).

Talvez muitos sofrimentos e procrastinações com os TCCs, dissertações, teses e escritas acadêmicas em geral venham desse entre-lugar, né? Estar aqui-e-aí-com-vocês ao mesmo tempo. Né fácil não, pessoas! Talvez fique um pouquinho menos difícil se a gente entender o que está acontecendo. Dois truques para ultrapassar esse obstáculo que (às vezes) funcionam para mim:

• Para o drama “eu e minhas ideias”: primeiro escrevo, depois questiono. Geralmente, depois de escrever, o questionamento diminui bastante! E você sai do outro lado já-tendo-escrito!

• Para o drama “minhas ideias e os leitores críticos”: penso só nos leitores que me apoiam, meus filhos, minha mãe e amigos. E sigo em frente, aproveitando as críticas construtivas para discordar, ajustar o que for possível ou aproveitar para um próximo texto.

Claro que isso tudo é bem mais fácil de escrever do que fazer. Mas… vejam só: se vocês estão lendo esse post é porque os truques funcionaram, hahaha. Esse micro-macro problema não se resolve com um post só. Mas o blog inteiro tá aqui para isso. Lembram da gavetinha bagunçada do armário? É isso. Arrumar uma só gaveta faz diferença sim. Não pensem no armário inteiro.

Finalmente, para citar um lema de vida, que o Antônio me ensinou para aqueles momentos em que sua roupa está furadinha, seu texto não tem muita fluência e sua aula foi um pouco capenga: “ninguém liga!”

Boas escritas e bom final de semana! #tamojunto ♥

5 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:

♥ Participar da festa de desenhos do mês de outubro com as queridas Rachel Paterman, Melina Vaz e Patricia Matos está sendo a melhor coisa do mês. Acompanhem lá pelo meu Instagram e pela #academinktober.

♥ A experiência mais linda de desenho foi rascunhar para a palavra “reciprocidade” já exausta e, na versão final, a nanquim, ver que a imagem pareceu demais comigo e com o Juva — não foi planejado!

♥ Vi que vocês gostaram da indicação de série da semana passada, então hoje indico Only murders in the building, da Disney/Star+. Eu e Alice amamos. São 4 temporadas curtas e recomendamos ver aos poucos. O elenco é incrível, assim como a direção de arte, a música, a montagem e o roteiro. (Mesmo que eu quisesse, Alice não gosta de maratonar, nem ver dois episódios de uma vez, por mais empolgante que seja o final. Não sei onde ela aprendeu isso! Eu sou daquelas que vira a noite quando empolga.)

♥ De ficção, recomendo Oliver Kitteridge, de Elizabeth Strout. Em breve virá o terceiro volume para o Brasil e vocês vão me agradecer ter começado. Mas só recomendo para maiores de 50 anos, em idade biológica ou emocional. 😉

♥ Descobri que vão lançar um novo emoji com olheiras em 2025! Quem se identifica? É fofinho demais. Trouxe a imagem para compartilhar com vocês.

Sobre o desenho: Desenho de observação de uma estojo de lápis de cor antigo feito no caderninho Laloran. Linhas com canetinha Pigma Micron 0.05 ; cores feitas com aquarelas, lápis de cor, um pouco de guache e canetinha de gel branca Sakura Gelly Roll. Eu ia aproveitar esse desenho para um post sobre lápis-de-cor na seção de materiais do blog, mas percebi que a imagem não mostra direito os lápis e nem foi feita com eles! Então veio para cá de ilustração aleatória mesmo. Pensando melhor, agora percebo que esse estojo, com uma parte de plástico transparente, é uma boa metáfora para os processos descritos no post. Afinal, quando a gente começa a escrever, só tem uma vaga ideia do que vai sair, como quem espia esses lápis-de-cor pelo visor da embalagem. Só escrevendo — ou só experimentando os lápis do estojo — que vamos descobrir o que somos capazes de dizer, fazer, desenhar.

Você acabou de ler “Arrumar gavetas, escrever textos – 2 truques para driblar a procrastinação criativa“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 

Como citar: Kuschnir, Karina. 2024. “Arrumar gavetas, escrever textos – 2 truques para driblar a procrastinação criativa“, Publicado em karinakuschnir.com, url: https://wp.me/p42zgF-446. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Uma doce sensação de abrigo em 2024

Pessoas queridas, pensei que estava só com paciência e prática, mas lembrei que estou apaixonada pela George Eliot. Em sua escrita, tudo é sério e irônico — tudo é “brincadeira e verdade”, como na música do Caetano. É um deslumbramento.

No seu livro mais autobiográfico, O moinho à beira do rio Floss, Eliot nos conta a história de Maggie Tulliver, uma menina de “oito ou nove anos, bem-educada e bem instruída” que tinha frequentado “só um ano num colégio …e tinha tão poucos livros que às vezes lia o dicionário. Se déssemos uma volta pelo seu cérebro, encontraríamos lá a mais inesperada ignorância.” (p. 121) Será?

Logo que a conhecemos, Maggie se esconde com uma tesoura para cortar os próprios cabelos, cansada das críticas da família e de ser menina. Tempos depois, foge de casa para ser livre e viver com os ciganos. É comovente acompanhar como descobre a pobreza e seu despreparo diante do mundo.

Encanta-se com Philip, um jovem que sabia contar histórias, muito tímido devido à corcunda de nascença. Adorava-o, até porque:

“Maggie tinha uma certa ternura pelas coisas deformadas; preferia sempre as ovelhas de pescoço torto, porque lhe parecia que as que eram fortes e bem constituídas não apreciavam tanto os carinhos, e ela gostava de fazer festas a quem as apreciasse.” (p. 192)

Quando Maggie se apaixona pelos livros que finalmente tem às mãos, reflete:

“Nos livros havia sempre pessoas amáveis e ternas, e que gostavam imenso de agradar uns aos outros. O mundo fora dos livros não era um mundo feliz; parecia ser um mundo onde as pessoas se portavam o melhor possível com as pessoas que não amavam e que lhes não pertenciam.” (p. 256)

De todos, ouve que tem de “ter paciência”. Exercita essa habilidade, censura-se tanto que experimenta a paz no “quietismo” que a tudo renuncia. Até que a vida lhe chama e seu coração é fulminado por um amor impossível. Diante da necessária separação, Maggie (e Eliot) dizem:

“Não posso esquecer tudo e começar outra vida. Devo voltar para trás, muito embora eu sinta que, sob os meus pés, já não existe nada de sólido.” (p. 525)

Como Eliot já havia nos preparado, Maggie desejava o que, de certo modo, todos nós também queremos:

“…era uma criatura cheia de anseios apaixonados e entusiastas por tudo o que era belo e alegre; sedenta de todos os conhecimentos, (…) com um inconsciente desejo de qualquer coisa que (…) desse à sua alma uma sensação de abrigo.” (p. 257, no original,   “a  sense  of  home)

É isso, queridos leitores. Que 2024 traga a todos nós paixão, paciência e prática, mas sobretudo o acolhimento da casa, com sua doce “sensação de abrigo”! ♥

A imagem que abre este post está em alta resolução e segue aqui um pdf para download que vocês podem baixar para imprimir. Vai com carinho especial para todos que estão enfrentando as festas em meio aos prazos de TCC, dissertações, teses e outras pressões acadêmicas ou não.

Sobre o desenho: Grafia e cores inspiradas na arte de Tom Gauld. O lema dos três Ps inventei há uns anos inspirada em uma aula online que fiz com o artista indiano-canadense Prashant Miranda. Ele mencionou perseverança ao invés de paciência, mas esta é para mim a maior das virtudes. Tecnicamente, utilizei os materiais de sempre: canetinhas Pigma Micron 0.1 ou 0.05, aquarelas e papel Canson. Se quiserem, tem a versão abaixo dos três Ps para baixar aqui.

Sobre as citações: Li a versão portuguesa de O moinho à beira do rio Floss, de George Eliot (trad. de Fernando de Macedo, ed. Mimética). A versão original está disponível gratuitamente no Internet Archive, mas não me sinto confiante para ler ficcção em inglês. Trago aqui as duas citações finais no original pois são tão lindas:

Trecho orginal sobre a sensação de abrigo: ”Maggie  in  her  brown  frock,  with  her  eyes  reddened  and  her heavy  hair  pushed  back,  looking  from  the  bed  where  her father  lay,  to  the  dull  walls  of  this  sad  chamber  which  was the  oentre  of  her  world,  was  a  creature  full  of  eager,  passionate longings  for  all  that  was  beautiful  and  glad  ;  thirsty  for  all knowledge ;  with  an  ear  straining  after  dreamy  music  that died  away  and  would  not  come  near  to  her ;  with  a  blind,  unconscious yearning  for  something  that  would  link  together  the wonderful  impressions  of  this  mysterious  life,  and  give  her soul  a  sense  of  home  in  it. “

Trecho orginal sobre não ter nada de sólido sob os pés: “No  wonder,  when  there  is  this  contrast  between  the  outward and  the  inward,  that  painful  collisions  come  of  it. I  can’t  set  out  on  a  fresh  life,  and  forget  that :  I  must  go  back to  it,  and  cling  to  it,  else  I  shall  feel  as  if  there  were  nothing firm  beneath  my  feet.” 

Sobre a música do Caetano: Refiro-me ao verso “É tudo só brincadeira e verdade” da canção “Tá combinado”. Aqui a letra e o canto na versão de Betânia.

Você acabou de ler “Uma doce sensação de abrigo em 2024“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 

Como citar: Kuschnir, Karina. 2023. “Uma doce sensação de abrigo em 2024“, Publicado em karinakuschnir.com, url: https://wp.me/p42zgF-42x. Acesso em [dd/mm/aaaa].

Amo receber comentários e mensagens, mas nem sempre consigo responder com o carinho que vocês merecem. Querendo continuar a conversa, me chamem no chat do Instagram! Obrigada por estarem aqui.♥.


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Respirar, escrever, pontuar. E feliz dez anos do blog!

Já nas alturas, pára e respira. Quão difícil é subir a um monte. Que difícil é a busca de um espaço. Que difícil é a busca de si própria. Chamou a si todas as forças e continuou a subir.” (Paulina Chiziane, O alegre canto da perdiz, p. 211)

A maior dificuldade de escrita dos estudantes é com a pontuação. Não sei se sempre foi assim. Será que é mais um dos sintomas de pandemia prolongada. O ar nos faltou tanto que temos dificuldade de parar para respirar de novo.

Vou dar um exemplo. Pedi para os alunos descreverem acontecimentos do seu cotidiano. No trecho abaixo, demonstro os sinais da enfermidade (com redação fictícia):

“A consulta médica foi como esperado, conversamos sobre os sintomas e houve uma espera menor do que da outra vez e aí minha mãe chegou após o trabalho, e tivemos que ir ao ponto de ônibus mas não estava tão quente e foi agradável segurar sua mão e sentir seu apoio.”

Dá para entender? Dá. Mas pobres leitores! O problema é que 90% dos estudantes escrevem assim. Não é falta de conteúdo, na minha opinião. É falta de ar, de pausa, de respiração. Também não é pouca leitura. Eles lêem muito, mas lêem correndo, como escrevem. Tudo é com pressa, como os vídeos do Tik Tok.

Não tenho esse aplicativo, mas há uma tiktokização das outras redes sociais: o reels do Instagram, os shorts do YouTube. Eu tinha jurado que nunca veria um “shorts”. E ontem fiquei hipnotizada por uma hora nessa armadilha.

Costumo pesquisar dúvidas no YouTube, conforme aprendi com meus filhos. O microondas aqui de casa está sempre com a hora certa por isso. Agora até o YT responde com mini-vídeos. E depois que você vê o primeiro não consegue mais parar. É como um grande parágrafo sem ponto.

Não adianta chamar um teórico da literatura para dizer que é “fluxo da consciência”, porque você não pensou nada daquilo. O algoritmo pensou por você e te tragou para dentro dele. Aconteceu comigo ontem. Não sei o que fiz entre as 22 e as 23 horas.

Acordei de ressaca, ansiosa por um antídoto. Revi leituras das últimas semanas. E cheguei às palavras de Paulina Chiziane que abrem esse post: que difícil é viver, lutar, cansar, parar e mesmo assim continuar. Sento para escrever. Criar é uma cura.

Respiremos!

Dez anos de blog — Obrigada!

No dia 6/11/2023 foi aniversário de 10 anos deste blog! ♥️ Obrigada por estarem aqui, pela companhia desde 2013, pelas dezenas de conversas e calmaria. Agradeço o carinho! Eu tinha me programado para escrever um post bem especial sobre concursos em comemoração, mas meu gatinho Charlie ficou doente. Ele já está bem. Em breve o post sai. Será uma parceria com a Manó (@itsme_mano) surgida no nosso grupo no Telegram, Abraço acadêmico.

Que nosso sonho de uma vida acadêmica mais cooperativa e solidária continue gerando frutos! Obrigada por tudo 💌

Projeto “Como escrever um texto em 8 meses” (Semana 4/36) — Desde o último post, escrevi zero palavras! Hahaha. Foi produção de feriados, gatinho doente, leituras de romances e sequestro de mini-vídeos. Ah, tenho a desculpa de que Alice fez Enem! Serve? Não, né? Foi ela quem fez as provas. Minha curva de produtividade só não está pior porque eu pensei. Sim, gente, pensar cansa e dá trabalho. Requer respiração e amadurecimento. Consegui decidir o tema do que pretendo escrever. Já contei para vocês que este será o texto da minha promoção para professora titular? Eu estava com receio de me expor. Mas decidi que não faz sentido fazer um diário de escrita sem explicar o que me espera no final do projeto. Ano que vem completo o tempo de docência necessário para concorrer ao cargo na UFRJ. Preciso escrever um memorial e uma conferência. O primeiro não me preocupa (sou uma otimista para textos pessoais). Já a segunda tem que ser algo publicável. Como diria o Juva, tem que ter brios. Vamos a isto.

Sobre a citação de Paulina Chiziane: Trecho da página 211 (versão eletrônica) do romance “O alegre canto da perdiz”, de Paulina Chiziane (edição Caminho, Portugal, 2008). É o segundo livro dessa autora maravilhosa que conheci por indicação da querida Sarah Toledo, do Sarices. O blog dela está em pausa, mas tem posts maravilhosos sobre literatura lá. E a Sarah também é professora de espanhol. Da Paulina Chiziane, li também o Niketche. São excelentes e muito diferentes um do outro. Adorei ambos, mas acho que prefiro o estilo mais realista e engraçado de Niketche.

Sobre o desenho: Caixinha usada de lenços Kleenex feita com canetinha 0.05 (bem gasta) da Pigma Micron. Trouxe a imagem da página inteira (acima) porque esse desenho foi feito em um bloco Canson A5, papel branco 90gr, que não se encontra mais pra comprar. As cores foram feitas com lápis de cor. Adoro desenhar objetos do cotidiano e perceber seus detalhes. Vocês já tinham lido a legenda “dia a dia” abaixo da marca? Enquanto desenhava, escrevi algumas notinhas sobre o Juva em janeiro de 2022. Foi muito triste de reler, mas a Paulina Chiziane me socorreu:

“Amar é também abrir a mão e deixar partir. Amar é ganhar e perder. É aceitar semear-se para germinar noutra encarnação.” (Paulina Chiziane, O alegre canto da perdiz, p. 77)

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2023. “Respirar, escrever, pontuar. E feliz dez anos do blog!”, Publicado em karinakuschnir.com, url: https://wp.me/p42zgF-41P. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Seis dicas para ouvir e transcrever textos falados — ou como depender menos dos olhos na vida acadêmica

Óculos de brinde para ler muito de perto (aquarela @kk)

“…os meros fatos oculares podem ser enganosos. Feche os olhos, meu amigo, em vez de arregalá-los. Utilize os olhos do cérebro, não do corpo. …o senhor faz deduções a partir de coisas que viu. Nada pode ser tão ilusório quanto a observação.” (Poirot, em Morte nas nuvens, Agatha Christie)

Taí um livrinho antigo que valeu demais reler, ou melhor, ouvir! Depois de duas cirurgias e sete encrencas nos olhos em 2023, aprendi a utilizar vários aplicativos e sites para driblar esse mundo retinocêntrico da vida acadêmica. Compartilho com vocês, contando um pouco do que me aconteceu.

Precisei fazer uma cirurgia de retina de emergência em abril, com direito a gás e cinta de silicone no olho esquerdo. Foram 45 dias de bruços para a recuperação. Sim, vocês leram certo. De bruços.

1. Natural Reader – https://www.naturalreaders.com/online/ – De longe a melhor descoberta de 2023! É um aplicativo, site e extensão para o Chrome que lê textos da internet ou de arquivos doc, pdf e epub. Tem versão gratuita ou paga. A diferença é na qualidade das vozes. Todas são boas, só que as plus ou premium soam mais naturais. Fiz uma assinatura, mas Antônio usa e adora a versão gratuita. Tem vozes em 20 línguas, com recurso de highlight, anotação, pronúncia, pular cabeçalho, ajustar velocidade, marcar página e tornar fotos legíveis.

O NR é o app mais utilizado do meu celular. Já ouvi milhares de textos com ele: relatórios, projetos, teses, artigos e meus amados livros inteiros. Já passam de cem em seis meses. Ouvi desde Agatha Christie e auto-ajuda até obras de Maya Angelou, Beatriz Nascimento, Yaa Gyasi, Zora Hurston, Franz Fanon, Grada Kilomba, Edward Said, Virginia Woolf, Carolina de Jesus e Saidiya Hartman. Escutei autores antigos e colegas com livros no prelo, artigos ou dissertações.

No início, achei que o NR viria apenas me socorrer em um momento difícil. Meses depois, não consigo me imaginar vivendo sem a voz literária que ele me traz. Nem tudo ouço em qualquer lugar. Uma reflexão densa como a de “Silenciando o passado”, de Michel-Rolph Trouillot, precisa de concentração. Já o manual de anti-autoajuda “Quatro mil semanas”, de Oliver Burkeman, posso ouvir limpando a caixa dos gatos, lavando louça ou esperando o metrô. Já autoras como Angelou, Nascimento e Kilomba escrevem tão bem que tornam qualquer situação especial.

Uma utilidade bem-vinda do NR é reavivar a memória de textos já lidos. Revisar os materiais de aula deixa de ser entediante. É assim que estou relendo Truques da Escrita e os artigos indicados nas disciplinas do semestre. Recorro ao app também para ler rapidamente textos de estudantes e fazer a última revisão nos meus próprios escritos. O som ajuda a detectar na hora errinhos de digitação ou repetição de palavras, por exemplo.

Paninho da ótica Vista Nova (aquarela @kk)

2. Outras formas de ouvir textos – As ferramentas de leitura de texto em voz alta estão em vários softwares, sites e gadgets. Por meio do menu “Acessibilidade”, o Google (Google Docs e família) lê textos no celular e no Chrome. O problema é configurar as muitas etapas e ainda separar a informação a ser lida. O Word (seção Revisão, opção “Ler em voz alta”) tem boas vozes e uma leitura agradável, mas converter tudo em .docx não seria prático nem viável! O mesmo com todos os apps da Adobe (a empresa mais chata do mundo). Alguns modelos de Kindle lêem os textos, assim como apps do sistema iOS. A plataforma Substack e jornais como New York Times têm opção de play. Há os audiolivros — gratuitos e ruins, ou caros e chatos, hahaha. Há outras extensões de leitura para navegadores, como Read Aloud. Testei várias e, na minha experiência, nenhuma é tão boa, simples e eficiente como a Natural Reader.

3. Transcrição de textos com Telegram – Basta mandar um audio para o usuário @transcriber.bot do Telegram que seu texto será transcrito. É gratuita e ainda faz pontuação sem você ter que ditar “ponto” e “vírgula”. Ao contrário dos microfones do Google, a transcrição do Telegram têm uma excelente formatação no português. Na versão grátis, minha experiência é de bons resultados com audios de até 20 minutos. Em alguns horários pode falhar, mas é só enviar novamente. Na versão Premium (paga) do aplicativo, há uma opção de transcrever ao lado de todos os áudios. Testei por um mês; é ótima e estável. (Aprendi essa dica com a Hannah. Obrigada, flor!)

4. Transcrição de textos com Transkriptor – https://app.transkriptor.com/signIn – Esse é um serviço online de gravação e transcrição de áudio profissional. Há amostras grátis e assinaturas de várias quantidades de tempo (a minha é a básica, de 300 minutos por mês). Eu nem precisava assinar, mas não resisti, tamanha a minha felicidade em ver a qualidade do texto. Pensei nas centenas de horas que gastei com transcrição das minhas entrevistas etnográficas; e as outras dezenas de gravações de diários de campo que me causaram tendinite no doutorado.

Para mim, o melhor uso desse tipo de serviço é poder transcrever os áudios de trabalho. Desde que comecei meus problemas oculares, passei a fazer a primeira versão dos meus textos gravando ideias no Whatsapp ou direto no app do celular. Também já fiz sessões de orientação gravadas com alunos. Depois, é só mandar transcrever tudo e, como num passe de mágica, temos 8, 10, até 15 páginas de rascunho digitadas. Economiza tempo, energia e muitas tensões corporais! (Agradeço essa dica à querida Marize, amiga do grupo de apoio que mantenho no Telegram chamado Abraço Acadêmico. É só nos procurar lá ou clicar aqui.)

5. Transcrição de textos em outros apps – Teclado do Google (celular), Google docs (no celular ou navegador), Word (opção “ditado do Office”) e vários outros softwares e aplicativos transcrevem textos falados. O problema deles, na minha opinião, é a má qualidade da pontuação e a pouca praticidade. Talvez o menos piorzinho seja o do teclado do Google. Nos telefones Samsung, ir nas configurações, procurar “teclado padrão” e mudar para “Gboard” (pois é, nomezinho ridículo). Nos outros celulares deve ter um caminho parecido. Acho que vale para textos rápidos, mas não supera o serviço gravação-transcrição.

Journalist Studio, da Google – https://journaliststudio.google.com/pinpoint/collections – Esse seviço também promete transcrever audios e muitas outras habilidades. Foi dica de uma aluna que ainda não testei.

6. Dica bônus – traduzindo PDFs inteiros – Sabe aquele PDF interessante que veio em uma língua que você não sabe ou está com preguiça de ler? Então, agora o Google Tradutor permite que a gente envie um documento inteiro e o receba de volta em português. Eles colocaram novas abas: “Imagens”, “Documentos” e “Sites” na página inicial https://translate.google.com.br/?hl=pt-BR. Basta arrastar ou fazer o upload do arquivo para ter o conteúdo traduzido na língua que quiser. Estou começando a usar e achando promissor. Já penso nos artigos a traduzir para as disciplinas da graduação sem gerar sofrimento.

É isso, pessoal. Um viva aos sons! Boas gravações e audições para vocês. Depois me contem o que acharam. ♥

Projeto “Como escrever um texto em 8 meses” — Desde o último post, escrevi 1368 palavras. Piorei em relação à média anterior. Meu maior feito foi abrir um arquivo de 900 páginas e conseguir ler as primeiras 100 (no NR, claro). Preciso reservar um dia na semana para esse projeto.

Sobre a citação de Agatha Christie: Frases de Poirot na página 77 do romance “Morte nas nuvens”, de Agatha Christie (edição da L&PM Pocket, tradução de Henrique Guerra.)

Sobre os desenhos: Linhas com canetinhas Pigma Micron de várias espessuras no caderninho Laloran. Cores feitas com aquarelas, lápis de cor e um pouquinho de guache. Ganhei os óculos vermelhos de brinde da ótica Vista Nova, no Jardim Botânico (Rio de Janeiro). Conseguir uma receita correta e lentes funcionais para os meus olhos pós-cirurgia foi uma saga de quatro meses. Minha primeira aquarela pós-alta foi justamente a que abre esse post, seguida da outra, com o lencinho da ótica. Achei significativo desenhar os objetos que foram me trazendo de volta ao mundo dos videntes.

Você acabou de ler “Seis dicas para ouvir e transcrever textos falados — ou como depender menos dos olhos na vida acadêmica”, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 

Como citar: Kuschnir, Karina. 2023. “Seis dicas para ouvir e transcrever textos falados — ou como depender menos dos olhos na vida acadêmica“, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-41A. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Laboratório de escrita – Fã ou Hater – Ideia para aula lúdica (6 – Parte 2)

Vamos à Parte 2 da aula lúdica que fiz para a disciplina de Laboratório de escrita. Materiais e dinâmicas propostas estão na Parte 1, assim como a análise das duas primeiras perguntas.

Aqui chegamos ao que mais me interessava: como os estudantes se sentem em relação à escrita e à leitura na faculdade de Ciências Sociais? (As respostas são anônimas.)

Pergunta Verde — Como foi sua experiência de escrita mais positiva durante a faculdade? E a mais negativa?

No lado positivo, salta aos olhos que os alunos amam escrever sobre temas que lhes interessam. O mesmo ocorre quando conseguem vencer desafios, tipo “escrever um texto de 10 páginas”, ou conectar autores como “Freud e Lélia Gonzalez”. É desses trabalhos de vulto que eles se orgulham, e ainda mais se tiverem um retorno positivo por parte dos professores. Outra alegria é quando descobrem fontes e métodos, como pesquisar na hemeroteca da Biblioteca Nacional pela primeira vez.

Em relação às experiências negativas, a turma se dividiu entre três queixas principais: a) dificuldade com prazos (a maioria!); b) desgosto com autores e temáticas; c) rejeição a formas acadêmicas, como provas, resumos, formatações complicadas, trabalhos em grupo. Confesso que me surpreendeu ler apenas duas respostas sobre desafios emocionais (depressão e insegurança). Talvez esse tema tenha sido encoberto pelo problema dos “prazos”, com frequência ligado à ansiedade e outros sentimentos difíceis.

Ou seja, profs queridas, para estimular escritas, precisamos dar espaço para eles explorarem escolhas e fontes, mas lembrando de desafiá-los com propostas ambiciosas. Para dar certo, isso tem que vir embalado com cronograma e apoio para redigirem em etapas, sem deixar tudo para o último dia.

Resumindo, é o básico que a gente também precisa, né? Eu pelo menos queria uma prof assim! 😉

Pergunta Laranja — Fã ou Hater — Qual a sua experiência de leitura mais positiva durante a faculdade? (De quais autores você é fã e por que?) E a mais negativa? (De quais autores você é “hater” e por que?)

Essa pergunta trouxe uma contra-estatística maravilhosa do mundinho “das humanas”. As autoras mais amadas são mulheres negras: Lélia Gonzalez, Bell Hooks, Conceição Evaristo, Patrícia Hill Collins, Grada Kilomba, Sueli Carneiro. (Já os mais citados homens foram Paulo Freire e Franz Fanon). Dá para sentir o motivo… As escritas preferidas têm “sensibilidade” para tratar de “problemas do cotidiano”, geram “identificação”, trazem “vivências” próximas e “representatividade”. Como escreveu uma aluna: “lendo Conceição Evaristo me sinto ouvida, contada, vista”.

Em termos de forma, os estudantes preferem “textos simples que conseguem tratar de problemas complexos”, como concluiu o time Laranja. Querem escrita fluida clara, leve, vívida, original, compreensível, coesa, direta, sistematizada, de fácil entendimento, “sem perder a profundidade teórica”.

Falando assim parece tão simples. Só que não é! Haja revisão.

E chegamos aos “haters”. Pierre Bourdieu ganhou de lavada a corrida dos mais detestados, ainda que tenha tido um fã. Foi seguido por outros como Hegel, Durkheim e Gilberto Freyre — este associado ao racismo.

A turma foi direta na descrição do que desgosta: autores pedantes que escrevem textos pretenciosos, rebuscados, enigmáticos, enrolados, truncados, pesados, artificiais. São difíceis de entender e, por isso, dificultam a concentração na leitura. Além do racismo, a literatura acadêmica foi relacionada ao “academicismo”, “descritivismo” e “formalismo”. Um estudante resumiu bem: não gosta de textos que ficam “dando voltas e não dizem o que querem dizer”. Errado não está, né?

Confesso que até tentei defender Bourdieu, mas lembrei da época dos meus estudos para o mestrado em que chamei um amigo francófilo para me ajudar a lê-lo. Era um artigo publicado no auge da sua fase rebuscada. Meu professor olhou praquilo e disse: “isso não está em francês não!” Se ele que dominava a língua não estava entendendo nada, que chance eu teria? Deixei pra lá e rezei. (Deu certo.) Anos depois descobri que havia outros “bourdieus” e, embora não seja fã, consegui entender suas ideias.

Voltando ao assunto: concordo com tudo que a turma diagnosticou! Por isso nossos livros-chave para o Laboratório de redação são “Truques da escrita” de Howard S. Becker, “Quarto de despejo”, de Carolina de Jesus e “Cartas a uma negra” de Françoise Ega. A explicação para esse trio fica para um próximo post!

Boas aulas, pessoas queridas!

PS: Qual o objetivo disso tudo? Ao longo do semestre, essa aula consolida os critérios dos próprios alunos para revisão dos textos deles mesmos. Na prática, eles se dão conta de que precisam revisar muito para atingir os seus ideais de escrever bem.

Projeto “Como escrever um texto em 8 meses” — Conforme prometi no Instagram, vou escrever sobre o processo de produzir um texto acadêmico que preciso entregar daqui a 8 meses. Tem que ser algo inédito e decente. Começo esse diário de escrita com meu problema inaugural: sobre o quê devo escrever? Sou eu que decido o tema. Já consultei filhos, colegas, estantes e ainda não sei. Resolvi seguir a máxima que o Ju tanto gostava: escrever para saber o que eu gostaria de escrever se estivesse escrevendo! (Foi mais ou menos o que disse Marguerite Duras, H. Becker, Anne Lamott e um monte de gente que escreve sobre escrita.) Vou tentar seguir a ideia de escrever 300 palavras por dia, conforme disse que fazia no post Escrita Diária. (Às vezes me pergunto quem era essa Karina de 2017?) Prometo que volto semana que vem para contar.

Sobre a proposta das aulas lúdicas: Esse post é continuação da Parte 1. Mais ideias de aulas lúdicas aqui.

Sobre a ilustração: Apenas inverti a ilustração do post Parte 1 (a explicação está lá). Aproveito para contar que era assim que Leonardo Da Vinci (1452-1519) escrevia em seus cadernos. Os alunos acharam que eu estava brincando, mas é verdade, como explica esse simpático blog.

Você acabou de ler “Laboratório de escrita – Fã ou Hater – Ideia para aula lúdica (6 – Parte 2)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 

Como citar: Kuschnir, Karina. 2023. “Laboratório de escrita – Fã ou Hater – Ideia para aula lúdica (6 – Parte 2)“, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-40VAcesso em [dd/mm/aaaa].


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Laboratório de escrita – Fã ou Hater – Ideia para aula lúdica (6 – Parte 1)

Para animar, resolvi adaptar uma antiga aula lúdica para começar bem o semestre com minha turma de Laboratório de redação. Como na aula “brincando de pesquisar”, o objetivo era conhecer os alunos. Dessa vez, porém, foquei nas suas experiências com leituras e escritas, antes e depois da faculdade.

Material necessário: Algumas folhas coloridas em quatro cores diferentes. Comprei um pacotinho de A4 na loja Caçula da Rua Buenos Aires, perto do IFCS. Algo parecido com esse aqui.

Dinâmica: Como foi feita a aula:

Avisos — As respostas são anônimas; não é para nota; não tem certo ou errado; conta como participação. Pedir que tentem ser bem específicos nas respostas.

Preparação — Pedir para alguns alunos ajudarem a cortar o papel A4 papel em 8 pedaços, até que todos da turma tenham um pedaço de papel de cada cor.

Quadro — Escrever as cores e as perguntas no quadro (ver abaixo).

Alunos — Pedi que os alunos respondessem nos pedaços de papel colorido. Cada papel recebe duas respostas: positivas + e negativas -. Alguns alunos responderam no mesmo lado; outros escreveram mais e utilizaram frente e verso. Não importa. Não é necessário copiar as perguntas.

Amarelo — Qual é a sua lembrança de escrita mais positiva antes de entrar na faculdade? E a mais negativa?

Rosa — Qual é a sua memória de leitura mais positiva antes de entrar na faculdade? E a mais negativa?

Verde — Como foi sua experiência de escrita mais positiva durante a faculdade? E a mais negativa?

Laranja — Qual a sua experiência de leitura mais positiva durante a faculdade? (De quais autores você é fã e por que?) E a mais negativa? (De quais autores você é “hater” e por que?)

Pote para depositar a resposta — Por conta de outras dinâmicas, tenho uma caixa preta com um buraco no meio que utilizei para ir coletando os papéis com as respostas.

Organização por cores e grupos —Todas as respostas coletadas foram misturadas na caixa. Em seguida, colocamos o monte de papéis no chão e separamos por cores. Dividimos a turma em quatro grupos e cada um ficou com uma cor. Eles acabaram chamando os grupos de “times”. Ficamos com aproximadamente 8 alunos por time/cor. Nesse momento é importante que eles movimentem as cadeiras para sentarem-se juntos de seus grupos.

Debate intra-grupos — Cada grupo leu todos os papéis da sua cor e fez uma análise qualitativa das respostas positivas e negativas. Depois, cada aluno do grupo escolheu uma resposta significativa da sua cor para ler em voz alta.

Exposição e debate com a turma — Organizamos as cadeiras em círculo para que a turma toda pudesse se escutar, mantendo os integrantes de cada time próximos uns dos outros. O resultado da análise de cada cor foi apresentado para a turma por um aluno escolhido pelo grupo, sendo essa explicação depois embasada com as leituras das respostas escolhidas para serem lidas. Seguimos a ordem dos grupos acima: amarelo, rosa, verde e laranja.

Análise das respostas

Time Amarelo — Minha lembrança mais positiva de escrita foi… Exemplos: “quando escrevi meu nome pela primeira vez na escola”; “quando escrevi meu nome ensinada por minha irmã”; “quando fiquei entre os melhores em um concurso de redação”; “quando escrevia crônicas em um projeto extracurricular”; “quando fiquei fascinada pela caligrafia da professora”; “minha primeira carta ao Papai Noel”; “quando aprendi inglês com minha mãe”; “quando escrevi meu primeiro poema de amor”; “quando escrevia cartas para meus primos”; “quando me sentia livre para escrever em meu diário”; e “quando utilizava materiais novos comprados pela minha mãe”… A mais engraçada foi “a primeira palavra que escrevi foi OVO”. 😀 Uma resposta comovente dizia que “na turma de alfabetização, quando todos liam as sílabas em conjunto, sentia um sentimento de comunhão”.

Foi emocionante ter acesso às memórias afetivas relacionadas a escrever, revitalizando a ideia de que essa já foi uma prática prazerosa para eles.

Se as lembranças positivas são diversas e específicas, as negativas relacionam-se a experiências de avaliações ruins. Ser julgado traz medo e insegurança: notas baixas ou “vermelhas”, letras “feias”, erros bobos, falhas de ortografia, comparação com colegas, desespero na redação do Enem, pressão dos pais.

Time Rosa — As memórias de leituras positivas antes de entrar na faculdade trouxeram autores como Machado de Assis, Drummond, Érico Veríssimo, Guimarães Rosa, Lygia Fagundes Telles, Jorge Amado, Carolina de Jesus, Fernando Pessoa, Victor Hugo, Salinger, Saramago… Os alunos mencionaram romances, suspenses, biografias, clássicos, escritas feministas ou Lgbt, quadrinhos, ficção mágica, não-ficcção histórica, poesia. A resposta mais aplaudida foi: “Ler meu nome na lista de aprovados de um exame”. E uma das mais tocantes foi a da estudante que lembrou do pai lhe ensinando o poema “E agora José?” de Carlos Drummond de Andrade.

As leituras mais lembradas como negativas eram livros específicos (tipo, não gostei de “O mago”) e aquelas feitas por obrigação, como manuais, livros famosos (tipo “O pequeno príncipe”) ou clássicos indicados pela escola. Foi interessante um estudante que mencionou ter odiado Machado de Assis no ensino fundamental e, do outro lado do papel, escrever que depois este se tornou seu escritor preferido. Como na pergunta anterior, aqui também apareceu o trauma gerado por métodos de disciplina rígidos e ríspidos.

(Tá muito grande, então, continua na Parte 2! Spoiler: a análise do time laranja foi a mais importante, por isso o post se chama Fã ou Hater)

Sobre a proposta das aulas lúdicas: Dizem por aí que toda antropóloga é uma fofoqueira profissional. Assumo o título! Já escrevi que virei fotógrafa, jornalista, pesquisadora, professora e desenhista porque gosto de gente. Amo detalhes, nomes, histórias, gostos e desgostos. Além do mais, como professora, tenho um semestre pela frente, com o desafio de sair viva no final. Espero contagiar meus alunos nessa disciplina, já que são eles os professores do futuro. Mais ideias de aulas lúdicas aqui.

Sobre a ilustração: Fotografei quatro pedacinhos do exercício com o celular e editei no Photoshop para ficar neste formato. O scanner não conseguiu pegar as cores fosforecentes dos papéis. Então utilizei o app CamScanner para capturar as imagens. Dá para utilizar na versão gratuita e é útil para transformar qualquer pedaço de papel em documento legível. Inclusive transforma foto em texto.

Você acabou de ler “Laboratório de escrita – Fã ou Hater – Ideia para aula lúdica (6 – Parte 1)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 

Como citar: Kuschnir, Karina. 2023. “Laboratório de escrita – Fã ou Hater – Ideia para aula lúdica (6 – Parte 1)“, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-40h. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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O precioso relato de Harriet Ann Jacobs (1813-1897)

O inverno passou de maneira agradável enquanto eu me ocupava com minhas agulhas, e meus filhos, com os livros deles. (Harriet Ann Jacobs, Incidentes na vida de uma menina escrava, p. 199)

A felicidade profunda e singela de mãe é emocionante na leitura dessas memórias de uma sobrevivente de décadas de maus-tratos, torturas, estupros e tenebrosa vida escondida ou em fuga. Harriet Ann Jacobs não perde o encanto pelas crianças, não apenas seus próprios filhos, John e Louise (no livro chamados de Benjamin e Ellen), mas pelos bebês e pequenos que encontra ou cuida. Esse trecho, dos anos 1850, se passa num breve período de tranquilidade, ainda com várias intempéries por vir.

Longe de mim defender qualquer coisa que a aproxime do mito do amor materno. Mil vezes não. (Elizabeth Batinder e muitas mulheres incríveis já nos mostraram que isso não existe.)

O amor que vejo em Harriet é dela mesma, mulher negra, escravizada ilegalmente (ou legalmente, que diferença faz?) nos Estados Unidos desde o seu nascimento, em 1813, por cerca de 30 anos. Ainda sobre a reunião do trio em proteção, ela escreve:

(…) pela primeira vez em muitos anos, tinha meus dois filhos comigo. Eles aproveitaram muito o reencontro e deram risadas e conversaram com alegria. Eu os observei com o coração transbordando. Cada movimento deles me deliciava. (…) Parecia que uma enorme pedra fora retirada de cima de meu peito. Acomodada num bom quarto com a pequenina por quem era responsável, deitei a cabeça no travesseiro com a deliciosa consciência da liberdade pura e legítima. (p. 199-200)

A persistência do amor numa trajetória que tinha tudo para ser amarga me comoveu. Não é um romance, eu me beliscava para acreditar. Foi uma experiência vivida, com dimensões de sofrimento e luta política proeminentes.

Harriet foi criada por uma avó que se destacava na localidade onde moravam, única responsável por alguns anos de infância feliz e relativa proteção. Aprendeu a ler e escrever na casa de seus escravizadores, ilustrando-se mais tarde com leituras religiosas e abolicionistas.

Cedo entendeu “as dificuldades de ser menina”. Foi alvo do pai de sua “proprietária”, um médico branco, dito “doutor”, cujas práticas de estupro, assassinato e tortura eram rotineiras. Por múltiplas estratégias, Harriet consegue gerar e ver nascer dois filhos com outro homem.

Anos mais tarde, relembrando esse período, ela rezava para que ambos não conhecessem o “peso da corrente da escravidão”, mesmo que os “elos fossem de ouro”. Reflete que preferiria ver seus filhos mortos a subjugados ao doutor que “adorava dinheiro, mas adorava ainda mais o poder” (p. 91-2). Ela escreve: “Dê-me a liberdade ou a morte” (p. 113).

Com o auxílio de amigos, consegue se refugiar na casa da avó, para onde também vão seus filhos, num estratagema de seu suposto “dono” para atraí-la de volta. Ao vê-los, por um minúsculo buraquinho de seu esconderijo, ela narra:

“A alegria na casa da minha avó foi enorme! (…) A nuvem mais escura que pairava sobre minha vida tinha ido embora. Fosse lá o que a escravidão fizesse comigo, ela não poderia acorrentar meus filhos. Se eu precisasse ser sacrificada, meus pequenos estariam salvos. (…) É sempre melhor confiar do que duvidar. (…) Tive minha temporada de alegria e gratidão. Era a primeira vez, desde a infância, que experimentava uma alegria verdadeira.” (p. 122-123)

Tudo isso é escrito com a consciência das perversidades da escravidão e o desgosto pela injustiça de que eram vítimas os negros, tanto ao sul quanto ao norte dos EUA. Após sete anos escondida, Harriet chega a Nova York mas não está a salvo: “O doce e o amargo se misturavam na xícara da minha vida”, ela comenta comparando a dureza de sua luta com a doçura do bebê de quem cuidava: “Quando dava risadinhas e gritinhos, e punha os bracinhos macios ao redor do meu pescoço, eu lembrava do tempo em que Benny e Ellen eram bebês e meu coração ferido se acalmava.” (p. 187).

Anos se passam sem que ela esteja em segurança: “É muito triste ter medo do próprio país” (p. 203). Mesmo em NY, era sujeita às leis da escravidão, com receio constante de ser levada de volta ao sul nos anos 1850:

“Que  desgraça  para  uma  cidade  que  se  classificava  como  livre,  que habitantes inocentes de qualquer ofensa e buscando desempenhar suas obrigações com consciência fossem condenados a viver com esse medo incessante e não ter nenhum abrigo para onde se voltar em busca de proteção!” (p. 209)

Harriet sofria também por não poder participar dos ritos religiosos: “Lá estava eu, naquela cidade grande, inocente de qualquer crime, mas ainda assim sem ousar adorar Deus em qualquer igreja. (…) uma americana oprimida que não ousava dar as caras.” (p. 217)

Quando, finalmente livre, pela ajuda de amigos e não pela conquista plena de seus direitos, Harriet desabafa:

“Quanto mais minha mente tinha se esclarecido, mais difícil era me considerar artigo de propriedade; pagar dinheiro àqueles que haviam me oprimido com tanta angústia parecia tirar do meu sofrimento a glória do triunfo. (…)

Então eu estava  vendida, finalmente! Um ser humano sendo  vendido  na cidade livre de Nova York! O recibo de venda  está  registrado,  e  futuras  gerações  vão  aprender  com  ele  que mulheres eram artigo de tráfico em Nova York no final do século da religião cristã. (…)

Leitores,  minha  história  termina  com  liberdade;  não  da  maneira costumeira, com felizes para sempre. Meus filhos e eu agora somos livres. (…) [Mas] o sonho da minha vida está por se realizar. Ainda não estou com meus filhos numa casa própria, continuo sonhando com um lar que seja meu, mesmo que bem humilde. (…)

Foi doloroso, em muitos aspectos, recordar os anos terríveis que passei no cativeiro. Se pudesse, eu os esqueceria com prazer. No entanto, a retrospectiva não vem totalmente sem alívio, porque com aquelas memórias sombrias chegam lembranças ternas da minha boa avó idosa, como luz, nuvens felpudas flutuando sobre um mar escuro e agitado.” (p. 219-221)

Deixo aqui minha homenagem a essa mulher admirável, Harriet Ann Jacobs (1813-1897). Nós que a lemos no Brasil de 2023 ainda temos muito a aprender com seu precioso relato. Muito obrigada, Harriet.

Como diz Jarid Arraes no posfácio da edição da Todavia: “O fim da escravidão não foi o fim do racismo. Não foi o fim da pobreza, (…) da exclusão, do pensamento supremacista. (…) E, para os que se desconfortam nas cadeiras pensando ‘quantas vezes ainda temos que falar sobre isso’, minha resposta é: todas elas”. (trecho destacado pela editora)

Sobre o livro: Incidentes na vida de uma menina escrava, Escrito por ela mesma. Harriet Ann Jacobs (Linda Brent, pseudônimo). (Todavia, 2019, tradução de Ana Ban; pósfácio de Jarrid Arraes; capa de Oga Mendonça).

Sobre a ilustração: Desenho sobre a única foto reconhecida de Harriet Ann Jacobs, disponível na Wikipedia sobre selo creative commons (restaurada por Adam Cuerden; publicada originalmente no Journal of the Civil War Era). Arte com canetinha japonesa Gelly Roll branca 0.5, da Sakura (trazida por minha prima que vive nos EUA) sobre foto impressa em papel comum na impressora de casa. A ideia de decorar a foto veio da ilustradora Lisa Congdon. Quis homenagear Harriet com sua própria imagem e tentei desenhar algo parecido com as rendas utilizadas no vestido dela e em golas do século XIX.

Você acabou de ler “O precioso relato de Harriet Ann Jacobs (1813-1897)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 

Como citar: Kuschnir, Karina. 2023. “O precioso relato de Harriet Ann Jacobs (1813-1897)“, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3ZS. Acesso em [dd/mm/aaaa].